O reformismo é um termo político deveras genérico, que assumiu, ao longo do processo histórico, múltiplos significados e distintas colorações, determinados em grande medida pelo contexto político particular de cada tempo e lugar. Entretanto, isso não impediu que se lhe conservasse um núcleo coeso e estruturante, que expressa normalmente o seu significado político mais básico e essencial: a posição ideológica de reformar, melhorar ou aperfeiçoar a ordem capitalista e burguesa constituída, através de transformações moleculares, graduais e progressivas, tendo por base o sistema democrático e liberal.
O reformismo é comumente localizado no espectro político da esquerda. Em primeiro lugar, porque reconhece e critica o fato de que, por si só, a economia de mercado é incapaz e insuficiente para solucionar os problemas e sofrimentos que ela própria produz, por suas próprias contradições, tal como o desemprego estrutural, a tendência de rebaixamento dos salários, precarização e abuso na exploração do trabalho, a pobreza e o desamparo econômico e social de grandes massas, a irracionalidade da competição econômica sem planejamento e o imediatismo estreito no comportamento dos agentes econômicos privados, etc. Nesse sentido, o reformismo tende a recusar a idéia do livre jogo de mercado como instância reguladora suficiente da vida social como um todo. De outra parte, por conseqüência, o reformismo se posiciona, em diversos momentos, ao lado dos interesses e necessidades dos trabalhadores pobres e desempregados; Se compadecem de sua situação e sofrimentos, disputando por uma série de reformas e medidas que mitiguem os padecimentos dessa maior parte da população: pelo fortalecimento da legislação que ampara e protege o trabalhador e o pobre; pelas medidas de tributação progressiva e de redistribuição social da renda; pelo crescente fortalecimento da renda do trabalho; pelo acesso com qualidade cada vez maior aos serviços públicos sociais (como educação, saúde e previdência).
Essas, enfim, são as mais recorrentes características das múltiplas formas de reformismo. Mesmo considerando a aparência de maior factibilidade decorrente de muitas dessas pretensões, consideramos que, no que tange aos seus ideais mais elevados e distintos, o reformismo, na prática, deixou e deixa muito a desejar.
Para os fins dessas considerações, podemos distinguir o reformismo em dois tipos gerais distintos: suas manifestações mais modestas e amenas, e os seus tipos mais radicalizados. No grupo das formas mais radicais, podemos citar como exemplos o movimento dos socialistas utópicos, principalmente ao longo do séc. XIX, e o projeto da social-democracia européia pós-primeira guerra, até o último quarto do século passado.
Os primeiros foram críticos contundentes da sociedade moderna, propuseram inúmeras reformas e transformações que passavam pela coletivização da propriedade e do trabalho, a reforma profunda ou extinção da religião, a abolição da unidade familiar tradicional, com a criação e educação das crianças a cargo do Estado, o fim do dinheiro nas relações econômicas de troca, etc. A tática que adotaram para demonstrar a verdade de suas convicções e fazer a propaganda de seus sistemas foi a criação de pequenas comunidades-protótipo exemplares, no seio mesmo da sociedade criticada, como forma de convencer pela prática o conjunto da sociedade ao redor, principalmente sua classe de proprietários, ricos e governantes. A maior parte dessas comunidades assim criadas não sobreviveu por muito tempo, desintegradas pelos inúmeros conflitos internos decorrentes das contradições determinadas por sistemas formais e abstratos, assim como pela indiferença ou hostilidade dos burgueses ricos e poderosos. Durante dez anos de sua vida, todos os dias, ao meio-dia, Fourier ficou esperando incansavelmente em sua casa a visita de alguma pessoa rica, esclarecida e desprendida, que estivesse disposta a financiar o seu projeto de comunidade ideal, terminando com uma grande decepção.
Quanto àquele período da social-democracia européia, quando se processou a elaboração e se projetou a construção de um Estado de bem-estar social pleno (com pesada e progressiva tributação, intervenção do Estado em pontos estratégicos, conquista do pleno emprego, acesso universal, público e gratuito aos mais diversos tipos de serviços públicos, formas variadas de redistribuição da renda, etc.), que deveria ser conquistado por meio de vitórias cada vez mais expressivas e hegemônicas por via eleitoral, foram a configuração exemplar daquela imagem de reformas graduais, progressivas e democráticas que poderiam desembocar pacificamente, como um rio que de repente deságua no mar, na tão almejada sociedade socialista. No caso desse processo histórico, do mesmo modo que o fracasso das experiências revolucionárias socialistas (URSS, China, Cuba, etc.) servem de argumento para confrontar aqueles que defendem o método revolucionário, a construção apenas parcial dos Estados de bem-estar social em diversos países da Europa ocidental, as fortes crises econômicas que atravessaram no último quarto do século e o conseqüente progressivo desmanche que diversas dessas conquistas estão sofrendo (processo que está em pleno andamento, e o caso do que já foi feito na França e estava sendo proposto de ser feito até o início da atual crise econômica serve bem de exemplo), fornecem excelentes subsídios à contestação da concepção de conquista da sociedade socialista por meio de reformas, lentas, graduais e democráticas (no sentido formal-burguês).
Quanto às formas mais amenas e modestas de reformismo, se caracterizam sobretudo por aceitarem e pressuporem as estruturas e valores fundamentais que viabilizam e movem asociedade burguesa e capitalista, tal como a propriedade privada da produção, o liberalismo econômico (embora regrado e regulamentado), a democracia formal, a reprodução ampliada do valor, a universalização da forma mercadoria, etc. Sua meta geral é tão somente a de projetar e lutar pela implementação de medidas e reformas que mitiguem uma parte da pobreza, dos sofrimentos e das privações de pelo menos uma parte da classe dos trabalhadores pobres e desempregados, gerados pelo sistema. É esse reformismo humilde e modesto que se contenta e gosta de fazer alarde quando o PIB sobe aos 4%, quando ao menos uma parte dos pobres e miseráveis tem assegurada pelo governo uma renda de subsistência, de típica reprodução proletária de um imenso exército industrial de reserva, quando o desemprego estrutural cai de 8% para 7.7%, quando a renda do trabalhador sobe 2% acima da inflação, isso tudo e mais inúmeras outras formas secularizadas da compaixão e da caridade cristã, tudo isso, é claro, pelo menos até o próximo governo mais carniceiro, ou até a próxima grande crise, que seja mais contundente nesse nosso lado, em particular. Esse tipo de reformismo ou não compreende ou simplesmente fecha os olhos para a evidência lógica e histórica de que, sem derrubar com radicalidade os fundamentos da ordem social e econômica burguesa e capitalista, continuarão a existir, de um lado, uma pequena minoria concentradora de riqueza, poder e conhecimento, e do outro lado, a grande massa da população, pobre, impotente e ignorante.
Adendo: A todo aquele que acredita na possibilidade de construção do socialismo através dos mecanismos da democracia formal burguesa, movida e determinada pelo investimento do capital privado, pela sua máquina de publicidade e propaganda ideológica espalhada por toda sociedade, seria aconselhavel revisitar as nem tão antigas experiências chilena e espanhola, que ocasionaram Pinochet, a guerra civil e Franco, excelentes exemplos de como a burguesia organizada pode tratar certos casos de raridade.