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Sírio Possenti


De Campinas (SP)

 

Uma das teses mais clássicas do marxismo sobre ideologia tem forma de slogan:a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante. Os estudiosos do funcionamento da sociedade que adotam teses marxistas (não surgiu nada melhor para explicar nosso dia a dia, seja o da TV, seja o dos mercados) conferem um lugar especial às ideologias, embora seu postulado fundamental seja o de que são as relações econômicas que comandam a história, em última instância. Para que as engrenagens econômicas funcionem, é preciso que os cidadãos acreditem que elas são as que devem ser (nada como ler Delfim Neto para convencer-se de que os economistas são ideólogos, não cientistas).

Bourdieu e Passeron produziram obra notável, na década de 70 (A reprodução), cuja tese é que a escola contribui fortemente para reproduzir a sociedade a que serve. Faz isso reproduzindo sua ideologia. Invariavelmente a escola "prova" que os mais pobres são também os mais incapazes. Como ela faz isso? Analisando o desempenho escolar a partir de critérios (de saberes) de classe, desigualmente distribuídos.

Dou um exemplo banalíssimo, e antigo: no livro didático do meu segundo ano de escola, no interior de Santa Catarina, em uma comunidade totalmente rural, líamos uma narrativa chamada "Férias na roça". Meninos da cidade iam a uma fazenda para apreciar a natureza e sentir o cheiro acre dos estábulos. Ora, cheiro acre dos estábulos!! Nem vou mencionar os textos que falam (falavam) da família: o pai provia o sustento, a mãe cuidava do lar e os dois filhos, um menino e uma menina (nesta ordem), brincavam e estudavam. A empregada, sempre negra, fazia o serviço pesado e umas comidinhas especiais. Tudo parecia natural.

A mesma coisa acontece com o ensino de português: a língua dos menos favorecidos (!!) é considerada errada. E nem se deve falar dela na escola, segundo os "sábios". Imagine "defendê-la"! Só na universidade é que se pode saber a "fala popular" segue regras. O povo não pode saber disso! Nem outros intelectuais! Só os linguistas! Para o povo, ditados bobos, que provam que não sabe nada. Soletrando neles! Um dos argumentos que frequentaram algumas páginas que discutiram o livro do MEC era que o próprio povo quer aprender língua padrão, o português correto. Qualquer pesquisa mostraria isso, dizia-se. Supostamente, só os linguistas quereriam "ensinar errado".

Não adiantou dizer-lhes que nenhum linguista defende esta tese (e eles acham que sabem ler!). Parece ser mesmo verdade que "o povo" quer aprender a falar e escrever corretamente. Por quê? Pelas mesmas razões que o levam a querer comer melhor, vestir-se melhor, morar melhor, viajar mais, comprar computador e TV de tela plana. E, eventualmente, a votar contra a reforma agrária e pelo endurecimento da política de segurança. É a ideologia da classe dominante incutida na classe dominada. Parece tão antigo! Mas é tão verdadeiro! Só saiu de moda. Até porque muitos mudaram de lado.

Quando os ricos são defendidos pelos pobres, conseguiram sua maior façanha: convencê-los de que eles não são apenas ricos; também são os únicos que estão certos! Em relação a tudo: da ortografia à quantidade de mata que pode eliminar.

O ensino de língua é ideológico, sim senhor.

Escrevo isso para esclarecer de novo aos que inalaram o marxismo em bares que a discordância dos ataques ao tal livro do MEC não configura esquerdismo.

Uma analogia

No Caderno Ilustríssima (que nome!), da Folha de S.Paulo de domingo, dia 26/06, Joel Rufino dos Santos conta uma história que hoje parece engraçada. Estava preso, em 1965, suspeito de subversão. Um dia, foi tirado da cela para ter seu cabelo cortado (cabeludos não eram bem vistos!). O barbeiro quis saber do tenente que tomava conta de Rufino o que ele tinha feito. O militar lhe disse que Rufino tinha sido convencido por um general comunista a reescrever a história do Brasil. "Como assim?", perguntou o barbeiro. "Eles escreveram, por exemplo, que Pedro Álvares Cabral era viado!" respondeu o tenente.

Assim que li o parágrafo, pensei: "Imaginem se um Fulano como esse tenente decide explicar a um barbeiro cético o que professores de português e estão escrevendo nos livros do MEC". Talvez o castigo não ficasse no corte de cabelos, como não ficou para muitos, naqueles tempos. Houve censores que quiseram prender Sófocles, outros que queriam saber do paradeiro de Immanuel Kant. Qualquer livro de capa vermelha era suspeito, mesmo que tratasse de culinária.

O obscurantismo é de doer.

 

Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso e Língua na Mídia.

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5226697-EI8425,00-Id...

 

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Respostas a este tópico

Fernando, 

com o artigo que você trouxe, me senti de alma lavada. Ainda bem que existem pessoas de bom senso e bom humor, ao mesmo tempo. 

 

E não podemos continuar a ver como normal o desejo de controle sobre o outro, principalmente quando é para impingir dor no semelhante. Seja ele cultural, moral, físico ou qualquer coisa que nos faça menos humanos. 

 

 

 

Carmen, eu não conhecia o Professor Sírio Possenti, até ler este texto dele, e concordo contigo: bom senso e bom humor, ao mesmo tempo.

 

O sistema tenta fazer com que as pessoas aceitem como normal e inevitável tudo que nos quer impingir, como gado, mas como vc colocou muito bem não podemos aceitar dominação e todas as consequências que ela acarreta como a violência, o preconceito, e a exploração

 

Para manter estas estruturas de exploração do ser humano pelo ser humano, existem diversas estruturas, como a Religião, as vezes esquecida, mas que volta a tona, com fatos como as manipulações nas últimas eleições, e a reação homofóbica das diversas igrejas recentemente. A mídia, tema importante e recorrente na blogosfera. E escola, um tema meio esquecido, mas um importante meio de controle social da classe dominante

 

texto bem legalzinho este do sírio e o danado é conterrâneo.

nem sabia... mais um pontinho, inho, prá ele!

Pois é, fernando,

muito bom o texto.

bem oportuno.

diria até que; Sempre oportuno.

sds

 

A nossa amiga querida, AnaLu, especialista no tema, profissional, esta sempre levantando este assunto aqui no Portal, e como vc comentou: sempre oportuno

Bjs para vc e para Luuuuuuuuuuuuuuuzete, e se aqui no Rio tá um frio danado, principalmente a noite, imagina lá.

Fernando acho que vc. me confundiu com a analú..

num foi??

 

Não, Stella, era com vc mesmo, mas o erro foi meu ao digitar, e vou corrigir:

 

Stella, a nossa amiga querida, AnaLu, especialista no tema, profissional, esta sempre levantando este assunto aqui no Portal, e como vc comentou: sempre oportuno

Bjs para vc e para Luuuuuuuuuuuuuuuzete, e se aqui no Rio tá um frio danado, principalmente a noite, imagina lá.

 

Eu só estava comentando que a AnaLu faz muitas postagens sobre o tema.

 

Bjs

 

Acho, Stella e Fernando, que as pessoas de esquerda ainda nao perceberam inteiramente como é importante essa questao. Porque nao se trata só de exclusao social, e de interiorizaçao de inferiorizaçao, mas sobretudo é um atentado à eficiência linguística das pessoas. Ao tentar falar uma linguagem que nao é aquela que dominam, perdem eficiência na manifestaçao do pensamento...

Muito antes do Lula ser presidente, uma amiga minha quis ensinar-lhe Português Padrao, por causa dos preconceitos da classe média, que o atrapalhavam politicamente. Ele topou, mas depois desistiu. Disse, Fulana, na hora em que falo nao posso ficar pensando em sujeito e predicado, tenho que pensar no que os oponentes disseram, no que devo responder a eles, etc. Verdade puríssima.

Reparem que ele até, com o tempo, exposiçao a falas de outras pessoas, muita leitura de discursos escritos, ficou com uma linguagem bem mais próxima da padrao. Mas em léxico, uso de certas construçoes, etc. Em concordância, nao consegue controlar, basta sair do preparado, que vem a linguagem que ele usa espontaneamente.

Agora, me digam, por que as pessoas que nao foram educadas nessa variante linguística deveriam ser obrigadas a usá-la? Isso é violência, embora nao reconhecida como tal.

Eu mesma tenho uma experiência sobre a impossibilidade de corrigir o uso linguístico já automatizado, e isso em língua estrangeira! Eu falava francês correntemente na época, mas com uma pronúncia horrível e com erros sintáticos tb, e erros verdadeiros, ou seja, usos que nenhum falante do francés utiliza. Fui a um centro de excelência no ensino de línguas -- era um centro de pesquisa, nao um cursinho de ensino de línguas -- e perguntei a eles se era possível corrigir o meu Francês. O diretor de lá me disse "Com o seu nível de fluência? Bom, se você tiver uma necessidade vital disso para trabalhar, estiver fortemente motivada, e se dispuser a fazer de 6 a 8 horas de exercícios por dia, talvez em cerca de um ano se consiga...".

Isso numa língua que eu usava há cerca de 2 anos. Imaginem em língua materna, que a gente fala desde criancinha...

 

 

 

Analú,

sei bem disto.

convivo com gente de varios países e daqui do nordeste tb.

outro dia num seminário de mulheres( macha das margaridas) muitas não queriam compor a mesa, pois se achavam "simples, sem saberes" ora..ora..

são elas justamente que estão na luta cotidiana por melhores condições.

eu mesma muitas vezes fico " acanhada"( rsrs) mas aprendi , que é minha luta o que importa.

mais do que meu uso linguístico.

mas esta " segurança" que hoje tenho ( ops!) custou um cadinho de proezas.

você se aceitar..

 

E é super importante que as pessoas dos movimentos sociais percebam isso, porque esta é uma das frentes de luta em que vale a pena lutar. Hoje se diz que é preciso ensinar o português padrao porque ele é exigido em provas, entrevistas, etc. Pois bem, uma das coisas a proibir é isso, que se exija em provas só um uso linguístico. Melhoraria muito o êxito de alunos de classes populares nos vestibulares e concursos públicos. E saber bem uma língua é saber usá-la com eficiência, ser claro, saber redigir textos bem organizados, e nao saber regras esdrúxulas de uso de infinitivo pessoal ou impessoal e de colocaçao de pronomes!

Anarquista Lúcida,

obrigada por suas colocações, fez-me economizar um tempo. E sem o faria com tanta lisura e elegância. :-)

 

Gratidão dimontão!

Grata a você por ouvir... Sou uma senhora, às vezes me sinto velha. Se há alguma coisa em que acho que tenho uma boa contribuiçao para dar é nessa luta específica, contra o preconceito linguístico. Que é, ao mesmo tempo, uma luta contra a dominaçao cultural e simbólica.

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