Dilma Rousseff e a encruzilhada do desenvolvimentismo tecnocrata

Não sei se concordo com tudo, e até que ponto. Mas não há dúvida de que se trata de boa reflexão, e que vale a pena ler e pensar a respeito. Idelber quase sempre vale a pena ler...  

 

A passagem do governo Lula ao governo Dilma, supostamente de continuidade estrita, poderia ser resumida numa frase: naquele, havia três ministérios, o da Cultura, o da Natureza (Meio Ambiente) e o do Mercado (ou seja, todos os outros), enquanto que no governo Dilma restou este último, o Ministério do Mercado. A Cultura foi entregue à indústria do copyright e da propriedade intelectual e já não há, propriamente falando, um Ministério do Meio Ambiente capaz de se opor minimamente à sanha desenvolvimentista ancorada no barragismo e na expansão da fronteira agrícola. Estes processos–a intensificação da colonização da Amazônia e a interrupção da promoção de uma ética hacker do compartilhamento na cultura–poderiam sugerir que há uma ruptura radical entre o governo Lula e o governo Dilma. Não é o caso, e sugeri-lo seria falso com os fatos e injusto com a atual Presidenta. Mas o governo Dilma teve, nestes primeiros onze meses, o mérito e o demérito de tornar visível o que já era problemático no próprio governo Lula, e que permanecia relativamente encoberto sob o tremendo carisma, a notável inteligência política e os não desprezíveis sucessos de Lula na área social. Este texto trata dessa passagem, em que se conjugam a continuidade e a ruptura num momento crítico do capitalismo brasileiro.

O lulismo é o mais bem-sucedido pacto de classes da história do Brasil. Só Getúlio Vargas é comparável em ganhos reais para a classe trabalhadora sem ameaça substancial ao status quo das classes dominantes. O primeiro mandato de Lula foi marcado pelo ajuste fiscal, a ortodoxia monetária e a reforma da Previdência, que indispuseram o governo com sua base de esquerda e geraram a ruptura no PT que daria origem ao PSOL. Pouco a pouco, no entanto, a receita keynesiana se juntaria à ortodoxia monetarista e fortes investimentos em infraestrutura, expansão do crédito, programas de transferência de renda e aumento do poder de compra do salário mínimo–que teria um ganho real de 70% durante os dois mandatos de Lula–, acompanhados de iniciativas focalizadas (como o ProUni, que levou centenas de milhares de jovens pobres à universidade através de um programa de bolsas que transfere dinheiro público para o ensino privado), sentariam as bases da emergência de um "capitalismo popular", como o denominou Gilberto Maringoni. A sua característica central é a integração das classes populares ao universo do consumo com ganhos reais, combinada com a manutenção de uma muito mais brutal transferência de riqueza para os rentistas da dívida pública, através de altíssimas taxas de juros. A distribuição de renda entre os assalariados melhora, mas a participação do salário na renda nacional não se altera significativamente. Segundo dados do IPEA, essa participação alcançou um pico de 50% no final dos anos 50, chegou a 35,2% em 1995 e caiu paulatinamente durante o governo Fernando Henrique Cardoso, até o piso de 30,8% em 2004, recuperando-se de forma tímida sob Lula, para um patamar de 34% em 2010.

Quando se inicia a campanha eleitoral de 2010, o Brasil já havia retirado 29 milhões de pessoas da pobreza e Lula desfrutava de uma popularidade superior a 80%. A oposição, perdida entre dois discursos contraditórios—por um lado afirmar que o lulismo era uma mera continuação de Fernando Henrique, portanto desprovido de méritos próprios e, por outro, pintar o lulismo como responsável por corrupção e aparelhamento inéditos–, recorreu ao gorilismo e ao fundamentalismo religioso como estratégias desesperadas de campanha, incompatíveis até mesmo com a história de seu candidato. José Serra, afinal de contas, havia sido líder estudantil nos anos 60, fora ligado à Cepal nos anos 70 e, ao longo dos anos 80, vinculou-se à ala estatizante e desenvolvimentista do PMDB, não tendo qualquer histórico de aproximação com a extrema-direita e não sendo, ele mesmo, um homem de fé. A campanha, no entanto, foi de fanatismo religioso jamais visto nas eleições presidenciais brasileiras. A responsabilidade aqui cabe à coalizão liderada por José Serra, que tentou mobilizar, especialmente, o sentimento anti-aborto da maioria da população brasileira. Mas a coalizão liderada por Dilma Rousseff tampouco está isenta de culpa, na medida em que não politizou o debate e preferiu levar também sua candidata a uma peregrinação por igrejas, em vez de insistir no fato de que a única relevância do tema religioso numa eleição se limita à garantia de que o Estado manterá a liberdade de culto. Essa atitude terá o seu impacto no próprio governo iniciado em 01 de janeiro de 2011.

Dessa ofensiva religiosa desatada durante a campanha, as maiores vítimas durante o governo Dilma têm sido gays e lésbicas. Uma onda de ataques homofóbicos em todo o país, com espancamentos e mortes de gays, lésbicas, travestis e transsexuais, tem sido a tônica quase diária em 2011. O material didático anti-homofobia que seria adotado pelo governo federal nas escolas do país, depois de torpedeado pela bancada teocrata do Congresso, foi retirado de circulação pelo governo. Pior, a Presidenta deu uma lamentável entrevista em que afirmava que "o governo não permitirá propaganda de opção sexual", como se nesta matéria lidássemos com "opção", como se um material de conscientização acerca da homofobia fosse "propaganda" de orientação homossexual e como se, de qualquer forma, fazer propaganda de orientação sexual fosse possível ou efetivo. O Projeto de Lei 122, de autoria de Iara Bernardi, modificado por Fátima Cleide e relatado pelaSenadora Marta Suplicy (PT-SP), que tipifica o crime de discriminação por orientação sexual, tem sido bombardeado pela bancada teocrata com o argumento de que ele fere a "liberdade de culto", e é visível o descompromisso do governo com sua defesa. Uma série de iniciativas de governos petistas, como o estadual do Acre e o municipal de Betim (MG), tem incluído a construção de Parques Gospel ou Batismais com verbas públicas, em flagrante contradição com a Constituição Federal. O país vive hoje uma perigosa ofensiva teocrata, em meio à qual não só gays e lésbicas, mas também os membros das religiões afro-brasileiras têm sido vítimas de constantes ataques físicos, morais e imobiliários das forças teocratas.

Talvez os dois mais significativos retrocessos de início de governo tenham se dado nas áreas de segurança pública e cultura. Naquela, a ruptura aconteceu aos 21 dias, com a demissão do Secretário Nacional de Política sobre Drogas, Pedro Abramovay, que simplesmente defendeu, numa entrevista a O Globo, a mais sensata das propostas: a possibilidade de penas alternativas a pequenos traficantes não violentos, conjugadas com outras políticas de prevenção e tratamento para viciados. Basta ler a entrevista para ver que Abramovay não defendeu nada que se assemelhasse a um "liberou geral". O então Secretário, inclusive, enfatizou que, entre os extremos da "guerra contra as drogas" e a legalização, há um amplo leque de opções. Não foi cowboy o suficiente para o Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo que, com o apoio da Presidenta Dilma, decepou-o antes que ele completasse um mês no novo governo. Dali em diante, o Brasil só reforçou seu descompasso com outros países, como Portugal e Argentina, que têm experimentado políticas mais inclusivas e inteligentes, menos histéricas, proibicionistas e militarizadas para o problema das drogas. Não há horizonte de avanços nesta questão, e a visão escolhida pela Presidenta Dilma parece ser uma réplica da estratégia fracassada do Partido Democrata dos EUA na questão da segurança: tentar parecer mais cowboy, proibicionista e linha dura que a própria direita. É exatamente o que o Brasil, cuja população carcerária triplicou entre 1995 e 2010 e já é maior que capitais como Aracaju ou Cuiabá, não precisa.

No caso do Ministério da Cultura, a ruptura foi ainda mais visível e abrupta. Um dos traços inegáveis da gestão de Gilberto Gil e, depois, de Juca Ferreira, havia sido retirar a discussão acerca de qual conteúdo privilegiar–debate histórico da esquerda brasileira—e enfocar-se na criação de condições políticas, econômicas e jurídicas para a circulação de cultura produzida pelos próprios sujeitos populares, independente de seu conteúdo. O apoio ao modelo Creative Commons de compartilhamento e ao software livre, iniciativas como a Casa de Cultura de Digital e, muito especialmente, os Pontos de Cultura revolucionaram a relação entre Estado e cultura. O MinC Gil/Juca rompe com outro velho dogma da esquerda: trata a produção cultural em diálogo com as novas tecnologias, sem demonizá-las. Entende que não é possível pensar uma política cultural de esquerda sem uma compreensão renovada do papel do audiovisual, da internet, das novas técnicas de reprodutibilidade digital. Entende também que não é papel do Estado estabelecer distinções entre a cultura que seria autenticamente brasileira e aquela que não o seria. Nesse sentido, foi o primeiro ministério da cultura do país que incorporou as lições do tropicalismo. Além disso, o MinC Gil / Juca abandona de vez o dirigismo tradicional da esquerda e, ao invés de trabalhar com a ideia de "levar" cultura à sociedade, estabelece a concepção de que a cultura já está sendo produzida pelos sujeitos sociais. O que há que se fazer é criar teias, redes, possibilidades de circulação. O MinC Gil / Juca também questiona o terreno reservado à cultura como adorno beletrístico e passa a colocar em xeque os seus sustentáculos econômicos — daí o projeto de revisão da lei de direitos autorais, que se choca diretamente com os interesses do lobby das patentes e da propriedade intelectual. Com uma multiplicidade de fóruns, consultas públicas, congressos e encontros, o Ministério gera uma massa crítica que se sente cada vez mais incluída, cada vez mais agente do movimento vivo da política cultural.

Na transição para o governo Dilma, através de canais do próprio PT, se articulam os setores hegemônicos da cultura que haviam sido preteridos pela revolução Gil / Juca: membros da chamada "classe artística" (metonímia que designa, nestes debates, a indústria fono-cinematográfico-teatral do Rio de Janeiro e de São Paulo, descolocada por uma concepção nova, antropológica de cultura), apparatchiks da máquina burocrática do PT e a indústria do copyright e da propriedade intelectual, que teve seus interesses contrariados na gestão anterior. Esses setores convergem em torno do nome de Ana de Hollanda, cantora e compositora que, como figura pública, até então era inexpressiva. Houve articuladores de seu nome que contaram com isso para aceder depois ao cargo. Isso acabou não acontecendo (pelo menos até agora) e o MinC imediatamente se lançou à desmontagem do legado de Gil / Juca. O projeto de flexibilização dos direitos autorais, que havia passado por seis anos de debate no governo Lula, recebido mais de 7500 contribuições e sido tema de dezenas de reuniões e seminários em todo o país, foi abortado. A licença Creative Commons no site do Ministério, um gesto simbólico de profunda importância da gestão anterior, foi substituída pela marca do copyright. O ECAD, a malfadada agência arrecadadora de direitos autorais que atua com total impunidade e falta de transparência, exercendo poder draconiano sobre a execução de canções até em festas de aniversário e consultórios de dentista, passou a ter peso significativo no Ministério, e o objetivo de regulá-la, já encaminhado na gestão Gil / Juca, ficou cada vez mais longínquo. Um dos maiores especialistas em direitos autorais do Brasil, Marcos Souza, foi demitido da Diretoria de Direitos Intelectuais e substituído por uma advogada ligada ao lobby da propriedade intelectual, Marcia Barbosa. No Ministério da Cultura, o quadro é de espantoso HYPERLINK "http://www.revistaforum.com.br/conteudo/detalhe_noticia.php?codNoticia=9224"retrocesso.

Mas nenhuma área emblematiza tão dramaticamente o contraste entre o ideário original do PT e o plano do governo Dilma como o trato à Amazônia. É verdade que aqui há muito mais continuidade que nos outros dois exemplos. Pese à atuação de Marina Silva no Ministério do Meio Ambiente, entre 2003 e 2008, anos durante os quais se conseguiu uma redução significativa no desmatamento, já em 2005, com a chegada de Dilma Rousseff à Casa Civil, se consolidava no governo a concepção desenvolvimentista no trato com a Amazônia. É dessa data, e de responsabilidade de Dilma, a ressurreição do mais polêmico e devastador projeto da atualidade no Brasil, a usina hidrelétrica de Belo Monte, uma mega-barragem no Rio Xingu que foi inicialmente concebida em 1975, pela ditadura militar. Tomada como questão de honra pela Presidenta, que se recusa a ouvir indígenas, lavradores e ribeirinhos afetados, a obra foi inicialmente orçada em R$ 4,5 bilhões. Hoje, ela já se encontra oficialmente em R$ 26 bilhões, com estimativas de que não sairá por menos de R$ 32 bilhões, 80% dos quais é dinheiro público. A implantação do projeto tem sido marcada por irregularidades jurídicas, com dispensas de licitação legal, ausência de oitivas às populações indígenas afetadas, condicionantes ambientais não cumpridas, bizarras jaboticabas não existentes no marco regulatório (como a "licença parcial" e a "licença temporária) e intensas pressões sobre o Ibama, que levaram, inclusive, ao pedido de demissão de seu Presidente, Abelardo Bayma Azevedo, para a nomeação de um substituto mais dócil ao projeto, Curt Trennepohl.

Uma enorme bibliografia escrita por especialistas em energia, como Oswaldo Sevá, da UNICAMP, que estuda o projeto há 23 anos, Procuradores da República, como Felício Pontes Jr., do Ministério Público Federal no Pará, antropólogos do quilate de Eduardo Viveiros de Castro e jornalistas e lideranças populares da região já demonstrou que a grande beneficiária do projeto não é a população brasileira, mas a indústria do alumínio; que haverá extinção ou diminuição expressiva de espécies de peixes no Xingu, causando insegurança alimentar para os indígenas, ribeirinhos, extrativistas e trabalhadores rurais da região; que a majestosa Volta Grande vai secar; que os povos navegadores e pescadores da região terão suas vidas tragicamente afetadas. Todos os estudos demonstram que os Juruna, da Comunidade Paquiçamba, estavam corretos quando previram, dez anos atrás: "vamos ficar sem recursos de transporte, pois onde vivemos vamos ser prejudicados porque a água do Rio vai diminuir, como a caça, vai aumentar a praga de carapanã com a baixa do Rio, aumentando o número de malária, também a floresta vai sentir muito com o problema da seca e a mudança dos cursos dos rios e igarapés". Altamira já vive hoje uma situação caótica, de migração descontrolada e aumento significativo das taxas de criminalidade, incluindo-se abundante violência sexual contra crianças.

Sabendo-se que o atual paradigma de formação de superávit comercial às custas da expansão da fronteira agrícola é concentrador e, a medio prazo, insustentável e suicida, como articular a urgente mensagem ambiental num contexto em que o ufanismo do "Brasil potência" a torna particularmente impopular? Quem será capaz de articular pontes entre o ambientalismo e o combate à desigualdade social, de tal forma que a nova Classe C seja permeável à urgente mensagem de que fazer hidrelétricas e exportar soja até a água e o solo acabarem não é exatamente um bom plano? Como fazer o balanço de um momento histórico em que o PT parece ter perdido em definitivo o compromisso com os movimentos sociais mais independentes na defesa dos pobres, levando de roldão uma militância já convertida em apparatchiks em visível processo de fanatização? Como conter o assustador avanço teocrata se um governo supostamente de esquerda faz a ele todas as concessões possíveis? Como elaborar uma política de genuíno respeito e carinho pela Amazônia em meio a tantas violências cometidas contra ela, com a ação e/ou a cumplicidade do governo? Não seria este o momento ideal para se questionar a mitologia do "Brasil potência" que emerge e ouvir, por exemplo, a mensagem do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) em favor de um modelo de sociedade menos predatório, menos arrogante, menos grandioso mas, no fundo, mais feliz? Tenho a convicção de que sim, embora tenha também a suspeita de que não vai acontecer.

Do Blog do Avelar http://revistaforum.com.br/idelberavelar/2011/11/22/dilma-rousseff-... 

 

 

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Respostas a este tópico

Solo degradado ou não!

Usar as terras do mogiana e paulista (solo riquíssimo que produz até café!) para plantar cana e produzir alcool é crime de lesa-humanidade.

Todavia, não poucos petistas e socialistas aprovam a iniciativa do tal combustível renovável.

O debate sobre Belo Monte e nisso concordo, deve estar no "onde se usará a energia elétrica produzida"?

Se for para produzir bem de base, sujo, de baixo valor agregado para exportar! ..... pode parar!

Mas que o Brasil, como o mundo todo, precisam de energia, não há a menor dúvida e a hidroelétrica é a mais limpa, ou só perde para a eólica.

Contudo, esclareço que concordo com o texto em quase todos os pontos.

Mauro

 

Só um reparo, dependendo das condições as hidrelétricas não perdem para as eólicas, pois todos esquecem de benefícios secundários que uma hidrelétrica tem que pode ser agregado à geração de energia.

Só para exemplificar:

Primeiro: quando instalação de reservatórios de acumulação de grande porte, estes reservatórios servem para laminar ondas de cheia (distribuir o volume de uma cheia ao longo do tempo).

Segundo: quando se constrói uma série de reservatórios em cascata pode-se construir concomitante a isto uma hidrovia, que diminui o consumo de combustível fóssil no transporte de produtos.

Terceiro: o uso de vários reservatórios impedem o assoreamento dos rios, diminuindo as cheias, facilitando o transporte fluvial e melhorando a qualidde da água (conforme a operação dos reservatórios, se operado de forma errada pode piorar).

Sugiro que dê uma olhadinha em http://en.wikipedia.org/wiki/Tennessee_Valley_Authority, a experiência exitosa deste empreendimento, retirou parte da população norte-americana da miséria e isolamento (hoje os governos americanos estão fazendo tudo para que seu povo volte ao passado). 

30/11/2011
O canto do cisne
Do Escrivinhador - publicada quarta-feira, 30/11/2011 às 10:42 e atualizada quarta-feira, 30/11/2011 às 10:42
Por Izaías Almada
A vida já me concedeu, como imagino que a muitos dos leitores também, ser testemunha de alguns fatos políticos importantes no Brasil e no mundo. Testemunhei, por exemplo, como outros milhares de compatriotas, e ainda menino, parte da campanha “O Petróleo é Nosso”, o suicídio de Vargas e a comoção nacional de seu suicídio, o governo desenvolvimentista e ousado de Juscelino Kubitscheck, o golpe civil/militar de 1964 contra o governo legal de João Goulart, o AI-5, a luta armada da esquerda revolucionária contra a ditadura, da qual participei.
Li sobre a emblemática revolução cubana e de seus heroicos líderes Fidel e Che, sobre o final da guerra da Coreia, sobre a invasão norte americana do Vietnã em substituição aos franceses, sobre Mao Tse Tung e a Guarda Vermelha, o Maio de 68 na França, a chamada primavera de Praga. Essa lista, dos anos 80 para cá, seria ainda enorme… E talvez até maçante para o leitor.
Embora ainda existam pessoas que pensem o contrário, o homem é um ser político por natureza. Toda sua ação é política, mesmo quando se diz apolítico ou se nega a reconhecer a política nas relações humanas. Não é por acaso que muitos, a mídia em particular, tentam cotidianamente despolitizar toda e qualquer questão relevante que diga respeito à luta daqueles que ainda acreditam numa mudança de rumos para o mundo em que vivemos. Despolitizar é criar confusão, insegurança, preconceitos. Despolitizar é dividir para continuar reinando.
O avanço e a sofisticação dos meios modernos de comunicação, e aqui o exemplo mais fascinante fica por conta da internet, obriga o homem contemporâneo a um exercício constante e atento de tudo que se passa à sua volta, sob pena de que se perca o sentido da civilização e assim nos afundarmos em poucas horas nas trevas da barbárie.
O propósito com que escrevo esses primeiros parágrafos é chamar a atenção do leitor para que, ao organizar sua agenda de informações, leve em conta não só a agilidade com que elas acontecem, mas também que deixe a sua sensibilidade e o seu espírito crítico funcionando como antenas de um momento histórico importante, polêmico, armadilhado com inúmeras falácias e – sobretudo – resvalando para o perigoso terreno de um fascismo revisitado. De um fascismo moderno, travestido de falsas opiniões científicas ou sustentado por uma democracia enganosa, de aparências, onde o cidadão comum tem a ilusão de que ao votar de quatro em quatro anos está exercendo a sua liberdade de escolha nos que “dirigirão” o seu país, o seu estado, a sua cidade. Ou que de fato todos exercemos livremente nossa liberdade de opinião e pensamento.
Dou aqui dois exemplos, um internacional e outro caseiro:
1 – O vergonhoso e criminoso plano de invasão do Iraque sob o pretexto de que aquele país possuía armas de destruição em massa. Provou-se que era tudo mentira fabricada nos escritórios da Cia e do Departamento de Estado norte americano. O mesmo esquema de dúvidas e mentiras parece agora estar sendo construído contra o Irã, sob o pretexto de aquele país tem intenções de fabricar armas nucleares. E se tiver? Os que acusam, em particular EUA, Inglaterra e Israel, não possuem armas nucleares em profusão? Uns podem e outros não? Por quais motivos?
 
*** 2 – O ridículo e falsamente consciente vídeo gravado por menininhos e menininhas (algumas nem tanto) globais em oposição à construção da Usina de Belo Monte, aonde os argumentos sequer chegariam a empolgar uma discussão de bêbados de botequim, mas com o firme propósito de aproveitar aquilo que consideram a popularidade tele noveleira para dar credibilidade a argumentos falaciosos contra uma obra que ajudará o país a criar energia condizente para o seu desenvolvimento atual.
A mídia internacional e a nacional, em particular, movimenta-se no perigoso e delicado terreno da desinformação, da divulgação de meias verdades ou mesmo de mentiras, da tentativa de desmoralização daqueles que ainda ousam discordar das maravilhas do capitalismo ou daqueles que procuram criar alternativas ao desmantelamento lento, gradual e progressivo de um sistema econômico que já mais nada tem a oferecer à humanidade, a não ser o seu canto do cisne.
Izaías Almada é escritor, dramaturgo e roteirista cinematográfico, É autor, entre outros, dos livros TEATRO DE ARENA, UMA ESTÉTICA DE RESISTÊNCIA, da Boitempo Editorial e VENEZUELA POVO E FORÇAS ARMADAS, Editora Caros Amigos.

Caro Rogério

Concordo, mesmo porque a geração eólica é limitada quando a demanda é de grandes blocos de energia. E uma das vantagens das barragens, tão criticadas pelo eco-dogmatismo reinante, e que ninguém cita, mas vc bem observou, está na regularização dos rios a mitigar os efeitos danosos das cheias.

Ou seja: uma barragem não é só desgraça como faz crer esse discurso anti-Belo Monte: pouco esclarecido e, na minha opinião, também mal intencionado da parte de alguns.

Quanto ao efeito cascata, ou navegação por eclusas, lembro que o grande erro do macro-projeto de Itaipu foi justamente a altura da barragem que, além de caríssima e não ser a melhor proposta para se otimizar o aproveitamento hidroelétrico da bacia do Paraná/Paraguai, em detrimento da construção de barragens menores, impediu qualquer possibilidade de hidronavegação na maior parte dela. Trata-se da inviabilização da interligação hídrica entre o Centro Oeste Brasileiro, o leste boliviano e paraguaio,  o oeste das regiões Sudeste e Sul brasileiras, o oeste e sul do Uruguai e todo o nordeste argentino, até a grande Buenos Aires, onde fica a maior parte da indústria deste país, facilitando o desenvolvimento de toda essa imensa extensão territorial: quase uma amazônia.

Por que fizeram Itaipu então?

Porque a ditadura militar (alguns chamam "regime militar") queria construir uma "bomba hídrica", como se dizia na época (década de 70), contra a Argentina. assim, num eventual conflito, se abrissem as comportas, ou mesmo destruíssem a barragem, a onda gerada inundaria 90% do pib argentino, inclusive Buenos Aires.

Mas essa é outra história.

Saudações. 

Este endereço pode ajudar sobre Belo Monte : http://casatolerancia.blogspot.com/2011/11/belo-monte-noticia-ou-no...

Claudia

Eu concordo com quase tudo que ele disse exceto a parte de Belo Monte onde guardo reservas.

2 comentários foram muito bons na minha opinião e que mostram o quanto espinhoso é o tema B.M.: do Hermé  (o vídeo postado foi ótimo!) e do Franklin que apontou um caso seríssimo sobre a demanda de perfis de alumínio.

Ou seja, a indústria do alumínio é uma das mais sujas. Vi, na Amazônia, precisamente no norte do Pará uma lagoa absolutamente morta por culpa da bauxita mas ele, o alumínio, está na base da indústria, só que dos outros países.

Hoje, exporta-se um navio carregado de aluminio em lingotes ao preço de uma "land-rover" importada.

Não!

A land-rover tem que ser fabricada aqui e vendida e exportada, seja com nome de 'zebu', 'marchador' ou 'jegue' ou que o valha.

Isso é o que muitos questionam. O famigerado "agro-business" é um dos mais devastadores deles.

Tem que se dar um basta nessa situação!

Lembro de uma estatal (Caraíba Metais?), produtora de metais finos, e privatizada (nas célebres 'privatarias' do sátrapa bizantino). Quem a arrematou foi um concorrente para sucateá-la. Hoje os concorrentes deste, que monopolizou o mercado interno, estão na Alemanha, Japão, EUA e mais alguns poucos.

Mas a matéria prima ....

A suspeita de que os empreendimentos hidrelétricos na Amazônia se resumam à infraestrutura para a indústria do alumínio tem sua razão de ser: a produção deste material exige quantidades descomunais de eletricidade.
Ocorre que a energia de Belo Monte já foi vendida, e não o foi para consumo regional, majoritariamente.

O potencial hidrelétrico brasileiro remanescente está na Amazônia, fazer o quê? Fazer usinas a fio de água, para limitar o estrago. 

Hermê

 

Em todo o mundo, exceto no Brasil, usinas hidrelétricas a fio de água é o máximo em energia sustentável e não poluente. Só tem uma pequena diferença, como eles não tem água (e não tem mesmo), as usinas a fio d'água são umas merrequinhas. Talvez os pessoal daqui acha que uma usina a fio d'água necessariamente deve produzir pouca energia, é o tal de complexo de vira lata, o Brasil possui 14% da água doce do mundo por isto que as nossas usinas a fio d'água vão produzir um monte.

 

O que mais incomoda a todos os vinculados da determinados grupos é que quando terminada Belo Monte e as populações índias e ribeirinhas virem os benefícios que eles vão poder tirar dessas usinas talvez a luta seja por construir mais usinas e não ao contrário.

Claudia, Mauro e Hermê

Leiam a entrevista abaixo do ponto de vista do presidente da ABAL – Associação Brasileira do Alumínio, sobre a indústria de beneficiamento de alumínio instalada no país. Essa entrevista foi concedida em 2010.  

 

Alumínio primário, um bem escasso

Entrevista: Adjarma Azevedo

Redação AECweb

Foi acionado o sinal de alerta pela indústria do alumínio instalada no país: por falta de investimento na ampliação do parque fabril de lingotes, o país poderá passar de exportador a importador até 2013. Adjarma Azevedo, presidente da ABAL – Associação Brasileira do Alumínio -, explica que o alto custo da energia elétrica no país e a falta de um plano nacional de desenvolvimento industrial desestimulam o crescimento do setor. Paralelamente, a expansão da construção civil e de outras áreas da economia, será responsável, este ano, pelo crescimento de 21% do consumo interno, de acordo com as perspectivas da entidade. Consequência dessa pressão, o fornecimento de perfis para as indústrias de esquadrias de alumínio têm, hoje, prazos dilatados.

AECweb - Qual a perspectiva de crescimento da produção de alumínio em 2010?

Adjarma Azevedo - O mercado interno de alumínio transformado vem crescendo nos últimos dez anos, com um único período de 10% de queda, em 2009, em função da crise internacional. A perspectiva para este ano é de 21% de crescimento, o equivalente à produção de cerca de um milhão de toneladas. O consumo interno deverá estar próximo de 1,25 milhão de toneladas. Diante da velocidade com que o Brasil está se desenvolvendo, do volume de encomendas à indústria, Copa de 2014, Olimpíadas, tudo está favorável ao consumo interno de alumínio transformado em insumos como lâminas, perfis, folhas, fundição, pó, cabos de transmissão de energia.

AECweb - Então, o material já está sendo importado?

Adjarma Azevedo - Sim, mas de alumínio em chapas para aviões, por exemplo, produto que não é fabricado no Brasil. Está ocorrendo muita importação da China de folhas para embalagens flexíveis para blister de medicamentos e tetra pak, para uso doméstico e revestimento térmico. Essa importação é preocupante.

AECweb - Quais as razões dessa tendência?

Adjarma Azevedo - O Brasil não tem nenhum investimento previsto de produção de alumínio primário. A última fábrica instalada no país foi em 1985. Essa falta de investimento no setor – a principal razão é o preço da energia elétrica - está acarretando um déficit entre a oferta e a demanda. Segundo previsões da ABAL, a partir de 2012 o Brasil passará a importar alumínio transformado, saída mais fácil e mais econômica do que comprar o metal primário - a capacidade de produção atual de lingotes é de 1,6 milhão de toneladas. E é isso que preocupa, pois, se as empresas começarem a importar alumínio transformado, haverá uma desestruturação total da cadeia produtiva do alumínio como a conhecemos hoje.

AECweb - Quais as consequências?
Adjarma Azevedo - A importação, na quantidade que vem ocorrendo hoje, ainda não é preocupante. Estamos atentos e já levamos ao conhecimento do governo. Dependendo da forma que essa importação vier, vamos desindustrializar o país, pois passaremos a exportar bauxita e alumina, que serão transformadas lá fora e passaremos a importar o produto acabado. É uma regressão total.

AECweb - E qual é a solução que a ABAL vê para o problema?

Adjarma Azevedo - Nos anos 80, o governo tinha o II Plano Nacional de Desenvolvimento que identificava os segmentos fundamentais para economia do país, como a indústria do alumínio, e punha em prática políticas industriais que ajudavam essas empresas a se desenvolver. Esse problema só será resolvido se o governo criar, novamente, políticas industriais que possibilitem e estimulem o desenvolvimento dessas indústrias de base.

AECweb - A indústria do alumínio tem iniciativas para geração própria de energia?

Adjarma Azevedo - A indústria do alumínio consome anualmente 26 mil GW/hora, sendo que 33% desse total, ou seja, 8 mil GW é autoproduzido pela indústria. Para se ter uma idéia de grandeza, uma fábrica que produz 500 mil toneladas, deve consumir 600 MW/hora – talvez, mais do que o estado do Piauí. Até 2014, o percentual de autoprodução subirá em 50%, resultado do investimento de consórcios na construção de hidrelétricas envolvendo indústrias do setor, como as de Serra do Facão e Estreito. Porém, essa energia dificilmente será usada para novos projetos, pois será destinada a manter as fábricas atuais.

AECweb - Os fabricantes de esquadrias de alumínio serão afetados por esse aumento no volume de importação?

Adjarma Azevedo - Talvez o setor fabricante de esquadrias seja um dos elos que mais terá problemas a médio e longo prazo, pois, a falta de alumínio primário significa falta de suprimento para os extrusores, limitando a produção de esquadrias. Os extrusores no Brasil estão no limite do suprimento, a menos que comecem a importar lingote, de forma organizada – aí, poderão manter o suprimento. O problema é a importação de esquadrias prontas. Não duvido que isto venha a acontecer no futuro. Tudo é possível, temos que atuar para cercear esse tipo de importação e para resolver o problema de fornecimento dos extrusores. A ABAL está trabalhando nesse sentido e já estamos conversando com a AFEAL para unir forças.

AECweb - Quais outros produtos de alumínio que poderão ser importados?

Adjarma Azevedo - Hoje, a importação de peças para automóveis é avassaladora. Rodas de alumínio, por exemplo, estão sendo importadas da China, por serem muito mais baratas que as produzidas aqui. O governo já anunciou que acabará com os atuais 40% de redução nas tarifas de importação das autopeças nos próximos seis meses. Essa é uma luta ganha pela ABAL e nós continuamos trabalhando para que a importação do alumínio não prejudique a indústria nacional.

AECweb - O Brasil continua exportando alumínio?

Adjarma Azevedo - Por força de compromissos internacionais, o Brasil continua exportando alumínio primário. Este ano, a previsão é exportar 600 mil toneladas. Mas, até 2012, 2013, a oferta deverá ser menor que a demanda, obrigando a indústria a importar o metal.

AECweb - O fornecimento de perfis de alumínio já está com prazos dilatados?

Adjarma Azevedo - A construção civil fugiu dos patamares normais de crescimento. Várias empresas estão comprando prensas de extrusão para aumentar a capacidade produtiva. Eu acredito que esse backlog de entrega será superado até o final do ano. Outro exemplo é a indústria de lata. Empresas como a Ambev estão importando 1,5 bilhão de latas, porque os fabricantes não estão dando conta da demanda, que está crescendo substancialmente. Essa indústria também está investindo, devendo chegar até o final do ano a uma capacidade adicional de 3 bilhões de latas, que se somarão aos atuais 16,8 bilhões. A preocupação da ABAL é com o que pode acontecer lá na frente, caso nós tenhamos que enfrentar uma avalanche de importações a preços muito inferiores aos nossos. Nós já levamos isso ao conhecimento do ministro Miguel Jorge e estamos preparando um documento, juntamente com a Fundação Getúlio Vargas, com propostas do setor que será entregue aos candidatos a presidência.

Redação AECweb

Nao me atribua coisas, Cláudia. Imagina se eu ia mudar título de texto alheio. O título foi dado pelo próprio Idelber, claro. Aliás, eu deixei o link, bastava ir ver...

Nao entendi. Fineza? Pelo que sei, nao fui nem fina nem nao fina, apenas dei um esclarecimento necessário, nao quero passar por alguém que interfere em texto alheio. Aliás já nao entendi o motivo da suposiçao. Nunca fiz isso. E havia a fonte da informaçao.

 

Concordo com quase tudo, menos com uma expressao: burguesia nacional. De novo isso? Burguesia nao tem nacionalidade, tem interesses.

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