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Há quem conclame, enalteça ditaduras, especialmente, entre nós, e ditadura de viés militar, cultuando lembranças só de paixão míope feita, e sustentada por censura generalizada, legitimando toda sorte de truculência manifestamente criminosa. Fazem isto culpando nossa precária, senão apenas simbólica[1] democracia, diga-se, meramente formal, pelos gravíssimos desdobramentos já em delineio.

 

Mais, atribuindo às poucas políticas humanas (confundidas com populistas), e a governos soberanos, desviantes da nova (de 80 anos) ordem mundialmente imposta pelo Império Central, a serviço das grandes corporações, a começar pelas financistas, que progressivamente “acabrestam” a não menos corporação, o Estado-Nação, para apropriar-se da população numa dividocracia. Esclareça-se, Estado este encarnado por estamentos narcisistas, gananciosos, demofóbicos, reptilianos[2], ávidos por sua cota parte no butim desta orgia de privilégio, opulência e conspicuidade.

 

Isso traz consigo, frise-se, a colonização epistemológica e ideológica, em delirante metafísica (perdoem o pleonasmo), ministrada mediante variantes modernas de mito da caverna, como matrix, propaganda (Walter Lippmann, Edward Bernays[3], Joseph Goebbels, ou o tupiniquim cosmopolita, Duda Mendonça, entre muitos outros), para massiva lavagem cerebral cotidiana, enfim, vertente esquizoide, própria dos fascismos, das teocracias de todos os tempos e cepas, travestidas de modernidade.

 

Entretanto, entre nós, atualmente, é mister lembrar e enfatizar fato: nos idos dos anos 60, quem iniciou a guerra/golpe foi a pseudo-elite local, além de pluto-cleptocratas obsessivos, lugar-tenentes dos potentados estrangeiros e estrangeirados, instrumentalizando a miserabilizante americanização radical das forças armadas e da sociedade em geral – pseudo-elite, aquela, que, rigorosamente, mantem esta miséria, há séculos, com seu apartheid economiocossocial, logo, sabotando qualquer competição justa.

 

E podem dizer o que for, porém, pelo Código de Honra das Ruas, quem se vale da força de muitos contra poucos, ou de armados contra desarmados, não passa de covarde, e, pensando em tortura, não passarão de bestas-feras, indignas do superior status do bipedismo despido de penas e capaz de ironia[4], metáfora, temperança, harmônica multiplicidade, características vividas por humanos superiores – aqueles pré-trogloditas são, mesmo, très, très malades, dificilmente dignos – triste dizer, mas... – do milagre da vida!

 

Sim, a tese é impopular, chegando a ser perigoso expô-la[5]! Todavia, o apreço ao argumento pautado em evidência, por extremada civilidade, impõe reconhecer naquele perfil de penumbrosa nuança criminosa (da prevaricação ao homicídio, passando por tortura), no mínimo, um agir covarde, mambembe, sobre coturnos e detrás de fuzis, voltados para dentro das próprias fronteiras – as que deveria defender dos de fora. Acentue-se, mais desgraçadamente, quando supliciando, em masmorras clandestinas, suas vítimas inermes, indefesas, submetidas, dominadas.

 

Tudo, ao fim e ao cabo, para entreguismo com maquilagem de patriotismo, esquecendo sua subserviente utilidade às estratégias da geopolítica do Império Central – v.g., nossa violência passou do “trintoitão” dos anos 60, para as AR-15 dos anos 80, a concentração da riqueza exponencializou-se, a educação degradou-se, a saúde mercantilizou-se, o ir e vir privatizou-se, etc...

 

Geopolítica à qual serve este Estado Policial (polícia, parquet e magistratura, agora também, força de ocupação), com vistas aos nossos(?!) pré-sal, tecnologia nuclear, submarino atômico, recursos hídricos, indústria naval, grandes empresas, inclusive estatais de envergadura mundial, terras, daí a fora.

 

Tudo arrastado para a vala comum da história do projeto de país e de nação que não deu certo, letra morta como as Constituições, as Leis, conforme a conveniência de momento, retalhadas, distorcidas, mesmo fraudadas[6] (em menos de 30 anos 100 emendas à Constituição Cidadã, o golpe contra a cidadania vem de longe!).

 

Projeto sabotado, desde dentro por quintas-colunas, projeto natimorto, pois, idealizado para terra de colonos, dominados, avassalados, espoliados, sem voz, assim, infantilizados, funcionalizados/operacionalizados, reificados – multidão de h*** sacer[7]!!!

 

Foi a grande traição à nascente brasileiridade perpetrada desde 64 que desenhou esse quadro desastroso de nossos dias, afinal, são consequência da intervenção autoritária com todas as distorções naturais a tais quadros.

 

A colonização epistemológica contaminou-nos de morte, a começar pela estrutura do próprio Estado, assim, movido por anões forjados por mãos e cinzeis estrangeiros.

 

Estado que, graças a essa gente deslumbrada com "o Centro", nem de Direito se conseguiu fazer, muito menos Democrático, inviabilizando nossa soberania, nem se fale de dignificação da pessoa humana, ipso facto, despindo qualquer sentido com vistas a um País autodeterminado e civilizado.

 

O covarde e ilegal golpe de antanho foi um câncer que se "metastaseou" no imaginário brasileiro, principalmente em cenários psicossociais autoritários, herdados de nefasta tradição. Tradição, lastimavelmente, inda viva, de perene colônia, com sua força de mortificação (principalmente da possibilidade de independência de pensamento), tal qual trauma, neurose que se perpetua no inconsciente, assim como o cristianismo, mas não só ele, também o positivismo, e as não menos teologistas “doutrinas” de esquerda de fundo marxista ou congênere.

 

As linhas principais dessa herança traumática são: o metropolitismo colonialista perpetuador da mentalidade de vassalos (espírito de escravo, como distingue Nietzsche); o cristianismo (doutrina de escravos) das Inquisições, mesmo "modernizado" nos modelos protestantes, lembre-se, também, afetos a uma tocha humana (ápice dos Autos de Fé) – inda em moda pelo fundamentalismo fanático legitimador dos drones militares, v.g., no Oriente Médio; e o racionalismo do multifacetário idealismo alemão, no qual se inclui o marxismo, rigorosamente meras variações, todos, meios epistemologizantes das ideologias dos fascismos modernos, como os de todos os tempos.

 

Alardeia-se os mequetrefes dos Cabrais, dos Aécios, dos Serras, mas não piam sobre o, de longe, mais escancarado assalto ao público, o perpetrado pela ditadura financista[8].

 

Atuante há décadas, progressivamente, desde os anos 50 anos, e recrudescida a partir de Marcílio Marques Moreira. Nestes quase 30 anos[9], inicialmente, inda disfarçada, sob o manto mitológico dos juros farmacônicos ao trato da fantasmagórica inflação.

 

Hoje, a tirania financista está a um véu de expor sua mera imposição pelo sacrossanto “Mercado” (que se reduz a uma minoria manipuladora composta por meia dúzia de hiper-super-megamaganos internacionais, senhores de um império reptiliano) – é no que dá deixar malandro livre e solto, ele se cria.

 

Quem, pelas bandas de cá, terá aquilo roxo, para impor, impor sim, digamos, quiçá, voltando baionetas jurídico-penais, na forma de um lawfare, porém, “justo lawfare”? Lawfare, onde o partido favorecido seja a cidadania, a pessoa humana, não os inconfessáveis interesses do enclave judicial de agora?

 

Afinal, são os maiores inimigos internos. Este sonhado esforço extremo, um lawfare patriótico, este nosso hipotético Tribunal de Nuremberg, seria para isso a única alternativa séria, haja vista que, por meios políticos tradicionais, não se encontra sensatez, sequer, se consegue a almejada, imprescindível e redentora auditoria da dívida pública, causa desta Derrama[10] da era da pós-verdade, isto é, era do embuste rasgado?

 

Ora, ora, na moral, fala sério! Forças Armadas, nas casernas, nas fronteiras, propugnando por nossa soberania – esse sim, seria um ativismo político digno do Clube Militar – defendendo veementemente nosso herói nacional, o Almirante Othon, apanhado pela força tarefa estadunidense, encrustada e infiltrada em nosso Sistema de Direito Criminal de Exceção – a mais gravosa quinta-coluna já imaginada nestas terras de meu D’us –, como, também, proteger a nós todos de tudo mais que os sabujos golpistas, esses Calabares minúsculos, agora, se empenham em destruir.

 

Algo há com a semântica, talvez, um campo de distorção espaciotemporal a tenha engolfado. O que é deixou de ser, sucedendo-se no não-ser – que diria Parmênides?! –  até Breton e sua turma de gênios do surrealismo se escandalizariam. Que respeito, delirantemente, sim, imaginam merecer?

 

Tristes trópicos! Enxergava o antropólogo.

 

Obrigado a quem me compreendeu, perdão a quem incomodei. Faltou-me intenção de ofender, pois, de modo algum, esta tessitura de ácida crítica é pessoal. Sobrou-me, sim, tão-só, intensão de firmar posição e enfatizar opinião político-filosófica, sempre, com perspectiva histórica, nestes dias, mais que nunca, temperados pelo pasmo e pela indignação.

 

[1] Com urna eletrônica, coeficiente eleitoral, monopólio partidário a elegibilidade, etc..., democracia só no nome, mesmo!

[2] Pois, veja-se:

- narcisistas, embevecidos consigo mesmos, sentindo-se por ungidos face ao simples fato de haverem sido aprovados em concurso mimético-mnemônico, sido eleitos por sufrágio precário, ou pelos nepotismos político-partidários;

- gananciosos, por não menos narcisista convicção meritocrática do “eu mereço!”, “eu estudei para isso, fui ‘concurseiro’, por anos”, cabe-lhe auxílio isso, daquilo, além de ter a dignidade medida em polpudos cifrões;

- demófobos, como se mostra no olhar superior, no trato autoritário, emprestado ao “outro”, justo, integrante deste outro que lhes paga os salários ao qual deveriam servir para muito além do funcional formalismo, como se vê, desde o despotazinho de balcão, até a majestosa presidência, numa ascendente exigência de um beija-mão, na qual o cidadão é o mais reles dos beijadores; e

- reptilianos, por serem movidos por mero apetite, incapazes de olhar original sobre a realidade, autômatos reprodutores cegos (rigores burocráticos) de fórmulas, modelos, sistemas, teorias para os quais não concorreram – hoje, no extremismo do funcionalização/operacionalização, reduzidos a nova subespécie, a do h*** sapiens non-sapiens perifericus wireless.

[3] "A manipulação consciente e inteligente dos hábitos organizados e opiniões das massas é um elemento importante na sociedade democrática. Aqueles que manipulam este mecanismo oculto da sociedade constituem um governo invisível que é o verdadeiro poder do nosso país.” (Edward Bernays em Propaganda). Bizarro conceito de democracia: “pautado em manipulação” ... “mecanismo oculto” ... “governo invisível”! O escárnio vem de longe.

[4] Pense-se com Hesíodo: não somos peixes ou aves, tampouco bestas-feras, pois, somos dotados do logos (palavra).

[5] A impotência da histeria narcisista (fixação no medo existencial fundamental complementado por auto-referência identitária) das massas fascistas, desde a destruição de reputações, passando pelo linchamento público, convola-se em hediondez violenta, cega, modo espasmódico de dominar/controlar/manipular a “ameaçadora” alteridade, quando não destruí-la (“prendo e arrebento”, “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, “não tenho provas, mas tenho convicção”, “eu penso diferente, mas sigo a maioria pela colegialidade”, etc...), no mínimo, concedendo à alteridade o exílio dos ouvidos moucos, ou, ainda, a miséria com seus obscurantistas guetos espiritualistas, gerenciados por espertalhões exploradores da angústia existencial do excluído.

As massas fascistas são hordas perigosíssimas.

[6] A de 88 foi fraudada por constituinte, depois feito Ministro do STF, Nelson Jobim, que sabe D’us o motivo confessou o crime em mídia conservadora, conforme http://memoria.oglobo.globo.com/jornalismo/edicoes-especiais/sem-vo..., e http://memoria.oglobo.globo.com/jornalismo/edicoes-especiais/sem-vo..., fato corroborado por estudo documentado da UnB (http://cic.unb.br/~pedro/trabs/fraudeac.html).

Diga-se, que esta fraude beneficiou os credores contra o povo brasileiro (v. estudo indicado).

[7] H*** sacer, aquele impunemente assassinável e jamais sacrificável, posto que despido de qualquer resquício de dignidade (Agamben) .

[8] E não se limita ao público, pagam-se os maiores juros do mundo no cheque-especial, no empréstimo pessoal e nos cartões de crédito, igualmente há décadas. Terra de agiotagem institucional.

[9] Claro está que FHC foi o grande responsável por alavancar esse novo estratagema, colocando-nos na desastrosa ciranda financista sem fronteiras, além de tarifaços, assunção de dívidas podres nas privatarias, num choque neoliberal de alta tensão. Assim como, antes, nos anos 70, um banqueiro, que não era o Meirelles, outro, um duble de contralto ou de tenor, converteu nossa dívida externa, de por juros pré-fixados, para juros pós-fixados, isto é, rifando-nos ao apetite desse mafioso “Mercado”, esses homens de honra, grupo seletíssimo, embriagados em má-fé para com os demais humanos, esses meros mortais!

Para estas e muitas outras servem as ditaduras: censurar, silenciar e oprimir divergentes, opositores, custe o que custar, para que esses ferozes pluto-clepto-dividocratas satisfaçam seu voraz apetite cifrônico.

[10] Derrama designa a taxação de 20% imposta nos Setecentos, segundo exigência feita a Portugal pelos banqueiros ingleses, protótipos dos atuais donos do mundo, corporações das corporações. 

Para onde vão 50% dos recursos dessa brutal arrecadação estatal? Certamente, não é para saúde, educação, ciência, habitação, infraestrutura, como água, esgoto, mobilidade urbana ou rural! Não, são desviados para pagamento dos juros dessa dívida fraudulentamente constituída, mantida e ampliada! Isto, somado a brutal concentração de riqueza, diga-se, no que somos campeões ou, se não, perdemos por focinho, faz ingovernável qualquer país, eis, as principais causas materiais de nossa guerra civil, político-partidariamente desorientada!

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"... Para onde vão 50% dos recursos dessa brutal arrecadação estatal? Certamente, não é para saúde, educação, ciência, habitação, infraestrutura, como água, esgoto, mobilidade urbana ou rural! Não, são desviados para pagamento dos juros dessa dívida fraudulentamente constituída, mantida e ampliada! ..."

Poucos são os que, atualmente, também focalizam o problema da dívida do setor público enfatizando a gravidade da situação. Essa denúncia é inerente à condição de cidadão.

Sim. E me causa espécie nem os economistas denunciarem esse descalabro em curso há quase 30 anos

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