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O Jornal Nacional do dia 16/12/11 publicou matéria em que mais uma vez denuncia o “atentado contra a liberdade de imprensa na Argentina”. Desta vez, o “atentado” é a tentativa do governo argentino de “controlar” a indústria do papel que serve aos periódicos do país.

Bom, quando a Globo parte para a defesa apaixonada do Grupo Clarin, o grupo da família Marinho está sendo coerente com sua própria história - cuja glória começa em 1964, coincidentemente no início da ditadura brasileira. Mas deixemos a Globo de lado e vamos conhecer um pouco a tenebrosa história da Papel Prensa S.A. Talvez assim você conheça mais de perto o que está acontecendo na Argentina; e talvez possa também perceber que Cristina Kirchner está muito longe da pecha ditatorial que a grande mídia latino-americana tenta dar à presidenta da Argentina.

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A nebulosa história da La Prensa

Conforme já escrevi noutra ocasião (clique AQUI), a chamada Ley de Médios argentina é uma avançada legislação que deveria servir de modelo não só para a América Latina, mas para todo o mundo. Esta opinião não é minha, mas de Frank La Rue, relator da ONU para a liberdade de expressão e de opinião. Talvez você, que acompanhou o assunto pela grande imprensa brasileira, esteja um pouco chocado com esta informação. Mas é isso mesmo. Pois todas as versões que tenho lido, aqui no Brasil, vêm de fontes do Clarin, La Nacion e dos grupos e sindicatos (patronais) aos mesmos ligados. Infelizmente, a realidade do mundo que chega até você por intermédio da grande imprensa está, há décadas, moldada pelos “filtros editoriais” ditados pelos barões das comunicações.

 

A história da empresa La Prensa – que monopoliza a produção de papel na Argentina – é controversa e demasiadamente complexa para ser aqui explicada. Mas basta dizer que o controle acionário da empresa, por ser estratégica, tem uma nebulosa história em que a ditadura e a iniciativa privada caminharam juntos em mutualismo, ou seja, num estratagema em que um fomentava o poder do outro. Enfim, a atual composição acionária da empresa La Prensa é baseada num decreto de 1978, quando o sanguinolento ditador Jorge Rafael Videla (aquele mesmo que foi acusado de “comprar” o título da Copa 1978 sediada na Argentina) praticamente a entregou na mão de 3 grupos empresariais: Clarin, La Nación e La Razión. A atual composição é ainda dominada pelo Clarin (49%) e o restante dividido entre o La Nación (22%) e o governo argentino (27%).

Em seu discurso para a inauguração desta nova composição (vide link para o vídeo, no final), o então presidente argentino diz que a entrega a três grupos empresariais seria uma forma de incentivar a “competição” no setor. Mas em seguida emenda: “que pese a esses três (grupos) com um objetivo comum, como uma só entidade para, com todos os seus esforços, junto com o Estado, levar esse projeto adiante”. Julgo desnecessário dar maiores explicações sobre esse “projeto”, que foi seguido à risca pelos agraciados. Também julgo desnecessário dizer como esta concentração cartelizada praticamente emparedou os outros veículos concomitante ao turbinar do Clarin, que virou uma potência sem concorrência. Saliente-se que o Grupo Clarin sempre se pautou por sua reconhecida fama de ser “chapa branca”. O casamento entre o Clarin e a Casa Rosada só veio a azedar com o governo de Nestor Kirchner, que não temeu enfiar a mão no vespeiro que condenava a Argentina à eterna subserviência com as injustiças dos seu passado.

A polêmica

Na Internet, há dezenas de artigos salientando o grave entrave para a liberdade de expressão quando temos um grupo que praticamente dita o mercado de papel. Saliente-se que, na Argentina, diferente do Brasil, a população tem o hábito de consumir papel para leitura (livros e periódicos). Obviamente, há opiniões contrárias a esta tese, ou seja, que seria melhor que algo estratégico fique na mão da iniciativa privada. De qualquer jeito, em hipótese alguma é salutar que um ou outro domine o mercado. Ainda, pesa sobre o Clarin graves acusações contra os métodos usados para angariar o bom naco do La Prensa, que pertencia aos herdeiros de David Graives. Eis o que consta na Wikipedia:
"Em 6 de agosto, o diário Tiempo Argentino, publicou um artigo sobre o assunto, que incluía uma carta de Lidia Papaleo, viúva de David Graives, contando os horrores, as pressões e ameaças de morte constantes que a família sofreu desde a morte do marido, e que havia sido despojada de seus bens e das ações da Papel Prensa SA pelos três jornais - com ameaça física proferida pelo CEO do Clarín, Héctor Magnetto, para que assinasse a venda - com a ajuda da Junta Militar.[7]"


Ante as evidências que apontam para negociações no mínimo suspeitas das transações acionárias envolvendo a La Prensa, o governo de Cristina Kirchner recomendou à Justiça, Secretaria de Direitos Humanos e ao Tesouro Nacional uma severa investigação para se apurar a verdade.

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A Verdade sobre o Marco Regulatório para a distribuição de papel

Conforme tem acontecido com todo o corpo do marco regulatório das comunicações (a Ley de Mediios) na Argentina, a elaboração para se democratizar a distribuição de papel na Argentina nasceu após amplo debate nacional; em vários foros nacionais promovidos em todo o país – com discussões conduzidas por profissionais diretamente envolvidos as comunicações.

No artigo primeiro do decreto, lemos: “decreta-se de interesse público a fabricação, comercialização e distribuição de celulose e papel para diários”.

Mais importante de tudo isso é o seguinte dado: 80% dos donos de periódicos na Argentina apóiam a lei que torna de interesse nacional comercialização de papel no país. Ou seja, proprietários e profissionais da comunicação concordam que cabe ao Estado assumir a responsabilidade para garantir que todos os interessados possam ter acesso ao papel a um preço justo. Para isto, a indústria deve produzir em sua capacidade máxima de acordo com a demanda - e não mais diminuir a produção para elevar o preço do papel, forçando os concorrentes do Clarin a pagar um preço mais alto ou mesmo ter que importar o produto. É isto que a mídia tem chamado de "expropriação" e "atentado contra a liberdade de expressão. 

Enquanto alguns saudosos da ditadura gritam, a Argentina avança em sua plena democracia sem medo de encarar – e sanar – as injustiças herdadas do seu passado recente. Não entendo por que isto incomoda tanto a grande imprensa brasileira.

 

Fontes:

Vídeo - Rafael Videla e La Prensa - A verdade escondida (pela mídia)

http://www.youtube.com/watch?v=Xub3j-m_zAU

La Prensa na Wikipedia

http://pt.wikipedia.org/wiki/Papel_Prensa

 

A versão do Clarin

http://www.clarin.com/politica/gobierno/Papel-Prensa-Gobierno-Graiv...

 

A versão do governo argentino:

http://www.argentina.ar/_es/pais/C4475-papel-prensa-la-verdad.php

 

http://www.diarioregistrado.com/politica/56044-cuatro-razones-para-...

 

Texto completo do projeto de lei

http://www.taringa.net/posts/noticias/6819644/Papel-Prensa_-texto-c...

 

Notícia sobre o novo marco regulatório (livre da oligarquia):

http://www.diariohoy.net/accion-verNota-id-171022-titulo-El_Senado_...

 

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