NÃO AO PROJETO MERCADISTA-DEPENDENTISTA-CONCENTRADOR DE MARINA SILVA

NÃO AO PROJETO MERCADISTA-DEPENDENTISTA-CONCENTRADOR DE MARINA SILVA.

Brasília, 30 de Agosto de 2014.        Flavio Lyra(*)

É inegável que valores democráticos ao lado de um projeto com profunda preocupação social adotado pelos três últimos governos vêm sendo progressivamente assimilados pela sociedade brasileira, a partir do desmonte da ditadura que asfixiou o país durante vinte e um anos.

Para que esse processo continue avançando, entretanto, é imprescindível que os eleitores se conscientizem da grande responsabilidade envolvida no ato de escolher seus representantes, especialmente os dirigentes mais altos do país.

Ainda vivemos numa sociedade extremamente desigual e injusta, na qual uma minoria da população, os proprietários da riqueza, nacionais e estrangeiros, têm uma forte influência nos rumos da vida econômica do país, por sua ação direta como dirigentes das unidades produtivas, mas também pela participação no controle do aparelho de estado.

A eleição é um momento primordial da luta permanente da maioria da população para aumentar seu peso na direção do aparelho do Estado e, por esse meio, melhorar sua participação na distribuição da riqueza e da renda, ou seja nos frutos da atividade econômica, que ela mesma realiza de modo subordinado aos donos do capital.

 Nas ditaduras, geralmente, a minoria proprietária se apropria do aparelho de estado e, por esse meio, conduz a seu bel-prazer a vida econômica da sociedade. Nas democracias o controle do aparelho de Estado passa pela anuência da maioria da população através do direito de voto.

Essa anuência, entretanto, não necessariamente conduz ao aumento do poder da maioria para influenciar a vida econômica do país e a distribuição dos frutos da atividade econômica, pois a minoria proprietária dispõe tanto de poder econômico, quanto de poder ideológico para influenciar na escolha dos representantes que vão controlar a máquina estatal.

Fica, assim evidenciada a razão pela qual é tão grande a responsabilidade do eleitor na escolha de seus representantes.

A escolha de representantes comprometidos com o projeto da classe proprietária, dificilmente contribuirá para mudanças na área econômica que favoreçam os interesses da maioria da população no sentido da redução das desigualdades existentes na distribuição da renda e da riqueza.

Nas últimas três eleições o povo conseguiu aumentar sua presença no aparelho de Estado, mediante a eleição de governantes comprometidos com o projeto das forças populares, ainda que não na medida necessária para produzir as mudanças requeridas na organização econômica capazes de assegurar o prosseguimento do processo já iniciado de redução das desigualdades sociais.

As expectativas de mudanças da população têm estado à frente da capacidade do governo de atendê-las, culminando com as grandes manifestações de rua ocorridas em junho do ano passado, evidenciando a insatisfação existente contra seus representantes políticos.

Pretendendo voltar ao comando do governo, a minoria proprietária vem mobilizando todos os meios disponíveis para influenciar o eleitorado para afastar do poder seus atuais ocupantes, sob o falso argumento de que tem um projeto para para renovar a política.

A verdade, porém é que a elite econômica não está satisfeita com o avanço das forças populares no comando da vida política do país e concentra seu poder de fogo em questões como a corrupção e desempenho econômico, com o propósito de manipular a maioria da população contra os que defendem o projeto que é de interesse da própria população.

Na realidade, o momento atual é apenas mais a uma etapa da disputa permanente entre os representantes das forças populares, cuja candidata à reeleição é Dilma Rousseff, e os representantes da minoria proprietária, com seus dois representantes Aécio Neves e Marina Silva.

As pesquisas eleitorais estão indicando que o mais provável é uma polarização crescente das intenções de voto em Dilma Rousseff e Marina Silva.

Mantida a distribuição de intenções de voto atualmente existente a disputa iria para o segundo turno, no qual Marina Silva seria vencedora, dado que eleitores de Aécio tenderiam a favorece-la com seus votos.

A hora é propicia, pois, para alertar o eleitorado de Marina, composto em grande medida por segmentos da classe média, sobre a responsabilidade que lhe cabe no que respeita aos rumos futuros da vida política e econômica do país.

Ao elegerem Marina estarão entregando o comando do governo às forças conservadores, que querem retornar ao poder para impedir o aprofundamento das mudanças que os últimos três governos vêm realizando na organização econômica e política da sociedade, voltadas a atender às prioridades da maioria da população.

 A candidata Marina defende em seu programa de governo a redução da intervenção estatal na economia, compreendendo o retorno ao modelo de política econômica baseado no chamado “tripé”, que atribui ao mercado papel fundamental nas decisões econômicas.

Os bancos privados, o capital estrangeiro e a especulação com moeda estrangeira, certamente serão os maiores beneficiários dessa mudança. Os gastos públicos nas áreas sociais deverão sofrer grandes restrições. Estarão seriamente ameaçados o nível de emprego e aumentará a vulnerabilidade no que respeita a uma crise cambial.

A exploração do petróleo do Pre-sal, via contratos de partilha, estará ameaçado e a própria Petrobras poderá encontrar dificuldades para levar a cabo seu ambicioso plano de expansão da produção, bem como o programa de expansão da indústria naval, que depende em grande medida de financiamentos do BNDES e de compras da Petrobras.

Ameaça mais ampla estará contida na entrega do governo do país a uma pessoa reconhecidamente inexperiente em matéria de administração pública e sem uma base partidária suficientemente ampla para assegurar as condições mínimas de governabilidade.

A provável frustação da classe média com o governo de uma presidente inexperiente, sem uma base partidária para lhe dar sustentação no Legislativo e a uma política econômica pro-mercado, poderá dar ensejo a um clima político propicio ao ressurgimento de protestos populares e greves, fatores de instabilidade para as próprias instituições democráticas.

O eleitorado de Marina acha-se, assim, diante de uma escolha de elevado risco para o futuro do país, daí a necessidade de ressaltar o significado da grande responsabilidade que têm tais eleitores, pois estarão contribuindo para reduzir o poder do país para levar adiante uma política de desenvolvimento que tenha em vista mobilizar os recursos do país, na maior medida possível para atender às demandas da maioria da população.

Para tanto, seria indispensável pôr em prática uma política externa o menos dependente possível dos interesses das grandes potências e uma política interna suficientemente autônoma para permitir o aproveitamento do mercado interno frente à competição estrangeira.

Não cabe esquecer, entretanto, que a grande resistência a ser enfrentada pelo projeto popular se dá pelo lado da redução da concentração da renda e da riqueza que deve ser vista muito mais como um meio do que propriamente um fim, por sua importância como fonte de recursos para o financiamento do desenvolvimento futuro do país.

Para encerrar, cabe reiterar que um projeto que fortaleça o poder mercado e defenda a minimização da ação pública aumentará a dependência do país do capital estrangeiro, a concentração da renda e da riqueza nas mãos da classe proprietária e, em consequência, impedirá o aprofundamento da política de melhoria das condições de vida da grande maioria da população. Além disto, pode ter consequências imprevisíveis sobre o avanço das instituições democráticas.

(*) Economista, Cursou doutorado de economia na UNICAMP. Ex-técnico do IPEA

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Respostas a este tópico

Flávio.

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Mais uma vez colocando os pingos nos is deixas claro o que acarretaria a implantação das políticas econômicas propostas pela oposição ao governo Dilma.

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Muitas vezes comentei as tuas postagens para tentar corrigir pequenos erros, li com cuidado esta última e procurei algo para retificar, mas está sintética e impecável, logo desta vez só darei elogios.

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Parabéns.

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Muito grato, Maestri! Um elogio partido de você é muito gratificante. Sua excelente formação política o credencia para falar deste assunto com muita propriedade. Estamos no mesmo campo de luta. Vamos em frente!

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