IBITURUNA

 

Rio Doce não comportou o espírito empreendedor de Sô Domingos e então ele alçou voo para outras paragens onde pudesse ver atendido seu desejo de crescer. Não hesitou em vender suas terras na doce e bela Suíça da Zona da Mata e se mandou para o distrito de Ibituruna onde comprou uma grande fazenda. La sim ele se deu bem. Pôde dar vazão à sua capacidade de trabalho, pois começava com pujança na região o crescimento da indústria açucareira. A fazenda comprada por ele era uma das melhores da região. Tinha gado, criava-se porco, grande produção de grãos. Mas, já no primeiro ano, percebeu que estava na moda plantar cana. Não pensou duas vezes e se lançou nesta arrojada aventura. Foi um sucesso, sabia trabalhar, não tinha preguiça, tinha muita coragem e conquistava as pessoas com seu jeito simples e generoso. Como nem tudo são flores, ele teve dificuldade de mandar sua grande produção para usina de açúcar : faltava transporte, um gargalo que as usinas não tinham como resolver. Ele então comprou um caminhão, talvez o primeiro fornecedor de cana da região a ter o próprio meio de transporte. Foi uma grande realização, um passo de gigante. Como subproduto, este caminhão levou alegria a todos que circulavam pelas aquelas estradas, normalmente, poeirentas, sol escaldante, principalmente, na hora de voltar para casa. Ele recolhia todo mundo que encontrava pela estrada e os deixava em casa. Para aquela gente, andar de caminhão naquelas circunstâncias, era o mesmo, para nós, que andar de BMW.

Sô Domingos era uma pessoa extremamente bondosa e carismática. Na hora do descanso, todos ficavam em volta dele para ouvir os casos que gostava de contar.   Era uma festa. Aos Domingos o pessoal se reunia em sua casa para jogar baralho, conversar etc. Era o melhor laser que se tinha naquelas paragens. Seu compadre que morava por perto apareceu lá num desses Domingos. Estava atrasado para o bate papo e se mostrava muito triste.  Sô Domingos foi logo perguntando o que havia acontecido.

Com a voz entrecortada ele comunicou que seu pai havia falecido. Depois das palavras confortadoras proferidas, Sô Domingos perguntou: - E o que você esta precisando? – Bom! Esta ficando tarde, ameaçando chuva e eu estou precisando ir buscar o caixão para enterrar meu pai... Sô Domingos não esperou ele falar mais nada. Pegou a chave do caminhão e disse para o amigo, vamos lá buscar o caixão. Não era longe, mas deu para bater um papo que ajudou a consolar o amigo. Chegaram, puseram o caixão na carroceria do caminhão e iniciaram o caminho de volta. Fez-se silêncio até que avistaram o Pereirão, amigo da família que deveria estar indo para o velório.

Velório em roça, principalmente à noite, está mais para festa do que para luto. Todos amigos fazem questão de passar a noite velando o corpo. A família providência comes e bebes para que a turma ficasse bem disposta já que a noite neste caso não é uma criança.  Estes agrados faziam com que no outro dia a turma estivesse em condição de ajudar a sepultar o falecido. Era muita pinga, linguiça, broa, café, pé de moleque etc. Não precisa falar que penetra sempre existiu:  oportunistas e bebuns para explorar a situação. Muita gente se embriaga e é preciso a interferência de gente séria para exigir respeito. Aparecem políticos fazendo discurso, gente falando mal da vida alheia, gargalhadas vindas das rodas de piadas etc. Esquecem que estão num velório e quem fica mal é a família do falecido que tem sua dor aumentada vendo que aquelas pessoas não respeitam o momento que estão passando. Quem está ali fica prestando solidariedade e só.

 

Pereirão não era um desses, estava indo para o velório com intenção de ajudar aquela família a carregar sua pesada cruz e ajudar no que for preciso. Sô Domingos parou e lhe ofereceu carona alertando-o que estavam levando o caixão na carroceria e que só tinha lugar lá, pois, na boleia, não cabia mais ninguém. Se ele não se importasse poderia ir, mas se tivesse medo não precisava se envergonhar que o mais comum era isso mesmo. “Que isso, Sô Domingos, eu tenho medo é dos vivos. Os mortos não fazem mal a ninguém.” Tenso, subiu na carroceria procurando demonstrar que não tinha medo de caixão e mandou tocar. Pouco havia andado o caminhão e começou uma chuva mentirosa como já era esperado. Pereirão não pensou duas vezes, escondeu da chuva, que era mais uma neblina, dentro do caixão. O catajeca, apelido carinhoso que davam ao caminhão, continuou como normalmente fazia pegando todo mundo que encontrava pelo caminho. Em especial, neste dia era muito mais gente, pois o falecido tinha muitos amigos  que, coincidentemente, se dirigiam ao velório e pegaram carona no caminhão. A chuva não demorou a parar, era apenas uma pancadinha, mas o ocupante do caixão deve ter dormido ou desmaiou de medo e continuou dentro do caixão.

Pouco antes de chegar ao seu destino um dos pneus do caminhão furou. Quando isto acontece o barulho é grande seguido de muita poeira lançada pelo ar saindo do pneu furado. O suposto desassustado que se antecipou ao morto e estreou o caixão ocupando seu lugar, acordou apavorado e com violência procurou se livrar do caixão o mais depressa possível. A turma que não sabia que havia gente dentro do caixão levou um tremendo susto. Saltaram em pavorosa da carroceria do caminhão e acho que estão correndo até hoje, pois o Sô domingos, até seus últimos dias não dava notícias deles.

Todos que conviveram com Sô Domingos lembram até hoje dessa figuraça que sabia muito bem transformar em limonada o limão que em muitas vezes a vida lhe dava. Um destemido vencedor.

 

JGeraldo

 

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