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As redes sociais inauguraram ou deram espaço a fenômenos relativamente raros. Nelson Rodrigues dizia - e eu não me canso de repetir - que antigamente os idiotas faziam filhos, babavam na gravata etc. Como para Nelson foi Karl Marx quem inventou o imbecil moderno (o que eu discordo: para mim quem inventou o imbecil moderno foi Freud, por razões que talvez um dia eu explique), ele, o Nelson, entende que a auto percepção da superioridade numérica do idiota estabeleceu um marco em nossas modernas relações sociais. O idiota moderno, então, decide, sem o saber, naturalmente, que a verdade é uma questão muito mais quantitativa que qualitativa e essa decisão fundou o império da imbecilidade, de forma que os imbecis, que antes faziam filhos, babavam na gravata, assistiam novela das noves, o jornal nacional etc., tornaram-se presidentes da república, professores universitários, apontadores de jogo do bicho, gerentes de TI, jogadores de futebol e até (pasmem!) eu e você.

 

Mas eu dizia que as redes sociais inauguraram algo e esse algo não é, naturalmente, o idiota, tampouco - muito pelo contrário - é o imbecil um fenômeno raro. O que as redes sociais inauguraram é um certo tipo de posição.

 

Se não, vejamos:

 

1. Há pessoas estúpidas - aliás, há muitas pessoas estúpidas - falando coisas com que eu concordo. Coisas do tipo "o triângulo é um polígono de três lados". Certo. Legal. Concordo. Like. Acontece que um autêntico imbecil é uma figura complexa e eu diria mesmo que ele é mais que complexo: ele não aceita o óbvio, o simples, o fácil etc. Nós que estamos sempre correndo - pois é possível que estejamos um pouco abaixo do imbecil, de forma que para nós a vida é um pouco dura, por isso precisamos trabalhar: nossas monografias são escritas por nós mesmos, nossa promoção resulta da eficácia de nosso  trabalho, não temos "qi" etc. -, não atentamos para o todo semântico proposto pelo imbecil; ao contrário: ávidos por quem confirme nossas posições, somos velozes em "fechar" com aquelas afirmações que alimentam - e até envaidecem - nossas ideologias. No entanto, o imbecil, que é um ser superior, jamais diria "o triângulo é um polígono de três lados". O verdadeiro idiota diz "o triângulo é um polígono de três lados, mas isso não lhe dá o direito único e exclusivo de sinalizar os acidentes de trânsito...". O idiota vai morrer defendendo o direito do "quadrângulo" e/ou qualquer outra figura geométrica - ou não - excluída de fazê-lo e, talvez, até com mais eficácia. Essa sanha pelo 'viés de confirmação' é, para mim, um dos traços mais bizarros dos debates nas redes sociais. Por isso, sem a devida atenção, admitimos como privilegiados interlocutores de assuntos sérios, elevados, algo que eu chamo idiotes sapiens ou imbecil qualificado. Ficando bem claro que o imbecil qualificado não é um qualquer, não é alguém que diz por dizer - de forma alguma! -, para ser um autêntico imbecil qualificado ele deve compreender as suas posições, afirmações, ideologias etc. como a mais pura expressão da genialidade. E como o idiota é filho da massificação, daquela massificação que Nelson atribuiu injustamente a Marx, ele sobrevive de likes (escrevo "likes" rubro de constrangimento).

 

2. Mas não é só isso! Vejam vocês que existem pessoas inteligentes falando com coerência de coisas com as quais não concordamos. Não apenas com coerência - não se trata da forma -, mas também - e, sobretudo - com fundamento. Sim, concordo, é terrível! Porém, isso é possível! Mais que isso ainda: é possível que o sujeito de quem discordamos seja honesto! Imaginem o cara falando "o problema do Brasil não é o capitalismo. O problema do Brasil é que não somos capitalistas o suficiente".

Meu Deus! Morte ao infeliz! Sacrifício em  praça pública! Karl Marx que o perdoe, ele não sabe o que diz!

 

E não nos ocorre algo básico: perguntar, procurar entender a "infâmia". Algo assim: "mas, afinal, o que é o capitalismo?"; "afinal, o que é o Brasil?"; "existe algum exemplo no mundo de capitalismo inclusivo? Se existe, que não dependa do imperialismo; isto é: da exploração de outras nações?"; "qual é a relação histórica do Brasil com o capitalismo"; "ser capitalista para o Brasil implicaria ser ele o ator do imperialismo do qual já foi vítima?"; "é possível capitalismo com distribuição de renda e igualdade social?". De lá, do outro lado, do lado de nosso algoz virá certamente a réplica que podemos sintetizar assim: "se não o capitalismo, o que, então?".

 

Antes de me despedir, porém, eu gostaria de deixar, humildemente uma última consideração sobre o consumo das redes sociais: as pessoas escutam coisas e as repetem. O idiotes sapiens o faz com altivez, afinal ele não teve de "ralar" o cérebro para pensar, refletir, cotejar aquilo que repete. A palavra da moda, parece-me, é: fascismo, fascista. Acontece que as palavras - todas  - carregam um ou mais sentido. No caso da polissemia, exige-se que se indique o contexto semântico e/ou se trata de sentido figurado (figura de linguagem como metáfora, por exemplo). As palavras não têm e não podem ter, em cada caso, o sentido da conveniência. Outro dia, a caminho do colégio que leciono no Complexo do Alemão, uma criança chamou a outra de fascista! Isso mexeu profundamente comigo porque o que tenho visto nas redes sociais, rádios, televisões são marmanjos que sabem o que é ser fascista tanto quanto aquelas crianças. A diferença é que os marmanjos não sabem que não sabem (?) e à criança não interessa saber, pois para ela o sentido vige no impacto que a expressão produz em seu interlocutor em virtude da força (volume) de sua expressão.

 

Penso sempre na palavra fascismo a partir de sua relação com a palavra feixe. É forte para mim a ideia de que algo se reúne pela semelhança. Toda união baseada na semelhança implica, necessariamente, a exclusão pela dessemelhança. O nazismo (nacional-socialismo)  alemão, por exemplo, é uma forma do fascismo fundada na ideologia de extrema-direita, cujo o viés de extremo-nacionalismo incorpora, de maneira não menos extrema, o racismo e o anti-semitismo. Mesmo antes do nazismo, a ideia da prevalência dos princípios de nação e de raça sobre os valores individuais alimentou o fascismo de Mussolini. Lá e aqui, em Hitler e Mussolini, a atividade política é a pura expressão do enfeixamento daqueles princípios e a exclusão violenta de tudo o que nele não comporta.

 

Não obstante aos diversos sentidos que a palavra fascismo pode assumir pelo uso - e, sobretudo, pelo abuso -, entre nós - nos bares, nas rodas de samba, nas discussões de condomínio, nas reuniões de pais na escola, nas redes sociais, nos programas dominicais de entretenimento da tv etc. - ela é, curiosamente, usada quando alguém de "esquerda" quer marcar a diferença de sua ideologia da ideologia e/ou comportamento de direita ou, ainda, incluir na ideologia de direita um princípio e/ou um modo de ser característico das classes dominantes, a  burguesia, esta que é, por natureza, exclusiva (excludente). No que diz respeito à "direita", ela não é muito dada a pensar sobre o que quer que seja, para ela vale o lema que versa que o poder é a arte de dominar os meios para alcançar os fins desejados. Seja  como for, de parte a parte o que temos é exclusão, de forma que enquanto não pudermos dialogar seremos "fascistas" de esquerda e de direita. Passamos mais de quinhentos anos pensando as margens das  quais a "direita" e a "esquerda" são representantes na política nacional. Está na hora de perguntar se, ao fazê-lo, não abandonamos o rio. Está na hora de perguntar, sobretudo, o que é preciso fazer para tirar o brasileiro da marginalidade.

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