A vida do líder e teórico comunista italiano Antonio Gramsci (1891 – 1937) é uma bela, embora trágica, história de coerência e fidelidade aos ideais revolucionários. Nascido na explorada Sardenha, depois estudante pobre em Turim, ele se identificou desde muito jovem com aqueles ideais e a eles dedicou o talento de teórico marxista rigoroso e inovador, a força de organizador e agitador de massas.
.
Ainda militante do Partido Socialista, enfrentou o direitismo de suas correntes hegemônicas. Rompeu com elas, fundou o Partido Comunista Italiano *(1921) e assumiu a perspectiva leninista da revolução proletária.
.
Preso em 1926 pelo terror fascista, durante os quase 11 anos de prisão, e sob terríveis condições de saúde, estabeleceu pela primeira vez, nos Cadernos do Cárcere, as bases teóricas e políticas para a revolução nos países de capitalismo avançado do século XX.
.
Mas não só isso: como filósofo, aprofundou e renovou a teoria do materialismo histórico dialético; defensor apaixonado da Revolução Soviética, criticou a exclusão das massas de seu processo de desenvolvimento, denunciou as primeiras violações da legalidade socialista na URSS e previu, com surpreendente antecipação, os descaminhos a que tais violações conduziriam.
.
Intransigente inimigo do Estado fascista, recusou todos os acordos que lhe foram propostos por Mussolini para ser libertado – apesar do inexorável agravamento da degenerescência física a que a prisão e a doença o submetiam. Morto em 1937, legou-nos uma impressionante obra teórico/política, além do exemplo de paixão, clarividência, combatividade, coerência e radicalidade, postos a serviço da libertação do Homem.
.
Como foi possível, então, que as idéias deste revolucionário intransigente, deste teórico radical, tenham ido parar nas mãos dos reformistas de todos os matizes, e que eles as falsifiquem, no mundo inteiro, para fundamentar uma prática política de colaboração de classes?
.
Pois foram os próprios revolucionários que o permitiram, ao abandonar o legado de Gramsci. Talvez porque ele tenha passado à História como um militante e líder partidário “derrotado”, talvez porque tenha sempre parecido um teórico “complicado” e pouco ortodoxo, ou ainda porque a divulgação de seu pensamento até hoje seja deficiente e incompleta. Mas, sobretudo, porque foi deliberadamente “esquecido” (na verdade boicotado) pelas várias burocracias que se sentiam ameaçadas por sua postura crítica e anticonformista.
.
A tarefa de arrancar definitivamente essa bandeira da mão do reformismo é dos revolucionários. Não apenas porque ele é um símbolo de nossa história e de nossas lutas, mas porque trata-se de pensamento vivo, cada vez mais atual, e de alto poder transformador.
.
E porque Gramsci, sem dúvida, é um dos nossos: um verdadeiro revolucionário.
DO PARTICULAR AO UNIVERSAL
.
Como todos os grandes pensadores marxistas (e isto já era verdade para o próprio Marx), Gramsci construiu sua teoria a partir de uma prática política revolucionária concreta. Em seu caso, na realidade da Itália dos anos 10, 20 e 30, do século passado. 
.
O que marca aquele período é, por um lado, a escalada da burguesia em direção ao fascismo e, por outro, a substituição do anarquismo pelo marxismo, à esquerda, e pelo socialismo reformista, à direita, como as ideologias adotadas pela então combativa classe operária italiana.
.
Foi a militância na luta de classes que levou Gramsci a perceber a necessidade de uma estratégia específica para enfrentar a burguesia e fazer a revolução nos países de capitalismo avançado. Daí o desenvolvimento por ele de conceitos como Oriente/Ocidente, guerra de movimento/guerra de posição, Estado ampliado, hegemonia, bloco histórico, intelectual orgânico, transformismo, revolução passiva e tantos outros que dão ênfase à instância propriamente política (superestrutural) da luta revolucionária.
.
Conceitos que se provaram universais justamente por derivarem de uma particularidade concreta – ou seja, porque não nasceram das elocubrações de algum “gênio” da teoria pura, mas da prática revolucionária real, em uma sociedade historicamente determinada.
.
Não se deve, pois, separar o estudo da teoria gramsciana do estudo da prática política gramscista. Aqui, a teoria não pode ser entendida como um conjunto de dogmas imutáveis, mas como poderoso instrumento para a análise política e a ação revolucionária consequente, desde que utilizada rigorosamente dentro de cada contexto particular – o que, aliás, deveria valer sempre para a teoria marxista em geral.
.
Notas
.
 * Publicado originalmente  em O QUE FAZER – janeiro de 1995.
*Na verdade o Partido  Comunista da Itália, junto com Bordiga.

 

Exibições: 114

Responder esta

Respostas a este tópico

tenho gramsci como o teórico marxista mais importante para entender a sociedade contemporânea.

sua história (inclusive sua vida pessoal) suas elaborações, sua capacidade de interpretar a sociedade, somadas a sua militância e a sua integridade moral, fazem dele um exemplo absolutamente único.

os Cadernos do Cárcere (que no Brasil foram editados, com mudanças, algumas oportunistas, sob quatro títulos Maquiavel, a Politica e o Estado Moderno, Concepção Dialética da História, Os Intelectuais e a Organização da Cultura e Literatura e Vida Nacional, este o menos vigoroso) reúne os escritos mais fabulosos sobre temas que vão desde a revolução, o lugar da cultura, o papel dos intelectuais, a escola e a educação, até a imprensa, particularmente o jornal.

além destes escritos, existem uma série de estudos avulsos e, entre eles, Alguns Temas Sobre a Questão Meridional, me parece o mais vigoroso e instigante. se colocarmos a geografia de cabeça prá baixo, dá uma dimensão do Brasil em tempos mais recentes (início do século passado) quando o Sul tratou de detonar o Norte.

 

importante mesmo não esquecer isto que o autor do texto postado pelo paulo diz. a obra de Gramsci é importante porque ela traz "Conceitos que se provaram universais justamente por derivarem de uma particularidade concreta – ou seja, porque não nasceram das elocubrações de algum “gênio” da teoria pura, mas da prática revolucionária real, em uma sociedade historicamente determinada." eu mesma, um dia, comprei brigas sérias por conta disto! mas... sobrevivi!

Fantástica essa imagem.. rostos, posturas, expressões de uma gente determinada a transformar. Não gostaria de participar, mas se fosse preciso...

RSS

Publicidade

© 2020   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço