Mutilados jogam futebol na Nigéria. Brasil é tetracampeão na modalidade


Albenísio Fonseca

O único delírio coletivo permitido no Brasil, além do Carnaval, é a conquista da Copa do Mundo. Espetáculo coletivo, o futebol torna-se ritualístico na medida em que identifica os espectadores com o drama que se desenrola em campo. Os jogadores são como personagens de teatro com os quais nos identificamos numa relação ritualística (espetacular) em que o campo se converte num grande teatro de arena. Visto de forma simbólica, emocional e arquetípica, o futebol é uma confrontação de opostos durante a qual inúmeras emoções são elaboradas, soltas, exercidas e domesticadas.

As origens do futebol perdem-se nos subterrâneos da História. Iniciado na Inglaterra, provavelmente a partir do harpastum, jogo de bola com as mãos trazido pelos romanos da Grécia, há também a hipótese de que tenha-se originado do costume primitivo de chutar a cabeça dos inimigos para comemorar vitórias. Existe ainda a informação do futebol jogado nas terças-feiras de Carnaval em Chester, cidade inglesa fundada pelos romanos.

É possível relacionar pelo menos quatro razões para afirmar o futebol como um jogo revolucionário. Por sua associação ao Carnaval, festa visceralmente ligada à liberação das emoções e instintos. Por ser jogado com os pés, numa contrapartida para com as atividades sociais organizadas e praticadas sob o controle das mãos. Por ser um esporte coletivo e, desse modo, contrariar os esportes individualistas das elites. E, ainda, por dirigir as emoções do povo para uma disputa que acaba bem, ao contrário dos torneios que terminavam com a morte de um dos contendores.

O futebol registra episódios surpreendentes, como o de uma guerra entre a Inglaterra e a Escócia, em 1297, acabar desmoralizada porque os soldados de Lancashire, tradicionais inimigos dos escoceses, desobedeceram a seus comandantes e preferirem disputar sua rivalidade no futebol, ao invés de guerrear.

A face revolucionária do futebol diante do padrão patriarcal acabou por gerar sua repressão legal na Inglaterra, por razões militares de Estado, a partir do século 14, e motivo de ampla legislação proibitiva até o século 16. Mas o esporte floresceria e se difundiria por todas as culturas pelas mais diversas vias. Ao nos identificarmos com os jogadores nesse ritual dramático, sentimos que eles realizam por nós proezas físicas e psíquicas, que nos gratificam profundamente. Se as proezas físicas são maravilhosas de ver, as psíquicas são partilhadas e usufruídas. A imprevisibilidade do jogo faz com que toda sorte de emoções surja entre os heróis e o gol (jogadores de futebol são heróis do povo e o goleador o maior deles).

A ação dramática transcorrida nos 90 minutos é um símbolo transfigurado do processo de luta pela vida para atingir nossas metas. Como o gol adversário (a meta) é defendido por um time igual ao nosso, para atingi-lo temos que nos defrontar com emoções intensas e atravessá-las pelo drible, pelo controle da bola, intuição, planejamento, ação conjunta, malícia, velocidade, tudo enfim que há de humano contra tudo humanamente igual.

O futebol lida com emoções da maior importância, como a agressividade, a competição, amizade, rivalidade, inveja, orgulho, depressão, humilhação, fingimento e traição, entre tantos outros. O exercício da ética no futebol é tão evoluído que trouxe até mesmo a codificação de não se marcar uma falta que beneficie o infrator. Também a regra do impedimento, que proíbe receber por trás da defesa, delimitando física, espacial e dramaticamente situações de lealdade no confronto direto, e de traição no atacar por trás.

As emoções elaboradas pelos jogadores correspondem, simultaneamente, às vividas pelos torcedores. Um time que se lança ao ataque ativa a coragem e a ambição do torcedor. As tentativas de invasão de área e realização do gol podem, de logo, ser invertidas num contra-ataque. No mais, acompanhemos os jogos dessa 19ª Copa do Mundo, na África do Sul, com um esforço de consciência para compreender seus símbolos e exercê-los, não só no âmbito das suas arenas, mas em todas as instâncias da política e da cultura.

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Albenísio Fonseca é jornalista

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Respostas a este tópico

Texto lindão, Albenísio. Obrigado!
Uai, Hermê, parece-me que sobre futebol, estamos sempre de acordo. Também achei o texto lindão. Deu-me até vontade de fazer um chistezinho com o nome do autor, (Albenisio) mas me abstive disso pois às vezes, uma brincadeira inocente pode parecer ofensa. O homem é bom de escrita.
Grande texto.
Única crítica que tenho é a respeito da regra do impedimento. Está sendo usada para defender a incompetência das defesas.
A regra do impedimento foi inventada para evitar que ficasse um atacante do lado do goleiro o tempo inteiro (isto ocorria no início do século XX).

Esta regra é do tempo que se chamava goleiro no Brasil de "goalkeeper" e o atacante "centre forward".
Existia um nome específico para este personagem que não me lembro.
Maestri,
Não sou contra a regra do impedimento. Tou falando só que está sendo usada e aplicada de uma forma que só ajuda defesa burra.
O primeiro gol do Tevez, por essa regra aplicada desse jeito burro, foi inválido. Mas foi legítimo, pq ele não vai contra o princípio da regra do impedimento, que é impedir o "banheirista".
Não entendo de futebol,mas aprecio um bom texto, e este é um. sds.
Belo texto, parabéns!
a cabocla tinha chamado atenção prô texto do albenísio.
mas deixo aqui o comentário que fiz lá no blog do omi, pois ele está em destaque:
albenísio, eu disse assim lá:

"nossa, este texto estava lá na comunidade e eu sequer prestara atenção. achava o título meio exagerado... mas, agora, lendo com cuidado, vejo que aponta aspectos interessantes, que se não nos permite concluir que ele seja revolucionário, com certeza aponta para um esporte altamente democrático e vou apontar uma quinta razão: ele pode ser jogado em qualquer canto com um mínimo de espaço..."

belo texto, sim.com certeza. boa análise.

agora, albenísio, aparece, né?! vai deixar a gente falando sozinhos, é?!
pó parecê!
Lev Yashin (1929-1990), o aranha negra, maior
goleiro de todos os tempos

“A perfeição é uma meta defendida pelo goleiro que
joga na Seleção”. Como
propunha Gilberto Gil nos idos dos anos 70, o lugar do goleiro é excepcional. Entre todos os atletas que compõem uma
equipe de futebol, somente a ele é permitido o toque na bola com as mãos, como
se a legitimar a função ante as demais modalidades esportivas praticadas com
as mãos.

Mas a ação dos goleiros está restrita aos
territórios da Pequena Área (onde é intocável) e ao da Grande Área,
limite da sua atuação com as mãos. Na medida em que ultrapassa esses limites,
essas linhas, não mais lhe é permitido o toque na bola com as mãos,
tornando-se idêntico aos demais, numa metamorfose por localização.

Os goleiros funcionam como os guardiões do reduto
do gol. Primeira e última posição tocam-se (como extremos) na defesa da
meta. Algo como a defesa da honra, é o que está colocado em jogo para o
goleiro. Daí expressões como “caiu o véu da noiva”, entre tantas empregadas por
locutores esportivos, a expressar o “desmascaramento” do lugar a proteger.



A codificação que rege os jogos de futebol, determina também a grande área como o espaço em que qualquer
falta contra o adversário seja convertida em tiro livre (o pênalti), para o
qual resta apenas a defesa pelo goleiro, num frente-a-frente irrecorrível. No
mais, é certo que a posição do goleiro costuma ser aquela para a qual muita
gente não gostaria de estar na pele.
Por Egler

O tio-avô está muito doente, mas não perdeu o bom humor, então pediu-me para responder-lhe (também no post procedi da mesma forma).


Luzete, minha filha, o futebol não era alienação. Pelo menos quando eu praticava o verdadeiro “football”.

Não existia este famigerado "marketing" de hoje ("Adidas", Nike", turismo, etc.).

Futebol que coisa boa.
Sábado à tarde:
Tirávamos os cupins do campo, alinhávamos as traves, matávamos um leitão, reservávamos uma quarta de pinga da boa.
Domingo cedo:
Os times em campo; um de camisa branca e o outro de camisa listrada.
Gorro a gosto.
O “center-half” bem atento, os “center-forwards” bem entrosados, o centro avante bem oportunista e os pontas (esquerda e direita) bem espertos.
As famílias no barranco assistindo ao jogo e torcendo para todos os vinte e dois “atletas”.
Que maravilha!!!
O juiz? Ótimo. Era o meu compadre Querubino Marques. Apitava a torto e a direito, não tinha faltas para apitar (as faltas que existiam se limitavam à mão na bola ou bola na mão; era tudo a mesma coisa), somente impedimentos. Perdoávamos seus erros, afinal de contas não tinha bandeirinhas e se ele errasse contra um dos times, ele prometia compensar no próximo jogo (e cumpria).
Depois do jogo, que começava às nove horas da manhã (não existia a Globo para transmitir), íamos para a fazenda jogar truco, mangar uns com os outros e preparar para a lida da roça na segunda-feira.
Saudades …
Nota: quarta de pinga é a quarta parte de um alqueire = vinte litros em Minas.
Ao tio-avô,
(pelo pombo-correio egler!)

adorei a crônica. uma delícia e que jamais perca o bom humor e trata de ficar bonzinho, rapidinho. a gente fica na torcida pelo seu pronto restabelecimento.

e olha tio-avô: entre os simples acho que ainda tem muito deste futebol jogado laaaaaaaaaaaaaaaaaaá nqueles tempos. e até acho que nem se tem tantos alienados. todos sabem das mutretas, mas também é grande o sentimento de impotência.

beijo egler, beijo tio-avô!

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