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ETERNAMENTE CHICO BUARQUE

* Kleiner José Frutuoso Michiles

Falar de Chico Buarque não é lá muito fácil, devido ao enorme volume de material que a imprensa nacional e internacional tem publicado a respeito da vida e obra deste extraordinário artista brasileiro. Contudo, deve-se admitir que o Chico se reinventa a cada dia, superando-se, surpreendendo e aperfeiçoando sua arte e assim tornando-se assunto inesgotável.

Foi sempre assim desde que despontou para o cenário artístico em 1964, num festival de Música Popular da extinta TV Excelsior onde concorreu com a música “Sonho de um carnaval” defendido pelo também estreante Geraldo Vandré que a levou até as finais perdendo somente para Elis Regina, que aliás, foi a grande vencedora deste festival com a música “Arrastão”.

Filho do eminente historiador e sociólogo Sergio Buarque de Holanda, esse carioca da gema apaixonado por samba, futebol e torcedor do Fluminense, conheceu a fama muito cedo. Logo após o festival da Excelsior, sua presença nos palcos do teatro Paramount tornou-se obrigatória dividindo o mesmo com figuras como Taiguara, Toquinho, e outros. Ainda no Paramount, Chico lança a música “Pedro Pedreiro” que soa como um alerta para o grande artista que acabava de emergir.

Depois de um ano de trabalho junto ao Teatro da Universidade Católica de São Paulo (TUCA), Chico embarca para Nancy na França onde participaria com o grupo de um dos mais famosos festivais de teatro do mundo, assinando a trilha sonora da peça que era nada mais, nada menos, que “Vida e Morte Severina” de João Cabral de Melo Neto, que viajou com elenco e foi quem mais vibrou com a vitória brasileira.

As portas para o mundo foram abertas com essa vitoriosa participação. Em 1966, vem à consagração definitiva quando Chico ganha o festival da Record com famosa “Banda” música que aliás, foi alvo de duras críticas quando os jurados anunciaram-na como vencedora, devido ao teor da letra ser considerada muito lírica para aquele contexto de ditadura repressão coisa e tal.

É claro que a “Banda” podia ser considerada lírica se comparada a “Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores” de Geraldo Vandré que ficou em segundo lugar, daí o inconformismo do público. Entretanto, mesmo sendo percebida pelo público como uma música “romântica”, a música Banda não é de todo assim tão inocente, tem um trecho que diz : “a minha gente sofrida despediu-se da dor, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor”.

Como se vê, Chico toca na questão social mesmo de leve, é a crença na força libertária da música que é capaz de fazer com que todos venham para a janela e esqueçam o “cansaço”, desde a moça feia, o velho, o homem que contava dinheiro enfim, todos querem ver a Banda passar cantando coisas de amor.

Após esses acontecimentos, o contexto político tornou-se ainda mais difícil, a ditadura apertou o cerco intensificando a censura, prisões, baixando os famosos Atos Institucionais, e o Chico também entraria no jogo pra valer, como ele mesmo afirma na música Falando Sério - “dei um chute no lirismo, um pega no cachorro, um tiro no sabiá, joguei fora o violino, corro e faço a mala pra não ver a banda passar”. Aqui, o gênio assume de vez o seu papel de artista engajado na transformação daquela dura realidade, que doravante iria lhe causar sérios aborrecimentos.

Contudo, a genialidade de Chico não se revelou somente no campo político durante os anos de “chumbo”, ele é também um profundo conhecedor da alma humana, alguns diriam da alma feminina, pelo grande número de canções que tratam da diversidade de situações ligadas ao gênero feminino.

São tantas, que a escritora Adélia Prado resolveu fazer um livro só sobre : “O Universo Feminino nas Músicas de Chico Buarque”. Neste universo imaginário criado por Chico, desfilam Ritas pragmáticas, Carolinas desatentas, Rosas dissimuladas, Marias que sonham com um olhar diferente do homem amado, Joanas, Claras e etc. E assim, ele desnuda em cada personagem o que há de mais secreto, de mais íntimo no recôndito da alma humana.

Além do conhecimento profundo do ser humano, Chico é também um erudito da língua portuguesa, afirmação que se comprova em músicas como Construção, Paroara, Pedro Pedreiro e tantas outras. Em Construção, o arquiteto se revela construindo cada palavra onde a pronuncia tônica recai sempre na última sílaba, e nas três vezes em que a música é repetida as frases são construídas de forma diferente mas sem perder sentido.

Isso tudo faz de Chico poeta, escritor, compositor letrista e o maior cancioneiro da atualidade. Quando comparado a Bob Dylan - Véronique Mortaigne (colunista do Le Monde) diz que Chico leva vantagem. Pois além da força de suas letras, a harmonia e a sofisticação na elaboração dos arranjos não têm comparação. Em Cecília, música do disco As Cidades, Chico utiliza nada mais, nada menos que 34 instrumentos que perfazem uma verdadeira orquestra fantástica, afinadíssima regida com bom gosto e muita competência.

Em suma, pode-se afirmar sem sombra de dúvidas, que música brasileira não seria a mesma sem Chico Buarque. Sua influência vai muito além da música, embora ele a utilize como uma forma de chamar a atenção para os problemas da atualidade, ao mesmo tempo constrói novas consciências, novas leituras a respeito da realidade. É muito difícil alguém ouvir o Chico e continuar vazio, sem nenhuma indagação acerca do que ouviu ou leu, já que ele escreve tão bem quanto compõe.

Seus livros num total de três (Estorvo, Benjamim, e Budapeste) sem contar as peças todas premiadíssimas, dentro e fora do país. Em 2005, o jornal Le Monde ofereceu um prêmio altíssimo em dinheiro para quem fizesse a melhor resenha sobre livro Budapeste. E os eleitores se perguntaram por que o livro do Chico? A resposta foi simples: a obra pertence ao um cara que carrega consigo uma boa parte do conhecimento produzido desde os gregos até a atualidade.

Nas obras do Chico perfilam Tolstoi, Dostoievski, Goethe, Fernando Pessoa, Brecht e tantos outros que representam a “nata” da literatura universal. E se tudo que aqui foi dito acerca deste artista genial, faz algum sentido, então há motivos de sobra para dizer que ele será eterno ou eternamente Chico Buarque!!! 

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Respostas a este tópico

Este pequeno artigo foi escrito por mim em 2007, daí os títulos dos livros não estarem atualizados. O resto tá ok. Chico é isto e muito mais!

Faz todos os sentindo... leitura agradável, falando do POETA maior.

Li, adorei, se soubesse escrever, escreveria igual vc...

Parabéns !!!!

Cotidiano (parodiando Chico)

Herculano Alencar

Todo dia faz tudo diferente:
me acorda ora às cinco, ora às dez;
ora beija-me as mãos, ora os pés;
ora dorme de costa, ora de frente.

Cada dia ela mais irreverente,
como são as mulheres hoje em dia.
Dia sim se derrama em poesia,
dia não me apressa pro batente.

Me bajula e me beija dia dez,
dia onze não valho mais um réis
e assim vai até o mês que vem.

Me revista ora o bolso, ora a razão;
ora acende, ora apaga meu tesão,
como fosse ora deus, ora ninguém.

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É só um modo despretensioso de dizer da minha admiração pelo Chico.

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