Ontem (11/08/11), o jornal belo-horizontino O Tempo publicou uma carta da família de Antônio da Silva Mello. Tal publicação, que traz uma mescla de manifesto, desabafo e denúncia, foi ignorado pelos jornais locais (de Juiz de Fora) por conta desses “critérios editoriais’ que já foi muito debatido aqui neste espaço – e que não vem ao caso discutir. Pois o escopo traz outro tema caro para todos nós: o descaso com a cultura.

 

Um resumo do caso...

 

O médico e escritor Antônio da Silva Mello, ex-membro da ABL, registrou em testamento que todo o seu acervo cultural (livros, quadros, móveis antigos etc) fosse doado ao município de Juiz de Fora. Isto foi feito. A administração municipal de 1979 providenciou uma casa onde foi exposto o acervo. Mas recente administração (anterior à atual), enquadrando aquilo como “despesa desnecessária”,  ordenou o fim da locação do imóvel. Mas em vez de trabalhar para dar destinação correta para o acervo, distribuiu os objetos em depósitos – sendo que a maior parte foi destinada a uma espécie de “casa de despejos” da prefeitura. Naquele local, muitos móveis de valor, misturados a cacarecos, já estariam em fase de deterioração. O único consolo deve ser creditado à FUNALFA (Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage), órgão cultural da prefeitura municipal de Juiz de Fora, que acolheu parte do acervo doado por Silva Mello. O resto...

 

Antes de qualquer pretensão, é louvável que o administrador público tenha os olhos voltados para o social. Mas isto não quer dizer que a cultura – a “carteira de identidade” de qualquer povo – deva ser considerada como algo supérfluo, ou, que “a cultura não enche barriga nem rende votos”. Pois, ao que parece, esta visão acontece numa cidade de onde saíram figuras como Murilo Mendes, Silva Mello, Pedro Nava, Rubem Fonseca, Rachel Jardim, Affonso Romano Sant’Anna...

 

Enquanto isso, nos próximos dias, Juiz de Fora realizará a 59ª Expofeira, festa em que a prefeitura  contará como “atrações culturais” nomes como Luan Santana, Bruno e Marrone, João Neto e Frederico etc. Os shows muito provavelmente vão estar lotados. Nada contra, claro. É o que o povo quer; e é o que a prefeitura quer dar ao povo.

 

Segue abaixo, na íntegra, a carta da família de Silva Mello:

 

O ACERVO DO PROFESSOR SILVA MELLO

 

Recentemente a imprensa de Juiz de Fora publicou matéria sobre o abandono em que se encontra o acervo do Prof. Antonio da Silva Mello doado por ele, em testamento, à cidade de Juiz de Fora. Sou sobrinho neto do professor Silva Mello e vejo com tristeza se repetir em Juiz de Fora o descaso que no Brasil infelizmente as autoridades dedicam às artes, ciência e cultura em geral. Silva Mello homenageou sua terra natal ao legar-lhe parte de seu patrimônio, mesmo em detrimento de nós, os familiares, mas a cidade, ou melhor, seus administradores, desprezou a homenagem, atirando seus bens em um depósito de inservíveis na periferia da cidade. Fosse o professor Silva Mello um jogador de futebol de penteado exótico e cérebro sonolento, que houvesse feito carreira no Bayern de Munique ou outro time europeu, certamente Juiz de Fora o reverenciaria, talvez até com um monumento em praça pública... Entretanto, Silva Mello optou por dedicar-se à medicina e à ciência, em uma época na qual o Brasil ainda era um país quase selvagem. Estudante de medicina no Rio de Janeiro no início do século XX, preferiu concluir seu curso e aperfeiçoar-se na Alemanha, onde se destacou como médico exemplar e cientista proeminente, tendo sido um dos precursores no estudo das aplicações da radioatividade na medicina. Tornou-se assistente do Instituto do Radium da Universidade de Berlim, depois clínico em hospital na Suíça durante a I guerra mundial. Ainda assim, decidiu voltar ao Brasil e aqui dedicar-se a seus patrícios, praticando a medicina moderna que aprendera da Europa. Pesquisador brilhante e inquieto escreveu cerca de  20 livros sobre antropologia, sociologia, psicologia, medicina e filosofia. Foi eleito membro da academia Brasileira de Letras em 1960 e clinicou até sua morte aos 87 anos. Relembro estes fatos porque temo que boa parte dos leitores nem saibam a quem estou me referindo, tal o desinteresse que a ciência recebe em nosso país. Lembro-me de, em 1979, ter comparecido à cerimônia de inauguração da Casa Silva Mello em Juiz de Fora, iniciativa do saudoso prefeito e amigo, Dr. Mello Reis. Reunimo-nos então, vários familiares, muitos hoje já falecidos, em restaurante conhecido da Av. Rio Branco, para comemorar o reconhecimento de Juiz de Fora a seu filho ilustre. Trinta anos depois, assistimos ao desfecho patético da história que começou no final do século XIX, quando nascia, em família humilde de Juiz de Fora, o garoto Antonio da Silva Mello. Trinta anos depois, o destino de tantos bens e memórias vem a ser o depósito da Prefeitura na Vila Ideal. A ruína só não foi completa graças à ação da FUNALFA que resgatou parte do acervo e o abrigou em suas dependências, que se não apresentam condições ideais, pelo menos conferem alguma proteção ao patrimônio, até que alguma solução adequada venha a ser adotada, se é que um dia será! Soube, através de um amigo juiz-forano, que entre as peças do acervo, encontram-se duas telas* retratando a rainha D. Maria II de Portugal, irmã do imperador Pedro II, que oferecidas ao Museu Mariano Procópio, foram recusadas por razões que só o administrador do museu pode saber... Seria bom se nos indignássemos com este abandono, mas infelizmente parece que já não temos mais força para gerar esta revolta interior, tamanha a freqüência com a qual se manifesta o desrespeito de nossas autoridades para com o patrimônio público e com a população em geral.
Como membro da família Silva Mello, sinto-me no dever de manifestar à sociedade de Juiz de Fora nosso desapontamento por este descaso e desrespeito à memória do ilustre filho dessa terra. Convoco as lideranças da cidade e a sociedade civil em geral a exigirem dos governantes o correto acolhimento dos bens doados à cidade, ou então a desistência de abrigá-los, transferindo o legado a outra cidade, quem sabe Guarapari, no Espírito Santo, onde Silva Mello, grande responsável pela descoberta das virtudes curativas do balneário, dá nome a uma das principais ruas da cidade, ou mesmo o Rio de Janeiro,  que o homenageia dando seu nome ao largo próximo a casa onde viveu no Cosme Velho.

 

Belo Horizonte, 25 de julho de 2011

Eduardo Mello da Costa Cruz

 

*Obs. Clique AQUI para conhecer uma das telas recusadas pelo Museu Mariano Procópio.

 

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Respostas a este tópico

ô, michel, se a ana (a de hollanda) lesse isto, hein?

e este não é um caso único, né?

outro dia lia algo sobre o desinteresse em manter, no Brasil, o acervo de augusto boal.

pode isto, pode?

quanta coisa prá consertar neste mundinhodedeus, hein?

 

Pois é, Luz... Não é um caso único; é um sintoma da situação da cultura no nosso Brasilzão...  

 

Quanto ao caso, agora vi que há uma reportagem sobre o caso na TVE.

 

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