Viva e deixe viver!

A questão da liberação da maconha cumpre ser racionalmente considerada. Para tanto, parece suficiente, sem preocupações detalhistas, da exata precisão dos dados, cotizar aspectos conflitantes de onde é liberada e de onde, como aqui, é criminalizada.

Se lá, p. ex., EUA é legalizada, os distribuidores são fiscal e mercantilmente regularizados, a venda restringe-se a maiores de 21 anos e a no máximo 28 gramas, as lojas são controladas e taxadas, o cultivo tem qualidade, também controlada e é livre de contaminantes, sendo apresentada em embalagens descrevendo a potência e os princípios ativos, e os recursos dos impostos aplicados na prevenção e em escolas.

Aqui, a pessoa precisa relacionar-se com criminosos dos dois lados, é acessível a qualquer pessoa de qualquer idade e na quantidade que quiser, encontrando-se em todo lugar, ordinariamente prensada, contaminada com fungos, amônia e outros tóxicos, fora de controle e seu comércio financia o crime organizado.

Com efeito, não se propõe que todos fumem maconha, apenas que se preserve o DIREITO DE ESCOLHA, inerente à LIBERDADE, CONTRA A INTERVENÇÃO NA ESFERA DA PRIVACIDADE ALHEIA, que se dá, principalmente:

1º) por puro MEDO DE SI, pois, DROGA NÃO TRAZ CONDUTA OU MENSAGEM, a droga libera, desde nossa sensibilidade ampla até, quiçá, o lado oculto de nós mesmos em processo de autoconhecimento (isto esvaziará, sobremaneira, os divãs dos falsos gurus paliativos, e as vendas de neurolépticos de vários matizes, espiritualmente improdutivos, no mais das vezes, meramente, enquadradores), autoconhecimento de um “eu” ocultado pelo recalque de nossos afetos reais, de nossas pulsões, de nossa verdade, recalque através de procedimentos feitos de memória e repetição, assim, autoritariamente incutidos a disciplinar e controlar nossas vidas;

2º) por MEDO DO “SI” DOS OUTROS, manifesto na alteridade de padrões vibratórios de consciência (comum nos medos pelos estrangeiros, pelas outras culturas, pelo povo, povão mesmo, a chamada demofobia, ou por práticas locais, porém doutrem, como se dá, p.ex., com quem teme macumba, praga, etc..., ou seja, pela perda de controle do meio em que vive);

3º) por MEDO DE EXPOR-SE A SI PRÓPRIO e aos outros, também, isto é, desnudando seu perfil infantil, sua sanha sexual, seu mal-comportamentismo nato, tão hipócrita, autoritária e truculentamente reprimido;

4º) por MEDO DE PERDER O MANÁ DA REALIZAÇÃO DE SUAS PULSÕES POR POSSES E DOMINAÇÃO, inerentes a todos que vivem e se locupletam da proibição, os traficantes de drogas, mesmas, do aviãozinho ao atacadista internacional, os traficantes de armas, os traficantes de influência, os corruptos, os aparatos médico-psicoterapêuticos e industrial-farmacológicos, os estamentos estatais, inda, mas indiretamente, os sacerdotes religiosos, cujo poder, em tanto depende do misticismo, a o que a droga pode concorrer para libertar, abrindo a luzes a percepção psico-sensorial obscurecida pela ignorância, nas suas variadas formas; todos esses têm motivos íntimos demasiado convincentes a mantê-los na posição empedernida de prepotentemente apropriar-se dos corações, mentes e corpos a benefício próprio;

5º) por DESCASO COM A VIOLÊNCIA DA ALTERIDADE, com a criminalidade deflagrada pelo preço elevado pela proibição, nas extorsões, prostituição, estupros, roubos, furtos, desvios de todo o gênero, em progressão ao homicídio e à organização criminosa – frise-se, desde que os agentes e as vítimas sejam os vizinhos que hão de procurar pelos seus em cárceres, necrotérios, e submeter-se a revista íntima, mas o outro!

Numa sociedade de tradição e formação judeu-cristã, com o viés das demasias criminosas dos abstracionismos do pensamento idealista pitagórico-platônico-aristotélico, portanto, tradição aversa ao mundo sensível, das paixões, deslocada para aqueles sistemas de verdades do outro mundo (até a matemática o é!), de procedimentos pré-ordenados e avalizados por essas mesmas verdades, onde, a vida reduz-se a um “script”, exatamente, a um papel teatral, pré-escrito, sem lugar para improvisos, isto é, expressões de espontaneidade, de ímpetos, ordinariamente heterodoxos, quando, entretanto, a hortodoxia perdeu seu argumento de autoridade absoluta, apenas, persistindo para os crentes nos respectivos fundamentos.

Acontece que a vida real, A VIDA-VIVA SUPEROU COM FATOS O ABSURDO ínsito á estreiteza dos padrões vibratórios de consciência e corpo, impostos pelo preconceito espiritualmente miserabilizador da existência humana. Isto se deu, nos últimos trezentos anos, especialmente e não necessariamente nessa ordem, em razão do consumo em larga escala de drogas ilícitas[1], logo, clandestinamente, como também da liberação sexual de todas as formas, e especialmente pela proliferação de idéias independentes (libertárias, democráticas, socialistas/comunistas, até anarquistas), decorrentes da luta contra o capricho dos príncipes, o absolutismo dos reis, a traição da alta burguesia e seus asseclas.

O mal dessas ideologias que estreitam, restringem, empobrecem, impedem a expansão da consciência, o aprimoramento do espírito, a compreensão da vida por cada um segundo, seus próprios sentimentos sobre o mundo, em percepção/compreensão autênticos, faz-se pela IMPOSIÇÃO DESPÓTICA DE MENTALIDADES E COMPORTAMENTOS, ao fim e ao cabo, úteis a grupos estrategicamente distribuídos na estrutura de poder Estado-sociedade, que os explora (não se fala da recíproca co-laboração econômico-social inerente à vida humana, mas das maquinarias organizadas à multiplicação exponencial das vantagens), grupos de sacerdotes, religiosos ou racionalistas (burocracia, aparato técnicocientífico-acadêmico), institucionalizados de todas as formas, da seita filosófico-religiosa, até as corporações, passando obviamente pelo Estado, garantida a verticalização das relações intersubjetivas.

Enfim, trata-se da apropriação das energias vitais para o uso lucrativo, inda que na inflação do vaidoso ego ou apaziguador do medroso ego, na pura sanha por dominação, num fluxo, destacadamente, concentrador da riqueza patrimonial e empobrecedor ao ponto da escravização, espiritual e corporal, sem correntes ou pelourinhos, tal qual assistimos na “Servidão Moderna”, mesmo como nova pseudo-classe média.

 

Fala-se em caos como mal, fruto da falta de ordem, mas nem o caos é despido de ordem, impermanente, mas ordem, como o mal é, sim, a despontencialização decorrente, especialmente, da supressão da realidade marcada por “panta rei”, isto é, do movimentar e da mudança incessantes;  é preciso permitir fluir no ex-sistente, princípio, além de realista e adequado a potencializar, que celebra a vida-viva, esse milagre da matéria/energia.

Portanto, de coração aberto e de espirito elevado, o que causa o caos?! o que cria um mundo monstruoso?! o que diminui o ser humano?! honestamente, o que?!

Saudações libertárias e por futuras boas viagens sem sombra repressora.

PS.: Cumpre salientar não se tratar de juízos voltados às pessoas, desde usuários, criminosos ou autoridades de qualquer cepa, mas de considerações cruentas, sim, mas adstritas às mentalidades e práticas, com suas respectivas implicações políticas, estratégico-existenciais.

 



[1] Há notícia de Descartes ser um fumador de canabis, conforme “Descartes e a Maconha: por que partir para a Holanda?”, de Frédéric Pagès

Exibições: 167

Responder esta

Respostas a este tópico

Sabe de uma coisa, nao e tao simples assim. Em Vancouver, depois que a maconha foi liberada para uso medico, voce nao anda na rua sem sentir cheiro de maconha o tempo todo. Se entra numa conducao e a mocada esta cheirando a maconha. Para quem nao gosta de fumar, isso e terrivel. A parte tem o problema de esta na conducao e os espiritos que estao com o maconheiro, esta a sua volta. E, mane, nao e tao simples assim.

Que fumem o que quiserem, mas nao em publico.

É, caro mané, na falta de argumentos racionais, restarão os estéticos e, ao final, no melhor estilo tirânico, os caprichos de cada idiota, isto, se  à idiossincrasia coubesse  pautar a vida pública.

RSS

Publicidade

© 2019   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço