Uns versos quaisquer


Henti Matisse, A janela aberta

Vive o momento com saudade dele
Já ao vivê-lo . . .
Barcas vazias, sempre nos impele
Como a um solto cabelo
Um vento para longe, e não sabemos,
Ao viver, que sentimos ou queremos . . .

Demo-nos pois a consciência disto
Como de um lago
Posto em paisagens de torpor mortiço
Sob um céu ermo e vago,
E que a nossa consciência de nós seja
Uma cousa que nada já deseja . . .

Assim idênticos à hora toda
Em seu pleno sabor,
Nossa vida será nossa anteboda:
Não nós, mas uma cor,
Um perfume, um meneio de arvoredo,
E a morte não virá nem tarde ou cedo . . .

Porque o que importa é que já nada importe . . .
Nada nos vale
Que se debruce sobre nós a Sorte,
Ou, tênue e longe, cale
Seus gestos . . . Tudo é o mesmo . . . Eis o momento . . .
Sejamo-lo . . . Pra quê o pensamento? . . .

(Fernando Pessoa, 11.10.1914, in Cancioneiro)


*  *  *


O triunfo de Baco - Carracci

O deus abandona Antônio

Quando à meia-noite ouvires
passar a invisível folia
com música maravilhosa e exaltadas vozes,
não chores em vão
a tua sorte que declina, as tuas obras fracassadas,
os teus planos de vida que não deram certo.
Como homem preparado há tempos,
como um valente,
dá adeus a Alexandria, que se afasta.
Não te enganes,
não digas que foi um sonho,
não aceites vãs esperanças.
Como homem preparado há tempos,
como um valente,
como sói a quem desta cidade foi digno,
aproxima-te com passo firme da janela
e ouve com emoção — não com lamentos
nem súplicas de fracos —, com derradeiro prazer,
os sons, os maravilhosos instrumentos da
folia misteriosa
e dá adeus a esta Alexandria
que perdes para sempre.

C.P. Cavafis (Alexandria, 1863-1933), tradução minha

*   *   *


Edward Munch, O vampiro (1893)

O VAMPIRO

Rolam teus cachos escuros e sobejos
por tuas cândidas formas como um rio,
e esparjo em seu caudal, crespo e sombrio,
as rosas ardentes dos meus beijos.

Enquanto teus anéis solto em arquejos,
sinto o leve roçar e o leve frio
da mão tua, e mui longos calafrios
me percorrem até os ossos, malfazejos.

Tuas pupilas caóticas e estranhas
rebrilham quando escutam o suspiro
que me sai lacerando as entranhas,

e enquanto eu agonizo, tu, sedenta,
és qual um negro e pertinaz vampiro
que com meu sangue ardente se sustenta.

Efrén Rebolledo, tradução minha em R. Bolaño, Detetives selvagens
Rebolledo (1877-1929), poeta modernista mexicano, foi um dos introdutores da poesia erótica em seu país.

*   *   *


Edward Munch, O grito

DA CANÇÃO X
Luís de Camões

Já me desenganei que de queixar-me
não se alcança remédio; mas quem pena,
forçado lhe é gritar se a dor é grande.
Gritarei; mas é débil e pequena
a voz para poder desabafar-me,
porque nem com gritar a dor se abrande.
Quem me dará sequer que fora mande
lágrimas e suspiros infinitos
iguais ao mal que dentro n'alma mora?
Mas quem pode algü'hora
medir o mal com lágrimas ou gritos?
Enfim, direi aquilo que me ensinam
a ira, a mágoa, e delas a lembrança,
que é outra dor por si, mais dura e firme.
Chegai, desesperados, para ouvir-me,
e fujam os que vivem de esperança
ou aqueles que nela se imaginam,
porque Amor e Fortuna determinam
de lhe darem poder para entenderem,
à medida dos males que tiverem.

RONDA


Ronda
Paulo Vanzolini

De noite eu rondo a cidade
A te procurar sem encontrar
No meio de olhares espio em todos os bares
Você não está
Volto pra casa abatida
Desencantada da vida
O sonho alegria me dá
Nele você está
Ah, se eu tivesse quem bem me quisesse
Esse alguém me diria
Desiste, esta busca é inútil
Eu não desistia
Porém, com perfeita paciência
Volto a te buscar
Hei de encontrar
Bebendo com outras mulheres
Rolando um dadinho
Jogando bilhar
E neste dia então
Vai dar na primeira edição
Cena de sangue num bar
Da avenida São João



TRADUÇÕES

São Jerônimo, Caravaggio
São Jerônimo (342-420), padroeiro dos tradutores, primeiro tradutor da Bíblia para o latim

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

De Ferreira Gullar, Na Vertigem do Dia (1975-1980)

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Respostas a este tópico

Adorei a idéia, Dudu.

Salvador Dali - One Second Before Awakening from a Dream Caused by the Flight of a Bee Around a Pomegranate, 1944

O que será (À flor da pele)
Chico Buarque

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os tremores me vêm agitar
E todos os suores me vêm encharcar
E todos os meus nervos estão a rogar
E todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz suplicar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo
Não sei de quem é a foto.
Fiz a composição alguns anos atrás e retirei a imagem da Internet.

Vou abusar.

Foto: Jan Saudek - Hungry for your touch - 1971

Insone
Gilka Machado

Noite feia. Estou só. Do meu leito no abrigo
cai a luz amarela e doentia do luar;
tediosa os olhos fecho, a ver, se, assim, consigo,
por momentos sequer, o sono conciliar.

Da janela transponho o entreaberto postigo
entra um perfume humano impelido pelo ar...
"És tu meu casto Amor? és tu meu doce amigo,
que a minha solidão vens agora povoar?

A insônia me alucina; ando num passo incerto:
"és tu que vens... és tu! - Reconheço este odor..."
Corro à porta, escancaro-a: acho a Treva e o Deserto.

E este aroma que é teu, aspirando, suponho
que a essência da tua alma, ó meu divino Amor!
para mim se exalou no transporte de um sonho.

"(...) Gilka Machado foi a maior figura feminina de nosso Simbolismo, em cuja ortodoxia se encaixa com seus dois livros capitais, Cristais Partidos e Estados de Alma. Nem sua ousadia tinha impureza, mas punha à mostra a riqueza de seus sentidos, especialmente de um pouco explorado em poesia, o tato. Sua sensibilidade é requintada, algo excêntrica, mas profundamente feminina."
Ramos, Péricles Eugênio da Silva [1965]. Gilka Machado. In: ___. Poesia simbolista: antologia. p.209.
Vai aí um trecho da ótima entrevista concedida por Marco Lucchesi a Floriano Martins na revista agulha.
No endreço abaixo a íntegra d entrevista

http://www.revista.agulha.nom.br/ag55lucchesi.htm

(...) acho que a tradução é um desafio árduo e magnífico. E quando escolho um autor, eu trabalho com afinidades, com admirações, com zonas de fronteira e de leituras coincidentes, de modo que não haja arbitrariedades perpetradas de mim contra mim, esquizofrenias e pluralidades que não me pertençam - ah!, o fogo da unidade, outra vez. A escolha é fatal. Porque então eu me torno invisível. Tenho certeza de que a invisibildade do tradutor é a melhor parte do que faz. A linguagem, esta sim, é que merece visibilidade. Não admiti complacências narcisistas demasiadas, seqüestradoras de textos outros, desrespeitando-os, inclusive, para mostrar a capacidade de melhorar Dante, Goethe, Shakespeare. Em Teatro alquímico, eu defendia uma tênue relação que aproximava o alquimista do tradutor. As escolhas que me escolhem. A economia e as relações bilaterais do texto-origem ao texto-fim. Retortas. Pelicanos. Atanores - de um lado -; dicionários, leituras e palimpsestos - de outro. De modo que não sei determinar onde começo e onde termino, como poeta e tradutor. Exercício de tormento e paixão. (...)

abraços
"A invisibildade do tradutor é a melhor parte do que faz": é esse o ideal, servir apenas de ponte entre o autor estrangeiro e seu leitor, estrangeiro à língua do autor. Muito boas as ponderações do Lucchesi.
Obrigado pelo artigo e por seus comentários de hoje.
Abraços,
L.E.
Canção IV e o Beijo
por Hilda Hilst e Gustav Klint



Porque te amo
Deverias ao menos te deter
Um instante

Como as pessoas fazem
Quando vêem a petúnia
Ou a chuva de granizo.

Porque te amo
Deveria a teus olhos parecer
Uma outra Ariana

Não essa que te louva

A cada verso
Mas outra

Reverso de sua própria placidez
Escudo e crueldade a cada gesto.

Porque te amo, Dionísio,
é que me faço assim tão simultânea
Madura, adolescente

E por isso talvez
Te aborreças de mim.
Beleza, Marise. Obrigado pela colaboração.

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