«Se a montanha não vai a Maomé,

 vai Maomé à montanha.»

 

Jair A Alves dramaturgo

 

Pedro Bonini não poderia, por exemplo, se locomover até um teatro ou a qualquer outro local fora do ambiente onde vive já há alguns anos, uma casa de acolhimento um pouco afastada do centro da cidade. Ali, cercado de todos os cuidados médicos, está residindo já sem a sua companheira que já se foi, agravando significativamente o seu quadro de saúde. O que fizemos então? Organizamos uma homenagem a esse extraordinário músico e artista dos anos sessenta e fomos até o LAR (à montanha).  

Pedro é filho de maestro arranjador e neto de um entusiasta da ópera, que no final do século XIX imigrou para o Brasil e ao lado de Vicenzo Abramo (pai de Lelia e Claudio) montavam todos os anos La Traviatta. Bonini desde cedo aprendeu dois ofícios que herdou do pai: músico e também relojoeiro. Como músico se transformou num saxofonista da orquestra Tabajara nos anos quarenta e cinquenta. Com o desmantelamento da orquestra, nos anos cinquenta, tomou a iniciativa de montar um conjunto musical. Mais tarde se tornou um importante difusor dos arranjos sofisticados dos compositores e músicos de jaz norte-americanos, como também se transformando num competente estudioso e executor dos acordes dissonantes da Bossa Nova, que abruptamente invadiram ouvidos e corações de musicistas como ele e seu parceiro Olavo Fellipe.

Encerrou suas atividades num momento doloroso quando a sociedade brasileira experimentava uma transformação forçada no regime político e econômico – 1.969.

Fomos até ele nesse dia 28 de novembro para prestar-lhe essa justa homenagem. Começamos com a execução de Carinhoso, composição de um dos seus mais importantes mestres, o velho Pixinguinha. O instantâneo que ilustra esse texto registra a emoção dele quando ouvia a conhecida melodia. O que estaria passando pela sua memória nesse momento? Ele hoje é portador do Alzheimer, já em estado adiantado, porém consegue falar com desenvoltura e principalmente se lembrar de músicas e tons do repertório que o tornou tão importante. Não se lembra exatamente de datas, nem consegue reconhecer nenhum dos sobreviventes do seu tempo, mas ainda cantarola o prefixo de seu conjunto quando provocado por um antigo parceiro.

Pedro Bonini é a marca de um tempo que pode estar sendo destruído. Nosso empenho vai, no sentido inverso – cantemos pois Carinhoso, e por que não – Bossa Nova e as músicas libertadoras dos anos sessenta. Mais: todas as conquistas da experimentação e realização artística.

 

“Onde estava em dezembro de 1.969?”

Cinquenta anos depois estamos aqui firme na luta pela dignidade humana.

 

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