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Drogas “ilícitas”: tentando superar a hipocrisia

ou qual o mal maior: a descriminalização ou a violência do narcotráfico?
Luzete Pereira

Vou fazer aqui tão somente um exercício e defender a hipótese de que não existe qualquer interesse em acabar com o tráfico de drogas e que a sua descriminalização se apresenta como a única saída, para por fim à violência decorrente das fracassadas políticas repressivas. Seria também uma forma de a sociedade se repensar, na medida em que o uso indiscriminado da droga funciona como fuga a algo que não está sendo fácil de enfrentar pelos individuos.

Todos nós sabemos que, do ponto de vista individual, o uso indiscriminado de qualquer droga provoca danos à saúde do indivíduo. Este dano se agrava se nossa referência for aquelas drogas classificadas de ilícitas. E é disto que queremos tratar aqui. Estamos falando de cocaína, maconha, ópio, anfetaminas, drogas cujo uso indiscriminado e sem finalidade terapêutica, alteram o estado de consciência do sujeito, a ponto de provocar danos com severas repercussões sobre a vida pessoal do sujeito e estendendo-se sobre a vida familiar. E, do ponto de vista social, todos nós somos vítimas da violência decorrente do flagrante insucesso das políticas de repressão, comandadas desde sempre pelo país que agrega o maior número de usuários.

Apesar de ser um país que reúne as condições mais precisas para ser definido como portador de uma narcoeconomia, os Estados Unidos continuam reunindo o maior número de consumidores de cocaína do mundo, com 2,5% da população viciada na droga, algo em torno de 7 milhões de pessoas, seus sucessivos governos se declaram e assim agem como o grande gestor das políticas mundiais de combate ao narcotráfico.
E é aí que reside a hipocrisia!

Para se entender este aparente paradoxo, é importante saber que a indústria do narcotráfico movimenta entre 750 bilhões de dólares a US$ 1 trilhão, com lucros que não se comparam àqueles obtidos em qualquer outro ramo da produção. E isto sem falar na indústria de combate às drogas e que vai desde a produção de armas, aviões, até as políticas de repressão, à manutenção de presídios e hospitais, além do fornecimento de parte importante dos insumos e compostos químicos destinados a industrialização da droga, o qual rende à economia norte-americana algo em torno de US$ 240 bilhões anuais.

Estes números se elevam se considerarmos dados da revista Newsweek. Ela estima que o capital acumulado, a cada ano, por todas as máfias do mundo é estimado em US$ 3 trilhões, ou seja, mais de 10% de toda produção mundial de bens e serviços.
Talvez esta seja a contribuição mais relevante do neoliberalismo dos anos 90: a abertura indiscriminada dos mercados, a desregulamentação financeira internacional, abrindo as comportas do sistema financeiro mundial para uma enxurrada de narco-dólares que são lavados em paraísos financeiros do Caribe, Uruguai, Argentina, Brasil, Suíça, EUA, Israel. Grandes bancos aceitam de bom grado o que se estima em US$ 1 trilhão de narco-dólares que são lavados anualmente no sistema financeiro mundial.

A parte do leão fica com os países imperialistas que recolhem a maior parte dos lucros deste negócio, enquanto que para os países "produtores de matérias primas", ficam as menores fatias do bolo e, mesmo assim, nas mãos dos grandes traficantes.

A etapa principal do processo está nas mãos dos distribuidores nos grandes centros de consumo (principalmente EUA, que consome 240 toneladas de cocaína por ano, e Europa), em geral controlada pelas máfias destes países, estas raramente denunciadas ou perseguidas. Elas ficam com a maior parte dos lucros do negócio e estima-se que, sozinho, os EUA reciclam US$ 500 bilhões do negócio. Isto transforma os EUA no país onde a narco-economia tem uma importância vital, ocupando, aproximadamente, 5% do PIB e se convertendo no setor mais importante da economia norte-americana. Estima-se que apenas 10% do lucro ficam nos países produtores, enquanto 90% vão para as mãos das máfias que operam dentro dos EUA.

Estudo efetuado pela Secretaria de Fazenda do Estado do Rio de Janeiro "A Economia do Tráfico na Cidade do Rio de Janeiro: Uma Tentativa de Calcular o Valor do Negócio", efetuado em dezembro de 2008, estimou que o tráfico de drogas no Rio de Janeiro, envolvendo maconha, cocaína e crack, fatura entre 316 e 633 milhões de reais por ano.

Portanto, os interesses em jogo são muitos. No que se refere as políticas de combate às drogas, os Estados Unidos servem, novamente como referência. Dados indicam que, entre 1980 e 2000, o orçamento federal passou de 1 bilhão para 18.5 bilhões de dólares. E são reveladores estes dados trazido por Jack Cole. Detetive aposentado da Polícia de Nova Jersey, nos Estados Unidos, ele diz que quando o combate começava, na década de 1970, os estudos apontavam que cerca de 1,3% da população era viciada em algum tipo de droga. Por conta disso, começamos uma guerra, diz ele, com custos de aproximadamente US$ 100 milhões ao ano. Passadas algumas décadas, os gastos que temos nessa área já chegam a US$ 70 bilhões e o percentual de viciados continua nos 1,3%, argumenta.

E, apesar disto, o acesso a droga não é nenhum mistério. Dados de 1999 revelam que estudantes secundários americanos consideram fácil adquirir drogas ilícitas: 88% dos entrevistados disseram que é fácil comprar maconha e 47% afirmaram poder comprar cocaína sem dificuldades. E as coisas não mudaram. No Brasil, a realidade das ruas é suficiente para ilustrar o fato.

Se formos considerar a letalidade das drogas ilícitas, anualmente (para dados por volta do ano 2000) morrem, nos Estados Unidos, aproximadamente 500.000 pessoas em conseqüência do uso de drogas lícitas e apenas 20.000 mortes relacionam-se ao uso de drogas ilícitas. A ponderação dos dados mostra que as drogas lícitas são, de fato, muito mais letais: morrem 506 pessoas em cada 100.000 usuários de álcool e tabaco, contra 166 em cada 100.000 usuários de maconha, cocaína, crack e heroína. Talvez aqui, tenha que se considerar o custo psicológico e social das drogas ilícitas, sem dúvida mais danoso.

As mortes clínicas são superadas pelas mortes decorrentes da violência que ronda as políticas de combate ao tráfico. Nos Estados Unidos, 2/3 dos homicídios envolvendo drogas são provocados por armas de fogo. E aqui o dano é final.

Mas, para o grande gerente do mundo, o mal está nos produtores das matérias primas. São citados os 20 países que, de acordo com o Departamento de Estado norte-americano, são considerados produtores ou plataformas de drogas: Afeganistão, Bahamas, Bolívia, Brasil, Mianmar, Colômbia, República Dominicana, Equador, Guatemala, Haiti, Índia, Jamaica, Laos, México, Nigéria, Paquistão, Panamá, Paraguai, Peru e Venezuela.

Trata-se apenas de mais uma desculpa para criar outra frente de negócios, numa forma clássica de transferência de problema e abrir mais uma frente de exploração. Esta é a hipocrisia. Por exemplo, a pretexto de defender uma política de combate às drogas, Estados Unidos e Colômbia anunciaram, em 31 de agosto de 2000, em Cartágena, o lançamento do Plano Colômbia que, apesar do nome, estendia as ações americanas, desde o início, para o Equador e Peru. Com a eleição de Rafael Correa, o Equador se retirou do processo e revogou a presença dos EUA na base localizada em Manta, no litoral noroeste do país.

A Colômbia previa ceder sete bases em seu território e um investimento de US$7,5bilhão, em cinco anos, para fomentar o desenvolvimento econômico do país e financiar culturas alternativas em substituição às plantações de coca. Mas, do montante, os EstadosUnidos forneceriam apenas U$1,3 bilhão (incluindo U$47 milhões como ajuda ao Equador), e US$4 bilhões seriam providos pelo Governo da Colômbia, US$1.9 bilhão pela Europa e algumas instituições. Essa iniciativa afigurou-se uma estratégia, visando a redesenhar o mapa da América do Sul. Não é à toa que tal “ajuda” tem sido questionada especialmente por Bolívia, Venezuela e Equador, que veem riscos a sua soberania. Mas tal plano também foi levado aos mexicanos.

Oficialmente aprovado em maio de 2008, o Plano México tem um orçamento de 1,4 bilhão de dólares durante três anos e pretende, sobretudo, criar um corredor de capacitação das instituições de segurança mexicanas, estadunidenses e colombianas, numa clara intromissão no gerenciamento do país.

Com essa estratégia, os Estados Unidos visam diminuir a oferta da cocaína em seu país. Mas, além de obter vantagens com a venda de armas e aeronaves norte-americanas,, também ficam livres para exercer o poder na região. Como é o caso do que ocorreu no departamento de Arauca, no oriente colombiano, onde está a segunda riqueza em petróleo do país, explorada pela multinacional dos Estados Unidos Exxon. Ali, o governo estadunidense entregou uma quantidade enorme de recursos para a unidade militar da região e, assim, tratando a população camponesa local como se fosse guerrilha, perseguiram sistematicamente os movimentos sociais que se opunham ao projeto. E, em se tratando de fronteira com a Venezuela, é fácil entender o valor desse investimento.

Atualmente, os EUA mantêm cerca de 820 bases em 60 países. Dispõem de um exército de 1,5 milhões de homens, dos quais 300 mil no exterior, sendo metade no Iraque e no Afeganistão. A outra metade espalha-se por outros países. O Grande Império do Norte gasta em seu aparato bélico o equivalente a 42% dos gastos militares globais, algo próximo a 610 bilhões de dólares.

Muitas são as mentiras. Pouco interessa o combate às drogas. Pouco interessa que as sociedades regulem seu destino. Se alega que a descriminalização da droga fará com que os traficantes se desloquem para outras áreas, inclusive chegando-se ao cúmulo de alegar que isto provocaria desemprego.

Proibir é o que mais interessa. É a única coisa que interessa. Só isto gera os lucros astronômicos que assistimos impávidos. Mas a sociedade e seus homens precisam entender que políticas de prevenção (no Brasil o caso da política de combate à AIDS é exemplar) é a única política que pode dar certo. Orientar. Prevenir. Este é o caminho.

A agressividade tem que mudar de lugar. Tem que ir para a nossa coragem de dizer não. Para a coragem de exigir uma legislação de controle de venda da droga. Para uma política que busque entender porque tantos dos nossos homens precisam desta fuga psicológica que arruína suas vidas. Arruína, sobretudo, porque a violência resulta na única forma de vida permitida por aqueles que alegam defender a sociedade.

E, afinal, por que tantos precisam de drogas para viver? Estamos esquecendo de ensinar que viver é bom, mas não é fácil. É fácil apenas para os aproveitadores da boa fé dos homens ingênuos.


Para fazer este texto usei referências de artigos encontrados nestes endereços:
http://www.brasildefato.com.br/v01/impresso/anteriores/jornal.2009-...
http://cebrapaz.org.br/site/index.php?option=com_content&task=v...
http://www.ucamcesec.com.br/md_art_texto.php?cod_proj=33
http://veja.abril.com.br/idade/educacao/pesquise/drogas/1465.html
http://processocom.wordpress.com/2009/09/14/bases-militares-dos-eua...
http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=40919
http://www.portalpopular.org.br/joomla/index.php?option=com_content...
http://www.pampalivre.info/narcotrafico_maior_negocio_imperialista.htm

Tags: descriminalização, drogas, narcotráfico

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Respostas a este tópico

oi hermê, tava no chat do blog, trocando figurinhas, hihihi.
e vi vc chegando aqui.
acordadão, né?
e eu fazendo hora prá pegar filho em festa, é mole?

ajuda? continuarmos avançando na compreensão do problema, né?
e na superação dos medos...

bejão

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Usando sobretudo o referencial de Walter Benjamin (teórico alemão, inspirador da Escola de Frankfurt) Olgária, ajuda a nos situar, do ponto de vista da filosofia, no tema aqui em debate. Faço aqui uma releitura do que assisti no vídeo indicado pelo Hermeneuta.

Segundo ela, diferentemente do passado movido pela experiência (das viagens, das aventuras, de aventuras das viagens e das paixões) a qual ensejava as trocas consagradas nas narrativas, os homens, na sociedade contemporânea, vivem um tempo vazio, sem ligação com o passado. É um tempo do presente perpétuo, sem tempo de convivência do homem consigo mesmo.

Reinaugurado pelo capitalismo, o mundo é se reduz a mercadorias, e por seus valores de troca e por toda sorte de exibição que esta troca enseja. Tudo transformado em mercadoria e exibição, a troca de experiências entre os homens se torna antiquada e coloca no limbo todos os demais valores morais.
É como se vivesse um estado de exceção com a suspensão de todas as leis positivas e, em nome do bem comum, a guerra substitui a paz, a exibição e a pornografia substituem as relações onde os homens busca(va)m se (auto) conhecer e se identificarem.

Subtrai-se do homem o sentido da vida, desfaz-se o passado e volatiza-se o futuro. Sobre os valores morais, as normas coletivas, prevalecem os particularismos. E, sem coesão social, porque a própria política, o próprio Estado, foi capturado por interesses estritamente individuais, assistimos o advento das “gangues”: gangues dos médicos, dos artistas, dos professores, dos jornalistas, dos engenheiros. Sem que sua própria história seja recepcionada, sem valores a serem trocados, sem experiências a serem compartilhadas, vive-se o vazio, o efêmero, o presentismo.

Vive-se um sentimento de perda, de vazio, de monotonia. E, paradoxalmente, a este sentimento impõe-se a aceleração do tempo. O dia não é suficiente para dar conta das nossas tarefas, mas, ao final, nos perguntamos: o que eu fiz com o meu tempo? Perdemos a capacidade de imaginação e não sabemos o que fazer com o nosso tempo livre.

São tempos cheios de sem sentido. Por isto, eles se afiguram como perdas, como vazios. Um tempo abstrato, porque, sem a qualidade da imaginação, a experiência adquire uma outra conotação em que a aventura, o novo, só pode ser plasmado e se esgota no presente, no aqui e no agora, sem lugar para as sensibilidades.

Por isto são geradas as patologias do excesso: de drogas, de comida, de esportes radicais, liberando uma massa não desprezível de pessoas dispostas ao genocídio, ao suicídio. Somos homens urbanos, sem experiências a serem compartilhadas. Exilados, vive-se a experiência de um tempo vazio e monótono que precisa ser preenchido pelos excessos de consumo. É uma espécie de namoro com a morte.

Resgatar a experiência com o controle do tempo vivido é uma forma de busca de sentido para a vida.

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Luzete, espero não chover no molhado porque não li todos os comentários e pode ser que alguém já tenha dito o que vou dizer agora. A mim parece que um dos grandes entraves para uma discussão mais ampla sobre as drogas é a dificuldade de nos situarmos em função da quase absoluta falta de informações a respeito - falta que também não deixa de ser fruto da racionalização capitalista do trabalho, de um lado pela necessidade de se livrar dos funcionários que usassem drogas, de outro por não poder esperar as discussões definitivas sobre as drogas que certamente seriam muito longas. Com isso perdemos as informações e ganhamos um monte de preconceitos dos quais é sempre mais difícil se livrar. Alguns exemplos de como foram construídos parte desses preconceitos que demonizam tanto o usuário quanto a substância podem ser vistos no documentário abaixo (primeira parte), patético se não fosse trágico:

http://www.youtube.com/watch?v=92KHWIu_AWU

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Cláudia,
de fato nos falta informações, conceitos mesmo, né?
Nos falta informações científicas sobre os efeitos das drogas e sobram preconceitos e os medos de toda espécie. O excelente vídeo que vc postou mostra como o preconceito é construído.

Não vi toda a série, mas no segundo vídeo da série revela o caso de NY, que resistiu à imposição da lei e encomendou estudos sobre os efeitos da maconha. Porque lá, na época, a guerra era contra a maconha ou melhor, contra os mexicanos... (e os olhos se fechavam às demais drogas). E, junto com ela, depois eu acho (o vídeo deve esclarecer) contra o álcool, cuja lei seca ajudou o patriarca dos Kennedys a construir o império que construiu, com os lucros do contrabando que comandava.

Há tempos li que a palavra marihuana era a escolhida pelo governo federal americano para referir-seà droga, porque imediatamente associada aos mexicanos e latinos em geral...

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O Gustavo Cherubine postou este comentário lá no blog do nassif.
Trago para cá. O policial que ele cita é referido no nosso texto.


18/11/2009 às 10:56
Gustavo Cherubine disse:

Car@s, leiam o que o bom e velho Jack Cole disse quando esteve no Brasil…dá-lhe, Jack!

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091024/not_imp455693,0.php

“Cole ainda afirmou que a concentração de forças no combate às drogas diminuiu a eficácia da polícia americana na investigação de outros crimes.”
(…)

e:

http://www.pauloteixeira13.com.br/?p=1818

Jack Cole: “A solução é liberar todas as drogas”

Entrevista a Nelito Fernandes, da revista Época
Ex-policial americano que prendeu mil traficantes como infiltrado diz por que reprimir não resolve
Ele passou 14 de seus 71 anos infiltrado em grupos de traficantes de Nova Jersey, nos Estados Unidos. Hoje, anda com um broche em que está escrito “Policiais dizem: legalizem as drogas. Pergunte-me por quê”. Se você perguntar, ele lhe dará uma série de estatísticas. Se a conversa durar um pouco mais, Cole contará sua história de vida. Em sua última missão, Cole saiu de casa quando a filha tinha 12 anos e só tornou a vê-la aos 14. Revoltada e acreditando ter sido abandonada, ela só voltou a falar com o pai quando fez 21 anos. Hoje, Cole dirige uma ONG que reúne juízes, promotores e policiais em 76 países, todos a favor da legalização das drogas. Nesta entrevista a Época, ele lista seus motivos para defender a liberalização – e as razões para o fracasso da política antidrogas dos EUA.
Quem é
Tenente aposentado da divisão de narcóticos da polícia americana. Tem 71 anos. É casado e tem três filhos
O que fez
Trabalhou por 14 anos como agente infiltrado para combater o tráfico de drogas em Nova Jersey. É um dos fundadores e atual diretor executivo da ONG Law Enforcement Against Prohibition (Leap), uma organização que reúne policiais, juízes e promotores pela liberação das drogas. Percorre o mundo dando palestras

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(como o tema não se esgotou, achei interessante trazer prá cá o debate que está se dando sobre o assunto)

Devidamente autorizada pelo Jotavê, um comentarista do blog do nassif, coloco aqui o comentário muito interessante que ele fez, a propósito do artigo de FHC sobre o tema e que o nassif colocou como post.

Diz ele:
6/12/2009 às 10:59Uma primeira providência urgentíssima: começarmos a repor a linguagem nos trilhos. A politica antidrogas embaralhou os conceitos, produzindo confusões, e travando o debate em maçarocas verbais com pouco ou nenhum sentido. Exemplo: a palavra “vício”. Quando você aplica a mesma palavra para descrever reações físicas e psicológicas que seriam comuns ao crack e à maconha, o resultado não pode ser bom. Nunca conheci ninguém que fosse “viciado” em maconha no mesmo sentido em que se pode ser viciado em cigarro, cocaína, bebida e crack (nessa ordem). Todas (absolutamente todas) as pessoas que conheci e que fumavam maconha habitualmente (e foram várias dezenas) pararam sem nenhum problema, quando bem entenderam. Do dia para a noite. Sem piscar. Decidiram parar, e pararam. Nada a ver, por exemplo, com a luta heróica que uma pessoa tem que travar com a bebida para largar o vício. Ou com a luta quase sempre inglória contra o vício (aí, sim – vício, com todas as letras) do crack.

O conceito de “dependência psicológica”, por exemplo, é risível. Serve apenas para esticar o conceito de “vício” até torná-lo completamente inútil como instrumento para recortar a realidade. Dependência psicológica é, se entendo bem, aquilo que liga uma menina a seu ursinho. Não pode passar sem ele, embora não apresente nada que pudesse ser classificado como síndrome de abstinência. Tudo bem querer aplicar o conceito ao hábito de fumar maconha. Mas tudo fica embaralhado se subordinamos a tal dependência psicológica ao conceito de “vício”. Alguém colocaria o ursinho da menina no mesmo compartimento do crack? Pois é. Fazem isso com a maconha.

O perigo da maconha é outro. Ativa, em algumas pessoas, um botãozinho psicológico perigoso. Em mim, por exemplo, ativou. Até hoje, vinte e cinco anos depois de ter fumado o último baseado, ainda sinto os efeitos, ao longe. No João Gilberto, se acreditarmos na descrição feita pelo Nélson Motta, também. Fica paranóico. Nâo suporta ver outra pessoa. Tranca-se num quarto, e só consegue ficar jogando baralho por baixo da porta, sem ver o rosto do outro. É raro, pelo que pude observar ao longo da vida. Mas pode acontecer, e pode ser psicologicamente perigoso. (Não sei se o João Gilberto ainda fuma. Se fuma, para mim é um mistério como ele consegue fazer isso. O pavor do outro é socialmente incapacitante. Um inferno.)

Concordo com o ex-presidente quando ele diz que é muito mais interessante termos um discurso lúcido, franco, dirigido principalmente aos adolescentes. Mas é preciso limpar o terreno. Se chegar na TV falando que maconha “vicia”, qualquer um que tenha um mínimo de conhecimento de trato irá dar risada por dentro. Aí, quando você tentar convencer esse mesmo Fulano de que crack vicia, ele pode achar que é baboseira. Só que não é. Vicia, e vicia MESMO.

Outra baboseira: dizer que maconha “leva” à cocaína, que “leva” ao crack. Médicos deveriam ter vergonha de dar o seu aval para uma mentira tão deslavada como essa. A mentira não está em se dizer que usuários de maconha “tendem” a também usar cocaína. Tendem, mesmo. Mas isso nada tem a ver com a química da maconha ou da cocaína. Tem a ver com o ponto de venda. Você compra maconha no mesmo lugar em que compra cocaína. É isso que “leva” de uma coisa à outra. Se sabão em pó fosse vendido por traficante, e não em supermercaods, também “levaria” à cocaína e ao crack, pelos mesmíssimos motivos.

Antes de começar a discutir o assunto, portanto, é preciso afastar essa nuvem de simplificações grosseiras que se formou em torno dele. Sem isso, nosso discurso parecerá um porquinho-da-índia na gaiola, brincando de passear numa roda que nunca sai do lugar.

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E o artigo do ex-presidente:
Fernando Henrique Cardoso

Um dos temas mais difíceis do mundo contemporâneo é o que fazer com o uso de drogas. Existem algumas comprovações bem estabelecidas sobre a questão. Se é verdade que sempre houve consumo de diferentes tipos de drogas em culturas muito diversas – embora não em todas -, não menos verdade é que ele no geral se deu em âmbito restrito e socialmente regulamentado, principalmente em cerimônias rituais. Não é esse o caso contemporâneo: o uso de drogas se disseminou em vários níveis da sociedade, com motivações hedonísticas; no mais das vezes, sem aprovação social, embora, dependendo da droga, haja certa leniência quanto aos usuários.

Sabe-se também que todas as drogas são nocivas à saúde, mesmo as lícitas, como o álcool e o tabaco. E que algumas são mais nocivas do que outras, como a heroína e o crack. A discussão sobre se o consumo de drogas mais fracas induz ao de outras mais fortes é questão médica sobre a qual não há consenso. Para fins de política pública o importante a reter é que as drogas produzem consequências negativas tanto para o usuário quanto para a sociedade e que reduzir ao máximo o seu consumo deve ser o principal objetivo.

A discussão, portanto, é sobre diferentes estratégias para atingir o mesmo objetivo. Até agora a estratégia dominante tem sido a chamada “guerra às drogas”. Foi sob a sua égide, sustentada fundamentalmente pelos Estados Unidos, que as Nações Unidas firmaram convênios para generalizar a criminalização do uso e a repressão da produção e do tráfico de drogas.

Decorridos dez anos, a agência da ONU dedicada às drogas reuniu-se este ano em Viena para avaliar os resultados obtidos pela política de “guerra às drogas”. Simultaneamente, na Europa e na América Latina, comissões de personalidades independentes fizeram o mesmo, apoiando-se em análises preparadas por especialistas. Eu copresidi com os ex-presidentes da Colômbia e do México, respectivamente César Gaviria e Ernesto Zedillo, a comissão latino-americana. Nossa conclusão foi simples e direta: estamos perdendo a guerra contra as drogas e, a continuarmos com a mesma estratégia, conseguiremos apenas deslocar campos de cultivos e sedes de cartéis de umas para outras regiões, sem redução da violência e da corrupção que a indústria da droga produz. Logo, em lugar de teimar irrefletidamente na mesma estratégia, que não tem conseguido reduzir a lucratividade e, consequentemente, o poderio da indústria da droga, por que não mudar a abordagem? Por que não concentrar nossos esforços na redução do consumo e na diminuição dos danos causados pelo flagelo pessoal e social das drogas? Isso sem descuidar da repressão, mas dando-lhe foco: combater o crime organizado e a corrupção, em vez de botar nas cadeias muitos milhares de usuários de drogas.

Em todo o mundo se observa um afastamento do modelo puramente coercitivo, inclusive em alguns Estados americanos. Em Portugal, onde desde 2001 vigora um modelo calcado na prevenção, na assistência e na reabilitação, diziam os críticos que o consumo de drogas explodiria. Não foi o que se verificou. Ao contrário, houve redução, em especial entre jovens de 15 a 19 anos. Seria simplista, porém, propor que imitássemos aqui as experiências de outros países, sem maiores considerações.

No Brasil, não há produção de drogas em grande escala, exceto maconha. O que existe é o controle territorial por traficantes abastecidos principalmente do exterior. Dada a miserabilidade e a falta de emprego nas cidades, formam-se amplas redes de traficantes, distribuidores e consumidores que recrutam seus aderentes com facilidade. O País tornou-se um grande mercado consumidor, alimentado principalmente pelas classes de renda média e alta, e não apenas rota de passagem do tráfico. Enquanto houver demanda e lucratividade em alta será difícil deter a atração que o tráfico exerce para uma massa de jovens, muitos quase crianças, das camadas pobres da população.

A situação é apavorante. O medo impera nas favelas do Rio. Os chefões do tráfico impõem regras próprias e “sentenciam”, mesmo à morte, quem as desrespeita. A polícia, com as exceções, ou se “ajeita” com o tráfico ou, quando entra, é para matar. A “bala perdida” pode ter saído da pistola de um bandido ou de um policial. Para a mãe da vítima, muitas vezes inocente, dá no mesmo. E quanto à Justiça, não chega a tomar conhecimento do assassinato. Quando o usuário é preso, seja ou não um distribuidor, passa um bom tempo na cadeia, pois a alegação policial será sempre a de que portava mais droga do que o permitido para consumo individual. Resultado: o usuário será condenado como “avião” e tanto quanto este, ao sair, estigmatizado e sem oferta de emprego, voltará à rede das drogas.

É diante dessa situação que se impõem mudanças. Primeiro: o reconhecimento de que, se há droga no morro e nos mocós das cidades, o comércio rentável da droga é obtido no asfalto. É o consumo das classes médias e altas que fornece o dinheiro para o crime e a corrupção. Somos todos responsáveis. Segundo: por que não “abrir o jogo”, como fizemos com a aids e o tabaco, não só por intermédio de campanhas públicas pela TV, mas na conversa cotidiana nas famílias, no trabalho e nas escolas? Por que não utilizar as experiências dos que, na cadeia ou fora dela, podem testemunhar as ilusões da euforia das drogas? Não há receitas ou respostas fáceis. Pode-se descriminalizar o consumo, deixando o usuário livre da prisão. As experiências mais bem-sucedidas têm sido as que vêm em nome da paz, e não da guerra: é a polícia pacificadora do Rio de Janeiro, não a matadora, que leva esperança às vítimas das redes de droga. Há projetos no governo e no Congresso para evitar a extorsão do usuário e para distinguir gradações de pena entre os bandidos e suas vítimas, mesmo quando “aviões”, desde que sejam réus primários. Vamos discuti-los e alertar o País.

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e para quem quiser saber tudo o que foi discutido no post do blog do nassif, a partir do artigo de FHC, fica aqui o link:
http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/12/06/o-desafio-das-dro...


ou então o link direto

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O FHC tá lendo a Luzete!!!

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Bom Maestri, não faria mal nenhum à aquele arrogante aprender um pouquinho. Um abraço.

Responder esta

Este material foi postado no blog do nassif. Trago prá cá com a intenção de reunir mais material que comprovam que o buraco é mesmo muito mais embaixo... e, adicionalmente, comprova o quanto somos mesmo puritanos...


O crime organizado e a banca
postado por Henrique

Banca sobreviveu graças ao tráfico de droga, acusa ONUPublicado em 14/12/ 2009

Perto de 240 mil milhões de euros em dinheiro sujo evitou um colapso ainda maior, diz responsável da ONU pelo combate ao crime

O máximo responsável da ONU pelo combate ao crime e ao tráfico de droga, o italiano Antonio Maria Costa, acusou o sistema financeiro de ter recebido dinheiro sujo como forma de resolver os problemas de liquidez que enfrentava. “Os empréstimos interbancários foram financiados por dinheiro vindo do tráfico de droga e outras actividades ilegais”, acusou ontem em declarações ao “Observer”. Ao todo, calcula em 352 mil milhões de dólares (240 mil milhões de euros) o capital ilícito que terá entrado no sistema financeiro durante a crise.

Segundo o mesmo responsável, a ONU já viu provas de que o único “investimento líquido de capital” que foi disponibilizado a alguns bancos veio de gangues de crime organizado, algo para o qual foi alertado por agências de combate ao crime há cerca de 18 meses. “Em muitos casos, o dinheiro da droga era a única liquidez disponível. Na segunda metade de 2008, a falta de liquidez era o maior problema do sistema bancário, logo ter liquidez em capital tornou-se um factor muito importante”, salientou ao jornal britânico. Antonio Maria Costa revelou que algumas das provas a que o seu departamento teve acesso mostram que muito deste dinheiro sujo foi mesmo aproveitado para salvar algumas instituições financeiras em risco devido ao congelamento dos empréstimos interbancários. “Há alguns sinais que alguns bancos foram assim salvos”, acusa sem pruridos, negando-se porém a nomear bancos ou países que possam estar envolvidos. “O dinheiro faz agora parte do sistema e já foi lavado”, aponta mesmo.

“Houve um momento, no ano passado, quando o sistema paralisou devido à falta de vontade dos bancos em emprestar dinheiro ao resto do sector. A progressiva reliquidação do sistema, e consequente melhoria de alguns bancos, veio tornar o problema menos sério do que chegou a ser”, referiu o Czar anticrime da ONU, conforme o “Observer” chama Antonio Maria Costa. Segundo estudos da ONU, Grã-Bretanha, Suíça, Itália e Estados Unidos são ser os mercados mais utilizados para lavagens de dinheiro.

Portugal exemplar Questionado pelo i a propósito das acusações da ONU ao sistema bancário, António de Sousa, presidente da Associação Portuguesa de Bancos, refere que “Portugal é considerado um dos países que cumpre de forma rigorosa todos os aspectos ligados ao branqueamento de capitais”. E lembrou ainda a existência de “estudos realizados por organizações internacionais” que atribuem ao país “a melhor classificação nesse âmbito e referem que o nosso país respeita integralmente todas as regras impostas a nível internacional de forma exemplar”.

Já a associação britânica de bancos exigiu a apresentação das provas referidas pela ONU.

http://www.ionline.pt/conteudo/37348-banca-sobreviveu-gracas-ao-tra...

The Observer
http://www.guardian.co.uk/global/2009/dec/13/drug-money-banks-saved...

La Jornada
http://www.jornada.unam.mx/2009/12/16/index.php?section=opinion&...

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AO FAZER ESTA POSTAGEM EM INGLÊS, O FAÇO PARA MANTER REUNIDAS MAIS FONTES SOBRE O TEMA.
Ele foi postado por Jura, no blog do nassif, com esta consideração:

19/12/2009 - 00:41
O potencial de corrupção do tráfico
Por Jura
Nassif,

Só para ilustrar o poder de corrupção que o lucro desmedido tem – não o dinheiro em si . Oficiais da imigração americana são facilmente corrompidos pelo narcotrafico, da mesma forma que ocorre em qualquer outro lugar onde o trafico é tão lucrativo. Qualquer outra atividade econômica, mesmo lícita, que detenha tal concentração de rendimento, possui o mesmo potencial de corrupção, em qualquer lugar. Lógico que o que muda são as condições de controle dessas atividades em cada lugar. No Brasil, por exemplo, é fácil elencar as atividades econômicas, lícitas ou ilícitas cujo rendimento elevado é o principal motor da corrupção. Nesse campo, infelizmente o setor público ombreia com o crime organizado.

Fonte:http://www.nytimes.com/2009/12/18/us/18corrupt.html?_r=1&th&...

O texto do NYTIMES é este:

By RANDAL C. ARCHIBOLD
Published: December 17, 2009
SAN DIEGO — At first, Luis F. Alarid seemed well on his way to becoming a customs agency success story. He had risen from a childhood of poverty and foster homes, some of them abusive, earned praise and commendations while serving in the Army and the Marines, including two tours in Iraq, and returned to Southern California to fulfill a goal of serving in law enforcement.

But, early last year, after just a few months as a customs inspector, he was waving in trucks from Mexico carrying loads of marijuana and illegal immigrants. He pocketed some $200,000 in cash that paid for, as far as the government could tell, a $15,000 motorcycle, flat-screen televisions, a laptop computer and more.

Some investigators believe that Mr. Alarid, 32, who was paid off by a Mexican smuggling crew that included several members of his family, intended to work for smugglers all along. At one point, Mr. Alarid, who was sentenced to seven years in federal prison in February, told investigators that he had researched just how much prison time he might get for his crimes and believed, as investigators later reported, that he could do it “standing on his head.”

Mr. Alarid’s case is not the only one that has law enforcement officials worried that Mexican traffickers — facing beefed-up security on the border that now includes miles of new fencing, floodlights, drones, motion sensors and cameras — have stepped up their efforts to corrupt the border police.

They research potential targets, anticorruption investigators said, exploiting the cross-border clans and relationships that define the region, offering money, sex, whatever it takes. But, with the border police in the midst of a hiring boom, law enforcement officers believe that traffickers are pulling out the stops, even soliciting some of their own operatives to apply for jobs.

“In some ways,” said Keith Slotter, the agent in charge of the F.B.I.’s San Diego office, “it’s like the old spy game between the old Soviet Union and the U.S. — trying to compromise each other’s spies.”
James Tomsheck, the assistant commissioner for internal affairs at Customs and Border Protection, and other investigators said they had seen many signs that the drug organizations were making a concerted effort to infiltrate the ranks.

“We are very concerned,” Mr. Tomsheck said. “There have been verifiable instances where people were directed to C.B.P. to apply for positions only for the purpose of enhancing the goals of criminal organizations. They had been selected because they had no criminal record; a background investigation would not develop derogatory information.”

During a federal trial of a recently hired Border Patrol agent this year, one drug trafficker with ties to organized crime in Mexico described how he had enticed the agent, a close friend from high school in Del Rio, Tex., who was entering the training academy, to join his crew smuggling tons of marijuana into Texas.

The agent, Raquel Esquivel, 25, was sentenced to 15 years in prison last week for tipping smugglers on where border guards were and suggesting how they could avoid getting caught.

The smuggler, Diego Esquivel, who is not related to the agent, said he told her that her decision to enter the academy was a good career move and, he said, “I thought it was good for me, too.”

Under the Bush administration, the United States has spent billions of dollars — $11 billion this year alone for Customs and Border Protection — to tighten the border between the United States and Mexico, building up physical barriers and going on a hiring spree to develop the nation’s largest law enforcement agency to patrol the area.

But the battle for survival among cartels in Mexico, in which thousands of people, mostly in the drug trade or fighting it, have been killed, has only led drug traffickers to redouble their efforts to get their drugs to market in the United States.

Along the border, many residents have family members on both sides. Generations of residents have been accustomed to passing back and forth relatively freely, often daily, and exchanging goods, legal or not.

Federal officials believe that drug traffickers are seeking to exploit those ties more than ever, urging family and friends on the American side to take advantage of the hiring rush for customs agents. The majority of agents and officers stay out of crime. But smuggling can be appealing. The average officer makes $70,000 a year, a sum that can be dwarfed by what smugglers pay to get just a few trucks full of drugs into the United States

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