
O triunfo de Baco - Carracci
O deus abandona Antônio
Quando à meia-noite ouvires
passar a invisível folia
com música maravilhosa e exaltadas vozes,
não chores em vão
a tua sorte que declina, as tuas obras fracassadas,
os teus planos de vida que não deram certo.
Como homem preparado há tempos,
como um valente,
dá adeus a Alexandria, que se afasta.
Não te enganes,
não digas que foi um sonho,
não aceites vãs esperanças.
Como homem preparado há tempos,
como um valente,
como sói a quem desta cidade foi digno,
aproxima-te com passo firme da janela
e ouve com emoção — não com lamentos
nem súplicas de fracos —, com derradeiro prazer,
os sons, os maravilhosos instrumentos da
folia misteriosa
e dá adeus a esta Alexandria
que perdes para sempre.
C.P. Cavafis (Alexandria, 1863-1933), tradução minha

Edward Munch, O vampiro (1893)
O VAMPIRO
Rolam teus cachos escuros e sobejos
por tuas cândidas formas como um rio,
e esparjo em seu caudal, crespo e sombrio,
as rosas ardentes dos meus beijos.
Enquanto teus anéis solto em arquejos,
sinto o leve roçar e o leve frio
da mão tua, e mui longos calafrios
me percorrem até os ossos, malfazejos.
Tuas pupilas caóticas e estranhas
rebrilham quando escutam o suspiro
que me sai lacerando as entranhas,
e enquanto eu agonizo, tu, sedenta,
és qual um negro e pertinaz vampiro
que com meu sangue ardente se sustenta.
Efrén Rebolledo, tradução minha em R. Bolaño, Detetives selvagens
Rebolledo (1877-1929), poeta modernista mexicano, foi um dos introdutores da poesia erótica em seu país.

Edward Munch, O grito
DA CANÇÃO X
Luís de Camões
Já me desenganei que de queixar-me
não se alcança remédio; mas quem pena,
forçado lhe é gritar se a dor é grande.
Gritarei; mas é débil e pequena
a voz para poder desabafar-me,
porque nem com gritar a dor se abrande.
Quem me dará sequer que fora mande
lágrimas e suspiros infinitos
iguais ao mal que dentro n'alma mora?
Mas quem pode algü'hora
medir o mal com lágrimas ou gritos?
Enfim, direi aquilo que me ensinam
a ira, a mágoa, e delas a lembrança,
que é outra dor por si, mais dura e firme.
Chegai, desesperados, para ouvir-me,
e fujam os que vivem de esperança
ou aqueles que nela se imaginam,
porque Amor e Fortuna determinam
de lhe darem poder para entenderem,
à medida dos males que tiverem.
RONDA

Ronda
Paulo Vanzolini
De noite eu rondo a cidade
A te procurar sem encontrar
No meio de olhares espio em todos os bares
Você não está
Volto pra casa abatida
Desencantada da vida
O sonho alegria me dá
Nele você está
Ah, se eu tivesse quem bem me quisesse
Esse alguém me diria
Desiste, esta busca é inútil
Eu não desistia
Porém, com perfeita paciência
Volto a te buscar
Hei de encontrar
Bebendo com outras mulheres
Rolando um dadinho
Jogando bilhar
E neste dia então
Vai dar na primeira edição
Cena de sangue num bar
Da avenida São João
A VIDA PELA FRENTE

(foto: blog do eliomar)
"Foi assim, abruptamente, que Dilma se deu conta de que estava com câncer. A sensação foi esquisita. De repente, veio com tudo a percepção da inexorabilidade da morte, de como a vida é algo tênue, de como se gasta energia com problemas irrelevantes.
Jamais poderia imaginar, antes, as reações que teria. De repente, olhava o céu de Brasília, bonito, azul, e se dava conta de que poderia perder aquela sensação. Ou então ficava imaginando que poderia ter dado mais atenção a um interlocutor, em uma conversa que tivera dias antes. Cada detalhe do dia passava a ser importante, como se precisasse curtir as pausas do dia, olhar o céu, sentir as mínimas percepções."
(Luis Nassif, blog de 17.08.2009)
UNS VERSOS QUAISQUER
Vive o momento com saudade dele
Já ao vivê-lo . . .
Barcas vazias, sempre nos impele
Como a um solto cabelo
Um vento para longe, e não sabemos,
Ao viver, que sentimos ou queremos . . .
Demo-nos pois a consciência disto
Como de um lago
Posto em paisagens de torpor mortiço
Sob um céu ermo e vago,
E que a nossa consciência de nós seja
Uma cousa que nada já deseja . . .
Assim idênticos à hora toda
Em seu pleno sabor,
Nossa vida será nossa anteboda:
Não nós, mas uma cor,
Um perfume, um meneio de arvoredo,
E a morte não virá nem tarde ou cedo . . .
Porque o que importa é que já nada importe . . .
Nada nos vale
Que se debruce sobre nós a Sorte,
Ou, tênue e longe, cale
Seus gestos . . . Tudo é o mesmo . . . Eis o momento . . .
Sejamo-lo . . . Pra quê o pensamento? . . .
(Fernando Pessoa, 11.10.1914, in Cancioneiro)
TRADUÇÕES

São Jerônimo, Caravaggio
São Jerônimo (342-420), padroeiro dos tradutores, primeiro tradutor da Bíblia para o latim
TRADUZIR-SE
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?
De Ferreira Gullar, Na Vertigem do Dia (1975-1980)