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“... apego fraternal a outros seres humanos que brota do ódio ao mundo onde os homens são tratados “inumanamente”. Para nossos propósitos, porém, é importante o fato de a humanidade se manifestar mais frequentemente nessa fraternidade em “tempos sombrios”. Esse tipo de humanidade realmente se torna inevitável quando os tempos se tornam tão extremamente sombrios para certos grupos de pessoas... A humanidade sob a forma de fraternidade, de modo invariável, aparece historicamente entre povos perseguidos e grupos escravizados...” (ARENDT, Homens em Tempos Sombrios) [1]

O cinismo[2], no sentido vulgar, é marcado pela incompreensão do Iluminismo, deixa a impressão de ser quase regra nesses tempos de inversão generalizada de valores, de coisificação e apropriação das pessoas – consequentemente, da soberania, conquanto ser por excelência popular (do povo, pelo povo e para o povo) –, apropriação por minorias decisoras arrogadas a tutores/curadores do povo, e.g., ao ponto de os de bem, não-integrantes dessas minorias, serem abandonados à mercê da violência comum, dos criminosos sem pena, sem o poder de numa canetada condenar toda ou imensa parte da população a, no mínimo, constrangimentos, além, de certo, das estocadas por canetadas dos munidos de penas.

Constrangimentos, estes, de difícil inserção na noção de República, mediante canetadas desafetas a Estado de Direito, senão, de um direito meramente comandístico, autoritário, de perfil colonial (seus agentes agem como força de ocupação), em que passam a perder de vista qualquer viés democrático, dignificação da pessoa humana, como, ao final, fazem com suas penas essas autoridades estatais ou corporativas[3], espremendo a população entre os que têm armas, posto que proibida de defender-se, dessarte, esvaziada de soberania – afinal, poder desarmado não é poder[4] - e falar em sociedade organizada para justificar a vulnerabilização do cidadão é falácia a subjugar a pessoa inerme – um engodo!

Este estado de coisas em geral, verdadeiro império do cinismo contemporâneo, perplexa a qualquer rasgo de senso ético, estimulando uma detida e densa reflexão, inda que breve, como se propõe fazer neste arrazoado, partindo do chavão modernizar o mais comum no discurso sempre “inovador” de nossos tempos.

A modernidade, entretanto, invariavelmente, é praticada sob a conhecida Lógica de Lampedusa, mudar para continuar o mesmo, tal como a razão[5], invocada para mudanças, invariavelmente, contra a liberdade das pessoas – eis, o conhecimento como invenção para o exercício de poder, destacadamente, em relações de dominação[6].

Vale atentar, para o fato dessa dialética apontar para a perpetuação de uma situação do posicionamento do Estado contra a sociedade – Estado manietado por uma minoria decisora, à semelhança da estrutura palaciana da antiguidade (rei-deus, estamento sacerdotal e braço guerreiro), típica das teocracias[7] de todos os tempos, a explorar os demais, reputados povo, rebanho ou o que for.

Esta inversão instiga perguntar a causa do homem arcaico acabar por se ver despido da liberdade em favor dos estamentos estruturadores do Estado[8].

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Modernidade, tal como modernizar, moderno, também, modelo, medicina, meditação, vêm do latim, e mais remotamente do indo-europeu, a tida língua mãe desde o grego e o latim até o sânscrito. Lá, então, com o radical med-, que significa meditar, tomar medidas apropriadas.

Notável, de pronto, sua rica evolução, como soe se dar no espiral caleidoscópico dos movimentos semânticos, por suas analogias, metáforas e metonímias, embaladas pelo esforço humaníssimo de expressão de seus afetos inter-relacionais com o meio exterior a si, esse turbilhão de aconteceres.

Trata-se de processos advindos em contextos históricos, contextos cuja desconsideração não só impede apanhar a realidade, como, e talvez mais grave, estupefique, ao depreciar faculdades do juízo, obviamente, diminuindo a capacidade de perceber, e trazendo aos decisores conforto à sua atuação autoritária e ignara (todo tirano o é!), ordinariamente refugiada na fé[9].

Esta, entre nós, povos do Livro, proveio em narrativas elaboradas por castas sacerdotais, que escamotearam o passado, as verdadeiras origens, com discursos fundadores, concitando a subserviência aos respectivos estamentos em condenação da liberdade anterior, conferindo sistemas discursivos intrinsecamente harmonioso, excluindo os demais esforços a composições em face do mistério da vida, o místico caos/cosmos.

Este recortar os acontecimentos de seus contextos, dos outros coetâneos acontecimentos espaciotemporais, implica em desprezar o contexto deprecia a percepção[10], tal qual se dá desconsiderar perspectiva histórica, é dar por dispensáveis aspectos essenciais a expressar escrúpulos e a realizar renúncia com qualquer esforço de zetética[11], sem o qual se decai a sub-humano, a mero bípede sem penas, condenado à loucura – eis nossos dias!

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Na dicção de HESÍODO[12], em última instância, justo, não somos bestas-feras por sermos dotados da palavra (lógos)[13], de sorte a temperar as paixões com esse outro afeto, a razão[14].

Lógos significa palavra verdadeira, pois, em oposição a mýthos, palavra também, porém, palavra mágica, despida de capacidade de descrever o real, assim por dizer, more geometrico demonstrata, como cabe, para que merecesse o status de verdadeiro.

 

Mýthos presta-se aos caprichos da imaginação, às coisas do querer por querer. Em contrapartida, a palavra verdadeira se exige, p.ex., em instância militar, ambiência semântica de onde logós deriva por légo, significando, reunir, selecionar e deliberar, assim, coisas da ordem da estratégia.

 

Vale, neste ponto, uma rápida digressão histórica: esta divisão semântica dá-se na época da passagem do ímpeto, páthos, característico a Aquilleus, à esperteza, métis, prudência, astúcia, de Odysseus, donde, lógos chegar ao latim por ratio, cálculo, indicando essa potência apropriativa, pois, quem conta a verdade, dela se apropria, pronto a fazer-se como “quem conta um conto aumenta um ponto”.

 

Razão, pedra, suposto primeiro meio de contar, como depuração de verdade, desde a solução de Palamedes (DETIENNE, A Escrita de Orfeu), todavia, também, que servindo a traduzir lógos, como palavra medida, que expressa mensuração da realidade, de légo, isto é, reunir, selecionar e deliberar (elementos fundamentos da estratégia), assim, enumerando e calculando para um agir mais adequado posto que pautado na realidade, o mundo sensível.

 

 Mundo somente acessível pelos sensórios, de sorte que essa palavra está visceralmente conjugada com os afetos, as emoções, os sentires havidos com a realidade. Deste modo, insere-se, lógos, como palavra verdadeira vinculada ao cenário dos acontecimentos, em oposição a mýthos  , a partir de então, palavra reduzida a mero relato – exceção feita às teocracias, nas quais por força da fé perde-se esse balizamento, diga-se, delirando-se[15].

 

Mais, nessa mesma época de florescência, com a retomada da escrita pelos helenos, que dela se abstiveram por séculos após a debacle micênica, acontece paulatina mudança de paradigma cultural com a substituição da tradição oral, pela literacia, i.e, pela palavra escrita como meio de transmissão da cultura[16]. Esta ambiência, decisivamente, propiciou o nascimento da lógica, com seus princípios advindos da matemática (pitagorismo, orfismo etc.).

 

Os princípios da lógica são oriundos da matemática, a começar (identidade, não-contradição). Considere-se que o texto permitia voltar a seu início para verificar sua coerência ou uma contradição.

 

Isto não se dava no simples fluxo da palavra falada, pois, a cada palavra, embalava-se a percepção do ouvinte, emoção provocada, assim, sucessivamente, conforme o processo de convencimento dos retóricos, dos sofistas – esses injustiçados, detratados pela nova/velha ordem insurgente.

 

Trata-se, pois, de ritmo vivo, de vibração emocional por seres de coração, de paixão, capazes de sentir junto (compaixão) com o orador a realidade afetual do narrado através das palavras, propiciando experiência de uma verdade (alétheia, o que não deve ser esquecido) que dispensa esforço a memorizar, pois é como é, sentido, não esquecível, que se fez carne.

 

Quem persistiria a condenar Helena como desprezível adúltera, após sua defesa por GÓRGIAS[17]? Senão, por mero moralismo, apriorísmo engendrado à apropriação das paixões, da vida-viva, pelo julgamento a serviço do constrangimento autoritário?!

 

Não se tratavam de inverdades, pois, as emoções, os afetos são verdadeiros em si mesmos, são realidades energéticas, vibráteis, e são insubmissos, enfim, jamais, tão-só, doidivanas passionais, queristas, tal qual se dá no frenesi imaginativo, fabulístico, fantasmagórico, ordinariamente confundidos com pensamento.

 

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O advento da literacia acompanhou nova estruturação psíquica, cognitiva, à determinação da verdade, fundada no culto à lógica, ao logicismo, numa desmedida, diga-se, neutralizadora da vontade, do ímpeto, seja, do próprio indivíduo, submetendo-o aos rigores de regras estabelecidas fora de seus sentimentos, de sua própria esfera – um deslocamento de eixo diretor de si, externando-o – aliás, ao gosto aristocrático, autoritário, assegurando cadeia de comando para além do militarismo, em direção do escravismo, em novel teocracismo.

 

Este novo patamar ordenador da produção (reinvenção) da verdade, o logicismo de viés matemático é instrumento ao estabelecimento de padrões, de modelos que automatizam a percepção e a vida em todos seus nichos, funcionalizando/operacionalizando o ser humano, reduzindo os indivíduos a autômatos dessensibilizados, divorciados dos movimentos vitais, efetivamente, varridos para debaixo do tapete, tal qual tudo mais que não se amolde ao sistema – a lógica, efetivamente é uma máquina de guerra, avassaladora e espoliativa[18], inestimável aos kratomaníacos (obcecados por dominar).

 

Apneia da inteligência[19], eis a consequência inexorável do automatismo, alienante da vida-viva, da que pulsa, que vibra, da vida real. A vida-morta[20] do apriorismo dos sistemas de fundo mecanicista, tal qual os fundados na lógica formal da tradição que a tudo reduz, subsumi, absorve, elimina, enquanto alteridade, os incompatíveis insubmissos, cujo destino é a marginalização, nessa ditadura de uma certa estrutura de consciência, horizonte inclusive de racismo de fundo étnico a melanínico, aquele do geno-etnocídio de colonizadores[21], essa modalidade de canibalismo[22], à euro-estadunidense.

 

A liberdade é incompatível com automatismo, que reifica, e coisas não são capazes de liberdade, que pressupõe escolhas, inteligência viva.

 

Numa dialogia assimétrica, ter-se-ia esgotamento (no sentido deleuziano[23]), inconsciente, neutralizando a consciência, no sentido ético de consciência, com a banalização do mal. Uma consciência colonizada por memes[24], como instrumento da automação num paroxismo da informação, informação como pedra, que se passa de mão em mão, de lugar-comum a lugar-comum, de clique em clique de mouse, sem sentimento, sem reflexão, apenas automatamente.

 

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Como dizia, a partir do verso de Hesíodo, a palavra verdadeira é pressuposto de Justiça, Dikê, pois, esta imprescinde da verdade! Justa é, destarte, a palavra medida, verdadeira, livre dos excessos, invariavelmente inerentes aos cultos de qualquer sorte, inclusive, à hipertrofia lógica, ao fim e ao cabo, excessos criminosos, assim, palavra protegida da hýbris, e que arrasta o homem a besta-fera.

 

A Grécia do VI século antes da Era Comum, fazia-se em mar de sangue por vinditas intermináveis – a Justiça era privada, até Sólon –, e submetia-se a uma aristocracia opulenta, conspícua, e despótica, em descomunal concentração da riqueza, com a usura campeando em torno à escravização por dívida. Este era o ambiente em que advém o ideal de democracia, solução política contra a tirania da riqueza espoliativa, a violência institucional, privada ou pública, e a humilhação da servidão, da atuação forçada[25].

 

 

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Com efeito, qualquer semelhança com nossos dias não é mera coincidência, nesse processo, processo em franco desenvolvimento de rematada traição das elites à democracia, reduzindo república a um sindicato minoritário, dignificação da pessoa humana à medida da voraz opulência de seus membros, colorido por piedoso prurido a não deixar morrer de fome, nem de doença.

 

Neste tocante, claro, hão de observar os sacrossantos rigores gestionais, parametrizados pelo contabilismo financista, escolhendo quem, ou delineando os parâmetros (abstrações “cientificamente justificadas”), com performance logarítmica – quanta invisibilidade! – ínsita à sutil classificação dos espécimenes, das ocorrências concretas determinantes de quem morrerá e quem viverá, num grande ajuntamento de gente, assim, despida de cidadania, de dignidade, seguramente, coisificadas a semoventes, silentes compassivos, ou tonitruantes bárbaros[26], todavia, todos, contados, catalogáveis, numerados, quiçá, chipados, tornando eficiente seu cotidiano pastoreio e seu oportuno abate.

 

Afinal, há de sobrar dinheiro – leia-se, cifras, já que tudo é escritural – a satisfazer o insaciável apetite das ditaduras rapineiras[27], empreendidas pelo grande capital, especialmente financista[28], sangria dos meios de sobrevivência dos povos, num mundo em que o Estado não passa de corporação pseudo-pública subserviente às corporações privadas, comprometidas com os agentes financistas, que distribuem seus interesses sobre as demais corporações. De tal má-sorte a sobrevivermos a um Estado contra a sociedade.

 

Esse quadro afeiçoa-se, atualmente, entre nós, a reprise da colonial Derrama[29]. Enquanto esta, dos tempos de colônia explícita, era fruto das exigências usurárias dos credores financistas estrangeiros de Portugal, especialmente a Inglaterra, a mesma chanceladora da “independência” destas paragens mediante a assunção de dívidas pela nação nascente[30]; já, em tempos de modernidade traidora, de calculismo pós-prestidigitação, faz-se, hoje, pura e simplesmente, autoritária travestida de técno-científica.

 

A Derrama, agora, quando não pura e simplesmente fraudulenta[31], realiza teologismo[32] numeromórfico, em especial, o do mito dos juros farmacônicos[33], assalto sem precedentes[34], senão, quiçá, na Grécia Antiga pré-democracia (ou a atual democracia nominal[35]), ademais de, hoje, contar com nossa (deles) nobiliarquia-clerical a sustentar essa (pseudo-) aristocracia pluto-clepto-dividocrata[36].

 

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Modernidade, posta em seu contexto histórico, antropológico, filosófico, entre outros aspectos, inda que mais remotos, é termo, no mínimo, ambíguo, comportando, contemporaneamente, distinguir alguns aspectos estratégicos e antagônicos, aqui mirados por duas espécies, lato senso: a modernidade traída e a modernidade traidora.

Esta última tem seu fascismo bem ilustrado em O Que é o Esclarecimento, famoso opúsculo de KANT (um logicista, um racionalista radical, assim, devoto ardente do despotismo esclarecido ou não, desafeto à liberdade dos homens em geral!!), amante do “pense, mas obedeça”, no qual fica patente o autoritarismo elitista, engolfador, fagocitador da liberdade de pensamento, ipso facto, de autodeterminação individual, fundamentos, estes valores supremos da modernidade traída (como se dissesse: teu pensamento somente terá valor se aprovado pelas instituições privadas e/ou públicas competentes, se não...; seja dizer, pelas minorias decisoras dominantes – mais “mamãe posso ir[37] é impossível). Parece óbvio: autoritarismo mistificador vivo feito de transposta fé nos postulados que se impõe por si mesmos e à força, se preciso, numa palavra: fascismo!

Década antes de Mussolini conceber esse termo (fascismo), BALL (co-fundador do dadaísmo no Cabaré Voltaire em Zurich) sintetiza sobre o cavaleiro teutônico de gabinete e seu estreito método: “En Kant, la “ley” es el Estado despótico prussiano. El  asentimiento voluntario a esta ley puede ser reprobable. Y ya se ve adónde conducía el principio de la libertad meramente “inteligible” en el desarrollo prusiano (-germano). Primero se asintió a la ley; luego, a la fuerza; luego, a la injusticia; por último, al mismo diablo.... la falta de libertad de la vontad humana, de la inexistncia del libre albedrío” (La Huida del Tiempo).

Com efeito, não é gratuita a implacável crítica do vitalista Nietzsche a este ícone do racionalismo frise-se, de índole teutônica Por mil anos, dedicada à cristianização do mundo, passando pela Reforma com sua submissão do homem ao fetiche do Estado e da ciência, seguida do Idealismo Alemão e este do remate do militarismo oitocentista, aperfeiçoado no nazismo, até nossos dias com a ditadura financista – considere-se – quinta investida alemã a disciplinar a humanidade, sempre, se fazendo anteceder, na variação da hora, de símbolo do poder de vida e morte sobre os outros[38].

Pois, “pense, mas obedeça” é exemplar imagem da introjeção da obediência servil da modernidade traidora empreendida pelos déspotas (pretenso-) esclarecidos de plantão. Esta situação é progressivamente calamitosa, graças à exponencial especialização tecnocrática e à acomodação nela, cretinizando a sociedade em geral[39]! Tão e tantos especialistas, ninguém enxerga o conjunto da obra, ninguém se comunica, são reciprocamente bárbaros entre si.

A traidora acabou por se impor, meio coerção sanguinolenta, mesmo, violência bruta, na forma do fascismo reengendrado nestes recentes quinhentos anos, e, hoje, generalizadamente, enraizado, encarnado no tecido social.

A miséria dessa modernidade traidora, em seu “estado da arte” foi secundarizar, subsumir o primado da liberdade ao culto da razão, ao racionalismo[40], numa obsessão calculista, motivo pelo qual se fez traidora, a modernidade traidora dos fundamentos dos quais adveio historicamente[41] - razão, diga-se, sempre invocada quando almejada uma subversão do estabelecido, numa esquizofrenia do divide et impera,[42] afinal, o número rompe com a experiência sensível impondo-lhe suas seleções, suas limitações etc...

Esta obsessão deixa falsa impressão de afastar o capricho dos poderosos[43] de qualquer naipe, acoitados sob o manto da divindade (lembre-se, o Príncipe o era por unção divina, daí, o distintivo e sobre-humano sangue azul!), e, com isso, a ilusão de um reino de liberdade e prosperidade sob o império da razão, levada ao paroxismo, à desmedida.

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A liberdade, entretanto, quedou na vaga da história, com a ascensão da mesma razão envolta em messianismo redentor da errância. A razão, tida por reverenciável, ocupou, cada vez mais, espaço-tempo expandindo o imaginário, onde a teologia, em sentido estrito, recuava na medida do surgimento e do crescimento de neo-teologismo.

Este recuo deu-se à conta da força entrelaçada em dialética complementar[44] pelo reducionismo e pela miserabilização do economicismo, do utilitarismo, do pragmatismo, do logicismo formalista matematizante, do automatismo, do rentabilismo, do produtivismo, do mecanicismo, do automatismo, do estrategismo, enfim, sepultando o humano no competitivismo darwinista cretinizante, funcionalizando/operacionalizando, seja, reificando-o e expelindo-o como lixo ao final do uso, condenando o homem moderno a homo sacer, i.e., assassinável, porém, não sacrificável, de tão indigno[45].

Inobstante isso, e por isso mesmo, razão, essa redentora, impregna-se de teologismo, não como narrativa do divino e para o divino (já, insensata divisão!) – até isso, todavia, para os pitagóricos de todas as matizes – mas com a força de divino, de teológico, força produtora de verdades absolutas, e como tal reducionistas, excludentes, abstracionistas ao esquizoide, fronteira do duplo, da segunda natureza, do delírio.

No imaginário, a narratividade, religioso-institucionalmente produzida, é deslocada para a realização da narratividade calculista, de viés matemático, note-se, deslocamento horizontal e não vertical, desperdiçando-se oportunidade de plena reinserção no plano realista das paixões, dos afetos, tão-somente temperados pela  lucidez do comedimento, inibindo a desmedida criminosa, a nefasta hýbris, reinserção, assim, no plano da primeira natureza[46].

Primeira e autêntica natureza da qual, diga-se, o homem foi extirpado por si mesmo, mediante violência sem igual, como de hábito, para a fundação da segunda natureza, instituidora da escravidão, quando não de aniquilamento do humano reificado.

A primeira natureza seria, assim, ressuscitada, resgatada das cinzas de seu auto de fé, pelo qual pensaram, os protagonistas da traição ao primado da liberdade, havê-la eliminado em consagração de segunda natureza, perversão transformadora da vida-viva em vida-morta, vida-nua, empurrando o ser humano às catacumbas próprias ao infra-humano, confinando-o a zumbi, esse estereótipo acéfalo do quadrupidizado, arrebanhado, massificado, sem pensar próprio, dessensibilizado, despido da noção de liberdade, para a condução de sempre nas teocracias de todo gênero.

À diferença de, antes, quando o condutor era exterior, encarnando o divino, hoje, o “condutor” é psiquicamente introjetado, uma abstração, inoculado pelo adestramento midiático, escolar, familiar, e, ainda também, pela mesma lavagem cerebral de estilo religioso-institucional que principia por inculcar nas mentes a entificação do divino, pior, antropomórfica, de observância forçada, sob pena de execração, quiçá, internação, minimum, no ambulatório a céu aberto em que se cuida quimicamente da alteridade psíquica destoante do produtivismo/consumismo/rentabilista vigente.

O primado da liberdade, tão cultivado pelos libertários do iluminismo, o da modernidade traída, este primado foi fagocitado pela apropriação despótica, e não menos teocrática na radical verticalização das relações de poder, agora, no molde de fundo matemático[47] (de máthema, coisa aprendida, ensinamento, pressupondo rigorosas disciplina e controle, mimético-mnemonicamente – depois disso, império numeromaníaco de variados tipos), no melhor estilo militarista dos rigores das imemoriais hierarquias (hierós, divino, articulado com arckê, princípio, origem).

Hierarquias que, desde antanho, se disseminaram nas administrações, estatais e comerciais (hoje, em seu aperfeiçoamento, nos estamentos alçados a corporações), como nas organizações, com maior ou menor flexibilidade (preciso é reconhecer, a bem da evidência: Maçonaria, Opus Dei, igrejas, ordens e congêneres, partidos políticos, máfias..., sistemas fechados sob a toada de convicções reducionistas da percepção da realidade às suas próprias, delas, imagens que hão de prevalecer a despeito do que for, percepções excludentes das alteridades, até pô-las na condição de inimigos, quiçá, a serem exterminadas).

O fundo destes processos é da ordem do eugenismo, do melhor conjunto de genes, origem, cultura..., como povo eleito, raça superior, pensamento verdadeiro, exclusão da multiplicidade de estados da consciência, desde a ditadura excludente ou mitigadora do inconsciente, até sua alteração com a insensata e estúpida guerra às drogas[48], suprimindo, mesmo, o direito dos demais à existência, tal qual no direito penal do inimigo[49], na propaganda do moralismo reprovador, desqualificador, no lawfare.

Lawfare indica o uso do sistema legal contra um inimigo político, abandonando a republicana imparcialidade da justiça, partidarizando-a, podendo implicar em golpe branco de estado. Há alguns poucos anos foi no Paraguai, pelo parlamento, corroborado pelo Judiciário nativo, que, em várias outras terras, vem atuando nesse sentido, como se vê, entre nós, na Lava-Jato com sua persecução/punição seletivas, em franca violência dos direitos fundamentais, até da simples legalidade, assumidamente, em exceção ao Estado de Direito, e de viés demofóbico[50].

Estamentos estes, de qualquer sorte, para glória de suas conquistas[51], ordinariamente, impregnados na mistificação do fundamento de autoridade do princípio, arckê (daí, terem por despidos de princípios seus antagonistas radicais reputando-os anarquistas – histeria e/ou hipocrisia), que os mobiliza, regendo seus movimentos, até o mais profundo deles.

São movidos por libidos possidendi et dominandi[52], cuja incontinência a tudo deturpa e frauda na medida de sua despotencialização do agir, do afetar e do ser afetado humanos, até a servidão[53], senão, ao aniquilamento, ao menos, por morte em vida, diga-se, acantonando a libido sciendi à conveniência daquel’outras libidos, assegurando, inda, ao menos, neutralização da libido contemplandi[54], este apogeu do pensar, e com isso religiosidade autêntica.

Religião, com efeito, oportuno considerar, vem de relegere[55], releitura atenta, escrupulosa, assim, seja do cosmos, da natureza, das pessoas, inclusive de si mesmo, o que está mui distante do discursivismo textólatra corrente às religiões institucionalizadas, prontas, com seus mitos e ritos, a desprezar a evidência insofismável da impermanência das coisas, de estarem em incessante movimento, logo, em transformação – o panta rhei heraclítico, exigindo interminável esforço de releitura, de contemplação renovada, de atenção ao fluir, dos movimentos, com sua duração.

Pensar, como abismação na absurdidade[56] da existência[57], esse lançar-se à frente, persistir movendo-se adiante em deliberações, de per se, a cada passo (ex-sistire), de onde se “emerge” com medida vislumbrada; pensar, como pesar, medir afetualmente a força[58], estar no seio da natureza, em metempsicose[59], para afirmação por simpathia vibrátil[60]; i.e., por confronto/interação com o divino, essa nadidade de onde tudo advém, quiçá, portanto, essa experiência medida, pensamento justo[61].

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Nesse frenesi deletério de obsessões teologistas, nessa libidinagem enfurecida das máquinas desejantes desenfreadas, vislumbra-se raiz no medo, o medo fundamental, da angústia ex-sistencial, passo de uma psicopathia, articulada entre dominantes e complementários, psicopathia social, literalmente, um levar-se incontinentemente pelo simples ímpeto, arrebatamento, paixão cega, assassina, agir por mero e bestial páthos (de afeto, emoção, sentimento, paixão), o que não exclui o uso da razão, a partir de arraigamento no medo (histeria coletiva), arrastando em caudal a alma (psykhê, sopro, essa força), instrumentalizando a razão[62] aos desígnios forjados a ferro e fogo, no afascistamento da vida.

Embriagamento, loucura, diga-se, nada dionisíaca, essa psique lambida pela chama da volúpia, império de paixões, inda que paixões cristalizadas na re-produção de princípios, conceitos e procedimentos pré-ordenados (v.g., as regras matemáticas perfazem-se de apriorismo, tal qual seu derivado, a lógica formal, a da tradição), essa razão, assim, sem tempero ético ou civilizatório[63], tal qual seu reflexo econômico, o liberalismo econômico, essa irrazão antropofágica.

A indução à selvageria evidencia-se na obstrução a condições que propiciem oportunidade ao desenvolvimento das pessoas, e, concomitantemente, o sistema exige que façam a própria oportunidade, logo, estimula, senão, força à picaretagem (de picareta, uma ferramenta pontuda e pesada para fracionar pedra), abrindo violentamente, a começar contra a verdade, o próprio caminho, seja dizer, consagração do vale-tudo inerente ao liberalismo econômico, mesmo com suas novas vestes, tracejador do capitalismo selvagem, desregulamentado, regime sem ética, fértil ao crime. Afinal, o liberalismo econômico transforma uma população ordeira e trabalhadeira em um bando de ladrões e prostitutas[64].

Essa razão, rigorosamente considerada, resume-se em psicopathia, levada – como de fato e de direito o é – ao paroxismo de culto, em racionalismo, marca da modernidade traidora.

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Não passa, entretanto, de mera variação cultural, como qualquer outro processo psicossocial, tocado obsessivamente em afetos destemperados, ávidos a mostrar sua feroz bestialidade – a essa altura, já se inscreve na ordem de manada, de rebanho dócil e obediente a seus pastores, líderes, führers ou qualquer congênere da ocasião, manada/rebanho silencioso, manso, ou tonitruante, enfurecido, em estouro de fuga ou de perseguição às alteridades da ocasião[65].

Está no âmago de nosso tempo, tudo como se na presença do fascio, esse símbolo do poder de vida e morte na Roma Antiga, portanto, de fundo divino, i.e., de fas, de onde deriva, mais que simplesmente humano, conquanto aí acolhido e referido em ius.

Arcaicamente tinha-se fas, indicando o direito divino também vigente entre os homens, até sua cisão, dividindo o direito, dando origem a ius, direito dos homens, ao par do divino, ancestral separação do Estado e a religião.

Em que pese isso, persiste a invocação de fas (do direito divino), reflexamente, através de fascio (origem da palavra fascismo, como de fascinação, de estado de encantamento, de magia, de transe, donde da ordem do divino), hoje, não menos teologicamente, no Estado de Exceção, com o decisum, por si só suspensivo de toda a ordem vigente[66].

O fascio é símbolo de poder superior, frise-se, mágico, encantador, fascinando, entorpecendo, estupeficando corações e mentes, enrijecidos por sua re-produção sistemática, ad infinitum, enfim, corporificando o fascismo da modernidade traidora, hegemônica nesses dias obscurantistas, diga-se, no pior dos fascismos, vez que maquilado, dissimulado, camuflado por não ter líderes/guardiões, nem bandeiras, ou uniformes, tampouco inimigos étnicos viscerais declarados, salvo os pobres, os losers, os outsiders, os devedores, e os resvalos fundamentalistas dos fanatismos de sempre.

Fascismo, aspecto psicossocial do totalitarismo, que é o perfil político deste fenômeno antropossocial, desde a antiguidade, integra-se doutros, tais como autoritarismo, antidemocracia, narcisismo, eugenismo, delírio ideológico reducionista, excludente, abstracionista.

Lembrando-se, fascio, sempre, mero símbolo, sem condão de força realista, senão, por exercício de querismo, de capricho, de prepotência e violência, por excelência, libidinoso, histérico, logo, fóbico, e ameaçadoramente incontenível, como o decisum do Estado de Exceção por seus psicopathas dominantes e complementários – esses que ufanam, bradam, clamam por sangue, ainda que por estocadas com penas.

Diz-se, alhures, que Foucault queria a modernidade sem suas mazelas despóticas, sendo certo que volveu olhar à Antiguidade grega na busca de onde o Ocidente se desviou dos princípios de busca da verdade, consagrando a parresia, e de luta pela liberdade, concebendo democracia, marcas indeléveis daquela civilização[67].

Na presente abordagem, talvez se divise trilhas nessa direção, resgatando inclusivamente perspectivas, mesmo religiosas, para um humanismo sem teologismos com seus discursivismos e suas textolatrias, entretanto, com muita temperança, muita amorosidade, afeto pelos próximos,  de modo a resgatar-nos desta sanha de violência, selvageria, ferocidade que campeia generalizadamente por nossos dias, desde o mequetrefezinho de balcão, até o mais ardiloso potentado explorador do Estado, assim dos demais cidadãos. 

Fique-se amorosamente com mote para esses dias, no Sonho Impossível[68], versão de Chico Buarque e Ruy Guerra, em felicíssima expressão poética do espírito quixotesco, tão próprio a nosso momento para os insubmissos à servidão moderna, próceres da vida-viva, esses heróis resistentes, exercentes do inalienável direito político[69] insculpido em nosso imaginário civilizatório pelos pensadores da modernidade traída, com eco no vitalismo do homem arcaico, esses originários advogados da liberdade[70].



[1] Esta lição estimulou o fascismo contemporâneo a dissimular, seu, então explícito e obsceno autoritarismo, acoitando-o na técno-ciência – mas os números não mentem! Por ela, técno-ciência: a economia deixa de ser política para ser científica, proporcionando álibi à apropriação de imensas riquezas empobrecendo populações inteiras, excluindo, abjetamente, a maioria das pessoas da riqueza que produzem; a saúde deixa de ser um bem vital a salvo de mercancia para ser quantificada e lucrativa, perpetuando o sofrimento (doença vem de dor); a educação deixa de ser meio de hominização e dignificação, para ser meio a adestramento industrial; enfim, tudo como se provindo de vontade divina, vez que fruto dessa razão científica que neutraliza o senso crítico, deprime a inteligência, logo, coisa para homo non sapiens, mera besta-fera.

 

Quanto à educação, dois documentários dizem tudo: A Educação Proibida https://www.youtube.com/watch?v=OTerSwwxR9Y, e o Emburrecimento Deliberado da América https://www.youtube.com/watch?v=azyfmSQxuv4&list=PLbmwuKDzT-N_7...

 

[2] O cinismo da escola grega é marcado pela parresia, articulação de pan, tudo, com rhesis/rhema, palavra, expressão, discurso, manifestação, significando, em suma, tudo dizer, franqueza, depois, metonimicamente, liberdade), e pelo desprezo às vanglórias aristocráticas, burguesas, do status de modo geral; distingue-se de cinismo vulgar ou contemporâneo por certa inversão que se vinca no desprezo deste cínico aos valores humanísticos do primado da liberdade, acanalhando a vida de modo geral (ONFRAY, Cinismos, SLOTERKIJK, Crítica de la Razón Cínica, GUAL, La Secta del Perro, CAMUS, O Homem Revoltado).

 

[3] CAPELLA, Os Cidadãos Servos; documentário, A Corporação, https://www.youtube.com/watch?v=Zx0f_8FKMrY.

 

[4] Daí, os estadunidenses consagrarem o direito ao porte de quase qualquer armamento, pois, afora a órtica individualista, povo armado é o último reduto da soberania; aliás não só lá, mas desde a Suíça, até países do Oriente-Médio assim é, como é certo que o armamento do povo não implica em criminalidade elevada, entre nós mesmo, a média é de 50.000 mil mortes anuais, num povo desarmado.

http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2016-10/br..., https://spotniks.com/apos-crescimento-de-178-de-porte-de-armas-crim..., https://vespeiro.com/2012/07/30/a-verdade-sobre-a-relacao-armas-x-c...

 

Fazer essa associação, povo armado/criminalidade, ou é fruto de cinismo, de inconfessável interesse ou tolice histérica, dessas que, como de hábito, ignoram as evidências mesmo numéricas, levando-se por falsos dilemas tais como “mais armas mais crimes, menos armas menos crimes?” com manifesta nuança maniqueísta, tão ao gosto da histeria coletiva de todos os tempos.

                                                                        

[5] Aqui, não se postula contra a razão, ou por um irracionalismo, pois, pode-se ser racional, sem racionalismo (ver, adiant,e nota sobre o sufixo -ismo), tão pouco pelo fim do Estado ou das organizações verticais, frutos de obsessão desmedida e criminosa, levanta-se, entretanto, contra suas hipertrofias, escleroses, tal qual se dá na opulência, na ostentação, de toda cepa.

 

[6] NIETZSCHE, Verdades e Mentiras no Sentido Extra-Moral.

 

[7] Considerando que toda teocracia é despótica, como sugere o nome.

 

[8] CLASTRES, A Sociedade contra o Estado.

 

[9] “...donec ad Dei voluntatem, hoc est, ignoranteae asylum” (“...argumento da vontade de Deus, esse refúgio da ignorância”) – “... e é por isso que quem quer que busque as verdadeiras causas dos milagres e se esforce por compreender as coisas naturais como um sábio invés de se deslumbrar como um tolo, é tido, aqui e ali por herege e ímpio... eles sabem que, suprimida a ignorância, desaparece também essa estupefação, ou seja, o único meio que eles têm para argumentar e para manter sua autoridade” (SPINOZA, Ética).

 

[10] “Desconocer de cada cosa tiene su propria condición y no la que nosotros queremos exigirle es, a mi juicio, el verdadero pecado capital, que yo llamo pecado cordial, por tomar su oriundez de la falta de amor. Nada hay tan ilicito como enpequeñecer el mundo por medio de nuestras manjas e cegueras, disminuir la realidad, suprimir imaginariamente pedazos de lo que es.” (ORTEGA Y GASSET, Meditaciones del Quijote, destaque deste texto)

 

[11] Zetética (de zetetikós, dar-se a investigação), compromisso de busca da verdade, assim, com exame cuidadoso antes de decidir (MORA, Dicionário de Filosofia), base do ceticismo (de sképsis, observar, examinar, considerar, pautado na evidência), ceticismo pirrônico, fundado em três dimensões: isosthenéia, equipolência entre argumentos dogmáticos contrários, epoché, suspensão do juízo diante de diferentes proposições igualmente plausíveis e inverificáveis; e ataraxia, obtenção de quietude, de ausência de perturbação (LESSA, Veneno Pirrônico).

 

[12] “A Justiça escuta e o Excesso esquece de vez! [v. 275] / Pois esta lei aos homens o Cronida dispôs: / que peixes, animais e pássaros que voam / devorem-se entre si, pois entre eles Justiça [palavra verdadeira] não há; / aos homens deu Justiça que é de longe o bem maior; / pois se alguém quiser as coisas justas proclamar [v . 280] / sabiamente, prosperidade lhe dá o longevidente Zeus; / mas quem deliberadamente jurar com perjúrios e, / mentindo, ofender a Justiça, comete irreparável crime; / deste, a estirpe no futuro se torna obscura, / mas do homem fiel ao juramento a estirpe será melhor. [v. 285]” (HESÍODO, Os Trabalhos e os Dias, trad. Mary de Camargo Neves Lafer)

 

[13] Na compreensão de SCHÜLER: “Chefes militares já tinham empregado o verbo lego, da família de logos, para designar o ato de reunir armas e homens. Critério acompanha os que recolhem. Logos não acolhe conglomerados caóticos. Estar no mesmo espaço sem vínculo não é ser com-um (synon), não é ser-com, é, quando muito, ser ser-em e nada mais. Logos não se restringe, entretanto, à ordenação dos seres, tece ainda redes de palavras, constrói o discurso verbal. Sem logos não há discurso; há na melhor das hipóteses, desordem, caos geral.” (Origens do Discurso Democrático)

 

Ou, também no sentido do caos geral, encontra-se o autoritarismo voraz dos caprichos, v.g., na Grécia Antiga,  das paixões dos senhores da verdade, quais sejam o aedo, o adivinho e o rei justiceiro (DETIENNE, Mestres da Verdade na Grécia Antiga) – lembrando, é sempre bom, que os gregos antigos, entre as civilizações ditas superiores, tiveram a raríssima felicidade de não sofrer a existência de casta sacerdotal, fato que, por si só, propiciou acontecimento do Ocidente (ocaso, o ocaso das teocracias, naturalmente, despóticas em qualquer tempo).

 

Com esse “crepúsculo” – e sem o qual isso seria impossível –, adveio o pensamento racional, a democracia, o senso de liberdade, etc..., até sua queda, especialmente, coisa de mil anos depois, com o cristianismo, devastadora recidiva das teocracias.

 

Vale notar, a propósito, que cristo, palavra grega, designa ungido, escolhido, portanto, homem entre homens; católico, também do grego, katholikós significa universal, seja dizer, o que tudo abrange, perfazendo-se totalitário, inadmitindo o que com ele não se comunga, sua tradicional intolerância, hoje, por falta de poder político, dissimuladíssima em ecumenismo – mas, basta ver os espetáculos medievais de ódio temperado por raivosismo feroz e fanático, sem falar dos transes, tantas vezes flagrados nos rituais de tortura e dos autos de fé da famigerada Stª Inquisição, ou em cultos das “Universais” da vida.

 

Dantescos, aliás, atualíssimos nas abjetas cenas do vale-tudo partidaríssimo midiático-judiciário nestas terras em que campeiam disputas insanas dos poderosos por inda mais poder.

 

[14] Sim, a razão um afeto! “...La razón no puede, no tiene que aspirar a sustituir la vida.

Esta misma oposición, tan usada hoy por los que no quieren trabajar, entre la razón y la vida es ya sospechosa. ¡Como se la razón no fuera uma función vital y espontánea del mismo linaje que el ver o el palpar!” (ORTEGA Y GASSET, ob. cit.)

 

[15] Delírio, de de+leira, extrapolar a leira, a reta razão.

 

[16] HAVELOCK, A Musa Aprende a Escrever.

 

[17] GÓRGIAS, Elogio de Helena.

 

[18] O cleptokrata, por força de libido possidendi, está convencido de seu “direito”, quiçá, divino, à coisa, tal qual se dá aos acometidos por Síndrome de Atlas de Rand, comuníssimo no 1% da população, esta minoria minoritária mínima que se crê sacrificada em ser, mesmo, quem carrega aos ombros os 99% restantes da humanidade – essa escumalha inútil, no seu sentir demofóbico, típico da histeria narcisista das pseudo-elites, desde a antiguidade.

 

[19] “¡Ahí tienen ustedes a este animal! El hombre tendrá que ser, desde el principio, un animal esencialmente elector. Los latinos llamaban al hecho de elegir, escoger, seleccionar, eligere; y al que lo hacía, lo llamaban eligens o elegens, o elegans. El elegans o elegante no es más que el que elige y elige bien. Así pues, el hombre tiene de antemano una determinación elegante, tiene que ser elegante. Pero aún hay más. El latino advirtió —como es corriente en casi todas las lenguas— que después de un cierto tiempo la palabra  elegans y el hecho del «elegante» —la elegantia— se habían desvaído algo, por ello era menester agudizar la cuestión y se empezó a decir intellegans, intellegentia: inteligente. Yo no sé si los lingüistas tendrán que oponer algo a esta última deducción etimológica. Pero solo puede atribuirse a una mera casualidad el que la palabra intellegantia no se haya usado igual que intelligentia, como se dice en latín. Así pues, el hombre es inteligente, en los casos en que lo es, porque necesita elegir. Y porque tiene que elegir, tiene que hacerse libre. De ahí procede esta famosa libertad del hombre, esta terrible libertad del hombre, que es también su más alto privilegio. Solo se hizo libre porque se vio obligado a elegir, y esto se produjo porque tenía una fantasía tan rica, porque encontró en sí tantas locas visiones imaginarias.” (ORTEGA Y GASSET, El Mito del Hombre Allende la Técnica – destaque desta)

 

[20] “.... compreendo que a morte do corpo sobrevém quando suas partes se dispõem de uma maneira tal que adquirem, entre si, outra proporção entre movimento e repouso. Pois não ouso negar que o corpo humano ainda que mantenha a circulação sanguínea e outras coisas, em função das quais se julga que ele ainda vive, pode, não obstante, ter sua natureza transformada em outra inteiramente diferente da sua. Com efeito, nenhuma razão me obriga a afirmar que o corpo não morre a não ser quando se transforma em cadáver. Pois ocorre que um homem passa, às vezes, por transformações tais que não seria fácil dizer que ele é o mesmo.” (SPINOZA, Ética)

 

[21] Racismo Científico Darwinismo Social e Eugenia https://www.youtube.com/watch?v=SWrl7aqbD5c

 

[22] CASTRO, Metafísicas Canibais; CLASTRES, Arqueologia da Violência.

 

[23] Para adiante do cansaço, o esgotado não pode, sequer, possibilitar; o cansado resgata-se des-cansando, o que refoge ao esgotado: “... apenas o esgotado pode esgotar o possível, pois renunciou a toda necessidade, preferência, finalidade ou significado. Apenas o esgotado é bastante desinteressado, bastante escrupuloso. Ele é forçado a substituir os projetos por tabelas e programas sem sentido.” (DELEUZE, O Esgotado)

 

[24] Memes espécie de replicador cultural, pela abreviatura de mimeme que se reportaria ao grego, com relação a memória, envolvendo melodias, ideias, slogans, modas, etc., “saltando de cérebro para cérebro através de um processo que, num sentido amplo, pode ser chamado de imitação” (DAWKINS, O Gene Egoísta).

 

[25] BONNARD, A Civilização Grega, VERNANT, As Origens do Pensamento Grego, RANCIÈRE, O Desentendimento.

 

[26] De barbarós, selvagem, estrangeiro, não grego, de fala ininteligível, referindo-se ao som de pássaros, donde sua não humanidade, conquanto provinda de bípedes sem penas, realçando um quê do narcisismo grego. Barbárie, “entendida como la manifestación de uma inhumanidad interna del ser humano que pone en peligro la civilización” (DROIT, Genealogía de los Bárbaros: historia de la inhumanidad) – noção de civilização, diga-se, mui variável.

 

Um olhar vale mais que mil palavras:

https://www.google.com.br/imgres?imgurl=http%3A%2F%2Fwholetjesus.fi...

 

[27] Em relação à qual nem a França de Mitterrand logrou algum êxito (RANCIÈRE, O Ódio à Democracia), conquanto os efeitos noutros países do mundo estão longe dos destrutivos produzidos no Brasil, desde Marcílio Marques Moreira, com quem se iniciou o novo patamar da usura com essa política embusteira.

 

[28] NAVARRO & LÓPEZ, Los Amos del Mundo: las armas del terrorismo financeiro

 

[29] MELLO E SOUZA, Desclassificados do Ouro: a pobreza mineira no século XVIII.

 

[30] KHALED Jr., Ordem e Progresso: a invenção do Brasil e a gênese do autoritarismo nosso de cada dia, CHAUI, Brasil: Mito Fundador e Sociedade Autoritária.

 

[31] FATORELLI, A dívida pública, https://www.youtube.com/watch?v=PmRpA88E9gg, BENAYON, O modelo pró-imperial e o endividamento, https://www.youtube.com/watch?v=wmL_-N0_sbk, DOWBOR, Juros Extorsivos no Brasil, e Os Estranhos Caminhos do Dinheiro, ambos em http://dowbor.org/principais-livros/ .

 

[32] Theó(s)+lóg(os)+ismo, em que a conjugação dos dois primeiros termos (theó(s)+lóg(os)) significa o estudo de deus, do divino, portanto, de forças superiores ao humano, senão, forças absolutas como expressão de sua verdade, a doutrina empreendida com fervor obsessivo, agravado por se fundamentar na fé, essa certeza no incerto (FROMM, A Revolução da Esperança). Por analogia, emprega-se teologismo (p.ex., BAKUNIN, Antiteologismo) para designar saberes absolutos, de fundamentos inquestionáveis, portanto autoritários.

 

[33] Mito dos juros farmacônicos (de fármacon), remédio e veneno dependendo da dose), como chamo, são esse petardo deletério, típico do neoliberalismo, lançado sobre os povos à guisa de cumprir ditames de potentados hiper-super-megaricos, exatamente, como se cumprindo ritual de gigantesco sacrifício etnocida e genocida, em prol de divindade entitária  da preferência do embusteiro do dia, daí, mito a serviço do capricho pluto-clepto--dividocrata financista.

 

[34] Na derrama colonial, a carga tributária era de 20% hoje é cerca de 40% (https://www.tramujas.com/nacionalidade-portuguesa/), e coisa de metade da arrecadação pública destina-se a juros e serviço da dívida pública inventada e forjada em malabarismos contábeis – ora, como sobrar dinheiro para saúde, educação, infraestrutura, etc...?!

 

Além deste aspecto de rapinagem sobre a população, indiretamente, através do Estado, um Estado a serviço da ditadura financista, há também, a pilhagem direta, através dos juros do cheque-especial, empréstimo pessoal, cartão de crédito, por décadas, de longe os mais caros do planeta, mais o preço dos bens de consumo, pelos quais se paga 3 e leva 1; sabendo-se que a economia é desenhada para empurrar (curralito) e encabrestar o cidadão ao sistema financeiro, com o inevitável endividamento pessoal, por mais de 25 anos – as correntes e chibata desta escravidão maquilada.

 

[35] FATORELLI, exposição da auditoria preliminar da dívida grega, no Parlamento daquele país,  https://www.youtube.com/watch?v=pHt8QguIQNA, e pelo mundo a fora o documentário Catastroika, https://www.youtube.com/watch?v=Qam7h1jMIwI, entre muitos outros documentários e também livros.

 

[36] Isto é: pluto, de riqueza, clepto, de apropriação (roubo mesmo!!), divido, de dívida, e cracia, de krátos, poder, domínio, governo, assim domínio da riqueza apropriada e da dívida. Manter os povos endividados para dominá-los, e dominar aqui indica avassalar, como se evidencia no documentário A Servidão Moderna (https://www.youtube.com/watch?v=Ybp5s9ElmcY).

 

[37] Brincadeira infantil na qual uma é escolhida para o papel de mãe e as demais somente podem fazer conforme ela autoriza. Divertido adestramento à obediência.

 

[38] Símbolo vem do grego, sýmbolé, encontro, batalha, articulação, cálculo, donde o tão caro aos bancos pacta sunt servanda  confinar-se nesse poder de vida e morte, neste ajuste de contas, esse específico fascio, símbolo de vida e morte que precedia o cônsul romano, esse fascio desse capitalismo financista deletério.

 

[39] Tenha-se que cretino é sinônimo de idiota, do grego, idiothes, significando privado, particular e específico, donde todo devoto da extremada especialização de nossos dias, em princípio, é um idiota.

 

[40] O sufixo –ismo tem um fundo de mania, frenesi de repetição de processos, ideia que aproxima os seus quatro sentidos: a) de doutrina ou sistema, b) de modo de proceder/pensar, c) de forma peculiar da língua, ou d) de doença defeito (CUNHA, Gramática da Língua Portuguesa); todos, frise-se, assentando-se na fixação, na reprodução em e de algo, v.g., princípios, conceitos e procedimentos de quaisquer tipos, invariavelmente, pré-ordenados.

 

Como se extensos scripts forjadores da encenação da vida humana, delineadores de máscaras (NIETZSCHE) ao teatro da vida, assim, na visão do autor em três grandes gêneros, do presépio, da casinha de bonecas, e do militar.

 

O de tipo (a) presépio, em antagonismo com a vida-viva, marcado pelo sacrifício humano ou não, até simbólico (MAUSS & HUBERT, Sobre o Sacrifício), i.e. matar para obter vida, verdadeira propensão necrófila, negando as forças desse mundo (note-se: aí, avizinha-se metafísica); (b) casinha de bonecas, ordenador da vida civil em geral, do lar ao social, onde coisas, atitudes, falas têm sua hora e seu lugar “certinhos”; e (c) militar, diferenciando-se da vida religiosa e civil, com seus rigores deletérios.

 

Aliás, pode-se sopesar que a contemporânea militarização do cotidiano, como se se estivesse em estado de guerra, até com inimigo interno; status, aliás, a que se alça toda alteridade adversa ao narcisismo fóbico vigente, em demonização medieval, assim, essa militarização do cotidiano contamina a vida, do tecido econômico-social ao afetual mais intimo, realiza o império da estupidez, eufemisticamente chamado insensatez.

 

Donde, voltando, racional-ismo cumprir obsessão, mania, fixação, culto a certa racionalidade, a certa especificidade racional, aqui, de viés matemático, logicista formalista da tradição, de rigor militarista (rigidez na verticalização das relações de poder no atuar em geral, até a truculência na realização).

 

[41] ISRAEL, Iluminismo Radical.

 

40 Veja-se a filosofia frankensteineana como cabe chamar teoria de reconstrução da realidade após fragmentá-la, gerando um monstro (primeiro esquarteja, depois costura), deste mundo em que vivemos, de especialização ad nauseam, quiçá, reflexo do método de DESCARTES, da 2ª regra: Regra da análise: devemos dividir nossos problemas no maior número possível de partes, para melhor resolvê-los (Discurso do Método). Exemplar espécimen da arrogância, da desmedida do racionalismo de viés matemático.

 

Aliás, tal procedimento favorece, senão, cria extremado especifismo, meio de cegueira, minimum, de miopia incapacitantes de uma visão de conjunto transdisciplinar e assim de resgate do conjunto da obra.

 

[43] HIRSCHMAN, As Paixões e os Interesses.

 

[44] MORIN, Introdução ao Pensamento Complexo.

 

[45] AGAMBEN, Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua I.

 

[46] Sobre primeira e segunda natureza, NIETZSCHE, sobre máscaras, linguagem em substituição à realidade,            representação, DELEUZE, em Sade e Masoch, ROSSET, em O Real e Seu Duplo, etc...

 

“... La cultura – la vertiente ideal de las cosas – pretende estabelecerse como un mundo aparte y suficiente, adonde podamos trasladar nuestras entrañas. Esto es una ilusión, y sólo mirada como ilusión, sólo pues como um espejismo sobre la tierra, está la cultura puesta en su lugar... las cosas todas, desde su inerte materialidad, hacen como señas que nosotros interpretamos. Estas interpretaciones se condensan hasta formar uma objetividade que viene a ser uma duplicación de la primária, de llamada real.... Si la “idea” triunfa, la “materialidade queda suplantada y vivimos alucinados. Si la materialidad se imone, y, penetrado el vaho de la idea, reabsorbe esta, vivimos desilusionados.” (ORTEGA Y GASSET, Meditaciones del Quijote)

 

A própria língua e as suas extrapolações estruturalistas convergiriam sobre si essa segunda natureza, inscrita no discurso regulador da vida, esculpindo corações, mentes e corpos, fundando o império do humano por si mesmo, um império ordenado em dispositivos, na microdinâmica da bio-política.

 

A noção foucaultiana de dispositivo é pontuada por AGAMBEN:

“a. É um conjunto heterogêneo, linguístico e não-linguístico, que inclui virtualmente qualquer coisa no mesmo título: discursos, instituições, edifícios, leis, medidas de polícia, proposições filosóficas etc. O dispositivo em si mesmo é a rede que se estabelece entre esses elementos.

b. O dispositivo tem sempre uma função estratégica concreta e se inscreve sempre numa relação de poder.

c. Como tal, resulta do cruzamento de relações de poder e de relações de saber.” (O Que é um Dispositivo?).

 

[47] O mundo do dinheiro, o dinheiro um número, eis o móvel matematizador radical de nossos dias – chegaremos ao fim da humanidade, i.e., enquanto espécie biológica, mesmo, com a econometria quântico-financista!!!? (a informatização da vida está aí como meio material para isto, para além de sua matematização).

 

[48] Perseguição das drogas, autoritária e arbitrariamente, reputadas ilícitas (SODELLI, Uso de Drogas e Prevenção: da desconstrução da postura proibicionista às ações redutoras de vulnerabilidade); em contrapartida do fomento, sob o manto de cientificidade, das drogas lícitas (O Marketing da Loucura https://www.youtube.com/watch?v=OhxqNqQDxwU).

 

Enquanto umas propiciam possibilidade à abertura das portas da percepção, expansão da consciência e conexão cósmica (o LSD, p.ex., como uma das três vias à liberação da Kundalini – IRVING, A Serpente de Fogo: uma visão moderna da Kundalini), as outras, as “lícitas”, embotam, enquadram a propiciar continuidade da produção e do consumo economicamente pertencentes à estrutura rentabilista, de modo que pouco importam as causas do sofrimento.

 

[49] CABETTE & NAHUR, Direito Penal do Inimigo e Teoria do Mimetismo, também em duas partes https://www.youtube.com/watch?v=FlUZwy9LdgQ e https://www.youtube.com/watch?v=hnmuZnwSzq0; JAKOBS & MILIÁ, Direito Penal do Inimigo; ZAFFARONI, O Inimigo no Direito Penal.

 

[50] MARTINS, MARTINS & VALIM, coord., O Caso Lula; LEITE, A Outra História da Lava-Jato: uma investigação necessária que se transformou numa operação contra a democracia.

 

[51] Conquistas, diga-se, pluto-cleptocratas, i.e., da ordem da riqueza apropriada, donde, ao vencedor o butim, vencedor nesta destemperada e destrutiva luta de e pelo poder.

 

[52] Libido, pulsão, desejo, assim, por posses e por dominação.

 

[53] Lembre-se a relação senhor-escravo submete ambos seus termos, pois, o senhor é escravo de sua dominação sobre seus servos, devendo cuidar deles, prover-lhes subsistência e tarefas, além de controlá-los – quiçá, também por isso a corrida pela automação da produção, máquinas não fazem greve, e podem ser desligadas.

 

[54] Libido sciendi, pulsão por conhecimento, e libido contemplandi, de contemplari, desejo de olhar atentamente, a partir do templum, diminutivo de tempus (tempo), designativo, também, do lugar do tempo, móvel da impermanência de todas as coisas e, inda, consideração (de cum+sidus, junto aos astros).

 

[55] A palavra religião não provém de religare, religar coisas separadas, como é comum dizer, podendo-se considerar levar a uma impressão de reunião, integração com o real, todavia, isso é consequência, efeito somente cabível em desforço de metonímia apropriativa e inversora do sentido dos processos, dos movimentos, aliás, muito comum no curso da institucionalização que passa por deturpações a assegurar aparente legitimidade.

 

[56] Absurdidade, propriedade do sem sentido.

 

[57] CAMUS, O Mito de Sisifo

 

[58] Pelo mero cotejamento, sem qualquer parâmetro pré-estabelecido, como sistemas de pesos e medidas etc., qualquer abstracionismo apriorístico.

 

[59] EMERSON, Ensaios

 

[60] FLUSSER, Da Religiosidade

 

[61] Atente-se que o divino, mui plausivelmente, senão em sanha narcisista egocêntrica, não é isso ou aquilo, muito menos uma entidade, a propriedade de um ser, um ente, antropomórfico, então...! Divino, enquanto ser, é nada! Daí, falar se tratar da nadidade, de onde tudo advém.

 

[62] Sobre a instrumentalização fascista da razão, veja-se HORKHEIMER, Eclipse da Razão.

 

[63] Civil vem do indo-europeu kei-, levando, no latim, a civis, cidadão, membro de uma casa, pressupondo amorosidade, sentimento, afeto convivência harmoniosa, amálgama de laços indissolúveis, os sanguíneos, os da família, dos agregados, dos próximos, e progressivamente, da cidade e do país. Donde, adequado pensar a ideia de solidariedade para muito além da piedade.

 

[64] POLANYI, A Grande Transformação.

 

[65] Fogem do que lhes representa ameaça, e esmagam os fracos, como convém a reptilianos, movidos a mera predação.

 

[66] SCHMITT, Teologia Política. Schmitt foi um dos principais arquitetos jurídicos do nazismo.

 

[67] FOUCAULT, Discurso y Verdad en la Antiga Grecia.

 

[68] “Sonhar / Mais um sonho impossível / Lutar / Quando é fácil ceder / Vencer / O inimigo invencível / Negar / Quando a regra é vender / Sofrer / A tortura implacável / Romper / A incabível prisão / Voar / Num limite improvável /  Tocar / O inacessível chão / É minha lei, é minha questão / Virar esse mundo / Cravar esse chão / Não me importa saber / Se é terrível demais / Quantas guerras terei que vencer / Por um pouco de paz / E amanhã, se esse chão que eu beijei / For meu leito e perdão / Vou saber que valeu delirar / E morrer de paixão / E assim, seja lá como for / Vai ter fim a infinita aflição / E o mundo vai ver uma flor / Brotar do impossível chão”

https://www.letras.mus.br/chico-buarque/86054/

 

[69] PAUPERIO, O Direito Político de Resistência.

 

[70] Valeu-se dos dicionários ROBERTS & PASTOR, Diccionario Etmológico Indoeuropeo da Lengua Espanhola. As referências em grego lastreiam-se em: CHANTTRAINE, Dictionnaire Étymologique de la Langue Grecque, BAILLY, Dictionnaire Grec Français, e URBINA, Manual Grego Clássico-Español. E as em latim, por sua vez, colheu-se com SARAIVA, Novíssimo Dicionário Latino-Português, ou com ERNOUT & MEILLET, Dictionnaire Étymologique de la Langue Latine.

 

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