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Dedé, o eleitor de Collor que nunca mais acreditou na velha mídia

Dedé é apelido de um velho conhecido meu que beira os 70 anos. Poupo seu nome porque hoje ele é advogado e tem clientes anti-petistas. A história de Dedé como eleitor traz como divisor de águas o ano de 1989, então a primeira eleição presidencial após a ditadura 1964-1985. 

 

Desde o primeiro turno daquelas eleições, Dedé encantara-se com Fernando Collor, alçado pela revista Veja como o "caçador de marajás" - um grande achado para a oligarquia midiática que, assim, teria a chance de, mais uma vez, derrubar os "perigos" representados pelos candidatos trabalhistas como Lula e Brizola. A Globo, claro, tornou-se um braço eleitoral de Collor muito mais poderoso que as inserções do PRN (partido de Collor) no horário eleitoral. Mas vamos à história de Dedé...

 

Na época, Dedé morava de aluguel numa casa com sua esposa e três filhos ainda crianças. Estamos em meados de outubro de 1989. Muitos conhecidos de Dedé (entre os quais me incluo) o alertavam para a farsa que representava Collor. Mas Dedé estava muito mais preocupado com uma eventual vitória de Lula. Pois corria o boato de que Lula, caso fosse eleito, confiscaria a poupança e incentivaria a invasão de propriedades privadas. Tal boato incomodava Dedé principalmente porque ele estava prestes a ter uma casa própria, que compraria de uma tia dele (bem idosa na época) que possuía outros imóveis. Dedé precisava da casa e a tia dele precisava do dinheiro à vista. E todas as economias de Dedé para comprar a casa estavam na caderneta de poupança, mas ainda não era suficiente para pagar o preço que a tia cobrava. Dedé calculou que até meados de 1990 já teria dinheiro para comprar a casa. Naquela época Dedé tinha uma lanchonete e começava a dar seus primeiros passos como advogado (formara-se em Direito com pouco mais de 40 anos de idade).

 

Voltando às eleições de 1989, chegaram ao segundo turno Collor e Lula. Como sempre, os ânimos se exaltaram e a mídia começou a turbinar o sentimento anti-PT. Numa festinha de aniversário, conversei com Dedé sobre as eleições. Daí ouvi de Dedé o velho discurso contra o comunismo; contra Lula; contra a baderna que se instalaria num eventual governo petista. Não tinha jeito. A “verdade”, na visão de Dedé e os eleitores de Collor, estava com a mídia. “Você viu o programa Ferreira Neto? Lula vai confiscar a poupança mesmo” – comentou Dedé, selando qualquer possibilidade de mudar seu voto. Dedé se referia ao “Programa Ferreira Neto”, na antiga TV Record. No tal programa, Collor disse ao entrevistador, Ferreira Neto, que Lula planejava confiscar a poupança dos brasileiros caso fosse eleito. Mais tarde, passadas as eleições, lembro de ter lindo num canto de página de jornal que, ao longo da entrevista, Ferreira Neto passava para Collor, por baixo da mesa, algumas “colinhas”, ou, torpedinhos sugerindo o que o candidato deveria falar. E que a idéia de falar do confisco da poupança partira do entrevistador num daqueles torpedinhos.

 

Bom, Collor ganhou as eleições e assumiu a Presidência em 15 de março de 1990. No dia seguinte, o governo baixou uma Medida Provisória que bloqueava não só a poupança, mas também todas as aplicações financeiras. Em meio aos estragos da medida, o único consolo de quem combatera Collor na campanha foi ver os apresentadores de TV (que até então celebravam Collor) revoltados com a violência da MP. Após o confisco, conversei com vários conhecidos (que votaram em Collor) que se mostravam arrependidos. O mais revoltado deles revelou que estava com dinheiro pronto para ser investido na montagem de uma loja. Ele e o sócio tiveram o dinheiro bloqueado. E Dedé?

 

Não encontrei com Dedé nos dias que se sucederam após o malfadado confisco da poupança. Mas um conhecido meu (que votara em Lula) que visitou Dedé relatou um encontro não muito amigável. Ao encontrar Dedé na casa dele, o conhecido já foi dizendo em tom de galhofa: “E aí? Ainda é Collor?”. Dedé soltou um sonoro palavrão – “vai pra pqp você e aquele fdp” - e praticamente expulsou o visitante. A esposa do Dedé, conduzindo o visitante até a porta de saída, contou que o arrependido estava com diarréia havia uma semana de tão nervoso que ficou com o confisco. O negócio da compra da casa gorou. A partir daquele momento, Dedé passou a enxergar o que era a mídia; o que significava o poder de uma oligarquia poderosa que decidia quem deveria ser eleito.

 

Desde aquele fatídico confisco de poupança, Dedé transformou-se num crítico feroz da mídia. Hoje ele tem consciência de que Collor era o menos culpado de tudo o que aconteceu, já que era mero produto do verdadeiro ‘Poder’ que mente, manipula, corrompe e reprime. Dedé não vota em candidato apoiado pela velha mídia. Mas quantos eleitores brasileiros aprenderam como ele?

 

Fontes:

Vídeo com trecho de Collor sendo entrevistado por Ferreira Neto (não consta a parte em que Collor diz que Lula iria confiscar a poupança). Interessante notar como a fala de Collor sobre a "ameaça do caos e baderna", em caso da vitória de Lula, ainda é explorada por adversários do PT.

https://www.youtube.com/watch?v=zswNJtnHeN0

Matéria confirma o que Collor disse no Programa Ferreira Neto: "Lula planeja confiscar a poupança".

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-63512006000100003&scr...

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Respostas a este tópico

É interessante como essa historia se repete e como a mídia podre ainda continua fazendo estrago na vida das pessoas desinformadas que ainda dão credibilidade a todo esse lixo. Daí a urgência do marco regulatório da imprensa, não podemos conviver mais com essa situação com o PIG dando as cartas, dizendo ao povo quem deve ser eleito ou não. Marco regulatório já!!

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