Prezados,

         Neste mês da ´Consciência Negra´ de 2012, para a nossa reflexão, uma mensagem do notável e mais prestigiado ator afro-americano e talvez, a meu sentir, o maior ator afrodescendente de todos os tempos.

         Num vídeo de menos de 1 minuto:

         http://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=BOPcy-...

         Mês da ´Consciência Negra´, o que acha disso? Ele responde: ridículo.

         Na condição de ativista contra o racismo, defendo a destruição do conceito de ´raça humana´ e mais ainda, compreendo que somente racistas aceitam o estado patrocinando a ´raça estatal´ e as políticas públicas em bases raciais, que vulgariza e torna costumeiro o uso de critérios e causas raciais.

         O conceito de ´raça´ e a prática de classificação racial dos humanos deve ser estigmatizado e repudiado, cabendo ao estado, a abstenção de sua prática.

         Ao contrário do que pensam os defensores de políticas raciais, prefiro o racista constrangido e envergonhado de sua má formação e de seu defeituoso caráter.

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Boa tarde Maestri!

O debate sobre o racismo, no Brasil, é quase embrionário. Acontece, groso modo, há cerca de 50 anos. Antes o negro não tinha voz e contestar a democracia "racial" brasileira era considerado sacrilégio.

Na verdade, a miscigenação brasileira é setorizada, ou, ocorre em guetos de minorias étnicas ou regionais.

Quando digo que a miscigenação, com efeito, ocorreu até o início do século XX é por que: 1. Os imigrantes que para cá vieram a partir do final do século XIX: a) viviam isolados; b) casavam entre si; c) como o restante dos brasileiros não consideravam os negros dignos de seu convívio e, muito menos, possíveis candidatos a cônjuges. Posto isso, a miscigenação brasileira, depois da série de estupros do império/escravidão, grosso modo, aconteceu no Norte e Nordeste; partes do Sudeste e Centro Oeste e, no Sul, é praticamente inexistente. E mesmo assim onde houve miscigenação, depois da série de estupros do império/escravidão, ela, miscigenação, foi muito incipiente. 

Há estudos que comprovam que o número de casamentos entre negros e não negros [brancos, asiáticos etc], depois da década de 1920 diminuiu drasticamente. Não há necessidade de pesquisa, é só ir a qualquer igreja Sábado ou Domingo, e se verá que, no Brasil, via de regra, branco casa com branca, asiático casa com asiática e negro casa com negra.

A segregação "racial"/étnica, no Brasil, via escravidão,  foi feita pelo governo Brasileiro. Isso com aval dos mais variados setores da sociedade civil organizada, ou não. Nada mais justo que, via ações afirmativas/cotas, o governo brasileiro repare mais de 400 anos de injustiça com a comunidade negra do Brasil. 

Abs.  

Prezados,

Acho que o post atingiu o objetivo proposto - a ´consciência negra´ e a identidade racial - que MORGAN e muita gente repudia e acabou desviando para a questão das ´cotas raciais´.

Evidente a questão não é a existência de racismo o que todos nós concordamos. A questão é como conduzir o combate ao racismo. MORGAN propõe deixar de falar nisso. Não concordo enquanto o racismo produz vítimas. O Brasil, como estado, fez isso no século passado e, embora tenha preservado aquela ´relativa tolerância´ a que se refere MILTON SANTOS, não equacionou as questões das desigualdades e da discriminações que geram mais desigualdades.

A presença de racismo decorreentes de origens, como a dos italianos, alemães, chineses ou japoneses, também é uma verdade especialmente para os da imigração tardia do século 1900, pois, já traziam em sua cultura entranhada profundamente a cultura da ´crença em raças´ que na Europa estava sendo cultivada desde os anos 1.700. O racismo do imigrante não pode ser combatido com o racismo de brasileiros, brancos ou pretos. MANDELA disse em seu discurso mais famoso: " Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor ou religião. Eles foram ensinados a odiar. Se aprenderam, nós podemos lhes ensinar a amar."

Portanto, em suma, o que penso é isso: a única pedagoria autorizada ao estado é a do amor, jamais a do pertencimento racial, pois esse sentimente é nefasto, campo fértil para o ódio, separações, apar~tação e tragédias sociais.

Os defensores de cotas raciais alegam com a rapidez do processo e com os dados do passado. A oposição - bem intencionada - a que acredito pertencer, defende outros mecanismos de Ações Afirmativas - cuja doutrina não se confunde com a segregação de direitos raciais - e que são também eficientes sem os efeitos colaterais que aponto.

Em relação aos efeitos colaterais, tão contestados pela ANARQUISTA, não se trata de simples ´achismo´ mas é o olhar de quem compreende o sentimento de pertencimento racial como doentio e irremovível: o pertencimento racial é uma prisão imutável, ensinou SERGIO BUARQUE em ´Raízes do Brasil´, para quem, o ´ser nacional´ brasileiro estava livre e podia ser mutante subordinado apenas a questões culturais. Seus efeitos são devassadores entre os mais pobres, pois quem nada tem, passa a dispor de um patrimônio conferido pelo estado, intangível. Um patrimônio ´racial´. E em epecial o patrimônio daquele que aprende a acreditar pertencer a uma ´raça superior´. E de outro lado, a baixa-estima de quem aprende a acreditar pertencer a uma ´raça inferior´.

Enfim, quem pensa que essa temática está caducando, engana-se. Estamos no início de um longo período que nos exige ainda mais a oposição a qualquer sistema social baseado em ´raça´ como tem feito, infelizmente, os últimos governos, de FHC em 1994, quase vinte anos. Recorro à sabedoria do primeiro grande ativista contra o racismo, exatamente por sua especialidade médica, era um psiquiatra, FRANTZ FANON que conhecer da mente humana, dizia num Seminário de intelectuais africanos em Paris, em 1956: " Numa sociedade com a cultura de raças, a presença do racista, será, pois, natural."

abraços,
ANTONIO,

em atenção a tua última mensagem ao MAESTRI (eu e ANA-LU não conseguimos postar a resposta no local certo), devo ponderar o seguinte: a oposição à segregação de direitos raciais não tem por base o passado. Tem por motivação os efeitos colaterais que vão alterar as relações sociais de forma negativa para o futuro. O estado não tem o direito de envenenar o ambiente social do futuro.

MAX WEBER, o sociólogo alemão do século passado, ensinou a existência de duas éticas na sociologia política — a da convicção e a da responsabilidade — que não são opostas. Diz, WEBER "o homem comum pode atuar conforme suas convicções, o conjunto de valores e crenças adquiridas. Já para o homem público, a ética atua em campo mais amplo: são obrigados a lidarem com a ética da responsabilidade. Eles se obrigam a pensar e responder pelos resultados futuros de suas ações." Ele sustentava que, na política, muitas vezes o que parece ser o “bem” pode gerar o “mal” e que a vaidade pessoal é incompatível com a função política. Tal doutrina cabe integralmente para apontar a irresponsabilidade na violação dessa ética sociológica em face da lei aprovada – introduz o direito ´racial´ de forma compulsória pelo Estado – segregando direitos e não faz justiça social conforme alegam os defensores de cotas raciais. Na verdade o texto da ´lei de cotas´, sociais e raciais, faz a reserva 75% das vagas aos mais ricos (art.1º a 3º).

Essa lei, como foi aprovada, não faz justiça social e reserva para os mais pobres, 25% das vagas onde se darão as disputas raciais. Os mais ricos nada perderão. Basta fazer as contas conforme a nossa realidade social e os objetivos da lei.

É certo que voce empregou a mais lógica e única argumentação na defesa de cotas raciais quando você afirma e justifica - em decorrência da tragédia histórica da perversa escravidão e do racismo que lhe deu sobrevida - considera justa a ´reparação´ pelas políticas de segregação de direitos raciais. Porém, esse é o discurso da vitimização que eu e muitos outros deploram. Os afro-brasileiros não são ´coitadinhos´, são seres humanos dignos e o que precisam é o estado neutralizar e remover as discriminações. O estado deve GARANTIR a igualdade que não tem sido assegurada em razão das discriminações.

GARANTIR a igualdade é o que faz a doutrina de Ações Afirmativas. E ações afirmativas não é a mesma coisa que cotas raciais, conforme você afirma ´cotas raciais/ações afirmativas´. Ações afirmativas não se baseia no passado distante. As ações afirmativas atuam sobre o presente. Se alguém, algum setor discrimina hoje, as AA são aplicadas para alterar essa realidade do cotidiano. Por conseguinte as ações afirmativas asseguram a igualdade. As ´cotas raciais´, visam assegurar privilégios ao conferir direitos distintos com o que - viola o art. 19 da CF - e viola a dignidade humana dos beneficiários. Junto com o favor estatal está implícita a afirmação de uma inferioridade presumida pelo estado que afetarão os cotistas em primeiro lugar e depois afetarão a todos os pretos e os brancos, pois uma afirmação estatal produzirá o convencimento psicossocial.

O outro argumento geralmente utilizado, inclusive foi sustentado por Juízes da nossa Suprema Corte, é ainda mais falso: a tese aristotélica do tratamento desigual aos desiguais seria a verdadeira igualdade. Mas, tal tese tem sido contestada desde TOMAS DE AQUINO e foi amplamente confrontada pelo BISPO LAS CASAS no Tribunal de Vallidolid, 1551/1552, pois, Aristóteles entendia que os humanos não eram iguais. Os gregos pensavam e admitiam a existência de escravos por natureza. A escravidão dos nativos, na África e nas Américas, somente foi admitida com a vitória da tese aristotélica de que seriam ´escravos por natureza´. A igualdade humana somente se tranformou em princípio da dignidade humana, com os iluministas, nas teses defendidas principalmente por KANT, consagrando para nós: ´todo homen nasce livre e com iguais direitos à vida e à dignidade´.

Outra coisa que você e muitos outros se enganam é a questão do COMBATE AO RACISMO.

Acontece que até 1950, desde o início da colonização das Américas e ocupação da África e Ásia, o domínio europeu, sustentado pela tese de ARISTÓTELES não reconhecia a igualdade humana e foi base para uma nova ideologia - que ora combatemos e aqui debatemos - o racismo nasce dessa tese aristotélica apenas no século 18.

Portanto, equivocado esse argumento que os defensores da segregação de direito racial recitam com ênfase: “a verdadeira igualdade consiste em tratar desigualmente aos desiguais”. É que não cuidam que quando formulada por ARISTÓTELES, ele e todos na cultura grega da época, pensavam: os humanos não são iguais e não merecem a igualdade de tratamento (Carta a Nicômaco). Ele também acreditava que a mulher era um ser incompleto, comparando-as a meio-homem: “um ser incompleto passivo enquanto o homem seria um ser ativo e completo.” Portanto, não é ousadia dizer: as duas principais teses aristotélicas, relativas à humanidade, estavam equivocadas.

Tal lógica aristotélica para a IGUALDADE HUMANA somente foi rompida após a tragédia da 2a guerra mundial. O primeiro a afirma-la, no Brasil, foi RUI BARBOSA, em 1921, na ´Oração aos Moços´, portanto, no auge dos conceitos racistas vigentes em toda o ocidente.

Assim, a primeira manifestação da ONU através da Comissão da UNESCO e dos relatórios de LEVIS-STRAUSS o mundo inteiro era racista. Os estados eram racistas. Intelectuais eram eugenistas. Essa era a realidade do mundo e do Brasil também.

O que SERGIO BUARQUE, CAIO PRADO E FREYRE perceberam e nos revelaram com acuidade é que o racismo no Brasil estava sendo diluido em razão de um antecedento demográfico e antropológico que era a miscigenação intensiva sem paralelo nos demais países de colonização recente. Essa miscigenação, também foi com estupros e violências presumidas, mas, também teve condicionantes humanos relevantes.

Portanto, não há novidade alguma no fato dos imigrantes do século 1900 serem racistas, tal como a cultura que traziam da europa e que a ensinaram a seus herdeiros continuam sendo em grau cada vez menor no Brasil. Mas no mesmo grau nos EUA. No Brasil o racista vai aprendendo a conhecer a sua própria estupidez e vai sendo constrangido. Nos EUA não: o racista tem orgulho em ostentar a doentia ideologia. Isso em razão da nossa virtuosa miscigenação, e relativa cordialidade, nas palavras do saudoso professor MILTON SANTOS.
aqui>> http://luisnassif.com/%20video/milton-santos-sobre-a-politica-racial

O fato de que o anti-racismo é uma novidade não somente no Brasil em todo o mundo. Sempre cito a FRATZ FANON como o primeiro grande ativista contra o racismo. Ele induziu SARTRE e os intelectuais africanos dos anos 1950/1960 e teve influencia direta na luta pelos direitos civis e liberdades civis dos afro-americanos. Também o anti-racismo no Brasil, inaugurado por ABDIAS vem dos anos 1950/1960.

Em relação a lógica da vitimização ela não é boa. OBAMA, deixou isso claro na campanha de 2008. Ele reconheceu o niilismo que se abate sobre a juventude afro-americana e já em diversas oportunidades havia se manifestado que as ´cotas raciais´ apenas pelo reconhecimento dos danos históricos não eram políticas eficientes e condizentes com a dignidade humana: ela reduz a auto-estima das crianças e jovens com o estigma da presumida inferioridade racial contida nesse tipo de política pública. Ela induz a vitimização.

Aliás, é o que se deduz de seu livro (A Audácia da Esperança, 2005), verdadeira plataforma política, em que destaco duas frases simbólicas. A primeira revela o caráter da responsabilidade ética com a formação da juventude distante de conflitos e de violações de direitos: "Eu sonho com uma América com mais engenheiros e menos advogados." E essa responsabilidade ética com a formação integral da personalidade humana exige que o estado não utilize políticas públicas em bases de segregação de direitos raciais e essa é uma questão relevante que vem do Direito Natural de Santo Tomáz de Aquino e foi invocada por LUTHER KING em sua ´Carta da Prisão´ (Birmingham, 1963) em que com base na doutrina cristão ele justificava o direito à desobediência à lei injusta que contraria o Direito Natural.

Nessa carta, verdadeiro libelo e Manifesto do Movimento por Direitos Civis, o Doutor KING, afirmava, literalmente, se referindo às lições de TOMÁS DE AQUINO escrita com as reflexões da solidão do cárcere e que viria a se constituir em verdadeiro Manifesto do vitorioso Movimento pelos Direitos Civis, concluindo com as razões do Direito Natural que seria seu dever para a desobediência às leis injustas: "Uma lei injusta é uma lei humana sem raízes na lei natural e eterna. Toda lei que eleva a personalidade humana é justa. Toda lei que impõe a segregação racial é injusta porque a segregação deforma a alma e prejudica a personalidade.":

A segunda frase de OBAMA, a que me referi, de seu livro, é a síntese de uma plataforma de superação de crenças negativas baseadas na crença em raças, no machismo, sexismo e homofobia que sustentaram as culturas defeituosas dos séculos 19 e 20: "Eu rejeito a política baseada apenas na identidade racial, na identidade homem-mulher ou na orientação sexual. Eu rejeito a política baseada na vitimização."

É isso, o que esse post nos serviu, para a reflexão ética com relação ao futuro. ORTEGA Y GASSET, nos legou um dever irrenunciável diante da evelução civilizatória: cada geração tem o dever de entregar um ambiente social melhor e com mais harmonia do que a recebida da geração anterior.

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