Há meses desaparecido da mídia, eis que irrompe nos holofotes o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, para trazer ao público a “grande descoberta” da ciência brasileira. Pontes convocou a imprensa na última quarta-feira, 15 de Abril, para dizer que “o Brasil descobriu remédio com 94% de eficácia no combate à covid-19”. Qual remédio? O ministro pediu sigilo sob a alegação de que, ao revelar o nome do remédio, poderia gerar “corrida às compras e uma falsa expectativa". Se pediu sigilo por isto, por que então convocou a imprensa para anunciar a “grande descoberta”? Bom, como o sigilo era tão sério quanto o próprio ministro, “ninguém” ficou sabendo que se tratava da nitazoxanida, princípio ativo do vermífugo conhecido como Annita, que estudo chinês revelou ser pior que a cloroquina (1).

Evidente que nós, confinados e apreensivos, torcemos para que tal experimento dê certo. Mas, escaldados pela história do astronauta que abandonou o projeto aeroespacial brasileiro (que nele investiu 30 milhões de dólares) para alçar voos na iniciativa privada – por exemplo, venda dos travesseiros “N.A.S.A.” (que nunca foram da NASA); "coaching" etc –, ficamos com um pé atrás (2). Mas Pontes não está sozinho nessa onda que os especialistas desconfiam ser o que chamam de “estelionato emocional”, segundo matéria do Correio Braziliense (3).

O engodo das experiências in vitro

O que mais tenho visto na mídia nesses dias de pânico mundial são as “grandes descobertas” para a cura do coronavírus. Daí, quando você lê a notícia, descobre que são experiências in vitro, ou seja, em células fora dos organismos vivos – algo bem diferente das experiências in vivo, ou, em organismos vivos (cobaias). Pessoalmente, não conheço as porcentagens do sucesso das experiências com vírus. Mas, segundo biólogos, quando se trata de vírus, é raríssimo que o sucesso da experiência in vitro se reflita na experiência in vivo para o combate à doença, ou, a descoberta de alguma vacina. Isto demanda incontáveis experiências e, claro, um longo tempo. A pergunta que fica é a seguinte: se a expectativa para a cura raramente se converte em sucesso, por que então jorram notícias das “descobertas”?

Eis o velho truque da mídia (para atrair audiência) associada ao marketing – seja de cunho pessoal das “autoridades de ocasião” ou dos laboratórios farmacêuticos querendo seus 15 minutos de fama, ou, lucro. Note como a “grande descoberta” cai no ostracismo na mesma velocidade com que surgiu. Mas, até lá – quem sabe? – já dá pra faturar com a fama. Para ilustrar, lembro da notícia do laboratório israelense que realizou uma experiência com células tronco "com 100% de sucesso" no combate ao covid-19 (4). Tal notícia inundou a mídia, junto com o logotipo da empresa. E hoje? Em que pé estaria tal experiência? Ninguém sabe e muito provavelmente nunca saberá. O fato é que, neste exato momento, no mundo todo, centenas de cientistas estão concentrados nas experiências para encontrar uma saída para a crise da pandemia do coronavírus. A diferença é que eles (os cientistas de fato) preferem a ética do sigilo “para não gerar falsa expectativa e uma corrida aos remédios” – como disse Marcos Pontes na coletiva à imprensa (5). 

Fontes:

1- Estudo chinês diz que remédio secreto de Pontes é pior que cloroquina:

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2020/04/remedio...

2- Marcos Pontes, o astronauta que vendia “travesseiros da Nasa”:

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/marcos-pontes-o-astronauta...

3- Especialistas falam em "estelionato emocional":

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2020/04/15...

4- Laboratório israelense e os 100% de sucesso:

https://www.jpost.com/HEALTH-SCIENCE/Israeli-COVID-19-treatment-sho...

5- Marcos Pontes na coletiva à imprensa para anunciar a "grande descoberta" da ciência brasileira contra o coronavírus:

http://www.youtube.com/watch?v=TgPKtIGNCO4

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Respostas a este tópico

O que se descobre é que temos um ministro da Ciência e Tecnologia que demonstra desconhecer o significado, ou o que sejam as experiências in vitro

Tudo pra puxar o saco do seu chefe e alimentar as hordas de fanáticos deste. Eles precisam prometer drogas milagrosas para o gado ter confiança no berrante do chefe e sair feito bois de piranha nas ruas.

Saiu nas redes sociais uma receita de duas substâncias de ação fulminante, ao pé da letra do termo, de comprovada eficácia verificável in vitro, para os bolsomínions, bolsorongas e bolsorongos, correrem nenhum risco, zero, de contraírem o "coronga". Reproduzo a receita:

"Atenção defensores de drogas milagrosas, principalmente do "Remédio com Partido", os cloroquiners. Médico e pesquisador na Alemanha afirma: "Até Pinho Sol, IN VITRO, mata o coronavírus" → https://youtu.be/xPRkNIWKhLA?t=2425  Vão lá se imunizar, bebam garrafadas. Garanto que não contrairão o "coronga", não dará tempo, nem vão morrer de COVID-19, outra causa os levarão primeiro. Bebam Pinho Sol e não encham o saco de mais ninguém. Na falta de Pinho Sol, ataquem com um copaço de solução saturada de soda cáustica.

Soda cáustica, IN VITRO, também mata o "coronga". É milagrosa. É tiro e, literalmente, queda. Se você tem diabetes, será um ex-diabético; se tem câncer, as células cancerosas vão parar de se multiplicar. Se tomar a dosagem certa, você não pegará COVID-19, qualquer gripe, HIV, gonorréia, dengue, malária, unha encravada, mal-olhado, ziquizira, mandinga, coisa-feita e até praga de mãe".

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