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A República está em chamas, ou em vias da sua autodestruição. Perigosamente, cresce nas redes sociais um sentimento adormecido durante décadas. Muito próximo as mais terríveis formas de expressão política que é o fascismo. Hoje em dia agride-se com frequência que tal sujeito é “fascista”, no mesmo tom que durante anos qualquer pessoa com ideias libertárias, de esquerda ou mesmo democrática era chamada de “comunista”. Nas últimas décadas o Partido dos Trabalhadores funcionou como um “guarda-chuva” das ideias de transformação social, aliada às vanguardas e as minorias. Tudo leva a crer que hoje não mais, muito menos porta voz desses movimentos, de pequenos grupos políticos, que foram um a um se distanciando da matriz.

A nossa referência neste pequeno apanhado histórico é o que aconteceu, logo após a ascensão e queda de Collor, a derrubada dos regimes socialistas no Leste Europeu e as contradições vividas no Brasil, entre 93/94, com a remota possibilidade de um pacto (tipo comunistas/social democracia na Itália), durando pouquíssimas semanas. É preciso ter claro que naquela época sonhávamos com uma aliança PT/PSDB, para a candidatura à Presidência da República. A vaidade do professor de Ciências Sociais, ancorado no Ministério da Fazenda do governo “tampão” de Itamar, fez com que o sonho se tornasse num pesadelo – veio então à praga do Plano Cruzado. A ilusão de preservação do valor da moeda, na verdade, escondia os planos de subserviência a Washington. Paradoxal, pois, em poucos meses quem era um aliado passou “milagrosamente” a ser o principal adversário, como a história mostrou a seguir - o PSDB.

Às portas da eleição para a Constituinte (86), fomos apresentados por José Dirceu ao jornalista Jorge Batista, um ex-combatente, líder dos estudantes em seu estado (Minas) e figura de destaque na esquerda brasileira. Praticamente não nos conhecíamos, apesar das afinidades ideológicas da Primavera de 68. Na época José Dirceu era o líder dos “dissidentes”, em São Paulo, Wladimir Palmeira, no Rio de Janeiro e Jorge Batista, em Minas (mais tarde, viria a participar em tempo integral da organização político-militar - COLINA, em sua maioria oriunda da POLOP), formando o tripé que rivalizava com a Ação Popular.

Jorge, após a clandestinidade que durou muito pouco, prisão e pena foi morar em Rio Grande do Norte, onde constituiu família, retornando a São Paulo (Campinas) para concluir o curso de mestrado, em jornalismo. Vinte anos após saiu como candidato federal, pelo PT, fazendo uma “dobradinha” com JD, em São Paulo. Nossa aproximação se intensificou rapidamente. Ele trazia a tiracolo um projeto, na verdade um rascunho, do que seria um “Programa de Democratização das Comunicações”. Em torno dele (como apoio), vários jornalistas e comunicadores da maior importância na história da imprensa brasileira. Como sempre os grandes temas são sabotados/abortados pela adesão de outros, quase sempre bem intencionada, mas sem a mesma qualificação. Na disputa cerrada e difícil dentro do próprio partido, Jorge enfrentou a concorrência de outros candidatos e candidatas, com vertentes que nada tinham a ver com o centro do projeto pensado pelo jornalista profissional e calejado na luta revolucionária. Não foi eleito e, pior, veio a falecer (no Natal), juntamente com sua mulher e um de seus filhos no final daquele mesmo ano, em um terrível acidente de automóvel (a caminho de Minas Gerais). É difícil imaginar o quanto perdemos, e o quanto perdeu a Cultura, o Jornalismo e a Esquerda Brasileira com a morte prematura de Jorge. Só nos resta falar que o rascunho ficou praticamente na nossa memória; e jamais teve a oportunidade de ser discutido e/ou aperfeiçoado.

É espantoso que com a entrada do Regime Democrático, a partir da Constituição de 88, as vertentes de cunho revolucionário, encabeçando movimentos sociais não se desenvolveram. Serviriam de “sustentação” à política e à cultura, para a efetivação das mudanças alinhavadas aos programas partidários - a começar pelo próprio PT. O desejo de seus mentores existiu, também, e até se proliferou a seu modo. Mas, ficou só desejo - na prática os artistas, intelectuais e livres pensadores, foram relegados ao plano dos “simpatizantes”.

Nos preparativos para as eleições de 94, estávamos animados com José Dirceu saindo como candidato a governador. Foi à maneira encontrada, timidamente, para contribuirmos com a sua campanha, produzindo um pequeno livro (título acima), em formato de roteiro cinematográfico. Isso foi possível, a partir de entrevistas realizadas com ele em seu escritório, paradoxalmente situado numa rua por nome “República do Iraque”, na Vila Mariana (em São Paulo). O livro Escuta Zé Dirceu! foi editado e distribuído e, sendo ele eleito, o pequeno texto de cem páginas seria transformado num “meio documentário” com a representação do seu conteúdo. Pano de fundo – o projeto e as indagações levantadas por Jorge Batista, sequer foram discutidas na Constituinte.

Mas, no que se resumia Escuta Zé Dirceu (ou melhor), o que pedia o pequeno livreto? Que se mergulhasse nas discussões, mantendo a guerra de Libertação Nacional (como foco), uma herança da nossa geração. Porém, não mais como levante insurrecional armando-se para a batalha final entre o Capital e o Trabalho, mas no terreno das Comunicações que já apresentava o sinal de outra revolução - a Virtual.

Por outra, alertamos que o livro Escuta Zé Dirceu, escrito, publicado e distribuído à época da campanha de JD a governador, nunca pretendeu esgotar o assunto a respeito das Comunicações, apenas corrigir o “voluntarismo” dos tempos de Constituinte, e do que seria uma revolução das práxis. A partir de “protagonistas” (artistas, jornalistas, intelectuais, cientistas, na busca e difusão de suas pesquisas). Destacamos a derrota clamorosa dos sandinistas na Nicarágua, o avanço das telecomunicações durante o regime militar e rendemos homenagem ao principal líder da esquerda brasileira – Zé Dirceu e seus companheiros “mortos” brutalmente. Na verdade, trata-se de um temário que poderia servir como ponto de partida, para quaisquer tipos de avanço nos diversos setores. Pena que tenhamos conhecido seu irmão de Jorge só tempos depois teria influenciado fortemente a escrita do mesmo.

O restante da história é conhecido: a chegada ao Palácio do Planalto de Lula, José Dirceu e o PT, com acontecimentos se sucedendo e o essencial parecendo ter se diluído. Hoje, José Dirceu às portas de voltar para a cadeia, o horizonte é negro podendo ser (na prática), uma prisão perpetua. Já Lula, ameaçado da mesma forma, e todos os nossos sonhos, projetos perdidos e condenados ao esquecimento. O “golpe” fatal ameaça inclusive isto - apagar por completo o passado, como hoje se “deleta” um texto pelo teclado do computador. Os amigos e defensores do “ex-superministro”, procurando explicações para tanto ódio dos donos dos Meios de Comunicação, alinhavaram aí vários avanços implantados por ele (JD), mas, que na verdade, contrariam os interesses das superfamílias.

Se verdade que Lula e o PT, representam o lado de quem produz no Brasil pós-industrialização, portanto, é moderno e principalmente fez com que a Rede Globo procurasse modernizar a televisão, em termos técnicos e profissionais. Negar isso nos cheira, provincianismo.

Analisando friamente o rol de conquistas do nosso lado, é fácil notar que toda e qualquer transformação acontecida como já previra JD, se deu no terreno da infraestrutura. Pouca coisa evoluiu no que seria fundamental na cultura, no conteúdo filosófico e político, embora, isso aconteça após décadas de experimentos e ações, envolvendo a superestrutura. Basta uma passada “d`olhos”, no setor de comentários dos sites temáticos, para ver a que nível se chegou os inimigos “da revolução”. E José Dirceu que teve como ídolo o brilhante jornalista, Claudio Abramo, está sangrando em Brasília a espera de um “levante”.

Jair Antonio Alves - dramaturgo

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