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O retorno a governos autoritários e elitistas é a forma encontrada pelas elites capitalistas na atual etapa de desenvolvimento do mundo para manterem o controle sobre as sociedades, crescentemente insatisfeitas com as condições de vida propiciadas pelo sistema à maioria da população. As democracias liberais tradicionais já não conseguem conter as pressões sociais para maior participação do povo no poder.

Faz todo sentido, pois, que o Banco Mundial, em sua condição de laboratório do pensamento social que as elites capitalistas promovem e estimulam no mundo, tenha dedicado seu relatório anual de 2017, ao exame dos teóricos de governos elitistas, como Vilfredo Pareto e Gaetano Mosca.

A experiência recente do Brasil, com o golpe que colocou Temer na presidência e com a vitória de Bolsonaro, mostra claramente a intenção da elite capitalista de afastar o povo do poder. A vitória alcançada no plano político, entretanto, oculta uma grande derrota dessa elite que tem se revelado crescentemente incapaz de conduzir a economia de modo a atender adequadamente às necessidades sociais dentro das regras de governo democráticas.

A filosofia do governo recém-eleito baseia-se na concepção de que as causas dos problemas econômicos e sociais que o país enfrenta derivam da crescente participação do povo no poder, o que conduz a má administração, a corrupção e, especialmente, ao excesso de demandas sociais cujo atendimento requer o aumento do Estado e desequilibra as finanças públicas.

Não é capaz de perceber que se dá exatamente o contrário. Que é a resistência da classe dominante à maior participação do povo no poder que impede as transformações necessárias ao aperfeiçoamento da administração pública, ao maior controle social das finanças públicas, à redução dos privilégios de grupos minoritários, ao controle dos monopólios na atividade produtiva, à proteção do meio ambiente, à proteção dos trabalhadores frente à exploração das empresas e ao melhor uso dos recursos naturais e humanos do país para impulsionarem o processo de desenvolvimento.

Tampouco é capaz de perceber que o domínio do sistema financeiro sobre as necessidades de financiamento das empresas, da população e do governo, está conduzindo à instabilidade e a estagnação econômica, através de um processo de endividamento perverso que leva à concentração da renda e freia a expansão do consumo e do investimento produtivo.

Desconhece, ainda, que a grande concentração da renda e da riqueza nos estratos mais ricos da população é um obstáculo intransponível ao acesso da maior parte da população à moradia, à educação e a saúde.

Daí decorre a conclusão simplista de que é necessário um governo forte, austero e infenso às pressões populares, capaz de fazer reformas que restrinjam as demandas populares e que, supostamente, criem as condições de segurança e os estímulos que o setor privado requer para impulsionar a atividade econômica.

Os novos dirigentes não conseguem ver que a ineficiência atual deriva das características da própria economia, que levam à concentração da renda e da riqueza nas mãos de uma minoria, através de um sistema tributário socialmente injusto e desestimulante da atividade produtiva e de um sistema financeiro que suga a renda das empresas e dos consumidores e não contribui para expansão da atividade econômica.

Tendem, assim, a concentrar sua atenção nos efeitos sociais e nunca nas causas dos problemas criados por um sistema que está voltado para favorecer a concentração do poder e da riqueza nas mãos de uma minoria e que relega a maioria da população à pobreza e a insegurança permanentes, alimentando a criminalidade e a descrença quanto ao futuro.

É parte integrante dessa filosofia nefasta a pregação ideológica sistemática contra os valores democráticos expressos nos direitos humanos e do cidadão, o rechaço às causas identitárias, a promoção dos fundamentalismos religiosos, o rechaço à proteção do meio ambiente e a promoção do uso da violência contra os semelhantes.

A isto, alia-se a intenção declarada de vincular os interesses do país à política externa dos Estados Unidos, com todos os inconvenientes que daí podem derivar-se para nossa imagem como país pacífico, participante tradicional de acordo multilaterais e aberto ao comércio e investimento internacionais.

Estamos, pois, diante de um futuro governo que vai procurar preservar os privilégios da elite e tentar impedir que o povo se organize e possa participar do poder e, por esse meio, corrigir os desníveis sociais que impedem a construção de um país soberano e capaz de utilizar seu enorme potencial produtivo em benefício próprio.

Brasília, 18 de dezembro de 2018

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