Mauro Santayana





02/07 às 17h10 - Atualizada em 02/07 às 17h34

Itamar: um honrado patriota

 


 
Mauro Santayana



O homem que morreu neste sábado não pertencia às elites  políticas ou empresariais de Minas. Engenheiro, filho de descendentes de imigrantes (o pai, de alemães, e a mãe, de italianos) Itamar teve uma infância de classe média modesta. Não chegou a conhecer o pai, que morreu pouco antes que nascesse.  Formado, com as dificuldades da situação familiar, em engenharia, aos 24 anos,  trabalhou no saneamento básico na periferia de Juiz de Fora, antes de integrar os quadros do DNOCS. Esse contato com o povo o levou à vida pública.   

Itamar não foi um político   definido pelos estereótipos.    Destacaram-se em sua personalidade e ação política os dois sentimentos que orientam os grandes homens públicos de Minas: o do nacionalismo – que vem da Inconfidência - e o da justiça social. Não há como negar a Itamar o alinhamento ideológico à esquerda. Um de seus ídolos desde a adolescência  foi o gaúcho Alberto Pasqualini, dos mais importantes pensadores políticos brasileiros e conselheiro  de Getúlio.   

Como é de conhecimento público, prestei  assessoria informal ao Presidente, e, mais tarde, ao governador. Pude acompanhar, de perto, seu empenho na defesa dos interesses nacionais e da moralidade no governo. Acompanhei, de perto, as suas preocupações, quando decidiu adotar, a conselho de membros da equipe econômica, o expediente antiinflacionário da Alemanha dos anos 20 – o Plano Schacht. Era a segunda vez que se tentava, no continente, a mesma estratégia contra a hiperinflação, bem conhecida como matéria de estudos financeiros. A primeira fora a do Plano Austral, da Argentina. Também o Plano Cruzado, de Sarney, contemplava algumas de suas medidas.

Conhecedor de matemática, Itamar reviu o plano, ponto a ponto, fez correções que lhe pareceram apropriadas e, só depois disso, assinou a medida provisória que o implantou.

Poucos dias antes de sua internação, estive em seu gabinete, em  companhia do Embaixador Jerônimo Moscardo, que foi seu Ministro da Cultura. Ao nos cumprimentar, visivelmente gripado, Itamar reclamou do ambiente frio do Senado. “Esse ar acondicionado é de matar”. E disse que estava com uma gripe que não cedia. 

Convidou-nos para uma visita ao gabinete do presidente José Sarney, ao lado do seu. Conversamos os quatro, alguns minutos, sobre a situação do país e do mundo. Relembramos  a personalidade de Tancredo Neves e episódios menos conhecidos do processo de transição democrática que, pelas circunstâncias do tempo, Sarney e este jornalista haviam vivido mais de perto.

Itamar estava preocupado com a situação do país, e a necessidade de que se formassem líderes capazes de enfrentar as dificuldades internacionais do futuro próximo. Naquele mesmo dia, ele solicitara da Mesa do Senado a transcrição de um artigo meu, publicado neste jornal, de reparos ao seu sucessor.

O grande êxito de Itamar pode ser explicado pela renúncia pessoal às glórias e pompas do poder. Não foi açodado em assumir o governo, depois do impeachment de Collor. Coube a Simon instá-lo a isso, sob o argumento da razão de Estado: o poder não admite o vazio. Logo que assumiu a Presidência, reuniu todos os dirigentes partidários e líderes no Congresso, sem excluir ninguém, nem mesmo o folclórico Enéas Cardoso. Disse-lhes que estava disposto a convocar eleições imediatas para a Presidência e Vice-Presidência, se estivessem de acordo. Silenciou-se, à espera da resposta – e ninguém concordou. Por duas ou três vezes, ele me disse que, apesar daquela recusa unânime, talvez tivesse sido melhor consultar o povo, naquela difícil circunstância.

Quando se pôs o problema de sua sucessão, tendo em vista a sua altíssima popularidade – de mais de 80% - alguns líderes políticos lhe propuseram a apresentação de emenda constitucional permitindo a sua reeleição. Itamar recusou, com veemência, a proposta. O democrata não poderia admitir o golpe que seu sucessor desfecharia.

Mais do que sanear a moeda, Itamar ficará na História por haver recuperado a credibilidade da Presidência da República junto ao povo brasileiro. Poucos, muito poucos, dos que exerceram o alto cargo ao longo da História, ficarão na memória da Nação com a mesma e sólida presença de Itamar  Franco, modesto homem do povo, intransigente patriota, severo guardião do bem público.    

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Respostas a este tópico

 

Eu sempre fiquei meio dividido sobre Itamar, mas é preciso reconhecer que o período histórico que ele Governo o Brasil e depois Minas não foi favorável a um político com nítido perfil nacionalista, pois ainda estávamos sob um jugo muito forte do neoliberalismo, e dentro do possível acho que fez o que pode, mas lamentavelmente o PT de MG não entendeu, o mesmo PT que nacionalmente veio a tolerar Henrique Meirelles, e tolera Nelson Jobin e Sarney, enquanto em Minas, em BH, tolera o novo Lacerda, a versão mineira

 

No Rio participa do Governo Cabral que trata os bombeiros a base de porrada, em MG fazia beicinho para o Itamar, devido a uma greve maluca dos professores, enquanto FHC fazia de tudo para quebrar Minas, como retaliação a reação de Itamar a privatização de Furnas, mas quanta hipocrisia e incoerência deste PT, do qual sou eleitor apesar de tudo

 

O Lula com toda a sua visão se aproximou de Itamar, chamou o Alencar para ser seu vice, e ganhou em MG, e no Brasil, sem Minas não ganharia, nem Dilma, pois não é a toa que ele é o nosso líder

MST se despede de Itamar Franco e lembra esforços do ex-presidente pela Reforma Agrária

Correio do Brasil

Itamar

O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) divulgou, nesta segunda-feira, uma nota de despedida ao líder Itamar Franco, na qual faz justiça aos esforços do ex-presidente pela justiça no campo. Intitulada Itamar ajudou o MST nas batalhas mais duras pela Reforma Agrária e assinada por João Pedro Stedile, coordenador nacional do Movimento, a mensagem lembra que “Itamar Franco tinha compromisso com a Reforma Agrária e “afeto, respeito e admiração” pelo MST, como manifestou em carta em 2007″.

Leia, na íntegra, o documento

Itamar ajudou o MST nas batalhas mais duras pela Reforma Agrária

A Coordenação Nacional do MST lamenta a morte do presidente da República e governador de Minas Gerais, Itamar Franco, no sábado. Itamar Franco tinha compromisso com a Reforma Agrária e “afeto, respeito e admiração” pelo MST, como manifestou em carta em 2007.

Ele se orgulhava de ter sido o primeiro presidente da República a ter recebido o MST no Palácio do Planalto.

Itamar completou 81 anos no último dia 28 de junho. Ele assumiu a Presidência após a renúncia de Fernando Collor de Mello e governou o Estado de Minas Gerais entre 1999 e 2003.

“Orgulho-me de nunca ter cumprido nenhuma liminar de reintegração de posse (quando governador de Minas Gerais)”, disse Itamar Franco, em carta ao 5º Congresso do MST em 2007.

O presidente morreu em decorrência de um acidente vascular cerebral na manhã de anteontem. Itamar estava internado desde o dia 21 de maio no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, quando foi diagnosticado com leucemia.

Abaixo, leia a mensagem do integrante da Coordenação Nacional do MST João Pedro Stedile à família e amigos de ex-presidente Itamar Franco.

Carta do MST à família de Itamar Franco

Estimados familiares do nosso querido Itamar Franco, infelizmente, a vida tem seu ciclo natural e perdemos nosso querido Itamar. Em nome do MST, manifestamos nossos pesares. Nossa base tem um carinho especial por Itamar Franco.

Mais do que um homem público irretocável, comprometido com a causa pública, com o povo brasileiro, ele sempre nos atendeu com carinho e amizade.

Tinha uma sensibilidade social enorme e sempre nos apoiou, mesmo nas batalhas mais duras, enfrentando enormes interesses na questão da Reforma Agrária.

Sentiremos muito sua falta, mas temos nele sempre um exemplo de homem público, de ser humano solidário e humilde.

Um forte abraço,
Joao Pedro Stedile
Coordenação Nacional do MST

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Manifesto do MST em homenagem a Itamar Franco

Itamar Franco, amigo de hoje e sempre

4 de julho de 2011

O presidente Itamar Franco foi convidado para participar do 5° Congresso do MST, realizado em junho de 2007, em Brasília.

Itamar não pôde participar, por problemas pessoais, mas enviou uma carta aos 18 mil trabalhadores acampados e assentados, que participavam da atividade.

“Reafirmo meu compromisso com a defesa irrestrita da Reforma Agrária, como condição para democratizar a concentrada estrutura fundiária, como condição de distribuição de riqueza, de geração de renda, de trabalho, de diminuição da violência e de preservação do meio ambiente”, escreveu Itamar.

O presidente morreu em decorrência de um acidente vascular cerebral na manhã de anteontem. Itamar estava internado desde o dia 21 de maio no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, quando foi diagnosticado com leucemia.

Itamar completou 81 anos no último dia 28 de junho. Ele assumiu a Presidência após a renúncia de Fernando Collor de Mello e governou o Estado de Minas Gerais entre 1999 e 2003.

Abaixo, leia a carta do ex-presidente Itamar Franco ao MST.

Do amigo de hoje e sempre

Parabenizo o Movimento dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais Sem Terra pela realização do 5° Congresso Nacional.

Manifesto meu afeto, respeito e admiração pela existência de uma democrática, legitima e autônoma organização representante dos trabalhadores e trabalhadoras rurais do nosso país. “Oxalá” que em nosso meio, a exemplo de vocês, eclodissem inúmeros, diversos movimentos sociais comprometidos com a organização e com o elevar do nível de consciência do povo Brasileiro.

Reafirmo meu compromisso com a defesa irrestrita da Reforma Agrária, como condição para democratizar a concentrada estrutura fundiária, como condição de distribuição de riqueza, de geração de renda, de trabalho, de diminuição da violência e de preservação do meio ambiente.

Orgulho-me de ter sido o primeiro presidente da República a receber o MST no Palácio da Alvorada.

Orgulho-me de, como Governador do Estado de Minas Gerais, termos juntos combatido a privatização de setores estratégicos como a usina hidrelétrica de  FURNAS e a Central Elétrica de Minas Gerais (CEMIG). Em Minas, em nossa gestão, não privatizamos as estradas e nenhum mineiro nunca pagou pedágio para trafegar em nossas rodovias.

Orgulho-me de, em minha gestão, nunca ter comprido nenhuma liminar de reintegração de posse contra aqueles que nada mais querem a não ser um pedaço de terra para o digno trabalho.

Mesmo quando o então presidente da república determinou que o exército invadisse nosso estado para enfrentar o MST que se encontrava na sua fazenda. Em respeito à autonomia dos estados federativos solicitei que o exército não adentrasse o solo mineiro, porque com os sem terra tenho diálogo e respeito.

Determinei e cunhei a frase junto aos meus comandados da polícia militar “Reforma Agrária no meu governo não é caso de policia, mas de política”.

Como vocês, somo-me à justa trincheira da construção e defesa de um projeto nacional, democrático e soberano, que garanta o desenvolvimento, emprego e valorização do trabalho e que efetivamente melhore as condições de vida da nossa gente.

Parabéns MST, contem comigo,

Do amigo de hoje e sempre,

Itamar Franco
Belo Horizonte 13 de Junho do ano de 2007.

http://correiodobrasil.com.br/mst-se-despede-de-itamar-franco-e-lem...

http://correiodobrasil.com.br/mst-se-despede-de-itamar-franco-e-lem...

 

De Ruy Barbosa Maciel lá no Brasilianas:

 

A mídia véia não gostava dele, e escondeu do povo isto:

 

Delfim Netto: FHC surfou sobre o Plano Real e quebrou o país

Ex-ministro denuncia desastre e “métodos absolutamente heterodoxos para se reeleger” 

O deputado federal Delfim Netto (PMDB/SP) afirmou que Fernando Henrique “surfou sobre o plano real” para se eleger presidente da República por dois mandatos, aplicando um “duplo estelionato eleitoral” no povo brasileiro.

“Elevou para 29% a carga tributária bruta e aumentou de 31% para 49% do PIB o endividamento. Não fez o menor esforço para controlar as despesas, reduzindo o superávit a zero no primeiro quadriênio. Em apenas quatro anos, acumulamos um déficit em conta corrente da ordem de US$ 100 bilhões! O resultado foi trágico”, ressaltou o deputado, assinalando que essa política levou o Brasil a quebrar em 1998 e recorrer ao FMI “com o chapéu na mão, pedir um socorro de US$ 40 bilhões!”. Foi o primeiro “estelionato”, disse Delfim.

O deputado continuou, afirmando que no segundo mandato – depois de se eleger e procurar, “com métodos absolutamente heterodoxos, a sua reeleição sem desincompatibilização, o que seria o segundo ‘estelionato eleitoral’” – diante da exigência de arrocho fiscal feita pelo FMI “descarregou o problema sobre o setor privado, aumentando a carga tributária bruta para 32% já em 1999” .

“Puxado pelo nariz, o governo perdeu o controle do câmbio para o ‘mercado’. Instalou-se depois uma nova e melhor política monetária. Mas o fim foi melancólico. Terminamos 2002 com uma inflação de 12,5% e um crescimento de 1,9%. Acumulamos mais US$ 80 bilhões de déficit em conta corrente. Com reservas de US$ 16 bilhões, e o Brasil ‘quebrado’ pela segunda vez”, observou.

Delfim Neto destaca também que o último surto de desenvolvimento experimentado pelo Brasil ocorreu no governo Itamar Franco (1993/94), “quando crescemos 5,4% ao ano, com equilíbrio externo”. “A carga tributária bruta era de 27% do PIB, e a dívida líquida do setor público, 31% – graças ao vigoroso superávit primário de 3,7% ao ano, em média, no período. As reservas internacionais eram de US$ 40 bilhões, correspondentes a um ano de importação”, completou.

 

A devastação do Brasil no governo tucano-neoliberal: uma memória (1)

No recente relatório da Fitch Ratings, tão aplaudido por alguns, está a afirmação de que os supostos avanços da economia brasileira que motivaram a “elevação” do rating do país no conceito (ou no apetite) dos bancos externos foram aqueles do governo Fernando Henrique - o que, para uma “agência” que obedece aos interesses estrangeiros mais espoliadores e parasitários da face da Terra, é compreensível. Muito menos compreensível são certas afirmações, por quem não é tucano nem fez parte daquele infeliz governo, de que o sucesso do presidente Lula em seu segundo mandato foi devido à continuidade em relação àquela época catastrófica para o Brasil. Quando Lula assumiu a Presidência, em 2003, o país estava à beira do colapso - e foi a ruptura com o período anterior que possibilitou, sob a liderança de Lula, que o país se reerguesse, assim como foram os elementos que ainda restavam desse malfadado período que mais obstaculizaram esse reerguimento.

 

 

Tudo isso nos parece óbvio, mas, infelizmente, a memória às vezes falha a alguns - e de tanto ouvir a mídia repetir o seu cantochão sobre os supostos “fundamentos” que alguns devastadores do país teriam assentado, há quem faça, inconscientemente, coro a essa infâmia.

 

 

 Além disso, existem os jovens, alguns que são tão jovens que mal viveram aquela época. Por todas essas razões, veio-nos a idéia lembrar, brevemente, o que foi aquela aflição para o país e seu povo - para os trabalhadores, para os empresários, para os estudantes, para as mulheres, crianças e homens deste país. Não encontramos forma melhor de isto fazer do que apresentar uma condensação do relato e análise de Nílson Araújo de Souza em seu livro “A Longa Agonia da Dependência”. Chamamos a atenção do leitor para o fato de que se trata de obra volumosa - mas acessível a todos os interessados em melhor conhecer a economia e, de resto, a História de nosso país. O que apresentamos aqui é apenas uma amostra - mas suficiente para que conheçamos (ou refresquemos a nossa memória) sobre um dos mais terríveis períodos que o Brasil já passou. O seu desfecho, com a derrota da reação, do atraso e dos destruidores da nação, apesar das marcas que ainda não foram inteiramente superadas, é uma advertência presente aos inimigos do país. Não há continuidade possível e não há volta possível àquela época. Os que o tentaram, aliás, receberam do povo o seu saudável e bem colocado repúdio.

 

 

Eu sei o que aconteceu em Mont Pellerin, Suiça, em 1947.

 

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