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Dilermando Reis: no tempo em que se escrevia “majestade” com “G”

Dilermando nasceu em Guaratinguetá (Guará, como os nascidos lá gostam de dizer), interior de São Paulo, que fica mais ou menos na metade do caminho, na Via Dutra, para o Rio. Entre uma cidade e outra, preferiu ir para a capital; não a de seu estado natal, mas para a capital do Brasil.

Dilermando e o violão

O amigo Armênio Guedes deu-me um presente valoroso: o Dicionário Houaiss de Música Popular Brasileira, organizado por Ricardo Cravo Albin. É a quem recorro para saber que nasceu em 1916  e faleceu no segundo dia do ano de 1977. A curiosidade é a de que foi professor de violão do ex-presidente Juscelino Kubitschek. Curiosidade mesmo. Sabe-se que o criador de Brasília era um pé de valsa (meu pai, fotógrafo por profissão, sediado à época em Passos, MG, tirou uma foto de Juscelino dançando com uma moça, em São Sebastião do Paraíso), e tornou, pelo menos, uma música famosa: a canção folclórica Peixe Vivo. O JK brasileiro, pelo que parece, antecipou o JK americano em alguns anos quanto ao interesse “exacerbado” por pessoas do sexo feminino.

Voltando ao Dilermando, nesse momento ouço o disco Sua Magestade o Violão, isso mesmo, com “G”; era o nome de seu programa na Rádio Nacional do Rio, que passou a ser transmitido em 1956 e durou mais de dez anos. Era um virtuose. Mereceu uma homenagem em 1994 por outro não menos virtuose, o genial Raphael Rabello, em Relendo Dilermando Reis.

Em Sua Magestade o Violão (1957), Reis mescla peças eruditas compostas para o piano (e arranjadas para o violão) como o Noturno nº 2 (Chopin) e Clair de lune (Debussy), peças originais para o violão (Pavana, de Francisco Tárrega), Malagueña (Ernesto Lecuona), Índia (J. Asunción Flores e M. Ortiz Guerrero), e algumas composições brasileiras, sendo duas de sua autoria (Araguaia e Se Ela Perguntar). Se fosse escolher alguma desse disco, ficaria com a bela guarânia. Ouça:



Dilermando e JK
A história de que deu aulas de violão ao ex-presidente é bem conhecida. Quando procurava alguns dados, deparei-me com um texto ótimo de Nelson Rodrigues sobre um “acontecido” à época em que governava o Brasil. Transcrevo aqui.

Descalço com Kim Novak

Kim Novak e JK: descalços

Ninguém mais antipresidencial. Ele trouxe a gargalhada para a Presidência. Nenhum outro chefe de estado, no Brasil, teve essa capacidade de rir – e nos momentos mais inoportunos, menos indicados. Dir-se-ia que ele tinha sempre um riso no bolso, riso que ele puxava, escandalosamente, nas cerimônias mais enfáticas. Os outros presidentes têm sempre a rigidez de quem ouve o Hino Nacional. Cada qual se comporta como se fosse a estátua de si mesmo. Não Juscelino. Quando ele tirou os sapatos para Kim Novak (que achado genial! que piada miguelangesca!), ele foi o antipresidente, uma espécie de cafajeste dionisíaco. Eu diria que jamais alguém foi tão brasileiro. O novo Brasil é justamente isso: – um presidente que tira os sapatos para uma beleza mundial. (Nelson Rodrigues no jornal Brasil em Marcha, 10/2/1961)

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Respostas a este tópico

Oi Guen,

 

Muito bacana seu post sobre o Dilermando Reis. A bela guarânia que você colocou dá vontade de ouvir o disco todo. E a história do JK é muito divertida. Ele era ótimo.

 

Abraço

Gilberto

É possível se baixar o lp inteiro em www.loronix.blogspot.com. Vc não sabe a quantidade de coisas disponíveis para download nesse blogue. Aproveite.

que bom você por aqui, guen!

esta guarânia é linda demais e desse jeito que você nos apresenta, é divina.

uma sonoridade que nos leva ao céu! céu existe? ouvindo a música a gente tem certeza que sim!

(também amo a gal cantando e adoro nas vozes de cascatinha e inhana)

 

 

Aliás, o disco do Raphael tocando Dilermando é, realmente, muito bom.

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