Dilma e a EGI (Esquizofrenia da Grande Imprensa)

 

"Folha - Quais as diferenças entre as gestões Dilma e Lula?
Guido Mantega - Tem muito mais semelhanças que diferenças, porque é um governo de continuidade. É a mesma estratégia, mas aplicada a um momento diferente."

A primeira pergunta e sua resposta sintetizam a crença, os objetivos, a visão, o caminho, tanto da grande imprensa quanto do Governo Dilma e seus principais assessores. Nossa imprensa, marcantemente preconceituosa, que tudo fez e continuará fazendo para tirar o brilho e até mesmo a glória dos oito anos de Lula no poder, com transformações sociais (que influenciaram até mesmo a visão do brasileiro sobre si mesmo e as possibilidades do seu país) profundas, insistirá nesse dogma, que Dilma é "diferente" de Lula, e o engraçado nisso tudo, é que para que seu plano dê certo, precisam colocar Dilma como "melhor" do que Lula, mas não tanto ao ponto de torná-la imbatível em 2014.

Temos então uma "ESQUIZOFRENIA DA GRANDE IMPRENSA", o PIG contraiu essa nova enfermidade, a EGI, e tenta equilibrar esses paradoxos, Dilma diferente de Lula, não há continuidade, ela será melhor em alguns pontos, mas... incompetente em outros!

É engraçado que sua estratégia esteja dando certo, razoavelmente, não com a população ou mesmo a oposição, apática, fragilizada e recolhendo os cacos do que sobrou (quase nada...) de união no seu principal partido, o PSDB. Os mais apaixonados lulistas, são os mais decepcionados com Dilma, compram esse peixe mal-cheiroso das "diferenças", aceitam a - no mínimo prematura e inconsistente - idéia da "direitização" de Dilma, sua subserviência aos poderosos do mercado e da grande imprensa, enfim, uma sombra da "Dilma-companheira-do-Lula-desenvolvimentista-defensora-das-obras-sociais".

1 - É ainda cedo para julgarmos com profundidade o que tem sido, e muito menos, o que será o Governo Dilma.

2 - Sim, Nassif está carregado de razão no seu post em que diz que é uma bobagem acreditarmos num racha, em qualquer nível, entre Lula e Dilma.

3 - Ora, é óbvio que o Governo Dilma é de continuidade, MAS EXATAMENTE POR ESTAR LONGE DE SER UM POSTE, ela certamente (e, graças a Deus por isso!!!) terá idéias próprias, autonomia e liberdade de pensamentos, visões, sonhos e objetivos, para seu governo, para o país que essa brasileira danada (sim, a admiro, apesar do meu candidato ter sido Ciro Gomes) demonstrou amar, por uma história de vida que afirma e reafirma esse compromisso, permanentemente. Lula rarissimamente se comportou de forma tola, não consigo acreditar que não tenha tido razões sólidas para bancar Dilma, como sua sucessora.

4 - É normal... que Dilma esteja sendo prudente nesse início de governo. Ela não é exatamente uma "política de carreira", aposto mesmo, que jamais sonhou com a possibilidade de ser presidente do Brasil, que deve ter sido persuadida pelo próprio Lula, da sua capacidade para essa "missão" (creio que é assim que ela enxerga o exercício do mandato, uma missão, em prol dos brasileiros). Jamais iria "se queimar", com gestos estabanados, precipitados, que causassem algum mal-estar no país.

5 - É normal... que Dilma esteja AOS POUCOS, pegando os "macetes" do cargo, uma coisa certamente é observar (logo quem, um gênio político, uma excessão brilhante, como o Lula...) o jeito, as decisões do Lula, outra, muito mais séria, mais consequente, mais carregada de responsabilidades pessoais e intransferíveis, é o EXERCÍCIO DO CARGO EM SI, POR SUA PESSOA!

6 - É normal... que seus ferrenhos adversários façam exatamente o que estão fazendo. E lamentável, que críticas ácidas e "desilusões amargas" venham, tão precocemente, daqueles que  tão apaixonadamente defenderam sua candidatura, há tão pouco tempo.

O ex-presidente Colllor popularizou uma frase magnífica, que se aplica a quase tudo na vida: "O tempoé senhor da razão!".  Aguardemos, pois!

Talvez pela insenção de não ter na ex-ministra minha candidata ideal, mas considerá-la uma opção das melhores, eu não me engajo nessa onda de decepção com a presidente.

Continuo acreditando nessa que chamo, afetuosamente, de "mulher danada!" Acho-a sincera, determinada, leal a seus companheiros, desprovida daquele excesso de malícia que degenera tantos políticos. Acho-a inteligente, ótima gestora, e apaixonada por seu país. E acho, também, que sua equipe tem gente lúcida e capaz de assessorá-la nas decisões que tomará nesses quatro anos. Assim como, certamente terá no amigo e companheiro Lula, um conselheiro astuto, se for o caso de um dia precisar de seu auxílio.

Mas Dilma NÃO É LULA, NÃO É POSTE, NÃO TEM CARISMA ELEVADO, NEM A GENIALIDADE DA RAPIDEZ DE RACIOCÍNIO DO EX-PRESIDENTE.

Pensem em Dilma, como Dilma, e certamente poderemos prever sim, alguns sinais de como será o seu governo: gestão séria, atitudes pensadas e repensadas, continuidade e ampliação de todas as obras sociais do governo Lula, lealdade extrema ao amigo, seriedade, combate à corrupção, e atitudes conciliatórias, talvez ingênuas, com seus adversários.

A "EGA" contagiou, ironicamente, justo alguns petistas mais apaixonados.

Minha "não-candidata-ideal" é muito maior do que tudo isso, e fará um ótimo governo. O tempo será, como sempre, o senhor de todas as razões.

 

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Respostas a este tópico

Magnífica análise. Parabéns.
Obrigado, Wilson. Um abraço!

me incomoda muito, eduardo, a pressa de alguns "dilmistas" (já que os opositores precisam mesmo busca pelo em ovo) em julgar o governo que mal começa a se esboçar. cobram dela, com se ela fosse uma mera extensão do governo lula e, com isto, com tempo suficiente para ser julgada. mas, por outro lado, e paradoxalmente, exigem novidades de governança e julgam as novidades como se velhas fossem.

 

falta aos juízes um mínimo de calma, de paciência e cautela.

Concordamos em gênero, número e grau! - rs. - O lado bom, é que ninguém vai ficar triste, ao se "surpreender" com o ótimo governo que ela fará!. Bjo.

Colaborando com a discussao, acrescento um texto longo do Biscoito Fino, com o qual concordo em algumas coisas, e discordo de outras, mas que considero trazer bons argumentos para fundamentar posiçoes (link: http://www.idelberavelar.com/archives/2011/02/consenso_no_topo_dive...)

 

Consenso no topo, divergência na base: Os primeiros 60 dias de Dilma Rousseff (1ª parte) 

A perplexidade da direita e a indignação da esquerda é uma tradição dos começos de governo lulistas. É provável que muita gente não se lembre, mas quando Fernando Collor de Mello foi eleito presidente, ele prometeu um governo que deixaria “a direita indignada e a esquerda perplexa”. Como se sabe, a profecia fracassou, mas treze anos depois Lula a atualizaria com signo trocado: em 2003, a reforma da Previdência, a elevação do superávit primário de 3,75% para 4,25%, a manutenção das metas de inflação e do câmbio flutuante, assim como o privilégio à estabilidade macroeconômica deixariam a direita perplexa e a esquerda indignada. Em dezembro de 2003, atendendo o convite da saudosa revista argentina Punto de Vista, escrevi um balanço otimista do primeiro ano do governo Lula, a partir da noção de superação do populismo. Quem se lembra de quantas bordoadas o governo Lula levou pela esquerda naquele ano saberá como era difícil que um cabra de esquerda mantivesse aquela posição. No número seguinte da Punto de Vista, Norberto Ferrera, argentino radicado no Brasil e professor da Universidade Federal Fluminense, publicava uma resposta, em que falava de “vergonha alheia” pelo meu otimismo e aludia ao “péssimo político Gilberto Gil” e à “falta de efeitos práticos” do governo Lula. Deixo ao leitor a decisão sobre quem riu por último.

Relembro aquele episódio não para bater no peito e dizer que eu estava certo. Talvez eu estivesse certo mas era, com certeza, pelas razões erradas. Seis anos depois, já com a perspectiva de dois mandatos de Lula, André Singer escreveria aquela que ainda é a melhor análise do lulismo, mostrando como ele se apropria da bandeira da redução da desigualdade sem perturbação da ordem, o que seria a chave para a conquista da população de baixíssima renda, o subproletariado, que havia sido anti-Lula até um passado recente. Observando a votação das várias classes sociais nas eleições brasileiras desde 1989, Singer vê o ponto de inflexão em 2006, justamente quando setores da classe média abandonavam Lula, e os muito pobres, que em 1989 haviam seguido Collor por medo da desordem, abraçavam seu novo líder, favorecidos pelas políticas de valorização do salário mínimo, pelo Bolsa Família, e por programas como o Luz para Todos, mas movidos também pela empatia com o retirante nordestino que chegou à Presidência.

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O petismo pode ter representado uma superação do populismo, como eu dissera em 2003 (há um belo livro de Raul Pont, aliás, que recomendo a todos: Da crítica do populismo à construção do PT). Mas o lulismo, que foi quem efetivamente governou, é uma atualização do populismo, que combina o ganho econômico para os mais pobres, o sólido cuidado com os interesses do andar de cima, especialmente do capital financeiro, o papel do Estado na correção (moderada) das desigualdades, e o apreço pela ordem. É o que Cristóvão Feil resume num ótimo achado: lulismo de resultados. Dilma mantém tudo isso, mas o lulismo agora sobrevive sem um de seus pilares: a identificação dos mais pobres com seu nordestino retirante, nove-dedos e corintiano. Todos os assessores e colaboradores coincidem na avaliação de que Dilma é extremamente difícil de ser lida, mas alguns de seus movimentos iniciais têm a ver, acredito eu, com a sua percepção desse problema: como reinventar o lulismo sem Lula. Nós sequer temos uma tradição de presidentes concluindo mandatos e transmitindo o cargo a um(a) correligionário(a). Dilma tem a tarefa de suceder o maior mito político de nossa história moderna.

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O lulismo é uma coalizão heterogênea de classes e interesses. A afirmativa é até banal, de tão óbvia, mas é chave para entender estes primeiros 60 dias. Têm alguma representação na coalizão lulista o subproletariado e o capital financeiro; ruralistas e ambientalistas; o capital industrial e as centrais sindicais; oligarquias peemedebistas e setores trotskistas do PT. A administração dessa coalizão heterogênea, com Dilma, certamente terá um caráter diferente da que teve com Lula. A tecnocracia de esquerda, para usar a certeira expressão de Moysés Pinto Neto, não é simplesmente um traço da personalidade da Presidenta, mas uma estratégia real, que recoloca os problemas políticos—onde a expressão dos antagonismos de classe é inevitável—como questões técnicas e gerenciais. Ao contrário dos antagonismos políticos, as escolhas gerenciais colocam aos sujeitos a tarefa de escolher “a opção correta”. Quanto menos explícitos ficarem os antagonismos, mais traduzível fica a política na linguagem do gerenciamento.

As frentes amplas—como aquela formada em apoio a Dilma durante as eleições—são reconfortantes. Nos sentimos parte de um todo unitário. Há um inimigo comum. É uma ótima sensação: "somos todos companheiros!" Mas seria uma ingenuidade, na melhor das hipóteses, imaginar que essa unidade se manteria durante o governo. Daí o fato de que, seja qual for sua opinião sobre os primeiros 60 dias, qualquer tentativa de sufocar o debate com afirmativas sobre a necessidade de manter a “unidade” são daninhas e devem ser rechaçadas. Se, no topo, há um consenso—até a Revista Veja e Kátia Abreu reservam elogios para Dilma, sem que a esquerda do PT, por exemplo, sequer cogite romper com o governo—, na base há uma proliferação de avaliações diferentes, da perplexidade à indignação, da justificativa automática de qualquer ação da Presidenta a julgamentos peremptórios sobre a hegemonia neoliberal no governo. É normal que assim seja. Estamos todos tateando.

No caso da internet e da blogosfera, foi o feminismo o primeiro a ser acusado de “desagregador”, já logo na época da posse. Houve gente que se dispôs a “investigar” quem estaria “por trás” da crítica ao masculinismo da esquerda. Houve gente que comparou a crítica feminista ao masculinismo progressista no Brasil de hoje ao colapso dos republicanos espanhóis na Guerra Civil em 1937. Houve gente que viu, por trás da crítica feminista, os dedos de um misterioso e onipotente ex-assessor da Soninha. Mal sabiam os acusadores de então que seriam depois, também eles, acusados de romper a “unidade”, seja ao questionar ações do MinC, ou criticar a política do salário mínimo, ou questionar a ida da Presidenta à Folha de São Paulo, ou defender essa mesma visita (neste caso, aliás, eu entendo os que se indignaram e entendo os que a justificaram; só não entendo aqueles que, dos dois lados, se surpreenderam). A estas alturas, portanto, já não tem sentido pensar em agregadores ou desagregadores, posto que está mais ou menos óbvio que existe uma pluralidade de avaliações acerca dos primeiros 60 dias de Dilma—o que é muito positivo.

Esta é, portanto, a primeira tese: a pluralidade de avaliações dos primeiros passos do governo Dilma deve ser incentivada. A retórica da “necessidade de manter a unidade da blogosfera” é enganosa e serve interesses escusos. A conversa deve ser ampliada para incluir camaradas que optaram pelo apoio a Marina Silva, e que agora com certeza terão algo a dizer, por exemplo, sobre a construção da Usina Belo Monte. Ela deve incluir também forças da oposição de esquerda, como, digamos, Ivan Valente e Milton Temer, cuja exclusão do debate sobre os rumos do governo não interessa em absoluto ao petismo. Eles serão aliados, por exemplo, no debate sobre a reforma política. Está mais ou menos claro que haverá uma reconfiguração das forças políticas brasileiras nos próximos anos: quem, em sã consciência, um ano atrás, imaginaria Kassab no PSB ou Kátia Abreu na base dilmista?

A hegemonia sobre os rumos do governo não está dada de antemão. Vale a pena brigar por ela. Volto ao assunto num próximo post, tratando da reforma política e das comunicações.


 

Ótimo texto, AnaLu! Ontem mesmo, revendo o filme sobre o Lula, ri muito de uma cena, onde, discutindo com sindicalistas, o jovem Lula deixa transparecer sua irritação com a falta de pragmatismo de seus companheiros, muita erudição, muitas teorias, e DISTANCIAMENTO dos problemas dos trabalhadores! Acredito nisso, sabia, seja a cena, no filme (e há outras semelhantes...), ficção ou não. A vida toda, Lula jamais pregou a "ruptura", o esquerdismo radical, mas sempre, sempre mesmo, utilizava a palavra NEGOCIAÇÃO. Ora, negociar é uma tentativa através do diálogo (onde entra obviamente toda a energia com intuito persuasivo), de estabelecer um ACORDO, nunca uma ruptura! E foi assim, que Lula governou, seduzindo aqui e ali (arma de persuasão legítima), debatendo, recuando, atacando, etc. etc. Mas sempre PRAGMÁTICO, ciente de seus objetivos e disposto a lutar por cada um deles, talvez, se verdadeira a outra cena do filme, seguindo o conselho de dona Lindu: "Faça o que for possível, meu filho, quando não for, recua, tenha paciência, saiba esperar o melhor momento..."

 

Não dá, é para esperar da excelente Dilma, jamais, uma performance à altura de um brasileiro que foi e é único, sequer temos ainda a dimensão exata do mito que Lula se tornará. 

Bjo, AnaLu.

Nunca esperei a revoluçao desse governo, Eduardo. Mas gostaria que ele continuasse no rumo em que o segundo mandato de Lula estava indo. Nao estou muito entusiasmada. Mas espero ainda.

Espera com otimismo, AnaLu! - rsrsrs - lembra de quem é a Dilma! As pessoas, nessa fase de vida que ela se encontra, com o histórico que ela tem, não mudam muito não... (valores, crenças, etc...) Dilma fará ótimo governo, creio nisso, e será para mim uma surpresa enorme se ela se tornar uma decepção! Bjo.
Que os céus te ouçam...

eduardo,

e a blogosfera em polvorosa porque a presidenta foi (ousou ir) ao programa da (argh) ana maria braga?

tem gente que gosta, definitivamente, de colocar pelo em ovo e reclama do omelete!

 

 

Pois é... - rs - tá mais prá mal gosto que prá erro político... - rsrsrs. - agora sério, acho que ela tem que ir, porque sempre é uma oportunidade dela passar ao povo suas idéias, de um modo informal. Bjo.
Não entendi, Genilson. De qualquer forma, toda a participação é bemvinda! Abço.

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