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Finalmente, tiraram a pedra do caminho e a Editora Record lançou o site oficial de Drummond. Ainda com pouco material, mas com a promessa de melhorias, eis o que diz a matéria de O Globo:

SÃO PAULO, 21-09-09
Um dos maiores poetas e escritores da língua portuguesa, Carlos Drummond de Andrade completa 25 anos no catálogo da Editora Record em 2009. Para homenagear o homem que libertou o verso de suas amarras, mas cujo maior talento era a humildade diante da palavra, a editora acaba de lançar o site oficial do autor Carlos Drummond de Andrade, com informações sobre sua vida e obra.

Com uma ampla obra que transita entre a poesia e o conto, Drummond escreveu incansavelmente até o fim de sua vida. Uma mente tão criativa e produtiva que, mesmo depois de sua morte, ainda foram lançados diversos materiais inéditos de sua autoria. O site traz uma lista completa de livros do autor publicados pela Editora Record, além de fotos e vídeos de Drummond em momentos de cotidiana beleza ou apaixonadas homenagens, feitas por aqueles que admiram sua obra. Atualizado semanalmente, o site contará ainda com poesias, contos e algumas curiosidades, como fotos pessoais e manuscritos, fornecidos por Pedro Drummond, neto do autor.

Outra novidade é a Rádio Drummond, que apresenta alguns de seus principais poemas musicados. Em breve, entrarão no ar também entrevistas e trechos de poesias declamados pelo próprio Drummond. Os leitores podem baixar no site papéis de parede com imagens do autor e participar de promoções quinzenais, nas quais serão premiados com livros do escritor.


Uma das minhas poesias preferidas

Amor e seu tempo

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

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Respostas a este tópico

Fica assim não, Luz.
Olha que "beleza" o que diz o poeta sobre a "beleza".

A beleza ainda me emociona muito. Não só a beleza física, mas a beleza natural. Hoje, com quase oitenta e cinco anos, tenho uma visão da natureza muito mais rica do que eu tinha quando era jovem. Eu reparava mais em certas formas de beleza. Mas, hoje, a natureza, para mim, é um repertório surpreendente de coisas magníficas e coisas belas. Contemplar o vôo do pássaro, contemplar uma pomba ou uma rolinha que pousa na minha janela... Fico estático vendo a maravilha que é aquele bichinho que voou para cima de mim, à procura de comida ou de nem sei o quê. A inter-relação dos seres vivos e a integração dos seres vivos no meio natural, para mim, é uma coisa que considero sublime.
Boa noite, Vera
Maravilha as recordações de infância de Drummond em Itabira. Com que doçura ele nos passa a tranquilidade da vida no interior e a segurança oferecida pela família.
Melhor ainda foi ouvir isso tudo na própria voz de Drummond.
Beijos.
Oi, AnaLú
Que ótima contribuição você trouxe para cá. A poesia "Os mortos de Sobrecasaca" me fez lembra de uma outra que também gosto muito.

RETRATO DE FAMÍLIA

Este retrato de família
Está um tanto empoeirado.
Já não se vê no rosto do pai
Quanto dinheiro ele ganhou.

Nas mãos dos tios não se percebem
As viagens que ambos fizeram.
A avó ficou lisa, amarela,
Sem memórias da monarquia.

Os meninos, como estão mudados.
O rosto de Pedro é tranquilo,
Usou os melhores sonhos.
E João não é mais mentiroso.

O jardim tornou-se fantástico.
As flores são placas cinzentas.
E a areia, sob pés extintos,
É um oceano de névoa.

No semicírculo das cadeiras
Nota-se um certo movimento.
As crianças trocam de lugar,
Mas sem barulho: é um retrato.

Vinte anos é um grande tempo.
Modela qualquer imagem.
Se uma figura vai murchando,
Outra, sorrindo, se propõe.

Esses estranhos assentados,
Meus parentes? Não acredito.
São visitas se divertindo
Numa sala que se abre pouco.

Ficaram traços de família
Perdidos no jeito dos corpos.
Bastante para sugerir
Que um corpo é cheio se surpresas.

A moldura deste retrato
Em vão prende seus personagens.
Estão ali voluntariamente,
Saberiam – se preciso – voar.

Poderiam subtilizar-se
No claro-escuro do salão,
Ir morar no fundo dos móveis
Ou no bolso de velhos coletes.

A casa tem muitas gavetas
E papéis, escadas compridas.
Quem sabe a malícia das coisas,
Quando a matéria se aborrece?

O retrato não me responde,
Ele me fita e se contempla
Nos meus olhos empoeirados.
E no cristal se multiplicam

Os parentes mortos e vivos.
Já não distingo os que se foram
Dos que restaram. Percebo apenas
A estranha idéia de família
viajando através da carne.

A Rosa do Povo, 1945.

Beijos.
Eu tinha ficado na dúvida entre as duas, mas achei que daquela tinha menos chances de alguém mais lembrar... Eu tb adora a anedota búlgara. Acho perfeita...
Bjs
Eu não me lembrava da anedota búlgara e achei ótima.
Drummond sempre me trouxe muita emoção. Uma vez, descobri um poema em que ele citava um sobrenome que era o mesmo de um amigo meu de trabalho. Quando mostrei a ele, foi uma surpresa carregada de emoção. A pessoa citada por Drummond era seu avô. Isso foi em 81, se não me engano. Meu amigo escreveu para o poeta, de quem recebeu belíssima resposta.
Pra você, uma em que ele cita uma passagem por minha terra natal. Também foi um barato quando a descobri, pois a barbearia era do meu tio-avô.
Beijos.


Girassol

Aquele girassol no jardim público de Palmira.
Ias de auto para Juiz de Fora; gasolina acabara;
Havia um salão de barbeiro; um fotógrafo; uma igreja; um menino parado;
Havia também (entre vários) um girassol. A moça passou.
Entre os seios e o girassol tua vontade ficou interdita.

Vontade garota de voar, de amar, de ser feliz, de viajar, de casar, de ter muitos filhos;
Vontade de tirar retrato com aquela moça, de praticar libidinagens, de ser infeliz e rezar;
Muitas vontades; a moça nem desconfiou...
Entrou pela porta da igreja, saiu pela porta dos sonhos.

O girassol, estúpido, continuou a funcionar.
É tao emocionante. Entra na história da gente. Tenho uma prima (longe) que era prima dele. Quando escrevi meu primeiro livro (nao é romance; dissertação de mestrado publicada... rs, rs), ela mandou um exemplar para ele, e ele me mandou um cartao. Fiquei tao feliz!
Oi Helô,

Que beleza, finalmente um site para nosso poeta.
Esta semana foi anunciado que a produção de Drummond de dezenas de caricaturas, rabiscos e figuras, boa parte inédita - está sendo reunida pela família para a publicação de um livro, com lançamento previsto para o ano que vem.
Vai aqui então alguns desenhos do poeta.




Boas notícias você nos traz, Gilberto.
Adorei as caricaturas.
Em retribuição, trago uma belíssima foto de autoria do meu amigo Ricardo Zerrenner.
Beijos.

Síntese da felicidade


Desejo a você

Fruto do mato

Cheiro de jardim

Namoro no portão

Domingo sem chuva

Segunda sem mau humor

Sábado com seu amor

Filme do Carlitos

Chope com amigos

Crônica de Rubem Braga

Viver sem inimigos

Filme antigo na TV

Ter uma pessoa especial

E que ela goste de você

Música de Tom com letra de Chico

Frango caipira em pensão do interior

Ouvir uma palavra amável

Ter uma surpresa agradável

Ver a Banda passar

Noite de lua Cheia

Rever uma velha amizade

Ter fé em Deus

Não Ter que ouvir a palavra não

Nem nunca, nem jamais e adeus.

Rir como criança

Ouvir canto de passarinho

Sarar de resfriado

Escrever um poema de Amor

Que nunca será rasgado

Formar um par ideal

Tomar banho de cachoeira

Pegar um bronzeado legal

Aprender um nova canção

Esperar alguém na estação

Queijo com goiabada

Pôr-do-Sol na roça

Uma festa

Um violão

Uma seresta

Recordar um amor antigo

Ter um ombro sempre amigo

Bater palmas de alegria

Uma tarde amena

Calçar um velho chinelo

Sentar numa velha poltrona

Tocar violão para alguém

Ouvir a chuva no telhado

Vinho branco

Bolero de Ravel

E muito carinho meu.
Ainda que mal



Ainda que mal pergunte,

ainda que mal respondas;

ainda que mal te entenda,

ainda que mal repitas;

ainda que mal insista,

ainda que mal desculpes;

ainda que mal me exprima,

ainda que mal me julgues;

ainda que mal me mostre,

ainda que mal me vejas;

ainda que mal te encare,

ainda que mal te furtes;

ainda que mal te siga,

ainda que mal te voltes;

ainda que mal te ame,

ainda que mal o saibas;

ainda que mal te agarre,

ainda que mal te mates;

ainda assim te pergunto

e me queimando em teu seio,

me salvo e me dano: amor.
Reconhecimento do amor


Amiga, como são desnorteantes os caminhos da amizade.

Apareceste para ser o ombro suave

onde se reclina a inquietação do forte

( ou que forte se pensava ingenuamente ).

Trazias nos olhos pensativos a bruma da renúncia:

não querias a vida plena,

tinhas o prévio desencanto das uniões para toda a vida,

não pedias nada,

não reclamavas teu quinhão de luz.

E deslizavas em ritmo gratuito de ciranda.

Descansei em ti meu feixe de desencontros

e de encontros funestos.

Queria talvez - sem o perceber, juro –

sadicamente massacrar-te

sob o ferro de culpas e vacilações e angústias que doíam

desde a hora do nascimento,

senão desde o instante da concepção em certo mês perdido na História,

ou mais longe, desde aquele momento intemporal

em que os seres são apenas hipóteses não formuladas

no caos universal.

Como nos enganamos fugindo ao amor!

Como o desconhecemos, talvez com receio de enfrentar

sua espada coruscante, seu formidável

poder de penetrar o sangue e nele imprimir

uma orquídea de fogo e lágrimas.

Entretanto, ele chegou de manso e me envolveu

Em doçura e celestes amavios.

Não queimava, não siderava; sorria,

Mal entendi, tonto que fui, esse sorriso,

Feri-me pelas próprias mãos, não pelo amor

Que trazia para mim e que teus dedos confirmavam

Ao se juntarem aos meus, na infantil procura do Outro,

o Outro que eu me supunha, o Outro que te imaginava,

quando – por esperteza do amor – senti que éramos um só.

Amiga, amada, amada amiga, assim o amor

dissolve o mesquinho desejo de existir em face do mundo

Com olhar pervagante e larga ciência das coisas.

Já não defrontamos o mundo: nele nos diluímos,

e a pura essência em que nos transmutamos dispensa

alegorias, circunstâncias, referências temporais,

imaginações oníricas,

o vôo do Pássaro Azul, a aurora boreal,

as chaves de ouro dos sonetos e dos castelos medievos,

todas as imposturas da razão e da experiência,

para existir em si e por si,

à revelia de corpos amantes,

pois já nem somos nós, somos o número perfeito:

UM.

Levou tempo, eu sei, para que o EU renunciasse

à vacuidade de persistir, fixo e solar,

e se confessasse jubilosamente vencido,

até respirar o júbilo maior da integração.

Agora, amada minha para sempre,

nem olhar temos de ver nem ouvidos de captar

a melodia, a paisagem, a transparência da vida,

perdidos que estamos na concha ultramarina de amar
Minha garimpeira querida
Obrigada por tudo.
Uma especial pra você.
Beijos.

A falta de Érico Veríssimo

Falta alguma coisa no Brasil
depois da noite de sexta-feira.
Falta aquele homem no escritório
a tirar da máquina elétrica
o destino dos seres,
a explicação antiga da terra.

Falta uma tristeza de menino bom
caminhando entre adultos
na esperança da justiça
que tarda – como tarda!
a clarear o mundo.

Falta um boné, aquele jeito manso,
aquela ternura contida, óleo
a derramar-se lentamente.
Falta o casal passeando no trigal.

Falta um solo de clarineta.

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