Opinião Crítica - Sobre Autobiografia do ator Paulo Betti.

Obra político teatral para ser vista e debatida.

Teatro Vivo  - São Paulo

Há algumas décadas (provavelmente três) o ator, autor, protagonista dessa comovente autobiografia, num apartamento qualquer do Baixo Leblon, me perguntava “não é muito complicado manter-se só no palco, sustentando um espetáculo teatral”? Até porque ele, com experiência própria ao lado de dois ou mesmo três intérpretes, tinha passado “um cortado” para segurar tanto tempo em cena. Na verdade nunca soube se ele fazia um elogio (crítica?) a esse modesto “companheiro de jornada”, ou se já estava desde então pensando colocar em prática o que agora se consuma no palco. O primeiro caso é irrelevante, até porque hoje algumas dezenas de milhares de atores abrem as cortinas (ou desembestam a gritar pelas ruas) diante de uma população desinteressada com pouco resultado prático. No segundo caso, não, talvez estejamos diante de algo muito sério que coloca a nu todas as nossas mazelas; sem censura, medo do constrangimento e, sem medo do que possam falar.

Paulo Sergio Betti não faz uma biografia pessoal, nem mesmo de sua geração de atores e tão pouco de artistas brasileiros, mas de um Brasil que está “morrendo” sem que tenhamos a mínima ideia do como estaremos vivendo dentro em breve. “Autobiografia...” é o “retrato” de uma passagem dolorosa, divertida e comovente, de uma Nação rural (ignorante, “Jeca”, bucólica), para um Brasil agitado, multifacetado a infinita potência. Nele, onde se mescla o poderio econômico nas mãos de gigantes corporações, patrimônio que um dia foi publico, a pedidos aflitos de um “Uber” - pelo amor de Deus, e o constante medo de uma “bala perdida”. Essa, por exemplo, foi a minha epopeia em assisti-lo na parte rica da Zona Sul de São Paulo; nas cercanias da Ponte do Morumbi. Voltemos ao Paulo, seus amigos, sua gente e seu tempo.

O rapaz de origem humilde de (Sorocaba), nascido numa “venda” a beira da estrada, como numa cantiga de Tonico e Tinoco. Na infância jogava bola em chão batido, meio a pedregulhos que feriam seus pés rachando ainda mais os calcanhares, e que por contradição disputava com garotos bem nutridos, calçando os modernos Keds, ou Sete Vidas. Nesse vai e vem de tropeços e avanços sociais (refiro-me a Nação) ele foi traçando durante décadas o seu caminho, ao lado de parceiros também pobres, raçudos e no tempo certo se rebelou com eles. Daí forjou-se a figura imponente do rapaz bonito e bem articulado que, na contabilidade a ser checada um dia por Deus ou pelos bichos da mesma espécie, teremos uma palavra final. Todo este contexto está no espetáculo que podemos ver; e esperando ter vida longa.

Se nosso talentoso ator é o próprio protagonista de sua trajetória, tem como antagonista a performance e vida de sua mãe (roceira e analfabeta), nem sabia escrever seu nome. Já o seu pai, sim - sabia ao menos assinar o nome. Encanta e emociona a ele, sempre que é citada, e a todos nós também. E adianto (não é por possível relação edipiana), mas pelo estágio em que vivia o país quando Paulo Sergio veio ao mundo. Adelaide, a mãe, na relação com o filho caçula, tão bem representa este passado. Ela é o “elo” perdido entre a Casa Grande e a Senzala, e o que almejávamos e até (certo ponto) já conseguimos ser; o que agora está sobre ameaça.

Ao longo dos 110 minutos de espetáculo, o palco é povoado por figuras de segunda importância, nem por isso dispensáveis. Destacamos aí seu pai, seus irmãos mais velhos, os amigos que foi costurando ao longo da vida (quase sempre gente marginalizada e maluca). O principal deles, Chiquinho Brandão, com participações que valem registro. Os demais amigos (sob a ótica do Mercado do qual deverá emergir uma nova Nação Brasileira) não valem um tostão furado. O nome deles? Nem é preciso citar, uma vez que são “parceiros” de uma jornada brilhante do protagonista e, quem sabe, num futuro remoto seja inspiração para a “volta do cipó”. Não se iludam - Autobiografia autorizada é um manifesto político; exato para a atualidade.

Mas faltou, sim, algo que qualquer parceiro de sonho e de palco sente, por exemplo, a citação de seus filhos ou das filhas que, sabemos tem sido sua grande paixão, porém, isso pode ficar pra outra experiência cênica. E, por que não, cinematográfica?

Transgressor, esse humilde parceiro de algumas pequenas jornadas: lembra os ensaios no Sergio Cardoso, onde o melhor de sua geração preparava um evento testemunho, por nome “Ato Teatral”? Era tarde da noite e o trabalho corria solto, quando Eliane (a outra mãe), que trouxe para o ensaio uma das filhas (Juliana) que há àquela hora já “desmontava” de sono no seu colo. Prático, objetivo como sempre, surgiu Paulo arrancando de minhas mãos um exemplar do “Jornal da Tarde” e estendeu ao lado de sua cadeira improvisando uma cama, o jornal (lido e relido), onde colocou carinhosamente uma de suas mais preciosas joias - a filha - que continuou seu sono dos anjos. Esse é Paulo Betti que o mundo começa agora conhecer melhor. Vivíamos o março de 1983, enquanto lá fora o país ardia de esperança e luta.

Paulo Betti e Denise Del Vechio - Ato Teatral - 1983

Parte do elenco de Um Ato Teatral - 1983 - Teatro Sergio Cardoso 

Deixando um pouco as lembranças de lado, a encenação não é nenhuma “Brastemp”, se levarmos em conta tudo aquilo que o protagonista conhece e já realizou pelo Teatro Brasileiro, mas nem é relevante nos deter por aí e, sim, ao conteúdo subliminar que pode dentro em breve apontar caminhos para as Artes e a Nação brasileira. Quanto à peça em pauta, não é um “tutorial” de como fazer um Espetáculo Solo porque que a experiência de Paulo Betti é única e representa a vida de muita gente que pulsa e verte sangue, tanto nos acertos como nos erros. Mirem-se nos trabalhos coletivos onde sempre esteve à frente: grupo “Pessoal do Victor”, criação da Cooperativa (numa fria madrugada do dia 12 maio de 1979), na custosa vida dedicada ao “Teatro da Gávea” e, retroativamente, na criação do Instituto de Artes Cênicas - Unicamp.

Reside na última citação, acima, a maior incógnita do nosso tempo envolvendo os artistas do palco. Paulo Betti, Eliane Giardini, Waterloo Gregório, Marcio Tadeu, Marcília Rosário, Reinaldo Santiago, Adilson Barros, e centenas de outros atores, tem em sua origem profissional a EAD. Nitidamente uma escola para formação, em São Paulo, nascida da industrialização que nos atingiu radicalmente a partir da década de 50. Do mesmo ninho, José Renato, Eva Vilma, Francisco Cuoco, Ney Latorraca (entre outras centenas). Em todos os casos é muito fácil identificar a práxis como principal elemento de formação e que, de fato, ajudaram a acompanhar o processo de modernização do Brasil. A pergunta que se faz agora é, por que as gerações seguintes, mesmo tendo a sua disposição uma formação de curso superior não atingiram o mesmo brilho. Teria o academicismo agido com arrogância e que, tragicamente, transformam jovens talentos em professores de arte e educação, empurrando o teatro para um “beco sem saída”? Ou seria quem sabe, todavia, o Teatro e a Nação em obras inacabadas? Gastaram-se milhões de recursos aumentando uma nova classe dominante, perversa e fria. Perto disso a matança do porco lembrado na cena, causando mal estar em quase todos é brincadeira de pião ou “balança caixão”.

A cena que mais se assemelha ao que o personagem destacado na vida nacional, é uma reprodução de Michelangelo. “A Pietà”.

(*) A primeira foto de autor desconhecido, é de uma família roceira, tal como a de PB, da região da Alta Araraquarense. O garoto no colo da mãe (Everaldo) tem a mesma idade de Paulo. Completam a cena: Antenor, Esmeralda (pais) e Cirley (irmã).

Obs: Paulo Sergio Betti mamou até aos setes anos nas tetas de Adelaide; podíamos mamar (alimentar-se no seio da mãe) um pouco mais, não?

Jair Antonio Alves – ator e dramaturgo

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Texto e interpretação: Paulo Betti

Direção: Paulo Betti e Rafael Ponzi

Elenco: Paulo Betti

Cenário: Mana Bernardes

Figurino: Leticia Ponzi

Iluminação: Dani Sanchez e Luiz Paulo Neném

Direção de movimento: Miriam Weitzman

Programação visual: Mana Bernardes

Trilha sonora: Pedro Bernardes

Fotografia: Mauro Khouri

Assistente de direção: Juliana Betti

Assessoria de imprensa: Verbena Comunicação

Direção de produção: Lya Baptista

Produção São Paulo: DR Produções - Darson Ribeiro

Teaser:  https://m.youtube.com/watch?v=OrHFh1hBpaU

 

Serviço

 

Espetáculo: Autobiografia Autorizada

Estreia: 11 de agosto. Sexta, às 21h30

Temporada: de 11 de agosto a 1º de outubro de 2017

Horários: Sexta (21h30), sábado (21h) e domingo (18h)

Duração: 110 minutos. Gênero: Comédia. Classificação: 12 anos.

Ingressos: R$ 50,00 (inteira) e R$ 25,00 (meia)

Bilheteria: terça a quinta (14h às 20h), sexta a domingo (14h até o início das sessões). Aceita todos os cartões de crédito e débito. 

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