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Gostaria de discutir sobre a educação, principalmente das escolas públicas no que se refere ao Bolsa escola, bolsa família.Será que isso é uma solução? Fazer de conta que os pais gastam com material escolar, merenda para seus filhos e que os alunos assistidos estão realmente nas salas de aula assimilando eficazmente o conteúdo ou também estão fazendo de conta?!
A realidade não é como se apresenta.

Tags: educação

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Respostas a este tópico

Ola, Silvia

não sou especialista no assunto, apenas profissional da saúde que atende crianças com transtornos de aprendizagem, e em função disso visitei muitas escolas da rede pública, porém com o foco nas "minhas" crianças.

Acho que as estratégias como Bolsa Escola visam a amenizar um aspecto da vida escolar desses indivíduos, no sentido de prover recursos mínimos para que se mantenham estudando. E, infelizmente, acho que o país ainda precisa muito de estratégias assistencialistas. Agora, estando essas crianças dentro de sala de aula, a qualidade do ensino que é oferecido a elas não me parece ser foco do Bolsa Escola. Concordo que aí reside um problema dos mais essenciais, e estratégias eficazes e eficientes devem ser criadas para cobrir esse aspecto.

Bom, como eu disse, é minha opinião, sem muita fundamentação. Talvez alguém consiga disponibilizar mais informações.

De qualquer forma, acho que é um bom ponto esse que você levantou. Um abraço!

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Prezada Silvia,
Também tenho pensado muito sobre a questão do assistencialismo na Educação. Trabalho com escolas públicas, em especial carentes e o que percebo é a falta de preparo, conscientização das pessoas/famílias beneficiadas pelo Bolsa família, primeiro porque não há um controle de onde/como se gasta o benefício, pois, a maioria utiliza para comprar bebidas e cigarros. Lembro do Programa de Cestas Básicas de alguns anos atrás, apesar de ter presenciado pais de família trocando o leite que recebia por cachaça em bar ainda era mais provável que o "que comer" estava garantido, porque nem tudo era trocado. (nessa ocasião questionei o dono do Bar, e a resposta foi: "se eu não trocar outro troca, ele quer a bebida, eu tenho criança pequena em casa") é muito triste essa questão sobrevivência.
Hoje, as crianças matriculadas, recebem material escolar (adquirido pelo município e escolas), merenda de qualidade e principalmente os adolescentes vão para a escola obrigados, não querem participar de nada, dizem que odeiam a escola e nós (professores) que queremos que estejam lá, que "aguentem", e nos desafiam de todas as formas para perdemos a paciência e pedirmos para se retirarem da Escola, aí começa toda uma novela, onde entra Ministério Público, Polícia, Conselho Tutelar, Psicólogos... e a Escola é obrigada a responder por tudo e com isso acaba deixando de lado sua única e verdadeira função "educar" ou melhor complementar uma educação que deveria ter início na família, que há muito deixou de exercer o seu papel, já que é mais fácil, não ter emprego, afinal, auxílio desemprego, bolsa família, vale gás e aqui no PR, Programa do Leite (distribuido 3 vezes por semana) garantem a sobreviviência...
Enquanto não se resgatar a dignidade dessas pessoas, não se ensinar a pescar em vez de dar o peixe, estaremos colaborando para uma sociedade cada vez mais desigual e aumentando a exclusão, em todos os sentidos.

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Letícia, concordo com você. As ações assistenciais muitas vezes dão margem a essas distorções, e por isso acredito no caráter transitório das mesmas. Mas até esse "mau uso" da assistência está relacionada à educação, em um sentido mais amplo, não é verdade? Educação da sociedade, noções de cidadania, que a gente deveria aprender em casa e na escola.

Concordo também que os educadores têm diante de si um problema cuja complexidade extrapola sua competência. Aos professores (e demais educadores) não são asseguradas as condições necessárias para viver com dignidade e exercer sua função, que é tão essencial. Como entrar para a sala de aula, enfrentar a "agitação" de alunos (que muitas vezes transferem para a escola as frustrações que vivem fora dela) e transmitir conhecimento, quando você não se sente seguro e saudável? Entendo a dificuldade disso, e sou a favor de toda e qualquer medida que melhore as condições de vida e trabalho dos educadores, para que eles possam cumprir a missão de "ensinar a pescar".

Só acho que isso não se mistura, em princípio, com recursos assistenciais, como o Bolsa Escola. O recurso, isoladamente, é que não dá conta de suprir todas essas demandas, e nem acho que se propõe a isso. Espero que chegue o momento em que tais medidas não sejam mais necessárias, e que mais esforços se concentrem em melhorar as condições de educação. Abraço!

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Gostaria de ver a pesquisa estatística que averiguou que a maioria dos destinatários da Bolsa Escola gastam o dinheiro com bebidas e cigarros. Ou você está só dando vazão a seus preconceitos?

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Prezada Anarquista Lúcida,
Pesquisa?
Quando se está aqui na base trabalhando e convivendo diariamente com as pessoas, vendo suas angústias e necessidades não há tempo para pesquisas. Falo baseada em experiências que adquiri ao longo de 27 anos de Magistério. Se tivesse tempo ficaria um dia inteiro te relatando situações que vivenciei, como de uma família que há mais de 3 anos deixou de receber o benefício por “um erro” do responsável (na época) por repassar as informações ao Programa, teve o cartão cancelado e nunca mais conseguimos provar que a mesma tem direito e precisa, afinal são 8 pessoas (5 adolescentes) morando em um espaço de 4 metros quadrados, onde todos são obrigados a trabalhar para sobreviver. Quando me refiro a falta de preparo das pessoas que recebem o benefício, o faço pelo que vejo, por exemplo: tínhamos o pai de um aluno construindo o muro da escola, um dia ele abandonou o muro inacabado porque havia recebido o “Bolsa Família” e disse que não precisava mais trabalhar, infelizmente a cultura do somar, não faz parte do dia a dia de quem não tem nada e é isso que questiono, a falta de perspectiva de vida, de futuro.
À que preconceitos você acredita que estou dando vazão?
Será que acreditar que é possível acabar com a desigualdade, pensar que é possível construir uma sociedade mais justa, menos alienada é preconceito?
Me desculpe, mas, a minha estatística é constatação diária, quando adolescentes carentes tentam me provar que ser “bandido” é melhor que trabalhar honestamente, porque para eles não importa o amanhã, não tem perspectivas, esperanças.
E esses adolescentes estão “na Escola” é porque o Bolsa Família é vinculado a frequência em sala de aula, e aí, nós professores temos alunos que nos desrespeitam, xingam e agridem diariamente; nos dizem que estão ali porque são obrigados, isso quando não respondem a chamada e saem da sala nos ameaçando, caso recebam falta.
É fácil questionar quando não se tem a dimensão exata do problema, e isso nem é uma crítica, porque acho que as coisas estariam bem piores não fosse o assistencialismo dos Governos, afinal, dar o peixe é cultural em nosso País.
Cordiais saudações,
Letícia

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Olá Raquel!! Se o objetivo do bolsa escola é amenizar o aspecto da vida escolar, o governo deveria dar ao trabalhador condições de capacitação profissional, escolaridade para todos a partir também de projetos sobre como levantar a moral e a auto estima dos mesmos. Ou seja, meios de desenvolvimento humano e profissional.
Olha, uma vez, a diretora me chamou à direção no fim do ano e questionou sobre a possibilidade de uma aluna passar, sem ter contudo, frequentado as aulas. Eu disse que não, pois se ela não participava das aulas, não tinha absorvido nenhum conhecimento. Sendo assim, seria impossível. A mãe deu grito e disse:-Se você não passar minha filha, ela vai perder o bolsa escola. Você tem que dá um jeito nas faltas dela, se não eu darei parte de você na regional(uma parte da prefeitura) como péssima professora e que você não estava dando a presença da minha filha.
A diretora indignada disse: Então vá! A frequência dos alunos vai todos os meses. E os demais alunos sabem que ela não frequentou.Já são testemunhos.
A mãe respondeu: - Eu já fiz isso na outra escola do meu filho e a professora foi chamada e até agora recebo o bolsa escola. Por que não daria certo aqui? Não posso perder o bolsa escola! Eu é que não vou obrigar aos meus filhos assistir todos os dias as aulas. Eles não vão ser nada mesmo.
E são histórias como essa- e muitas mais-que os professores são obrigados a passar seus filhos, mesmo não estando presentes, pois senão são chamados e questionados sobre suas metodologias, por seu jeito de ser, etc. O educador hoje em dia não é respeitado como tal. Os pais por mais negligentes que sejam, sempre têm razão. Vocês já chegaram ao colégio para trabalhar e um punhado de pais estão à porta "esculhambando" os professores porque os alunos não levam tarefas para casa, quando na verdade, as tarefas eles escondem ou soltam pelo caminho de casa porque sabem que não tem quem os ensinem ou não querem mesmo fazer?!
Gente, o problema é sério! Não adianta dar o peixe. O importante é ensiná-lo a pescar.
Abraços! Sil.

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É, Silvia, eu entendo. Esse seu relato me fez refletir bastante. Continuo achando que o problema não é o Bolsa-escola, mas você mostrou um exemplo de como esse benefício pode ser distorcido e, mais uma vez, a bomba estoura na mão dos educadores. Talvez os dispositivos assistenciais, se lançados isoladamente, tenham uma eficácia muito pequena, e talvez só seja válido lançar mão desses recursos se for para lançar uma outra medida simultânea, como por exemplo melhorar as condições de trabalho dos professores. Mas aí acho que valeria a pena a gente ter dados mais concretos do que é mais frequente: o bolsa-escola atingir seu objetivo ou ser usado de maneira distorcida? Porque talvez essas distorções sejam frequentes, mas pode ser que o bolsa-escola tenha trazido algum ganho significativo, e, se for esse o caso, isso não pode ser desconsiderado.

Repito: não acho que ações assistenciais devam ser permanentes, e acho que elas devem fazer parte de um projeto que atinja vários focos problemáticos ao mesmo tempo. Mas ainda reconheço a pertinência desses recursos, na atual conjuntura do país.

Agradeço seu depoimento, acho muito bom conhecer as diversas realidades. Sei que a situação é difícil e que o fardo é pesado, mas reconheço o mérito do seu trabalho e peço para que siga na caminhada. Abraços!

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Pessoal, resolvi buscar algumas informações a mais. Achei bastante coisa, não dá pra passar tudo aqui.
Bom, pra início de conversa temos que colocar aqui que o Bolsa Escola foi "incorporado" pelo Bolsa Família, então as informações mais atualizadas no portal do MDS estão sob esse título. Estão disponíveis diversas informações, em termos de resultados e estatísticas, separadas por estados ou municípios, acho que vale a pena dar uma olhada. Não encontrei lá, em minha busca superficial, nenhum indicador que informe sobre desfechos em educação, mas acho que vale a pena uma "imersão" no portal, até pra gente saber mais. http://www.mds.gov.br/bolsafamilia/

Letícia, acho que seus relatos são válidos, mas sugiro que você busque as instâncias de controle social da sua região (se ainda não o fez), e coloque essas questões. Acho que nesse âmbito você poderá contribuir para a construção de novas medidas. Aqui, no fórum, podemos apenas debater e lamentar que você tenha tido tais vivências negativas.

Bem, além da visita ao portal do MDS, fiz uma busca no scielo e pincei dois artigos, um de 2003, referente ao Bolsa Escola, e outro de 2009, sobre o Bolsa Família, este um pouco mais árduo, analisando a questão do ponto de vista econômico, mas apontando para conclusões que acho que têm a ver com o que você propõe, Letícia. Seguem as referências:

Bolsa Escola 2003
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-24...
Bolsa Família
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0011-52...

Abraços!

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Obrigada, Raquel.
Excelentes artigos.
Ótimo ferido para vc e sua família!
Abs,
Letícia

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Fico feliz que tenha gostado. Bom feriado pra você e para os seus também! Abs

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Obrigada, Raquel, por ser uma "voz" consciente e que busca fundamentação.
Você deve ter visto no site do governo federal que o bolsa família é mais que escola, mesmo que a escola que nós fazemos não seja a ideal. Mas é melhor uma criança dentro de um ambiente educador, mesmo com suas falhas - que, como já foi dito, é uma outra discussão -, do que na rua.
A idéia é cercar com educação, saúde, entre outras coisas. Se as pessoas responsáveis em cada cidade não estão fazendo sua parte, também é outra discussão.
Acredito que haja problemas mas eles vão muito além.

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Há que se considerar várias coisas, mas duas em primeiro lugar:

A escola em si, tem de funcionar como escola. As crianças que estão lá, com ou sem bolsa, devem sair sabendo ler, escrever e pesquisar. No mínimo! E digo isso porque, sendo professor, tenho razoavelmente claro qual é o tamanho do buraco. Muitos jovens passam por oito anos de estudos sem ler. Daqui para diante, o campo é obscuro, difícil dizer com verdade se o problema é o aluno ou o professor, ou os dois, ou ainda a tal "família desestruturada", uma das lendas escolares mais bem sucedidas ou mesmo a sociedade capitalista, baseada na livre concorrência, que trata como lixo os "perdedores", que de fato acabam incorporando a idéia de que são lixo mesmo.

A segunda coisa a considerar é que infelizmente ainda há fome e miséria inimagináveis nesse país, inclusive nas grandes e médias cidades. Dou aula em um município litorâneo e muitos alunos nem sabem onde fica a praia. Muitos não sabem o que é um cinema, moram em palafitas no mangue, ainda filhos do processo de urbanização que nunca termina nem se estabelece nesse fim de mundo capitalista periférico. Inevitavelmente se pergunta: a culpa é do governo? De qual governo? Do que oferece bolsa ou do que não oferece?

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