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A Carta Resposta de Mauro Carrara a Soninha Francine
Prezada moça,
Passada e eleição em minha cidade, decidi espairecer. Por isso, aceitei convite da graciosa Manu Cienfuegos para vir a Buenos Aires. Aqui, minhas pernas antigas podem exercitar um tango tranqüilo e passear devagar pela Boca.
Hoje, no entanto, armei antenas para fuçar a informosfera brasileira. E lá piscava seu destemperado comentário na excelente estação virtual do Azenha.

Como sou bem mais velho e viajado que você, não iniciarei aqui um duro prélio. Tentarei, como São Paulo apóstolo, ser humildemente didático. E como prega o budismo tibetano, procurarei exercitar a compaixão.
Por interesse pedagógico, permito-me inverter a pirâmide de sua diatribe rancorosa.
4 e 3) Primeiramente, arrisco-me a lhe passar uma lição. Quando se cansar de suas aventuras de motoquinha, procure ler algo da obras de Norberto Bobbio, esse nobre pensador político e filósofo, filho do Piemonte, colega que infelizmente deixou este mundo em momento muito dramático da política italiana.
Há cerca de 20 anos, numa entrevista ao JB, disse o seguinte sobre a diferença entre direita e esquerda (tradução livre que faço do italiano):
- Ainda considero como direita aquelas forças que se colocam a serviço do interesse das pessoas satisfeitas. Os outros, os que sentem e agem do ponto de vista dos pobres, do excluídos da terra, são e serão sempre a esquerda. Sempre que me pedem uma diferenciação entre direita e esquerda, respondo que essa é a fundamental. Em nosso tempo, todos os que defendem os povos oprimidos, os movimentos de libertação do Terceiro Mundo, são a esquerda. Aqueles que, manifestando-se do alto do próprio interesse, dizem que não há motivo para distribuir o dinheiro que suaram para ganhar, são e serão a direita. Essa é a divisão que existe em toda parte, aqui como no Brasil.
Segundo ele, de direita são os que julgam as desigualdades como inevitáveis. A esquerda, argumenta o pensador, está viva naqueles que consideram iguais todos os homens, nos que se atrasam um pouquinho para esperar os mais lentos, nos que estendem as mãos sadias para socorrer as mãos enfermas, nos que se importam de verdade com aqueles que sofrem para subir a ladeira.
Não sou e nunca fui filiado ao PT. Minhas convicções se fundam numa utopia anarquista quase malatestiana, muitas vezes incompatível com as hierarquias e burocracias partidárias. Ainda assim, como não sou tonto nem canalha, procurei desde sempre contribuir com as iniciativas de cunho humanista desse partido.
Obviamente, afio a crítica quando o partido de Lula acomoda-se ou desvia-se de seus ideais, e tem sido assim há décadas. No entanto, se a agremiação da estrela algo move em favor dos mais pobres, tem em mim um ferrenho defensor.
Há quem escolha partidos por vaidade ou por simpatia. Gente que renuncia a tudo em que supostamente acredita porque lhe fez cara feia a Dona Cotinha ou porque João não lhe deu estima na festinha de aniversário.
Fosse essa a regra, e o grupo de Jesus de Nazaré teria somente defecções. Afinal, havia ali um traidor, um medroso, um estabanado... Enfim, Soninha, gente como a gente.
Com todos os seus equívocos, o PT ainda representa, na teoria e na prática, a esperança de redenção de milhões de brasileiros. Quando se cansar dos barzinhos da Vila Madalena, procure visitar o sertão nordestino. Ali, você certamente vai aprender um pouquinho da política real, daquela que alimenta, ensina e promove o ser humano, permitindo que se erga da indigência e caminhe de cabeça erguida.
Compreender essa escala de valores é o que deveria balizar as atitudes de um político de verdade, nunca as fofocas de bastidores de uma câmara municipal.
Aliás, quem colocou Soninha da dita casa parlamentar não demonstrava apoio somente à personagem, mas platonicamente à idéia que ela dizia representar.
Ao se bandear para o outro lado, o político eleito escarra na cara de seu eleitor e contribui para instaurar o ceticismo, especialmente nos jovens.
O tal PPS
A história se repete como tragédia ou como farsa. É o caso do partido que a moça abraçou. Primeiramente, cabe uma indagação: qual fez e faz mais pelos brasileiros, o partido de Lula ou o partido de Roberto Freire?
O PPS simplesmente assassinou toda a tradição de luta do antigo Partido Comunista. Deturpou conceitos, virou casaca e passou a fazer o jogo sórdido da direita, lambendo os escrotos purulentos daqueles que colaboraram para torturar e matar os rebeldes vermelhos das décadas de 60 e 70.
Mas vale uma visita ao tempo pretérito. Nos anos de chumbo, Freire passou incólume como procurador autárquico do IBRA, numa época em que muitos de nós servíamos de cobaias para testes de reação a eletrochoque ou afogamento. No governo FHC, virou um inseto "fisiológico", líder da chamada "bancada da madrugada", oposição de fachada durante o dia, aliada estratégica nos horários de recesso.
Freire foi o golpista que apareceu em todas as emissoras de TV, em 2.005, repetindo o bordão: "o governo acabou". Como um papagaio lesado, alçava a voz numa declaração que mais expunha seu desejo do que a realidade.
A história mostrou que Freire estava errado. Como humildade é virtude que não conhece, o político pernambucano jamais fez seu necessário ato de contrição. Segue por aí, de gabinete em gabinete, mascateando vergonhosamente suas migalhas de apoio oposicionista.
As pessoas de bem não têm dúvida: Freire constitui-se em expressão máxima de um jeito conveniente de fazer política, em que a renúncia moral é recompensada pelos mimos da direita e dos barões da mídia.
Portanto, Soninha, antes de se filiar ao próximo partido, procure pesquisar sua história e avaliar o comportamento de seus líderes. Fará bem para você.
2) Seu encontro com José Serra, o mestre de todos os vampiros, foi amplamente noticiado. O Palestra Itália é pequeno e, lá, tudo se sabe.
1) Agora, o que mais me espanta é que a moça me alcunhe de "criminoso" e peça até processo contra mim... Isso porque disse o que tudo mundo sabe: o PPS é um partido de aluguel da direita brasileira.
Engraçado é que a tal "liberdade de expressão", tão defendida por seus patrões midiocratas, serve somente para esculhambar com o PT e o resto da esquerda. Nesse caso, cinicamente, tudo pode. É possível caluniar, difamar e injuriar até mesmo o presidente da República.
Quando a crítica tem sentido contrário, isto é, quando mostra as incoerências da oposição, já se recorre à lei, à solução fácil e truculenta. Pois é, moça, quem te viu e quem te vê vai dar razão a Thoreau: "a política não é a moral, mas aquilo que se ocupa apenas do que é oportuno".

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Respostas a este tópico

Este é o texto que eu gostaria de ter escrito, com pequenos reparos. Um tapa na cara da hipocrisia desta moça que eu até botava fé, pouquinho, mas ainda assim me parecia promissora.
Na mosca. Soninha é uma das figuras mais bizarras da política brasileira; entrou no PT porque ele era o partido mais cool daquele momento e saltou do barco no primeiro abalo para cair em outro que julgava mais seguro - tudo dentro de um joguinho politiqueiro bem sórdido -; não desejou pular no PSDB logo de cara, mas caiu em um de seus partidos satélites onde presumia ainda poder vender uma imagem de "esquerdista".

É mais ou menos a mesma coisa do Gabeira no Rio; é esquerda gauche caviar revelando sua verdadeira face: Um udenismo mais ou menos disfarçado que alimenta um discurso classista e moralóide, servindo aos interesses da direita escrota anti-povo.

Recebi com muita felicidade a notícia da queda violenta na votação de PSDB-DEM-PPS nessas eleições municipais; isso foi muito importante para a Democracia brasileira.
Luzete eu tb gostava dela e a acompanhava no seu blog, mas infelzimente como diz frei Betto: " o poder não muda as pessoas, apenas as revela"..masi uma que se perdeu no meio do caminho assim como Gabeira e tantos outros..
Hugo, o povo hoje tá mais esperto não engole qualquer produto de marqueteiro mesmo pq eles estão cada dia mais distante da realidade e de realidade o brasileiro sabe muito bem..
no grupo midia está rolando um papo muito interessante sobre este assunto de midia, marketing, eleição. chega lá.
está aqui o link para o tópico

clica aqui
Luzete já andei por lá dando uma olhada, mas não sou jornalista e não sei se conseguiria acrescentar algo..de qualquer forma grato pela dica..
Boa semana
Bjs
Namastê!
A Soninha merecia muito mais que isto...o missivista foi complacente demais.

Se Roberto Freire é um "furúnculo", que jogou para o alto toda a respeitabilidade do antigo PC...Soninha é o seu "conteúdo", pois não desconhecia os fatos que maculavam as trajetórias de seus "news" aliados...

Quero mais que ela "se ferre", nas príximas eleições.
Marcos, só os paulistas e paulistanos conseguirão ..nós baianos convivemos mais de 30 anos com o povo de ACM e agora nos livramos deles de vez, mas esse pessoal se reproduz com novas faces a agora temos um tal de Geddel lá que veio da mesma fonte..ou acreditamos no processo político como uma conquista de espaço palmo a palmo ou não consguiremos ver a saída.. tudo muda e se transforma mesmo que seja lentamente como acontece históricamente no nosso país..
Abraços
Celso, o texto é sem dúvida alguma, perfeito, embora dirigido à Soninha, acredito que de qualquer lugar do país temos "soninhas' espalhadas, disfarçadas de patricínhas/mauricinhos, gente boa que me faz lembras de O Médico e o Monstro, ou seja, ganhou as eleições vira monstro, perdeu volta ao bom e 'humilde' personagem, e, pulando de galho em galho até ás proximas eleiçoes. Enquanto isso, o bom mocinho, ganha uma secretariazinha básica ou um cargo de comissão qualquer, afinal ele (a) tem que se sustentar não é verdade?
pois é Walquiria, a história pessoal de Soninha também tem seus percalços e não entendi mesmo sua guinada para um esquema tão oportunista e carrerista, mais uma que se perdeu ou se controu vai saber..
Oi, Celso
Boa noite.
Vi Soninha e a filha posando num suplemento Veja, vejinha, porcaria assim de publicidade, em matéria sobre as 20 ou 30 mais charmosas, ou poderosas, de São Paulo.
A mãe na Suzuki, a filha do lado, coisa bem "Caras". Isso há uns 4 anos.
Morei 17 anos na Vila Madalena e sei o ninho de ratos que virou aquilo!
Vila Madá, Sumaré, Pompéia, Perdizes... Triste São Paulo!
Pergunta pra onde foram as cooperativas, os batateiros, os músicos, os artistas, o professores de matemática, os estudantes que ocupavam o BNH da Mourato Coelho.
Hoje? Semáforos, congestionamento em garagem subterrânea, lojinhas ong exploradoras do trabalho artesanal, franz cafés, baladas. Tudo com que Soninha sonhava. E por que Soninha corre?

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