Como tudo, a eletrificação rural, para alguns uma dádiva, tem seu lado negro. Não são tantos anos assim, eu sei, mas, com ela presenciei as mudanças no comportamento das pessoas lá no extremo sul do Brasil.
Eu era um sujeito urbano e, por opção, inventara atividades que me obrigavam a viajar pra longe. Na época, comprava cavalos. Mas, a verdade é que me sentia muito melhor naquelas paragens.
Gostava da quietude quando desligava o motor do caminhão, apeava na beira de um arroio só pra jogar pedrinhas e ver o redemoinho serenar. Fazia xixi usufruindo da atmosfera de paz e o silêncio. Gostava e ainda gosto do silêncio.
Parava num boliche de beira de estrada. Perguntava alguma bobagem pra quem estava tomando uma ‘branca’ e discutindo o preço da lã sem perguntar as horas.
Naquele então, quem mandava na vida era a luz do dia. No silêncio, todos tinham um relógio interno mostrando duas horas espaçadas para definir suas tarefas: quando o sol nascia e quando morria. Assim, nas estâncias, se aprendia a cadência dos afazeres do trabalho na amplidão dos campos.
Sol nascendo e sol morrendo.
Mesmo moído da viagem de carro, dois mil quilômetros depois, era um sonho acordar na Estância São Francisco do Lito Sarmento. Época com ‘Seu’ Belisário ainda por lá.
Grudado no escritório, um quarto com duas camas de ferro. O colchão bem duro pra ajeitar os ossos no lugar, com a mola por baixo, encaixavam na gente esquentando no inverno.
Teto de forro baixo de madeira, uma janela, parapeito na parede larga que dava pras mangueiras. Por um buraquinho já velho conhecido na taboa da janela, uma nesga de sol vermelho me alcançava o rosto. Me esquentando a cara. Me despertava de mim mesmo sonhando que acordava.
Pelo ouvido, lá longe, chegava o alvoroço dos Joãos-de-Barro, o som de casco de matungo alivianando, rosc-rosc na boca do redomão recém enfrenado. Era música.
Quando, quatro da matina, no verão, saía pelo pátio no escuro e entrava na primeira porta a esquerda. Conhecia cada peão e o calor do fogo crepitando, ouvia.
- Dia, Seo!
Sorvo de mate, ruído das esporas no chão, pata de cusco se coçando. Mais música.
Um dia, na Estância, chegou a televisão.
Treze polegadas, plástico branco, detalhes em verde alface. À bateria. A antena um arame saindo pela janela.
Nos ombros os palas mais grossos e o fogo estalando. De repente, sem feição e prosa, sumiam e apareciam na noite de Bagé ao sul do Brasil, a seleção de voley e ‘os jornada nas estrelas’. O frio, e o tamanho da imagem nos embolavam, esquentavam, a peonada o Manoel Luís e eu.
Esquecer como?
Depois disso, tudo mudou no cotidiano das estâncias. Pelos ares, a televisão invadia as vidas.
Num instantinho a cozinheira preferiu ver a novela, e o sabor do jantar desandou até mudar a janta de horário.
Numa fazenda vizinha, o capataz reclamou.
-A patroa só entra na cama quando já fui dormir faz horas! E se eu procurar outra zinha no povo, ela embrabece !!
Distraídos pela televisão todos passaram a dormir mais tarde. Os horários de trabalho foram drasticamente alterados. Deitar tarde, dormir pouco para sair, dia seguinte, sair pro campo antes do sol, era humanamente impossível.
Horários, hábitos e cultura.
Em pouco tempo, a luz elétrica, as comodidades que vinham com ela, e mais especificamente a televisão, suas atrações de entretenimento e consumo, passaram a atrair as populações rurais para as vilas.
Quem chamava a todos, era o ócio e a vida boba e previsível das personagens nas modernas telenovelas.
As rádionovelas já haviam feito muito sucesso.
Os melodramas faziam companhia as donas de casa e suas ajudantes. Enquanto faziam limpeza, a comida, cuidavam dos filhos, as vozes nas histórias de amores impossíveis e os príncipes perambulavam fantasmagoricamente pelas casas de chão de taboas largas.
E, onipresentes, os patrocinadores e seus jingles ingênuos.
“As rosas desabrocham, com a luz do sol....e a beleza das mulheres, com o creme Rugol...”
O tempo passou, passamos de Rugol a L’oreal,
As criadas (termo carinhoso oriundo de “a menina criada por nós”) criadas no campo, quiseram trabalhar em casas de família da cidade.
Atraídas pela água quente das torneiras no inverno, as máquinas de lavar, o sabão em pó que milagrosamente limpava sozinho as escadarias para um mundo paradisíaco, lhes garantiam vidas de princesas.
E a peonada saia atrás de um rabo de saia nas vilas para voltar de carona só na segunda-feira.
Enquanto as pessoas viviam tranqüilas no Sul do Brasil, do outro lado do mundo, especificamente mais ao Norte do continente, os sábios do marketing refletiam. E descobriram que, assim como uma mulher prendia o homem pelo estômago, para atingir o homem dessa mulher e fazê-lo consumir, era necessário fazer com que ela mudasse seus hábitos. O ponto fraco do homem ainda eram as mulheres.
Os produtos que “deixam suas mãos mais bonitas, acabam com a sujeira mais difícil e fazem o trabalho por você!” são os mesmos. E, até hoje, a chegada de novos hábitos, principalmente os de consumo galopante, alteram uma cultura.
Quando se fala tanto em eco-sistema e sabemos que este sistema é (eco) abrangente, pois que inclui também o Sistema Social, aqui de Minas, sem nostalgia, me pergunto onde uma cultura ditada pela natureza precisaria moldar-se exclusivamente por hábitos urbanos de tal forma falsos?
(Viva melhor! Tenha mais tempo para gastar e não fazer nada distraída com suas amigas. Seja mais você, não sendo ninguém! Não seja você, seja aquela que já se perdeu, quando procurou ser quem não foi, é ou será! Mais uma, seja mais uma, minha amiga!)
Nos lugares distantes haveria a possibilidade de desenvolverem-se posturas inteligentes e visões críticas mais agudas sem a necessidade de fazer uma simples cópia de comportamento dos grandes centros?
Ou será que lugares como Bagé - e tantos outros no Sul e no Norte - precisam importar também os meninos e meninas de periferia que, influenciados pelo mesmo hábito de consumo ditado pela TV, depois de buscar sua ascensão social através do uso de um tênis colorido, perderam para todo e sempre sua própria identidade?
Estaria na hora de repensar estes valores? Afinal, o que aqui se come vem de lá e a pressa em produzir e lucrar mais faz, por exemplo, fazendeiros jogarem as vacinas de brucelose fora, japoneses untarem seus tomates com defensivos venenosos.
Sem resposta, vejo a Dona Menina, minha parceira vira-lata suja de carrapichos, deitada num canto.
- O que você acha D. Menina?
Ela, num primeiro momento, com esforço, abre os olhos amendoados para logo, desinteressada, baixar as orelhas peludas.
Novos olhos (e orelhas) precisam rever estas questões que são muitas e entrelaçadas, mas fundamentais nos dias de hoje.
Olhar pro passado, inclui farejar o futuro ainda criança.

Exibições: 71

Responder esta

Respostas a este tópico

Voce executou uma bela crônica, Alberto. Foi gostosa de ler, mas acho que esse passado descrito no texto jamais voltará. Mas repensar os valores culturais e até economicos, valorizar a cultura, o modo de viver e pensar regionalmente, enfim, desglobalizar os costumes para mim é algo que está na ordem do dia. Aliás, acho isso fundamental. Um abraço, Sérgio.
Então, Sergio.

O que poderia ser um texto mais sério e quase pomposo, virou isso que vc leu.

Imaginei que a descrição dos fatos pudesse alimentar melhor a imaginação dos parceiros de Portal e evidenciar as diferenças dos tempos. Expor a "cenoura ao coelho".

De qualquer forma, voltando ou não este tempo - e a quem ache que voltarão... piorados. Por exemplo, Henry Miller Jr. em "Um Cântico para Leibovitz", o Bradbury, os Asimov da vida - algumas lições não precisariam ser descartadas e desaprendidas.

(Em tempo, não sou fã de ficção científica, mas é que essa gente, sem medo de errar, projeta longe sua imaginação, escreve livre de pre-conceitos...)

Resumo, o texto só simboliza o medo do pior em nome do progresso tecnológico, e em detrimento da perda total de alguns valores éticos que, eventualmente, poderão ser fundamentais pra garantir a presença do Humano neste planetinha.

Desglobalizar urgente, sem nostalgia, mas usando bons exemplos, são eles que nos educam e re-educam... e re-educam... re-educam.

Abração

Beto
Este passado não volta.... numas!
A perspectiva presente é um beco sem saída, na certa.
Quando for colocada a tarefa de reconstruir o que merce ser reconstruído, é dessa saudade que beberemos.
Belíssima crônica. Parabéns e obrigado por nos fazer sonhar.
Taarde, irmão.

Já que a maioria de nós não tem mai$ nada pra dividir, dividamos os tais sonhos. Aliás eles tão na rapinha do tacho, né?

Assim que me acostumar com os meandros do portal, vou sonhando daqui. De olhos bem abertos, prometo.

Bração.

Beto
Nooite, seo. Muito bonita mesmo.
Eu sabia! Que grata surpresa. que delícia!
cheiro de café passado em coador de pano e guardado no boião!
esta nem vc sabia, hein?
Mas aí tem que lavar roupa na mão, com sabao em pedra, sem geladeira, etc, etc, etc... Será que você quer mesmo isso? Tô fora, sô... Até sonho com uma certa volta. De um tempo mais reflexivo, mais solidariedade, mais valores, mais tempo de argumento (menos "clipes" de pensamento). Mas nao precisa exagerar... E volta em algumas coisas, nao em outras. Nada de "retorno ao lar" para as mulheres, por ex.
Diaa Lúcida.

Juro que a questão que me ocorreu se resume ao aspecto consumista, e assim, anti-televisista. Cadum faz uso do seu tempo (que se nos estão sendo roubados, né?) da maneira que mais lhe aprouver.

"bons exemplos, são eles que nos educam, e re-educam... e re-educam... re-educam."

Abraço.

Beto
Senti o cheirinho daqui, rs.

Apurar o faro conhecendo a História!

Bom que gostou.

Beto
E vendo esta música, lembrei daqui:

Mas bá vivente
Não entendi de que pagos tu vens, se é de Bagé, menina é guria, vira-lata é guaipeca, mulheres são as prendas ou chinocas, e daí por diante!
Te define, oh criatura.

RSS

Publicidade

© 2020   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço