Prezados,

         Neste mês da ´Consciência Negra´ de 2012, para a nossa reflexão, uma mensagem do notável e mais prestigiado ator afro-americano e talvez, a meu sentir, o maior ator afrodescendente de todos os tempos.

         Num vídeo de menos de 1 minuto:

         http://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=BOPcy-...

         Mês da ´Consciência Negra´, o que acha disso? Ele responde: ridículo.

         Na condição de ativista contra o racismo, defendo a destruição do conceito de ´raça humana´ e mais ainda, compreendo que somente racistas aceitam o estado patrocinando a ´raça estatal´ e as políticas públicas em bases raciais, que vulgariza e torna costumeiro o uso de critérios e causas raciais.

         O conceito de ´raça´ e a prática de classificação racial dos humanos deve ser estigmatizado e repudiado, cabendo ao estado, a abstenção de sua prática.

         Ao contrário do que pensam os defensores de políticas raciais, prefiro o racista constrangido e envergonhado de sua má formação e de seu defeituoso caráter.

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Respostas a este tópico

Antonio

Podemos até convergir em determinados assuntos, com algumas diferenças é claro. Não sei se leste o que escrevi sobre o ensino da história da África, mas se não leste vamos ao ponto.

Acho que o ensino da história da África é importante não para os afro-descendentes (neste caso o termo afro-descendente cai como uma luva), mas sim para todos os brasileiros sem distinção de origem. Porém acho que esta história não deve ser centrada na dominação européia nem na escravidão, por um simples motivo, a história da África é multimilenar, e focarmos o estudo das civilizações africanas neste dois aspectos é continuar colocando o Europeu como o protagonista principal.

Considero a miscigenação não como um assunto sociológico, mas sim um assunto de fórum íntimo, pois esquecem que a base da miscigenação nos dias de hoje é a atração entre homens e mulheres que querem ter o direito de ter como parceiro(a) aquele que lhe convém. E qualquer teorização sobre isto com intervenção, contra ou a favor, interfere num direito fundamental de qualquer um, a escolha de seu parceiro(a).

Quanto a livros como "Não somos racistas" felizmente (por relatos que escuto de outros) não tive a oportunidade de ler (e não farei com que esta oportunidade surja).

Mas voltando a que interessa é a verdadeira história da África, comprei um dos volumes da História Geral da África, são 7 volumes que retrata a história africana desde a pré-história até 1935 e na apresentação da Unesco (orgão que patrocinou este trabalho) eles dizem claro e em bom tom, que uma das origens da disminação e do racismo é a ignorância do que foi a história de África.

http://www.unesco.org/new/en/culture/themes/dialogue/general-and-re...

Por exemplo algo que o movimento negro no Brasil deveria fazer é incentivar, via o governo federal, a tradução desta obra, isto sim começaria a eliminar o eurocentrismo da nossa história.

Temos que levar em conta que o movimento escravocrata atingiu só parte da África, e que os europeus só conseguiram penetrar naquele continente depois da Grande Peste Bovina que simplesmente desorganizou todas as fortes sociedades pastoris que existiam naquele continente.

Inclusive, falando em peste bovina, vejo que é um assunto pouco conhecido por todos, historiadores tradicionais ou mesmo os marxistas. Esta peste (Rinderpest ou Cattle Plague) entrou via introdução de gado europeu na África dizimou em torno de 80% a 90% de todo o rebanho bovino africano, e povos que tinham possibilidade de resistir a invasão européia (Massais, por exemplo) estavam simplesmente reduzidos a nada.

Falo neste evento, que é pouco comentado pelos historiadores de formação européia, pois estes falam que só foi possível a colonização da África depois da chamada Conferência de Berlim (1884) que coincidentemente ocorre na mesma época (1889) em que esta peste se propaga pela África indo do chifre da África até a África do Sul em dois anos. Há inclusive um texto, que infelizmente não tive acesso de forma integral que tem um título bem instigante "RINDERPEST IN THE SUDAN 1888-1890: THE MYSTERY OF THE MISSING PANZOOTIC".

Em resumo, fatos como este não são conhecidos no Brasil, e ficam todos pensando que os africanos eram povos atrasados e que os europeus é que levaram a "cultura e a civilização moderna"!

Poderia continuar no assunto, mas no momento não tenho tempo.

Boa tarde Maestri!

Nunca gostei desse termo "afro-descendentes". Seguindo a lógica do discurso vigente, no Brasil, sobre o debate étnico/"raça", em virtude de o Brasil ser um país miscigenado, seríamos, todos os brasileiros, afro-descendentes ou, não obstante, a pele escura da negritude, os negros seriam, igualmente, considerados euro-descendentes. Isto é, eu apesar da minha pele escura [negro], ao invés de ser afro-descendente seria, igualmente, euro-descendente. Minha avó era loira/branca. Enfim, eu posso usar os dois termos para se referir a mim: afro-descendente   ou euro-descendente. Como no Brasil, na real, as coisas de definem pela cor da pele, não há como fugir as definições de branco e negro e asiático e indígena.

A micigenação no Brasil, por mais que se negue, é produto de uma época, escravidão, onde mulheres negras e indígenas eram estupradas por senhores brancos. A partir do fim da escravidão o número de casamentos inter étnicos, isto é brancos e negros ou brancos e indígenas é quase inexistente: branco, não raro, casa com branca e negro casa com negra.

Sobre olivro da história da África pela Unesco, como não li, não posso opinar.

Abs.

Caro Antônio.

Aí está uma brincadeira que a natureza fez com os racistas e hoje em dia a ciência está demonstrando quanto miscigenados somos.

Só que a tua interpretação que a miscigenação ter sido só origem do estupro é parcialmente verdadeira. Desde o início da colonização portuguesa só vinham homens de Portugal, logo tanto as índias como as mulheres negras tornaram-se parceiras involuntárias ou voluntárias dos nossos amigos portugueses, entretanto quando se lê relatos do século XVI e XVII havia diversas críticas de viajantes estrangeiros contra casamentos ou amancebamentos que existiam nos mais diversos matizes.

Não podemos reduzir tudo a atos de força, pois naquela época mulheres brancas eram literalmente estupradas por seus maridos brancos a medida em que os casamentos eram arranjados entre famílias. Os preceitos morais eram outros, e conforme os mesmos relatos antes citados estes conceitos eram extremamente frouxos no Brasil colônia.

Também chamo atenção que em estados como o Rio Grande do Sul, onde a população negra é relativamente baixa, vejo um número significativo de jovens fazendo casamentos "mistos". Logo é quase uma ofensa dizer que a miscigenação ocorria SOMENTE ou GRANDE PARTE pelo estupro.

Inclusive meu caro amigo, dás um exemplo familiar, a medida que a tua avó, que segundo tuas informações era branca, e certamente o que ocorreu entre a tua avó e teu avô certamente não foi estupro!

Outro dado interessante sobre a miscigenação, há bons tempos atrás a secretaria da saúde do RGS, incluiu no teste do pezinho das crianças que nasciam em Porto Alegre exame para detectar a Anemia falciforme, doença com uma incidência muito maior em  Africanos, para espanto dos médicos na época, projetando as taxas desta doença em função do número de casos, chegou-se a conclusão que 40% da população de Porto Alegre tem ascendência Africana.

Outro detalhe, durante o início da colonização, uma forma de fazer alianças entre os portugueses e índio, era o português casar com uma índia indicada pela tribo (costume também comum nas casas reais europeias!), só que como era possível a poligamia eram muitos os casamentos. Leia: Náufragos  traficantes e degredados do Eduardo Bueno que tem uma boa descrição deste último costume. Tem livre na internet.

Bom dia Maestri!

Eventuais exceções não anulam a regra. E, graças a Deus, os relacionamentos, grosso modo, não se pautam pelas diferenças  mas, não raro, ocorrem apesar delas.

O casamento da minha avó com um negro não era parte do paradigma da época, segunda metade do século XIX, na verdade, era, isto sim, uma quebra do mesmo.

O final do século XIX e início do século XX, no Brasil, é o período em que Nina Rodrigues, e outros, estavam entusiasmados que, com a vinda de imigrantes brancos e europeus, houvesse maior "interação" sexual [ou casamentos e afins] entre negros, indígenas e brancos. A base do branqueamento se sustentava na teoria de que em 100 anos, em virtude dessa "interação", não houvesse mais, no Brasil,  negros/indígenas. Isto é, as gerações futuras iriam se "purificando" e se tornando cada vez mais brancas. É claro que a ideia de DNA naqueles tempos era impensável. O que valia era a cor. Está aí a raiz do modus operandus do racismo  brasileiro. Ou seja, vale o que você aparenta ser. Ou, quanto mais claro melhor. Ou em outras palavras a cor da pele [e não a miscigenação de genes/DNA] determina se uma pessoa era/é branca ou não.

Nesse sentido, o casamento da minha avó com um homem negro, de certo modo, era até "bem vindo".

Quanto à história da África, preciso me informar melhor.

Abs.

Óbvio que havia uma ideologia racista durante a escravidão, com a qual as classes escravovocratas autojustificavam, o escravagismo que as beneficiavam. O racismo atual é um eco ideológico desse passado escravagista, engordado no século XIX, com a incorporação do cientificismo, do positivismo, eugenia e todas as ideologias que apregoavam a hegemonia ocidental, eurocentrista, para justificarem as pretensões do colonialismo nos séculos atuais.

Não cabe sofisma baseado na simplificada retórica do tipo "negro não era gente", logo "não existia". Tanto era gente e existia, que as classes escravocratas procuravam evangelizar, seus objetos inexistentes, "parte do inventário da fazenda"; nenhuma igreja evangeliza objetos ou animais. Não bastava o trabalho forçado, era preciso fazer com que o escravo aceitasse sua condição, daí a necessidade de impor ideologia hegemônica, com base na diferencição "racial", caracterizada na cor da pele.

José Roberto,

Certa feita procuram a Madre Tereza de Calcutá se ela não apoiaria uma ação contra a guerra, Ela respondeu não, mas quando resolverem fazer uma a favor da paz, me chamem.

Dia para isso e para aquilo, tudo isso é bobagem. No meu humilde entendimento, não épor aí.

Falou...

Meus prezados MAESTRI e ANTONIO, vos parabenizo e agradeço pelo enriquecimento do post.

Agora, com o final da tal ´semana´ da Consciência Negra, em que corri entre minha vida profissional, debates e seminários - sobre racismo e sobre a racialização estatal - que teve por foco esse post de ´meu primo´ MORGAN FREEMAN (sempre dizem que sou parecido com ele mais novo.... estou com 59 e ele com 76.... rsss). Portanto a partir dessa semana estou com tempo para ler com mais atenção a rica interlocução de ambos, além das matérias sobre a posse ´racial´ do Ministro JOAQUIM (preciso escrever minhas razões para não ter ido à solenidade) em razão do caráter racial em que foi promovido.

Aliás, me lembrei que no post relacionando MONTEIRO LOBATO x TWAIN x SARNEY que postei em setembro, defendendo a contextualização da obra de LOBATO em razão do eugenismo predominante na intelectualidade da época, tem uma observação interessante do ANTONIO de qual me sirvo: - "em 16 setembro 2012 at 13:44 - Racismo não se contextualiza em favor do "politicamente correto" ou "contexto de época". Há, no Brasil, um certo pudor em reconhecer, e aceitar, que um dos seus mais brilhantes intelectuais, Lobato, era racista e eugenista. E, que durante toda a sua vida, militou contra os negros, dentre muitas outras razões, não raro, por achá-los inferiores.” - http://blogln.ning.com/ forum/topics/monteiro-lobato-sarney-mark-twain-e-literatura-racista?xg_source=activity

Assim contextualizo esse bate-papo com aquele: o reconhecimento que temos a herança de uma sociedade com sérios problemas de racismo - tanto que sou um ativista anti-racismo faz mais de 30 anos - e portanto, os caminhos para a superação disso, ou, no que penso da representação política do OBAMA eleito e re-eleito - em outro post - - http://blogln.ning.com/profiles/ blogs/obama-lah-a-aud-cia-da-esperan-a-ii-2008-2012?xg_source=activity - e tal como LUTHER KING falo de meu ´sonho´ com a renovação da "Audácia da EsperançaII" por um mundo melhor. E esse mundo melhor será o pós-racial que a eleição e re-eleição de OBAMA a meu ver, prenuncia. Ela não significa a vitória racial dos afro-americanos. Ela significa a perda de prestígio do conceito de ´raça´ naquela grande nação tão racista.

Ora, se temos essa herança, e a cultura de ambos o reconhecem, como não poderia ser diferente, a questão que nos desafia é qual o melhor caminho, qual a melhor estratégia de políticas públicas e de alteração do senso comum para a edificação de uma sociedade melhor para as futuras gerações.

E a história nos diz que a produção da ´raça´ estatal não é o melhor caminho. E essa história é nossa conhecida e ela é ainda recente, a nossa geração conviveu com isso: onde quer que o estado atribuiu direitos em bases raciais produziu iniquidades, tragédias, racismo, divisões e ódios raciais. EUA, África do Sul, Alemanha, Ruanda, ex-Ioguslávia etc etc. Sempre costumo lembrar e refletir com uma poderosa frase dita pelo primeiro grande anti-racista FRANTZ FANON, dita em 1956, em Paris num encontro de intelectuais afrodescendentes: " numa sociedade com a cultura de raça, a presença do racista, será, pois, natural."

Sempre desafio: um único exemplo exitoso de políticas públicas raciais. Há conceituados intelectuais afro-americanos que contestam com veemência as ´cotas raciais´ nos EUA que ANTONIO imagina ser uma maravilha. CORNEL WEST, BARACK OBAMA, WALTER WILLIANS, THOMAS SOWEL dentre outros.

Por exemplo, a destruição da família afro-americana, cujo niilismo social que afeta a juventude OBAMA diz ser a maior tragédia social na história humana, empresta sentido às críticas dos intelectuais. Em 1970, 13% das crianças eram filhas de mães-solteiras e mais de 70% em 2010. Apenas 30.000 afro-americanos estavam nas prisões, menos de 0,1% e em 2011, mais de 2,5 milhões estavam sob custódia da justiça, mais que 6%, sobretudo jovens de 16 a 30 anos, o que piora a perspectiva de futuro daquelas crianças órfãs. Em suma, as políticas de privilégios raciais dos anos 1970/80, segundo W. WILLIANS, reduziu a auto-estima das crianças e jovens que deixaram de ver em seus pais – os privilegiados – o reconhecimento pelas vitórias conquistadas. Enfim, para produzir uma poderosa classe média de 10% os demais 90% de afro-americanos estão pagando muito caro, sociologicamente.

Enfim, aquele pensamento de FANON é uma de minhas maiores motivações: a presença do racista no meio social é nefasta e indesejável. Contra tal presença, nós precisamos destruir a novel crença em ´raças humanas´, base da ideologia racial que é recente de meados do século 18 e não temos o direito de alimentar a ´cultura de raça´ a que se refere FANON. A nossa geração beneficiada pelo ativismo e consciência anti-racista do pós-guerra, não tem esse direito.

Vejam, meus prezados, eu nasci em 1953. Apenas em 1952 a UNESCO patrocinava o início do anti-racismo com CLAUDE LÉVIS-STRAUSS. “Como estudioso LEVI-STRAUSS jamais aceitou a visão histórica da civilização ocidental como privilegiada. Sempre enfatizou que a mente dos nativos é igual à civilizada. Sua crença de que as características humanas são as mesmas em toda parte surgiu de suas incontáveis viagens que fez ao Brasil e nas visitas a tribos de índígenas das Américas do Sul e do Norte.”

Portanto, com o fim da 2ª guerra, em razão da tragédia do nazi-facismo e a derrota de seus estados racializados, foi que deu oportunidade ao surgimento do anti-racismo. Foi com ´Raça e História´ e ´Tristes Trópicos´ que ele entregou à nossa geração os instrumentos que hoje manejamos e nela nos apoiamos para o sistemático combate ao racismo.

A partir daquelas obras que se demonstrou com autoridade acadêmica que as bases ideológicas do racismo eram recentes e falaciosas: “A noção de que as culturas humanas deveriam ser vistas sob uma perspectiva evolutiva datam do século 18. Filósofos franceses como Turgot e Condorcet apresentavam a história como um progresso linear que partia da ignorância, superstição, medo e violência dos humanos primitivos para chegar a racionalidade, a ciência e, finalmente, ao estado-nação e suas instituições modernas. Na segunda metade do século 19 a noção de evolução cultural se tornou modelo, estimulada, desta vez, pelo desenvolvimento da biologia darwinista. Como nota Lévi-Strauss, o evolucionismo cultural é anterior à publicação de A origem das espécies, de Darwin.

Mas o paradigma darwiniano viria a exercer uma poderosa influência no pensamento antropológico: a noção de que a história e as culturas poderiam ser explicadas pelo mesmo esquema de uma mudança evolutiva.” http://pt.wikipedia.org/wiki/Ra%C3%A7a_e_Hist%C3%B3ria

Vejam, a partir dos anos 1950, é que surgiram os grandes ativistas contra o racismo. FANON, LUTHER KING, MALCOLM, ABDIAS, MANDELA, STEVE BIKO, DESMOND TUTU e outros passaram a ter a base acadêmica a sustentar a idéia política da igualdade humana e a denúncia da estupidez do racismo. E isso é recente. Nós precisamos dar prosseguimento a esses ideais: a destruição da crença em raças. Ela é a pedagogia do ódio entre os humanos. Foram presos, banidos, assassinados.

Então, nos últimos 20 anos tenho debatido isso: o meu sonho é a destruição do conceito de raças. Ao contrrário do que dizem os defensores de cotas raciais, ele nunca foi um conceito biológico. Sempre foi um conceito político. A idéia da classificação humana em raças, se destinava a impor uma hierarquia racial. Enquanto existir o conceito, estará implícita a hierarquização. E nela, a ´raça negra´ no senso comum, sempre será a raça inferior. Ele sempre foi uma construção social e como tal deve ser destruída jamais utilizada pelo estado. Se o estado usa o conceito político de ´raça´, o estará legitimando.

Portanto, a minha questão não se volta para o passado. Ele está escancarado. Não precisamos nos vitimizar, conforme diz OBAMA. Precisamos edificar um mundo melhor com a total desconsideração das classificações raciais que nos foram impostas pelo racismo para a opressão. Sempre que se classificar alguém pela ´raça´ como estamos fazendo hoje no Brasil, é uma classificação política opressora, e estamos violando a dignidade humana dos beneficiários e de todos os demais humanos pela redução do prestígio da unicidade da espécie humana.

Em razão disso; do olhar para o futuro é que sou contra políticas públicas em bases de segregação de direitos raciais e explico. Para falar disso, modéstia inclusa, fui o autor do primeiro ante-projeto de um estato de Promoção da Igualdade (que não era racial) contemplando a verdadeira e boa doutrina de Ações Afirmativas sem a segregação de direitos raciais (essa história está num antigo post aqui na minha página). http://blogln.ning.com/photo/1997-vitoria-es-estatuto-de/next?conte...

Tal ante-projeto que redigi em 1992/93, logo após a nossa luta anti-racista na Constituição de 1988, na Comissão de Direitos Humanos da OAB/SP por se tratar de políticas públicas (não era igualdade ´racial´) se destinava a ser contra o racismo, o sexismo, homofogia etc, o submeti a meus companheiros do movimento negro (anti-racistas até então) e acabou sendo cooptado pelos ativistas vinculados a ONGS financiadas pelas Ford Foudacion – ele foi racializado e virou o ante-projeto PLC 73/99 do então Deputado PAULO PAIM e incorporou o PLS 651/97 de JOSÉ SARNEY que previa ´cotas raciais´.

Em suma, continuo sendo um anti-racista e penso como OBAMA (e não como o Ministro JOAQUIM passou a pensar após ser beneficiário de cota racial), e também endosso a manifestação do MORGAN que faz ainda mais sentido para nós afro-brasileiros. Os afro-americanos sempre foram minoria e nós, desde o século 18, temos sido a maioria dos brasileiros. É impossível confirmar a nossa história em um mês. A história do Brasil, nos ensinou SERGIO BUARQUE DE HOLANDA em ´Raízes´, é a história do encontro de três povos – e não de três raças. Sempre defendi a celebração de ZUMBI em 20 de novembro, não como o dia e o mês da ´Consciência Negra´, mas como a homenagem ao primeiro HERÓI brasileiro. Essa exemplaridade que precisamos ser contada na historiografia oficial. Não a dos bandeirantes que nossa geração aprendeu.

OBAMA em seu livro-plataforma (A Audácia da Esperança, 2004) já deixava claro a síntese de seu pensamento a respeito disso, e sempre pensei nesses termos para a superação de crenças negativas baseadas na crença em raças, no machismo, sexismo e homofobia que sustentaram as culturas defeituosas dos séculos 19 e 20. Dizia ele e sua política estatal tem sido nesse sentido: "Eu rejeito a política baseada apenas na identidade racial, na identidade homem-mulher ou na orientação sexual. Eu rejeito a política baseada na vitimização.”

O nosso desafio, a que convido os colegas que se interessam por esse debate, será, pois, o nosso dever em prosseguir nessa caminhada tão recente, somente iniciado em 1948 com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, e que é a edificação de uma ambiente social melhor, mais harmonioso, para as futuras gerações, conforme nos exige de cada geração o grande ORTEGA y GASSET: a destruição do conceito social de ´raças´. E uma das formas disso, conforme disse FREEMAN, é, em especial o estado, deixar de falar, agir e outorgar direitos baseado em raça.

Sinceramente, não acredito que esse futuro possa ser edificado por uma sociedade em que o Estado empregue políticas públicas com identidade racial para incluir ou excluir, especialmente, em políticas públicas que se destinam à violação da dignidade humana da nossa juventude, ensinando a separação, a divisão racial em direitos distintos, lições que são sementes de ódios.

Essa é a velha pedagogia sonhada pelo racismo: a pedagogia do ódio. Termino evocando outra lição extraordinária de NELSON MANDELA para a melhor pedagogia. A pedagogia do amor e não a do ódio: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor da pele ou pela religião. Se eles aprenderam a odiar é por que foram ensinadas. E se aprenderam, nós podemos ensinar a amar.”

abraço,

Caros Militão e Antônio.

Acho que no momento estamos caminhando numa boa direção, todos de uma forma e outra estamos olhando o racismo dentro de uma perspectiva histórica. Por exemplo, o Antônio está levantando o verdadeiro discurso oficial das décadas de 20 a 30 no Brasil, discurso este que não era meramente um discurso de branqueamento sob o ponto de vista da eliminação da cor da pele, mas sim de eliminação de tudo aquilo que culturalmente podia ser identificado como uma das contribuições da cultura negra na sociedade brasileira.

Vou tomar como exemplo algo que a muitos pode parecer periférico, mas para mim é extremamente revelador, a perseguição e a proibição da capoeira no Brasil. Pode até parecer insignificante para muitos, mas esta manifestação que era considerada algo marginal e passível de repressão policial, hoje é incorporada a cultura nacional (e mesmo internacional) não mais de forma “racial”, mas com sim dois aspectos positivos, a conservação da cultura negra e a integração da mesma a outros grupos, além de valorizar o aspecto de luta e de resistência contra séculos de opressão.

Ainda falando sobre o Brasil das décadas de 20 a 40 do século passado, vimos que só após este momento que se começa a desconstruir um discurso claro e inequívoco de supremacia “racial” do homem europeu em relação ao africano e asiático. Discurso este que era feito de forma desavergonhada, embasado num pseudo-cientifismo que existia não só no Brasil, mas em todo o mundo. Gostaria de relembrar a todos este discurso racista, oficial e aberto, não privilegiava somente os negros, havia dentro das teorias racistas e eugênicas em quase todos os países do mundo uma quase unanimidade em estabelecer a discriminação contra todos aqueles que saíam do chamado comportamento normal da época, índios, judeus, ciganos, orientais, árabes e pobres em geral, em países como o Brasil o principal objetivo eram os negros e mestiços. Ou seja, sem minimizar o racismo contra o negro no Brasil, podemos dizer que todos aqueles que não eram brancos, ricos e de confissão católica entravam nesta classificação de pessoas que deveriam ser eliminadas (não eliminadas culturalmente, eliminadas fisicamente). Chamo a atenção que a eugenia surge com Galton na Inglaterra, e o discurso eugênico era centrado contra os “pobres endêmicos”, que segundo as boas pessoas deveriam “morrer de fome” (não é força de expressão) para que por seleção natural só os mais fortes vingassem, melhorando assim a raça humana. Tomando o exemplo norte-americano, os primeiros alvos dessa perseguição eugênica foram brancos pobres que eram considerados degenerados, e para a sua eliminação foram concebidas e desenvolvidas campanhas de esterilização. Vide por exemplo o fantástico livro de Edwin Black “A Guerra contra os Fracos”, onde o espírito reinante no início do século passado onde a eugenia e a discriminação são colocadas de forma magistral e ricamente documentada.

Eu estou preparando um texto com argumentos históricos sobre um fato que é desprezado pela historiografia eurocêntrica que ocorre no fim do século XIX na África que acho de extrema importância a sua divulgação. Estou demorando por dois motivos, primeiro porque não sou historiador e segundo porque o meu motivo principal neste texto não é comprovar um fato histórico que é conhecido, mas é subestimado, o meu objetivo é mostrar como o eurocentrismo histórico simplesmente ignora a importância deste fato ocorrido na África para não tirar dos Europeus o protagonismo na colonização africana. Estou me referindo à pandemia animal que assolou a África durante as duas últimas décadas do século passado, a Rinderpest ou cattle plague.

Se alguém ainda não tem noção do que ocorreu e sugiro como uma ótima leitura o trabalho de Carlos Eduardo Martins que pode ser encontrado facilmente na rede em: http://www.lainsignia.org/2004/noviembre/cyt_004.htm.

Agora por que insisto nesta doença do gado que dizimou quase que 90% do rebanho bovino, búfalos e antílopes na África. Alguém poderia dizer que isto é pontual e não explica nada. Explica sim, pois esta pandemia animal chegou a matar mais de dois terços dos povos mais aguerridos da África com estrutura social mais complexa e mais bem organizada, exatamente os povos que faziam frente à invasão europeia e que reescreveriam a história do continente de outra forma. Acho que um dos fatores que levaram que as teorias pseudo-científicas adiante, foi uma visão do homem africano, cultuada pelas elites europeias de um continente que simplesmente não sabia se governar e por isto deveria a eles ser levada a “fantástica cultura europeia”.

Não podemos subestimar discursos como estes, que sabemos ser meros pretextos para a exploração colonial, mas a desestruturação da sociedade africana também retirou deste povo a capacidade de reescrever a sua própria história, e para se levantar de uma tragédia, a como provocada pela peste, associada à dominação colonial, atrasou sobremaneira o desenvolvimento daquele continente, retirando de todos aqueles que lá vivem ou que de lá são descendentes a autoestima de um continente, dando uma visão incorreta de incapacidade de seu próprio povo.

OK. Walkiria,

De fato não tinha visto o brasilianas.org sobre o ´Dia da Consciência Negra´, e vi que numa passagem, o Nassif alega a minha oposição (do Militão, por volta de 31,55´ do vídeo) às políticas raciais por ser alimentadora do racismo. Os debatedores - Eloi e Eunice - conhecedores de minhas críticas, não se aprofudndam no tema, e se limitaram a dizer que ´raças´ são de fato construções sociais e não a ´raça´ biológica, o que concordo, porém, eles não explicam como funcionários públicos que são, bem remunerados para combater o racismo, presume-se, eles não explicam como é que o emprego desse conceito social de ´raça´ empregada para e identidade humanas através de políticas estatais poderia ser instrumento eficaz de combate ao racismo. Pois não há explicação para isso.

Sucede que, é triste constatar isso, mas não posso deixar de fazei-lo, é que essas pessoas que já formam cerca de 300 profissionais em diversos escalões de governos, ONGs e universidades descobriram que a existência do racismo e seu afloramento no seio do povo é o que lhes assegura oportunidades acadêmicas, políticas e profissionais e passaram a defender o racialismo em causa própria e na causa de organizações internacionais que financiam isso.

As ´Foudacion´s´ norte-americanas dispões de bilhões de dólares em seus orçamentos e precisam do afloramento do racismo nos quatro cantos do mundo para justificarem seu próprio ativismo. É desconfortável dizer, mas, são bastante semelhantes às milícias para-militares e às empresas de segurança privada tão bem conhecidas no Rio e São Paulo, que alimentam a violência, para venderem seus bons serviços de ´segurança´.

Portanto, a oposição a isso, significa a oposição a um poderoso sistema multinacional e no seio governamental, com bilhões de dólares, dispostos a levar adiante essa empreitada perversa e mesquinha: tornar o Brasil um país dividido racialmente e com ódios raciais que justifiquem as lideranças raciais.

Militão.

Infelizmente é assim, inclusive na academia, se há dinheiro para pesquisas e outras ações, os ditos "intelectuais" (desprezo este termo porque discrimina quem trabalha em outros ramos) voam como andorinhas procurando o calor, mesmo que tenham que atravessar dois hemisférios.

Pelo program parece que a luta contra o racismo começou na década de 90 e a consciência desta luta também.

A tua última frase é lapidar, dar ênfase a soluções racistas para sustentar as lideranças (que serão os mais beneficiados com isto tudo).

PS: Quando foram citar intelectuais negros no Brasil esqueceram Milton Santos!

Bom dia Valquiria!

Grosso modo, "raça"/racismo, como construção sociológica ou não, está relacionado à cor ou a alguma característica cultural ou religiosa. Judeus, por exemplo, não obstante serem brancos sofreram com o anti-semitismo.

No mundo contemporâneo, no entanto, o quesito cor, ou, características físicas se sobrepõe. Não há na Rússia etnias diversas, isto é, todos são brancos e as várias etnias que existiam na antiga União Soviética eram todas brancas.

Desconheço, há décadas, no Brasil, a necessidade de se dizer a "raça" em qualquer formulário. Somos, no Brasil, mais sofisticados: pedimos  uma foto 3/4. O que é igualmente ilegal. 

O conceito de "raça", está tendo a sua volta triunfal em setores mais conservadores, deterministas e reducionistas da ciência: neo darwinismo, neurociência, sócio biologia e psicologia evolucionistas. Steven Pinker, psicólogo evolucionista, em seus livros, diz claramente que é um equivoco negar a existência de "raças".

Abs. 

Bom dia!

    Questões como racismo ou homossexualismo seria correto estar sabatinadas a tempos. Definir uma pessoa pela tez ou opção sexual é o cúmulo. Eis a razão de evoluirmos para um patamar que discutamos assuntos de relevância. Mas infelizmente temos que desconstruir tais preconceitos. Mostra como estamos.

    Que a mais sacrossanta paz esteja convosco!

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