Caro Azenha,

Sem dúvida que ganhar a prefeitura da cidade de São Paulo seria importantíssimo para o PT. E, mais que isso, terminar de sepultar o PSDB também seria importante, principalmente pelo fato dos tucanos não conseguirem se reerguer e só caminharem para o radicalismo ultraconservador. Mas, a que custo?

Conversei com militante de grupos antigos do PT e militante mais “jovens” e não achei um, um só que cogitasse a possibilidade de aliança com o Kassab. Me parece que esta idéia só é cogitada nas matérias da Folha de SP (onde são atribuídas a Lula), e também no blog do Zé Dirceu (ainda que timidamente). Ainda bem que o Rui Falcão já se posicionou contra, assim como boa parte dos “linha dura” do PT de São Paulo (como os irmãos Tatto). Desse jeito me parece que a possbilidade de passar o rolo compressor na militância fica difícil.

Claro, não vou discutir com o Lula (se for ele mesmo que esta por trás disso) sobre visão estratégica para ganhar eleições. Mas seria bom lembrarmos que mais que ganhar eleições, cada campanha ajuda a formar a identidade do PT. O partido, ao ficar mais velho, e com a troca do seus quadros, terá cada vez mais dificuldade de manter sua identidade. Isso é normal em qualquer instituição. O legado histórico tem seu peso, mas não garantirá a identidade e o alinhamento ideológico sozinho.

O passado recente mostra que alianças esdrúxulas, com PSDB em Minas e com o Garotinho no Rio, foram decisivas para acabarem com o partido localmente. Ora, Kassab é exatamente uma mistura de Garotinho com o PSDB (e a pior parte do PSDB, se é que ainda dá pra dizer isso). O Kassab definitivamente não é um José Alencar, que ainda preservava uma visão repúblicana do Estado. Pelo contrário, o Kassab é o oposto disso. O Kassab, em todas as suas ações, é a antítese do PT.

O PT tem sido sistematizamente derrotado em São Paulo, mas perder as eleições não é algo necessariamente infrutífero. As campanhas podem contribuir muito para a consolidação do partido. Infelizmente não é isto que tem acontecido. Se lembrarmos a última eleição municipal, com a campanha da Marta tentando desesperadamente explorar a sexualidade do Kassab, foi algo vergonhoso. E bem a Marta…

Ora, acredito que mais importante até que ganhar a eleição seria marcar uma posição contrária as barbáries que têm ocorrido em São Paulo. Marcar posição e consolidar a nossa identidade como o oposto do que Alckmin e Kassab são: preconceito, injustiça, corrupção e a violência. Com certeza seria melhor do que ganhar uma eleição legitimando o preconceito, injustiça, corrupção e a violência.

Por isso queria lançar uma proposta, que tal se o PT buscar dividir sua chapa com a parte boa do PSB de São Paulo? Que tal uma chapa Haddad e Erundina?

Podemos até ser derrotados, mas seriamos derrotados de cabeça em pé! Com orgulho, o que seria melhor do que ganhar com vergonha – e nojo.

Que tal uma chapa para recuperar a autoestima, os valores progressitas e a coragem também? Sentimentos que sempre marcaram o partido.

Ouso dizer que uma chapa assim, bonita, ousada e verdadeira, poderia não só recolocar a militância na rua, mas também teria chance de ganhar. Seria difícil sim, pouco provável. Mas lembremos os votos de tucanos descontentes que a Marina levou na cidade em 2010. E lembremos também que quando o Josias de Souza critica a ação do Pinheirinho, é um sinal de que as coisas vão muito mal do outro lado.

Por que não então não tentamos passar os 30% comendo a antiga base do PSDB, ao invés dos antigos maufistas?

Ora alianças centro-direita e esquerda já foram feitas em São Paulo contra Maluf e contra o Fleury. Quem disse que num segundo turno que tenha Haddad e Erundina versus Chalita e Kassab nós não conseguríamos rearticular essas antigas alianças?

Sim, a época é outra. Será difícil, muito difícil. Mas, se terminássemos derrotados, terminaríamos ainda sim com a razão. Com a certeza de ter feito a coisa certa, com orgulho e felicidade de estar por trás de um projeto íntegro.

Por uma aliança Haddad-Erundina!

Por ainda acreditarmos!

Por não deixarmos de sonhar nunca, afinal “sonhar é resistir” como dizia o querido Apolônio de Carvalho!

abraços

Gustavo Ferroni

Extraído do site Vi o Mundo, do Azenha - 

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