Escolas podem fazer seu próprio "kit" contra a homofobia

Ao contrário dos jornalistas, parlamentares cristãos e alguns "intelectuais" que lhes servem de muleta para corroborar os preconceitos, qualquer Professor tem condições de analisar uma situação da vida real, extrair dela um sentido pedagógico e criar a partir daí um plano de trabalho com objetivos educacionais específicos.

Assim, independente do MEC ter que se submeter a um desmando da presidenta Dilma, qualquer escola pode debater e construir seu próprio Programa de Combate à Homofobia na Sala de Aula, vulgarmente (e erroneamente) conhecido como "kit anti-homofobia".

Com certeza, abordar o tema da homofobia e da homoafetividade na escola não é tarefa fácil, daí então que material em elaboração pelo MEC era uma ótima iniciativa que ajudaria sobremaneira o professor. Mas como esse auxílio providencial se encontra hoje ameaçado, um ou mais professores podem aproveitar os passos iniciais já conhecidos do MEC; os debates em torno do tema e de sua adequação e até as manifestações homofóbicas que pululam na imprensa e na internet para criar planejamentos e intervenções pedagógicas tão boas ou até melhores.

Sugiro fazermos coletivamente este trabalho, colhendo textos, vídeos e outros materiais interessantes, que sucitem a discussão entre adolescentes, tendo como ponto de partida a proposta original do MEC de combate à homofobia em escolas do ensino médio por meio da reflexão e do debate, de maneira a construir uma relação de austeridade com o "outro" (no caso, o homossexual).

Esse material, evidentemente, ajuda o adolescente a lidar com outros preconceitos e a reconhecê-los na sociedade.

Podemos começar a discussão qualificada em qualquer espaço, como aqui. Dando subsídio para que a escola ensine de maneira reflexiva como identificar e lidar com o próprio preconceito.

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Caro Jaime

 

Não estava entrando no debate do combate a homofobia porque algo estava me incomodando, sentia a necessidade de se levar adiante este combate, entretanto não sabia porque não concordava com a discussão que estava sendo levantada, lendo o que escreveste vi bem claro o que estava sentindo, e concordo contigo que faz bem mais sentido os próprios professores montarem seus próprios kits do que receberem um "manual" de como combater a homofobia.

Vou explicar o meu ponto de vista, acho que é mais conveniente que se cada professor tiver mais tempo e um material básico, e não um KIT, cada um dentro da sua realidade poderia montar sua estratégia e combater a homofobia.

Kit para isto ou para aquilo me parece mais a presença de um Estado onipresente do que outra coisa. Nos livros de geografia, história, português ou qualquer outra matéria os professores tem liberdade de escolher, o Estado brasileiro lhes dá esta liberdade como devia fazer, agora para assuntos mais difíceis, em que as diferenças regionais devem ser levadas em conta o Estado impõe um “manual” em que segundo seus autores os vídeos deveriam ser entregues para os professores.

Agora imagine o seguinte, se um professor é homossexual, e já foi vítima da descriminação e superou este problema ele precisa de um Kit básico explicando a ele o que é homossexualismo e como se combate?

Parece-me que a história deste Kit básico é o típico exemplo de que de boas intenções o inferno está cheio, organizações GLS na ânsia de fazerem alguma coisa para combater esta coisa execrável que é a homofobia, quase que impuseram ao ME uma pauta para o assunto. Não que estas organizações não tenham direito de lutar contra a discriminação, agora imagine se tivermos um Kit contra o Racismo, outro Kit contra o anti-semitismo e mais um contra o Machismo, daqui a alguns anos cada professor receberá uma pilha de Kits e ele terá duas soluções, ou emprega o seu tempo todo para seguir os 15 manuais contra isto e contra aquilo, ou coloca tudo no lixo e procura fazer o seu melhor.

Temos que perder a mania de um dirigismo e de que pessoas não abalizadas como deputados ou ONGs interfiram no processo da educação, hoje em dia cada deputado tem um projeto de introduzir mais itens na educação, educação para o trânsito, educação para isto, educação para aquilo, só não dizem o que o professor deverá deixar de ministrar para introduzir o assunto.

O professor gay não precisaria, acho, mas a maioria dos professores sim.

Talvez fosse o caso de um kit geral mas com exemplos específicos, porém eu não seria contra kit específico antimachismo e antirracismo, problemas também bem arraigados.

De tanto ler este Portal e blog eu fico com a sensação que apesar de tantas décadas se falar do assunto, muitos héteros não têm plena noção do problema. Em geral mulheres parecem perceber melhor, mas não sei.

Você já deve ter notado como os gays (e lésbicas e trans) estão com esse negócio encalacrado na garganta. Eu, que sou um afortunado por ter tido família legal, colegas de escola e de trabalho legais, agora sou autônomo e trabalho em casa, fico p* da vida. Não faço a cobertura do assunto por histeria ou para ter privilégios ou todas essas coisas que as pessoas dizem. Mas porque muitas notícias me fazem chorar, fazem pensar nos outros que tiveram menos sorte que eu.

A questão é complicada. Mesmo que simpatizantes tentem se colocar no lugar do outro, em um exercício de dinâmica de grupo ou algo assim, simplesmente não conseguem captar a dimensão da disseminação do preconceito, da carga recebida da cultura, etc. Talvez quem tenha parente gay, tipo irmão/ã, filho/a consiga se aproximar. Talvez psicólogos ou pedagogos experientes tambem. 

É difícil, muito difícil. Pra ter uma ideia, em um comentário de 2009, quando um tal poeta escreveu "tucano gay", eu escrevi que votaria até no DEM se isso fosse a tábua de salvação pra reduzir o preconceito.

O preconceito é de todo lado, apartidário, pela esquerda e pela direita, de todas os grupos étnicos e maioria das religiões. Até os anos 70 eu diria que até mais pela esquerda. É um dos poucos preconceitos que existe até dentro de famílias. Há uma enorme resistência na sociedade em reconhecer. Mesmo militantes de DDHH perguntam: é tudo isso? não é exagero? Sempre há gente querendo minimizar. Lemos isso todo o dia aqui, não é? Em um "blog progressista". Aliás, dos poucos que toca no assunto com frequência, pois os demais importantes são ligados à TV Record.

Eu me julgo uma pessoa racional e com alguma cultura geral. E acho que gays e lésbicas quando reclamam de preconceito não exageram não.

 

 

Adorei sua primeira colocação, Gunter. Eu senti isso na pele e acho que nem elaborei direito ainda: eu havia feito um esforço de aceitação do homossexualismo pelos meus princípios humanistas, mas de fato não acho que tenha rompido realmente o preconceito até ter mais amigos gays assumidos e conviver/transitar em sua realidade.

Ser herossexual e ser heterossexual com amigos gays faz muita diferença em termos da superação da própria homofobia, eu acho.

Por isso eu acho que esse tipo de trabalho na escola é super-importante: uma coisa é você conhecer um gay e dizer "eu aceito que ele seja gay porque não sou preconceituoso". outra coisa é nesta situação você dizer... nada! Pois a opção sexual dele(a) não tem impacto em sua estrutura social.

Rogério,

Concordo em muita coisa com você, mas gostaria de esclarecer algumas coisas: o termo "kit" é mais uma invenção da mídia, o MEC costuma denominar essas iniciativas por "projeto", justamente porque não se resume a uma caixa de materiais organizados. Neste caso, chama-se "Projeto escola sem homofobia" (ou algo assim). Em geral tais projetos vem acompanhados de orientações às secretarias de educação, que replicam às equipes gestoras das escolas e professores.

Eu coloco que qualquer professor tem condições de planejar e implementar ações educativas contra a homofobia (ou qualquer outro assunto), principalmente se o professor trabalhar junto com seus pares, em grupo. No entanto, é o MEC (entre outros órgãos, inclusive estaduais) que dispõe de dados que podem orientar e dar prioridades. Além disso, o MEC pode levantar materiais e trazer abordagens de outros profissionais e da academia que orientem ainda mais o trabalho do professor.

Um exemplo é este próprio "kit anti-homofobia". A abordagem feita por este material abre muitas possibilidades antes inimagináveis para muitos professores. Digo isso tanto pelas dinâmicas de grupo propostas, quanto pelo foco do material.

Então, o professor não está recebendo uma "receita de bolo" pronta para aplicar em sala de aula, mas também um subsídio para seu próprio trabalho criativo.

Na escola, durante o ano, recebemos dezenas de "kits" do MEC, do estado e, às vezes, do município. Todos acabam sendo usados para embasar o planejamento do professor.

Por fim e contradizendo-me um pouco, há ainda muitos professores no Brasil sem formação completa ou que não tem formação pedagógica, especialmente no 2o grau (foco do "kit"). Para estes, o kit é realmente uma "tábua de salvação", entregando-lhe pronto um planejamento e reflexão que ele não tem condições, hoje, de fazer.

Então, diria que um "kit" desses é polivalente, auxiliando tanto o trabalho do professor formado, quanto daqueles que ainda não estão plenamente fomados, mas que já atuam em sala de aula.

 

 

 

A ideia é muito boa.

Tem também a iniciativa da Apeoesp:

http://blogln.ning.com/forum/topics/sp-professores-repudiam

Eu não entendo nada do setor e fiquei com algumas dúvidas:

- as escolas particulares mais pedagogicamente avançadas, que vão além do currículo mínimo do MEC, abordam o bullying homofóbico?

- o MEC disponibiliza o que já foi feito e o mailling das escolas se ongs quiserem dar continuidade? Afinal a confecção de 6 mil kits não deve ser algo tão inacessível assim.

A escola particular pode rejeitar alunos (com deficiência, por exemplo) e tendem a apoiar a opinião da sua clientela, por mais preconceituosa que seja.

A escola pública, por outro lado, tem a obrigação de receber todo e qualquer tipo de aluno. Isso é "horrível" para alguns, mas deve-se compreender que se este é um fato dado pela lei, cabe a escola repensar sua pedagogia para lidar com as diversas diferenças.

Acho que o MEC pensa desta forma quando implanta políticas como desse kit. E por isso recebe tanta porrada.

O que seria "pedagogicamente avançadas"? A realidade da escola particular é de classes mais homogêneas, menores e com regras sociais mais rígidas, mesmo porque há um controle dos próprios pais retroalimentando a escola. Assim, o "avançado" aí pode significar controle ou conteúdo ou recursos físicos ou encaminhamentos (psicólogos, etc...). Não necessariamente trato com as diferenças, que não é um problema que a maioria das particulares precisa (ou quer) encarar de frente.

 

No mais, duvido que o MEC disponibilize os kits ora abortados. O material não havia sido completamente aprovado, estava sendo apenas encaminhado internamente.

Teremos que trabalhar com as informações vazadas, somente.

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