La Chinoise de la chinita – tamborins e surdos aquecendo a avenida





Por um lado:
“Façamos a revolução
Antes que o povo a faça
Antes que o povo à praça
Antes que o povo a massa
Antes que o povo a raça
Antes que povo: A FARSA”.
- Afonso Ávila –

Por outro:
“De pé a jovem guarda
A classe estudantil
Junto à vanguarda
A trabalhar pelo Brasil
De coração é que traz
Um canto de esperança
Num Brasil em paz
A UNE somos nós
A UNE é nossa voz”

Z² estão digitalmente desincluidas por arte e gracia del Rey Juan Carlos e sua corte de colonizadores ineptos incapazes de fazer chegar internet neste vilarejo a longínquos 100 kms da capital financeira do pais, incapazes alias até de manter prestação decente de serviços de telefonia tosca e simples, los muy degenerados. Então agora pra zezita navegar não é preciso, nem tampouco aborrecer-se com muita porcaria. A la mierda, Don Juan, e tamos hablados.

Sobra tempo pra ler umas coisinhas sobre o anel nibelungo, sobre um tipo chamado Joseph Stiglitz, sobre gente com água batendo na cintura e sem água pra cozinhar nem dar banho no nenê, e sobretudo irritar-se com a marolinha Beyoncé que parece que se apossou de todos os cadernos de kultur de pasquins metidos. Beyoncé superstar?! Por quem nos tomam, empresários, divulgadores, “críticos musicais”? Temos produção doméstica à farta de peruas rebolantes ao estilo crazy horse, onde peitões e bundões e canções idiotas se fundem na geléia geral do entretenimento cafona. Por sinal que nestes tempos de vacas sagradas ser cantora consagrada pressupõe ser pernuda, peituda, cabeluda, decotuda; e todas invariavelmente aaaaamaaaam a simplicidade, a natureza e Chico Buarque, quaquaquá! Zouzou imagina o que seria hoje de Clementina, Tuca, Leny Eversong, Ella, Sarah, Aracy e tantas divas de outrora fisicamente desviantes do padrão modelo-atriz-cantante imposto à molecada a peso de propaganda maciça e massiva.

A tese zouzou é de que onde mais a coxa abunda, a voz desencanta. Pois então Beyoncé vai enrolar pelaí, catar o aviãozinho, dar byebye pros trouxas nativos pra ir aplicar seu 171 musical em trouxas dali, de acolá, de Buenos Ayres a Tóquio a Bombaim. Vade retro, cuide bem do confrinho.

Onde távamos, sorellas? Zezita saindo dos trilhos. Parem de distrair zezita!!!

Desconectada da internet, portanto, provocadora eletrônica tanto no sentido da elaboração quanto da vulgarização (a internet, não zouzou), zezita escarafunchou seu (seu não, dela) acervo privé de filmes do tempo do onça (8) e, mui apropriadamente na dúvida entre a corrosiva Viridiana e a estonteante Belle de Jour, em gesto autohomage resolveu deslizar “La Chinoise” em mais que jurássica versão VHS pras tripas do videocassete (meninos, zouzou e zezé temos!) movido a lenha e que bravamente resiste à modernidade assética. Sensação igual a de ouvir um bolachão (todo riscado) no lugar de um cd (ou que diabo já tenham bolado de mais modernoso) ou bailar um tangaço em tecnoclubberambience.

Por entre chiados, imagens saltitantes e fotogramas embaçados, o que comove sempre esta aspirante a olhadora de imagens é a aptidão de Jean Luc Godard em revolucionar linguística cinematográfica, tomando por base que é filme 1967, auge dos mexe-mexes culturais, comportamentais, políticos e estéticos que vão depois bagunçar o barraco do imperialismo (oui, messiê Nunê, imperialismo sissiô) ianque entretido em devastar corpos e mentes amarelinhos e moreninhos, pra produzir seguidos surtos de explosão/criação nos setores pop, com Easy Rider e Woodstock; político-estudantil, com o maio de 1968, Crusps e lubelus; artístico-gráfico, com Malcolm MacLaren, Robert Crumb, Ugo Crepax, Cássio Loredano e Luís Trimano; musical, com as viagens lisérgicas de Pink Floyd, Jerry Garcia, Frank Zappa e Sergent Pepper’s Lonely Hearts Club Band e as experimentais-eruditas de Stockhausen, Schoenberg, Bejart, John Cage; teatrais, com a manifestação do te-ato-happening do Living Theatre e os engajés Arena e Oficina; plásticas, com as mostras de Wesley Duke Lee, Luís Baravelli e Hélio Oiticica; com o delírio Panamérica de Zé Agripino; cinematográfica, com as polêmicas entre cinema novo, estética dos festivais, pornochanchada, cinema boca-do-lixo e o incrível exemplar de cinetransgressão que funde linguagens teatrais, cinematográficas e jornalísticas na produção do delirante “Nenê Bandalho”; que foi, claro, defenestrado rapidamente pela censura e pelo bom-gosto middleclass. Glauber vociferava: “Louis Malle é fascista!”. Louis Malle retrucava com “Pretty Baby”, maravilha. Maravilhosas Susan Sarandon e Brooke Shields.

O que tudo isso tem a ver com “La Chinoise”? O tesão do debate cultural, o barato do barraco, a temperatura da chapa quente. É parábola que amiguita Beth, por exemplo, traçou entre a linguagem Tinhorão e as propostas revolucionárias formuladas a partir de linguagens dissociadas do cotidiano/organismo popular, revolucionário em tese e refratário a discursos teóricos e retóricos. Ufa!

A desconexão entre teoria e práxis, segundo Zouzou e Jean Luc , confinou revolução em apês, “repúblicas”, metaforizando academias, aparelhos, universidades, onde linguagem de revolução prevalece sobre ação revolucionária; o romantismo gauche sobre o realismo, e abrindo caminho à reação reacionária, esta sim ciosa de sua própria condição de classe; fixação temática dos cinemas francês, italiano, europeu, vá lá, da década 1960/70, via Resnais, Bertolucci, Elio Petri, Viscontti, Antonioni, Bolognini, Montaldo, Buñel, Saura, Bergman, Vajda, Herzog, e um estranho no ninho que é soco no fígado: Marco Ferreri (A Comilança e Viridiana são os dois filmes mais subversivos já rodados em toda a história do cinema sonoro. Um ibérico puto com Franco, puto com os curas, e um carcamano puto com todo mundo. Sintomático? Je ne sepá.... ).

Diz aí, Milton (o Nascimento, não o Santos): “Se foi assim, assim será...”. Era processo vital, necessário – ainda o é – e quem não mete/meteu mãos e boca en la merde que tire a bundamole de la strata.

“La Chinoise” é recomposição de linguagem, extrapolação de signos, subversão de códigos e inversão de significantes. Nada lá se declara “cinema”, e é puro cinema, a partir da abertura com que Godard promove e realinha ficção semidocumental como recurso formal de integrar conteudo e incorporação do público (espectador) à própria obra – aberta, entrópica, totalmente inacabada. O adieu ao espetáculo (re) introduz a especulação, a reflexão, a função social da estética.

O “hermetismo” circunstancial/enganador Godard é ruptura de linearidade discursiva, desmanche da conjugação tradicional entre som, imagem, música, dramaturgia. É cinema multitextual que desafia o olhar, o ouvir, o significar. Desde que se abra a guarda e se deixe “encantar” pela multiplicidade das falas e pela aleatoriedade rigorosamente estruturada das imagens, se percebe que a mágica do cinema não é (ou, não apenas) narrar (bem) uma (boa) história, capturar sensibilidades; é tambem propor novas formas de olhar e pensar. Humanismo à toda, em toda sua complexidade; as falhas e as virtudes desse “ser que pensa” a si mesmo e ao futuro. E viva Manoel de Oliveira e abaixo Barretos em Frias.

“Cinema Falado”, Caetano, é puro exercício/tributo Godard.

Enquanto a linguagem fílmica proposta anteriormente semeia pistas e oferece chaves de interpretação, “La Chinoise” despista e confunde. Enquanto o cinema tradicional é The End, o cinema Godard é To Begin, é (auto/alta) discussão, é oral-discursivo sobreposto ao imagético (imagens dissonantes ao discurso, linguagem sobreposta a linguagem, poesia visual a 24 fotogramas/segundo). Nessa inconclusão, fixa-se a inconclusividade do próprio cineasta, do próprio ato de se fazer cinema, de se assistir a cinema, que se reforça nos atores-militantes, na cenografia, na música, no público, na expansão de consciência e, ao mesmo tempo, no profundo corte político sobre o impasse histórico das limitações ideológicas/estéticas.

Lembra a questão das vanguardas e retaguardas?

O que estudantes de filosofia, artes e ciências políticas pretendem, confinados em um apê claustrofóbico pontilhado por pôsteres de Lênin, Mao, exemplares do Livro Vermelho, do Capital e de canções de revolução, é superar/sublinhar o impasse da filosofia, todavia renitente, submetida ao napalm e ao imperialismo estendendo a teia pelo mundo afora mediante B-52’s, Alianças para o Progresso e shopping centers; e aliado à letargia da classe operária lutando por reformas pontuais.

“La Chinoise” é premonitório. Antecipou Maio de 68, antecipou a Ofensiva do Tet, antecipou Stones em Altmont e antecipou a OPEP. O Terceiro Mundo estava fora das cogitações dos jovens filósofos-estetas-ativistas-protoguerrilheiros encharcados da haute culture... incapazes de agitar o caldo revolucionário, tentando atabalhoadamente modificar, afora interpretar; impasse depois exemplarmente enunciado por Pontecorvo e Elio Petri... e até por Francis Ford Coppola. O desbunde durante a viagem pelo Mekong e a piração de Kurtz são o avesso do avesso da flor do desencantamento que germina num apê de Paris. Seres humanos dando de cara com sua própria condição humana; e novamente citando Bethbalancê (que não é nada Beyoncé): “...demasiadamente humana”.

La petite bourgoisie progressista-iluminista-marxista, presumindo-se pré-revolucionária, pode anunciar revolução, celebrar revolução, desejar revolução, até elaborar o design à revolução, mas, como conclui o patético desorientado personagem-jovem de Bertolucci, em “Antes da Revolução”: “Ansiamos, esperamos, sonhamos revolução. Mas quando ela ocorrer, o que nos restará?, porque somos incapazes de fazer a Revolução”.

A História atesta isto a cada dia, e Godard foi hostilizado pela mocidade independente enragè maoísta/anarquista nas barricadas de Paris porque antecipou criticamente a ruptura entre linguagem teórica (e poética) e a linguagem crua das condições materiais dialéticas, táticas, de realizar revolução. Sobrava juventude, frescor, disposição. Faltava o protagonista que não habita apês, não coleciona pôsteres nem discos. “Derrubar as prateleiras... A imaginação no poder... Proibido proibir...”, a linda revolução estética des enfants que bateu contra o muro de uma sociedade antiestética por excelência.

O impulso ao sonho vence batalhas pontuais, até campais. Vale muito, como etapas de formação da consciência política. O status quo, o capitalismo, o imperialismo, que já não criam apenas conservam, tem a palavra final até o momento em que os que não tem acesso a apês, nem livros, nem discos, nem a nada absolutamente, (des)organizarem seus próprios batalhões e erguerem suas próprias barricadas de pneus queimados e entranhas expostas. A moral e o senso de correção política não estarão no quadrante.

Em vez de prateleiras, derrubarão laranjais e canaviais, arrombarão caixas eletrônicas, causarão apagões internéticos; à revelia dos escrúpulos manifestados de apês e blogues piedosos. O baronato, a mídia progressista e os clérigos se unem nestes momentos; são aliados viscerais. São a reação, sempre.

Entonces, segundo zouzou, segundo a tese Jean Luc a nova onda não deverá ser fashion, nem elegante, nem fotogênica, nem mesmo ética. Terá de ser eficaz. Poema sujo, como verbalizava o “falecido” poeta Gullar.

“La Chinoise” é atual como qualquer obra atemporal, abstraidas as circunstâncias específicas. Cinema-ensaio em estado puro, modifica o fazer/ver cinema a partir dele.

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Respostas a este tópico

ainda nao tive tempo de ler, mas a trilha da Chinoise, mon Dieu, há anos procuro.
Ai meu Deus!Primeiro, Zezita ,já te disse pra não ler jornal. Quem é Beyoncée, f*** her, f*** todos os cadernos culturais cheios de irrelevâncias.

Posto isso, que saudade da inteligencia,do talento, dos grandes cineastas!La Chinoise, sempre na minha cabeça o refrão "Quest-ce que je fait de mon vivre?Mao,Mao".
Não deu certo.

E o grande Bertolucci também: Novecento. Tantos outros, especialmente me ocorreu The Dreamers, Os Sonhadores, de 2003,que levou o maior pau da crítica europeia, eu adorei.

Maio de 68. E fui procurar o que ele disse, olha só. Não concorda que Maio de 68 tenha sido um fracasso,como eu nunca concordei:

" "Maio de 68 pode não ter instaurado a Revolução com que sonhávamos, mas resultou numa mudança profunda dos costumes."

Não só dos costumes. Na entrevista ao Estado, Bertolucci explica por que acha que até o fato de o Brasil ser presidido por um antigo metalúrgico, Luiz Inácio Lula da Silva, tem a ver com o espírito de Maio de 68.

Para o cineasta, Os Sonhadores tornou-se um filme necessário porque ele sentiu que a juventude estava desinformada e perdendo todo conhecimento sobre um período que foi rico e cujos desdobramentos ainda não cessaram.
"Os poderosos tentam nos convencer de que as ideologias morreram com o comunismo, mas não é verdade. Sem ideologia, não há utopia. Sem utopia não existe esperança e, sem ela, não existe futuro", diz o diretor, que se considera, hoje como ontem, um sonhador.
Bertolucci explica por que fez de um dos vértices de seu triângulo um americano em Paris. O americano talvez seja o personagem mais forte de Os Sonhadores. Encarna uma consciência da violência e seus limites que o incestuoso (e decadente) casal europeu não possui. Isso pode provocar polêmica se o filme for visto só na perspectiva atual, num mundo dominado pelo presidente George W. Bush e o que ele representa. "Maio de 68 foi isso - uma mistura de decadência e revolução", explica o diretor."

Longa vida a Bertolucci e a todos nós, os sonhadores.



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E o nunca esquecido Pier Paolo Pasolini
Nada mais feroz que a banalissima televisão

desculpa Zezita, nao resisti, foi uma avalanche na cabeça.
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Achei esse trailler de Os Sonhadores, do Bertolucci,melhor que o outro acima.
porque a musica lá de cima do primeiro Sonhadores nao tem nada a ver com o filme, muito menos com maio de 68.
cruz-credo, que esta tua exclusão digital rende coisas incríveis, zezinha!

as reflexões que você compartilha com a gente não são simples, requerem mesmo leitura cuidadosa e atenta... me sinto aprendiz. me sinto pequena. me sinto incapaz. mas são sentimentos bons. me mostram o quanto ainda não sei. o quanto ainda tenho que aprender. não sei se terei tempo, mas vou caminhando e aprendendo.

você também nos acomete com verdadeiros socos no estômago, mas a gente se alivanta e segue caminhando. diferente,viu: mais atenta às coisas a nossa volta!
.................derrubarão laranjais e canaviais, arrombarão caixas eletrônicas, causarão apagões internéticos; à revelia dos escrúpulos manifestados de apês e blogues piedosos. O baronato, a mídia progressista e os clérigos se unem nestes momentos; são aliados viscerais. São a reação, sempre.

mais pura verdade, incluindo até doação de crianças a Pop star a genuína Madona a Evita dos nossos tempos a cabaré e o Jesus luz...ops luz???? esqueci do apagão

lembra daquela música- ta todo mundo louco obaaaaaaaaaaaaaaaa
Beth, vcviajou, não foi?e eu adorei.
eu ia dizer: abra as suas asas sobre nós e traga estas coisas bonitas que vc sabe achar... porque sabe procurar, né?

mas aí eu viajei na sua viagem, ao pensar em asas e aí juntando com o título do tópico, lembrei desta música (a letra nem é lá estas coisas, mas tem momentos relevantes):

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