Alguma força me fez explodir em frangalhos,
Em múltiplos cacos, em balde de água fria,
A plataforma que havia, em algum lugar,
De expectativas, no universo desalinhado
Da estação onde aportei minha existência.
Não fora como o som da primieva explosão,
Mas, pouco sonoro, como um baque surdo,
Com um furtivo e mal soprado peido.
Sem algum registro de monta, prosa ou verso,
Apenas um texto hieroglafado, um móbile,
Uma poeira assimetricamente assentada,
No plano interior, e eis que a partir de então
Tudo passou a ser bem mais complicado.
Só a realidade nua, deitada em berço de volúpia,
Passou a existir como fronteira de vida e obra...
E foram muitos os sonhos: alguns bem vívidos,
Torrenciais, outros nem tanto, moídos, triturados,
Outros foram vagas errantes, inequacionados,
No lombo do refluxo das espumas do mar.
O meu espírito atento, a minha tesão de pegada,
De acolhimento, meu pé solto na estrada, a direção,
Por vezes tomaram forma de desalento, nômade esquivo,
Enveredando paisagens de árida expressão.
Memórias de amores brutos, de metrôs, de viadutos,
De banheiros públicos, de rodoviárias, de motéis baratos,
De beira de estrada, de escurinho de cinema, emergem,
Deambulam a flor das águas vivas, no odor do semem,
No pugilato mental, abaixo as armas, as normas...
Onde aportou minha porra- louquice, meu desbunde,
Meu terno demodée, minha couraça pouco resistente,
Minhas contestações, meus clichês, meus paraísos químicos,
A sombra do arco iris, onde o nirvana não foi encontrado,
Na vala comum do pouco-a-pouco, do conformismo?
Abjuro. Ainda pulsam veias, a nau no porto aguarda partida.
Fernando Enéas de Souza
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