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Dos Campos de Aracoara para o Império do Ensino Pago

Em que parte do Brasil nasceu à República? É provável que tenha surgido nas disputas políticas tendo como cenário, os bares, os prostíbulos, os batalhões do Exército de Deodoro e Floriano, na cidade do Rio de Janeiro. Porém, a força econômica que movimentou fortunas e moveu levas imigratórias tenha impulsionado (como nos tempos atuais), as transformações políticas e sociais que podem ter iniciado no centro da Província de São Paulo.  Hoje, paradoxalmente, a cidade governada (novamente), pelo ex-ministro das Comunicações do governo da ex-presidenta, Dilma Rousseff.

Falamos de, Edinho Silva, hoje Prefeito da cidade de Araraquara que há dois séculos antes foi conhecida como, “Campos de Aracoara”. No ano em que Araraquara completa duzentos (200,00) anos e, no texto que vem a seguir pretendemos trazer à cena um Roteiro (quem sabe o DNA de nossas riquezas), mas, também de nossas mazelas.

Em formato de “Projeto Cultural”, a ser analisado por uma Comissão composta de notáveis, publicamos neste Fórum para conhecimento, registro e se possível, o início de uma urgente discussão - PRA ONDE VAMOS?

Num “mar” de perplexidades e incertezas (mais perguntas que respostas), convidamos a todos para participar do “Baile de Gala”, no antigo Club Araraquarense, local onde em sua remota história a maioria da população local só entrava como “serviçal”. O Mestre de Cerimônia será o cineasta e diretor teatral, Wallace Valentin Leal Rodrigues que ousou, poucos meses após o Golpe Militar de 64, projetar cinquenta e três (53 anos) à frente dos dias atuais, portanto, em seu libelo – Araraquara – Ano de 2017.

Como era do seu costume dizia – “o texto que vem a seguir fala por si só”

OBJETIVOS:

Sabemos o quanto é espinhosa a tarefa de inserir proposta num edital que visa a Intervenção urbana (artística), em matéria tão controversa. Como qualquer “achado” as novas expressões são originárias de um conteúdo inédito e com o tempo vai se transformando. O que se chama de intervenção, hoje, ao longo das últimas décadas teve uma outra significação. Com isso, também, sua função talvez tenha se transmutado. A vida urbana não é apenas cenário, natureza morta é, antes de tudo, matéria em movimento. Os responsáveis pelo Edital “pecam” pela subjetividade e pelo modismo, não levando em consideração o grande lastro histórico da modalidade, por exemplo.

No caso das Intervenções, provavelmente o teatro tenha sido o principal instrumento dessa experimentação, ao longo dos anos. Tivemos contato com o teatro/intervenção, no inicio da década de 70, por uma feliz coincidência, tenha ocorrido em Araraquara com egressos do grupo “Los Lobos” (ver sobre como item das Justificativas).

Estudamos atentamente os propósitos deste edital (o de número 11 do ano de 2017, da SMCA), e nele encontramos ênfase as expressões território e suporte, e uma leve referência à paisagem urbana, como fruto do registro da história. Num singelo parágrafo o Edital estimula os artistas a flertar com “a celebração do Bicentenário da cidade”. Reside nesse parágrafo uma “falsa pista” do que verdadeiramente os gestores vão levar em conta na hora da avaliação. É possível grifar essa licença poética, sem medo de errar, que essas considerações subjetivas e dissimuladoras não ajudam em nada ao provável proponente a entender o que de fato a Gestão tem em mente. É dever de qualquer agente público comprometido com a isonomia, ser claro e direto, deixando a tarefa de fazer poesia para os artistas. Pois bem, mesmo assim entramos no jogo, esse de fazer quadrinhas e afirmamos - queremos mais do que isso.

Por outro lado, o texto do presente edital começa com uma citação do querido “mestre”, Wallace Valentin Leal Rodrigues, falando sobre sua dissociabilidade entre o homem, Walace, e a cidade que o acolheu (ele nasceu capixaba). Por termos na equipe que assina o projeto, o ultimo artista-musico-ator, vivo, que trabalhou com o extraordinário diretor sentimos, de certa forma, prestigiados a entrar de cabeça, corpo e alma nesta empreitada. É o que faremos.

Não temos compromisso com ritual acadêmico, estamos aqui para propor um trabalho artístico com linguagem “forjada” no dia a dia teatral, literário, musical ou mesmo jornalismo militante. Até porque na reta de chegada o que gostaríamos de ver consumado é uma discussão profunda a respeito da própria Universidade e quais as responsabilidades que a Comunidade tem nisso. Nesses dois séculos de história, não apenas Araraquara, Aracoara, “o Estado mais rico da República”, o Brasil enfim, teve o processo educacional entregue inclusive ao Exercito Brasileiro, felizmente mais tarde retornando as organizações religiosas. Oportuno nesse momento indagar se a iniciativa privada é o caminho mais adequado. Nosso objetivo principal é estimular a discussão que leve em conta que:

a) outrora Campos de Aracoara, denominação dada a este imenso território tenha se transformado, dividindo-se produzindo dezenas de povoados, cidades, resultando no que é hoje - uma Região Industrial;

b) dos testemunhos arquitetônicos que restaram escolhemos a matéria de nosso foco, a Estação Ferroviária, antiga “Estrada de Ferro Araraquarense”, e agora numa versão ampliada, outros prédios históricos como igrejas, matadouro, Mercado Municipal, que foi e será palcos (em nossa proposta) vértice de vidas, fator econômico de grande monta. No caso da ferrovia meio de transporte envolvendo riquezas e sonhos, além de ter sido o principal símbolo do poderio econômico e dominação política por mais de meio século. Com isso, quem sabe, teremos pronto o cenário para trazer a tela a principal transformação, ocorrida nos últimos 200 anos. A ferrovia que ainda está de pé, suportando todas as tentativas de reprivatização. Começou como iniciativa privada, quotizada entre os investidores envolvidos no comercio do café no final do século XIX, e acabou encampado pelo Estado na primeira metade do século XX.

Para levar avante essa empreitada insistimos na dualidade, que é o principio básico do Teatro, do Direito e da Democracia, até porque, a realidade assim se apresenta: realidade visível e o imaginário que os cientistas sociais chamam de infraestrutura e superestrutura.

Objetivos Secundários: nestes quesitos focamos a mão de obra humana, ou seja, o trabalho escravo (nas primeiras décadas), e sua transformação em remunerado com o advento da Proclamação da República. Araraquara foi reconhecida, poucos meses antes, como Comarca. Herdamos tudo que diz respeito à exploração e apropriação do resultado desse trabalho, mas, também os conflitos sociais e econômicos. Todos os caminhos nos levam a concluir que a paisagem urbana e arquitetônica, seja fruto do trabalho humano. Não foi obra da natureza, por certo. Dois séculos não se celebra a cidade física que aí está, mas a vida atribulada e sofrida da população que aqui viveu, desde o momento em que para cá veio à primeira vaca leiteira, nos idos da década de 20 no século XIX;

Nesta labuta pictórica, dramatúrgica, musical que compõe o nosso projeto focamos também, na divisão da população que viveu e aqui vive, ao longo de dois séculos em dois grupos sociais distintos. Destacamos os que foram mais competentes para subjugar a maioria, como trabalhadores na formação de sua riqueza e, do outro lado, à maioria que não conseguiu se organizar como produtores proprietários. O tempo fez tornar irrelevante a origem (nacionalidade), daqueles que para cá vieram. É nossa tarefa demonstrar que muitos imigrantes, se tornaram senhores e compradores dos serviços (trabalho alheio) dessa maioria que luta pela sobrevivência pura. Os proprietários (nos seus mais diferentes matizes) enriqueceram, se tornaram poderosos, conduzindo o destino dos demais nas câmaras municipais que se formaram e na condução dos negócios;

Com destaque à dualidade, objetivamos demonstrar que a cidade foi submetida, desde o seu início, a essa “divisão”: a Estação é a linha divisória. De um lado, os homens que trabalhavam e se acomodaram no “risca faca”, parte alta da cidade, na Vila Xavier e nos altos dessa mesma vila, onde foi simbolicamente construída a Igreja de São Benedito (a igreja dos “pretos”); e que tinha como os seus primeiros fieis escravos. Hoje em dia é neste lado da cidade localiza-se a Penitenciária, que abriga perigosíssimos líderes de facções criminosas. Do outro lado da cidade, o que se conhece como parte central, onde viveram os proprietários de fazendas, comércio em geral, cartório, delegacia de polícia, Igreja de São Bento e Casa Paroquial, simbolizando o poder, e recentemente os portentosos aparatos educacionais particulares (UNIARA, UNIP, FARA, Logatti, UNOPAR e outras), shoppings e finas residências;

Também queremos enfatizar no que diz respeito ao “o que representa a cidade?”. De um lado, a história com suas várias leituras tendo como personagens a vida anônima de pessoas que por aqui passaram e deixaram rastros e o aparato arquitetônico, como a própria Estação, a Fonte Luminosa, Mercado Municipal, Hotel Municipal, Torre das Meias Lupo, Faculdade de Filosofia/Farmácia, Estádio da Ferroviária de Esportes - MEMÓRIA - de outro, os homens e mulheres que hoje aqui vivem e que podem no presente, como é proposta desse edital, transformar e dar outras funções mais justas e igualitárias ao mesmo território. Não é tão fácil perceber, porém, que existe uma simbiose de cenário e pessoas que habitam ou habitaram a cidade formando o AGORA. Queremos transformar o palco da proposta (a antiga Estação ferroviária), num ÀGORA.

Por fim, objetivamos chamar a atenção para o significado das manifestações artísticas. Toda e qualquer obra (arte ou não), é o resultado do trabalho humano e, no caso das obras artísticas, inexoravelmente é uma representação. Um quadro, um verso, uma canção, uma escultura é a representação do que um homem viu e quer que outros vejam, assista, ouçam e reflitam. Na matéria (vide anexos), cremos poder oferecer alguma contribuição nas formas e na escolha de conteúdos. Para tanto, naturalmente esperamos o mesmo para ler com parcimônia, o que estamos propondo. Na se trata de tarefa simples, sabemos.

JUSTIFICATIVAS: O que justificaria um grupo apresentar uma proposta artística ousada, num edital que oferece poucos recursos financeiros, oferecidos pela Oficialidade, para a sua efetivação?

a)         Porque ao menos no texto de “chamamento” é proposta uma ruptura da estrutura, que foi aqui chamado de suporte;

b)         Porque também consideramos que como qualquer atividade econômica, a arte precisa se valer de estrutura durante todo ano, e não somente em caráter sazonal. Não se pode depender de “caixa” dos órgãos públicos para sobreviver;

c)          Ao propor um “chute no pau da barraca”, queremos a oportunidade de rediscutir a própria forma de produzir e consumir arte e cultura na cidade. Nesse particular, é preciso uma justificativa suplementar; é o faremos:

A tradição das intervenções (artísticas), urbanas sempre esteve lado a lado com o que se convencionou chamar vanguarda. O que se conhece efetivamente, em Araraquara como vanguarda? A grande maioria dos seus artistas que se dedicou a experimentação diante do seu tempo, só conseguiu trabalhar fora deste território urbano. Mesmo aqueles que atingiram a consagração, o fizeram nos grandes centros e não aqui, com marcantes traços provincianos. Isto não pode ser debitado aos artistas, e muito menos a maioria da população aqui vivendo. Deve-se a sobrevivência de uma “maldição”, contada por antigos moradores que cada um, há seu tempo, esteve no papel de vítima;

d)         A origem da conhecida “maldição autoritária” vem de há muito, provavelmente desde na sua origem. Nasceu quando a cidade foi fundada por um fugitivo da Polícia por crime de morte, e que mais tarde foi morto por um coice de mula e enterrado nas dependências da Igreja São Bento. Essa brutalidade foi alimentada pelos profundos laços com a aristocracia cafeeira que se formou na região, e que teve origem numa distribuição de terras, injusta, entre os ex-proprietários de cartórios na capital da Província, às portas da Independência de Portugal. Mais próximo a nós, na primeira metade do Século XX, tivemos o postergado desenvolvimento industrial que, segundo moradores antigos, por uma específica dominação política perdurou décadas mantendo a cidade como “uma única indústria”. “Mudaram-se os senhores, mas, não o chicote” - diz o ditado anarquista. A cidade é marcada por significativas transformações urbanas, com seus acontecimentos políticos e econômicos. Porém, o tempo tem sido parceiro desta dissimulação, que leva para o túmulo pessoas, obras, prestígio, ficando apenas os monumentos que podem ou não revelar sua história;

e)         Mesmo o extraordinário e talentoso diretor Wallace V. Leal Rodrigues, criou o TECA no início da década de cinquenta (Teatro Experimental de Comédia Araraquara), mas sua produção era orientada para o clássico, e não modernista como almejava atingir. O TECA era um espelho do que melhor se produzia em São Paulo no TBC, Maria dela Costa e Cacilda Becker. Paradoxalmente, o maior diretor de teatro de todos os tempos, José Celso Martinez Correa, quando aqui viveu até a sua juventude era seguidor dos escritos de Plinio Salgado (líder integralista), ao contrário de Walace, um socialista cristão. Zé Celso foi embora e Walace aqui morreu, quase que renegado; abandonado pela cidade que o consagrou. Mais um traço de uma sociedade perversa com ligeiros sopros de renovação e libertação, mas que logo são esquecidos;

Entre os sopros que aqui estiveram, destaca-se alguns expoentes do grupo argentino “Los Lobos” citado acima. O grupo esteve no Brasil, em 1971, para uma iniciativa tríplice com Oficina e Living Theatre. A trupe veio a Araraquara no ano seguinte para participação de um evento na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, a convite de Luis Antonio Martinez Correa quando este montava sua última peça aqui na cidade - Horácius e Curiácius. Foi aí que começou nossa iniciação, em contato com os mesmos. No currículo dos Lobos já constava trabalhos remotos onde na cidade de Buenos Aires no intenso transito de veículos, os atores promoviam cenas absolutamente insólitas, cujo objetivo era chamar a atenção da população para profunda inércia em que viviam. Os argentinos estavam à beira de um estado autoritário que lamentavelmente, que veio aquele país mergulhar alguns anos depois. Por essa época, no exílio, Augusto Boal dava os seus primeiros passos em direção ao Teatro Invisível, e outras vertentes que o consagrou. Como se vê não estamos diante de uma matéria nova, mas de uma atividade que já existe há muito tempo e se transforma. Em todas as circunstâncias onde os movimentos de intervenção ocorreram e ganharam destaque, mesmo que sob outra denominação havia um quadro institucional caótico, como o que vivemos hoje no Brasil. Não dá para fazer de conta que o poder político local nada tem a ver com as forças em grande litígio nacional. Vivemos a antítese do que um dia profetizou um renomado historiador araraquarense – Rodolpho Tellarolli - “o poder local na República Velha”. Estamos vivendo a destruição de uma república, sem levar em consideração a vontade popular - matéria essencial na República representativa expressa universalmente há menos de três anos.

 

COMO PRETENDEMOS REALIZAR ESSA PROPOSTA?

“Um Trem Desembestado”

 

I-   Um cenário fixo, a própria estação Ferroviária, em especial sua plataforma, por onde transitavam passageiros e funcionários da Cia Paulista e EFA. Perfilados ou pendurados grande reproduções das edições do Jornal Macunaíma (27 edições) que no período de circulou em Araraquara, totalizando cerca de 300 paginas, das quais ao menos uma parte será transformada em Banners em tamanhos, três vezes maior que o original. O teor das edições tratava da história de Araraquara, na sua maioria, desde o seu mais remoto acontecimento;

II- Como é nossa intensão valorizar o papel que o jornal impresso, teve no desenvolvimento da cidade, vamos construir cenicamente, com a colaboração dos que ali vão assistir e participar a reprodução de movimentos característicos, como a chegada do trem trazendo edições dos jornais publicados na capital da província (São Paulo). Enfatizar a importância da informação, mesmo que produzida por veículos pertencentes à aristocracia paulistana;

III-             As performances terão um total de sete reproduzindo, metaforicamente, a criação do mundo em sete dias, conforme a Bíblia (sic). Cada dia haverá uma performance, de aproximadamente 15 a 20 minutos. Dias escolhidos: sábados e domingos, sendo que nas últimas duas intervenções, com intervalo de alguns minutos;

 

Temas das performances:

 

1-  Julgamento e enforcamento de um escravo no que mais tarde se tornou Praça da Independência por capatazes de um fazendeiro durante o Império (data imprecisa nos diversos documentos que registram o fato). O intuito é mostrar a violência na cidade, durante o regime imperial;

 

2-  Últimas horas de Rosendo Brito na cadeia pública, na noite de seu sequestro e morte por capangas da família Carvalho;

3-  Nascimento do personagem Macunaíma da obra de Mario de Andrade. Na mesma programação destaque para o espancamento sofrido por Renato Correa Rocha, primo de Mario de Andrade e filho da aristocracia local, por um grupo de integralistas;

4-  Chegada de uma leva de imigrantes oriundos de outros países, além de outro grupo de migração brasileira. Provocar um diálogo, entre os dois. Nesse contexto inserir Wallace diretor de teatro como um migrante, que literalmente acaba dominando a cena;

5-  Os Djangos. Referência ao conjunto musical The Jungles que aqui se formou, na década de sessenta, atingindo grande sucesso nacional. Fundir essa apresentação musical com as agitações populares do período no Brasil e no mundo. Contraste entre Jovem Guarda e Música Popular Brasileira;

6-  Cena constituída a partir de eventos econômicos e políticos atuais e recentes, onde aumenta o consumo das classes mais pobres, mas também a chegada de novos investimentos de indústrias, iniciativas capitalistas como as Universidades pagas, expandindo a cidade pelos lados do Shopping Jaraguá, transferindo o polo de desenvolvimento da cidade. Aumenta a riqueza, mas, simultaneamente, a pobreza e a falta de infraestrutura pelos lados Sul;

7-  Finalizando, como antítese, construir cena com a tradição da população que vive do lado alto da cidade, a Vila Xavier; sua cultura, seu modo de vida etc. Grande apoteose.

O objetivo, ainda, é produzir um espetáculo com múltiplas linguagens, (contundente), na cidade que projetou Wallace Valentin Leal Rodrigues para o mundo artístico brasileiro: Araraquara, nas décadas de cinquenta e sessenta. O diretor e cineasta será um mestre sala”, abrindo espaço para uma galeria de personagens históricos e o legado de cada um deles.

Recentemente, em leitura para a montagem do projeto, descobrimos uma raridade histórica e, que tem a ver com a vida de todos os artistas, políticos, ocupantes de cargos de confiança (nas administrações públicas), além dos críticos e a população em geral que sofre agoniada no presente ou, ainda, querendo saber para onde os ideólogos do “País Verde”; autoritários, déspotas e abomináveis que conduziram a Nação Brasileira. Tal documento (descoberto) se trata de um texto do já citado Wallace escrito e publicado, em agosto de 1964, nas “barbas” do Regime Militar e que, em Araraquara tinha os seus representantes espalhados pela estrutura do Poder local. Tal texto (pasmem), por nome “Araraquara - ano de 2017”, onde o autor e, também, diretor do espetáculo “Santo Antônio e a Vaca” já projetava uma cidade, um país (53 anos) à frente. Estamos aqui, agora, para executar a tarefa que Wallace, (em algum lugar do Universo), irá apreciar, com parcimônia e a generosidade que já lhe eram peculiares.

Já em 1965, em uma apresentação no Teatro Municipal, como músico e integrante dos “Intocáveis 65”, numa noite fria de inverno como a atual foi quando conhecemos uma “figura” (com gestos femininos) que, gentilmente, veio cumprimentar os promissores artistas da “Bossa Nova”. Como qualquer jovem, na euforia efêmera e esperança do mundo, demos pouca importância ao exótico senhor, vestindo um charmoso casaco de pele. Era Wallace. Um ano após, portanto, ter sido publicado o referido texto; que deu origem à tentativa de testemunhar o Mundo em que estamos vivendo no atual momento. “Araraquara – Ano 2017”, há cinquenta e três anos atrás, relatava a esperança de que o mundo não seria destruído, ao menos àquele que Wallace conheceu e ajudou a melhorar; temendo por uma hecatombe nuclear que era um perigo eminente, diante da possibilidade de uma Batalha Final. Como testemunhamos, anteriormente, o diretor foi um Socialista Cristão, pouco afeito às estruturas partidárias. Tinha lá a sua simpatia por qualquer pessoa que se dizia de “esquerda”, porém, não tinha “estomago” para digerir os costumes chauvinistas dos mesmos. Quando ele se lembrava da sua aversão, expressava sempre com extremo bom humor finalizando com uma gargalhada, como se dissesse a frase proferida por Caetano Veloso tempos depois - “é esta a juventude que quer fazer a Revolução?”.

No presente, imaginamos um espetáculo dando um testemunho do mundo no presente, “aqui e agora”; um baile que foi, por décadas, a sede da “elite branca” - o Club Araraquarense que, ironicamente, “rebatizaram” como Palácio das Rosas (sic). Nesse baile (numa noite de gala) reúnem-se uma multidão de gente simples, que ali apareceu para se divertir e cultuar a Vida. Esta gente humilde que, durante mais de meio século, só entrava para fazer o “serviço de limpeza” ou “trabalhar na cozinha”.

Neste contexto, simbólico, surge à figura de Wallace para ver como estamos vivendo. No contato com cada um dos personagens, do presente, o diretor fica espantado ao saber aquilo estava acontecendo, do lado de fora do “mundo encantado” que permitiu seu retorno. Seguramente, trata-se da história de Alice ao contrário. Habitado não por animais, mas, por seres que à sua maneira viviam como animais domesticados e, poucos que tinham como função domesticá-los. Enquanto isso, o baile (rola) praticando a generosidade e a utopia cultuada por Wallace.

Conclusão: ao término dessa jornada queremos homenagear e trazer à tona a vida profissional de três grandes artistas que por aqui passaram e deixaram sua marca na produção artística nacional – Ascendido Theodoro Nogueira (músico e compositor), Lívio Abramo (pintor) e Wallace Valentin Leal Rodrigues (teatrólogo, cineasta e diretor de teatro). Outros mais podem entrar nessa lista (vivos ou mortos), no entanto, suas obras são singulares e marca cada um há seu tempo, uma forma de representar a história dos dois séculos que no momento focamos.

 

Descrição detalhado do produto final pretendido

 

Seguindo a tônica da dualidade, da qual gostaríamos de fossemos caracterizados, a proposta de “Dos Campos de Aracoara para o Império do Ensino Pago”, intencionalmente nossa programação tem um aspecto fixo, que sugere uma reflexão sobre tudo o que aqui aconteceu nestes duzentos anos. Para tal, utilizaremos material do anexo I, caracterizados principalmente pela produção do Jornal Macunaíma, editado na década de 90, e que serão expostos (em painéis) como já foi dito no seu inicio;

Na parte viva do projeto, quanto à intervenção, já terá no período de preparação os participantes dos três grupos dos eventos. Neste caso, vale nossa experiência, registrada no anexo dois com os já realizados grandes eventos (em ao menos três oportunidades) “Ato Teatral” (1983); Primeiro de Maio ABC (1989) e 25 anos da morte do jornalista Vladimir Herzog (2000). Participarão do mesmo, ao menos cem jovens e demais, com experiência ou não nas artes já citadas.

PALAVRA FINAL – nosso exercício de intervenção exaustivamente descrito, ao longo do projeto apresentado, é demonstrar que a população marginalizada pode, com orientação segura e determinada, representar coletivamente o seu conteúdo de vida. Individualmente, Ascendino Theodoro Nogueira, Walace V. L. Rodrigues e Lívio Abramo, nos demonstraram isso.

 

ANEXO II

Currículo resumido dos responsáveis pela proposta

MARIO ARACORA - “Dos Campos de Aracoara para o Império do Ensino Pago”.

 

Jair Antonio Alves (Jair Alves) e Suely Pinheiro trabalham juntos, desde há muito, em projetos de Comunicação Social. Ele (o artista) provavelmente o único ator vivo que trabalhou com Walace Leal Valentin Rodrigues, no início de sua carreira em Araraquara, cujo contato resultou no prefácio de um livro “Interrogação e Morte de Deus”, pelo criador do TECA. Já à jornalista e produtora cultural, esteve à frente dos principais eventos que dão sustentação a essa proposta, além ser a editora do “Jornal Macunaima”, também em anexo.

 

Dos eventos principais destacamos “Ato Teatral”, realizado no Teatro Sérgio Cardoso de São Paulo, que contou com sessenta artistas dentre diretores, dramaturgos e atores que levou para o palco os duros anos da Ditadura e que naquele ano (1983) celebrou-se a primeira conquista da democracia com eleições gerais (exceto a presidência da República) que afetou inclusive a cidade de Araraquara com a espetacular eleição democrática que revolucionou o status quo local, na época no ano anterior de 1982;

 

Primeiro de Maio, realizado na cidade de São Bernardo do Campo, sobre as históricas greves, liderados pelos metalúrgicos no ano de 1980;

“Cinco Vezes Vladimir”. Trabalho, também, de grande monta que levou para o palco os acontecimentos que culminaram com a morte do jornalista “Vladimir Herzog”. Nesse ano, 2000, completavam-se 25 anos da morte citada.

 

Todos estes eventos tiveram a característica de servir, como registro de uma guinada importante na vida nacional. No momento não poderia ser diferente. Vivemos uma grande instabilidade política e social que poderá apontar novos rumos. Nos casos citados, o dramaturgo e, também, diretor sempre esteve à frente desses processos.

 

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