Prezados,

Em novembro, em meio a debates, o colega prof. Rogério Maestri fez um comentário em meu post “Morgan Freeman: como combater o racismoem 40 segundos?” - http://blogln.ning.com/forum/topics/morgan-freeman-em-40-segundos-c... - que merece maior reflexão a todos que se preocupam com o combate ao racismo e que precisam conhecer melhor a história da humanidade, especialmente, além do eurocentrismo que se estabeleceu como nossa cultura dominante, conforme Sérgio Buarque atesta em ´Raízes do Brasil´ e acabou dando substância às teses racistas dos séculos 19 e 20.

Essa história milenar que além de berço foi também protagonista da evolução humana, precisa ser traduzida e ensinada a todas as crianças e, diz MAESTRI, não pode ser apenas a história escravocrata nem da dominação europeia a partir conferência de Berlin (1884)

Eis o que diz Rogério Maestri em 22 novembro 2012 at 15:41

(respondendo a Antonio Orlando):

Antonio

Podemos até convergir em determinados assuntos, com algumas diferenças é claro. Não sei se leste o que escrevi sobre o ensino da história da África, mas se não leste vamos ao ponto.

Acho que o ensino da história da África é importante não para os afro-descendentes (neste caso o termo afro-descendente cai como uma luva), mas sim para todos os brasileiros sem distinção de origem. Porém acho que esta história não deve ser centrada na dominação européia nem na escravidão, por um simples motivo, a história da África é multimilenar, e focarmos o estudo das civilizações africanas neste dois aspectos é continuar colocando o Europeu como o protagonista principal.

Considero a miscigenação não como um assunto sociológico, mas sim um assunto de fórum íntimo, pois esquecem que a base da miscigenação nos dias de hoje é a atração entre homens e mulheres que querem ter o direito de ter como parceiro(a) aquele que lhe convém. E qualquer teorização sobre isto com intervenção, contra ou a favor, interfere num direito fundamental de qualquer um, a escolha de seu parceiro(a).

Quanto a livros como "Não somos racistas" felizmente (por relatos que escuto de outros) não tive a oportunidade de ler (e não farei com que esta oportunidade surja).

Mas voltando a que interessa é a verdadeira história da África, comprei um dos volumes da História Geral da África, são 7 volumes que retrata a história africana desde a pré-história até 1935 e na apresentação da Unesco (orgão que patrocinou este trabalho) eles dizem claro e em bom tom, que uma das origens da disminação e do racismo é a ignorância do que foi a história de África.
http://www.unesco.org/new/en/culture/themes/dialogue/general-and-re...

Por exemplo algo que o movimento negro no Brasil deveria fazer é incentivar, via o governo federal, a tradução desta obra, isto sim começaria a eliminar o eurocentrismo da nossa história.

Temos que levar em conta que o movimento escravocrata atingiu só parte da África, e que os europeus só conseguiram penetrar naquele continente depois da Grande Peste Bovina que simplesmente desorganizou todas as fortes sociedades pastoris que existiam naquele continente.

Inclusive, falando em peste bovina, vejo que é um assunto pouco conhecido por todos, historiadores tradicionais ou mesmo os marxistas. Esta peste (Rinderpest ou Cattle Plague) entrou via introdução de gado europeu na África dizimou em torno de 80% a 90% de todo o rebanho bovino africano, e povos que tinham possibilidade de resistir a invasão européia (Massais, por exemplo) estavam simplesmente reduzidos a nada.

Falo neste evento, que é pouco comentado pelos historiadores de formação européia, pois estes falam que só foi possível a colonização da África depois da chamada Conferência de Berlim (1884) que coincidentemente ocorre na mesma época (1889) em que esta peste se propaga pela África indo do chifre da África até a África do Sul em dois anos.

Há inclusive um texto, que infelizmente não tive acesso de forma integral que tem um título bem instigante "RINDERPEST IN THE SUDAN 1888-1890: THE MYSTERY OF THE MISSING PANZOOTIC".

Em resumo, fatos como este não são conhecidos no Brasil, e ficam todos pensando que os africanos eram povos atrasados e que os europeus é que levaram a "cultura e a civilização moderna"!

Poderia continuar no assunto, mas no momento não tenho tempo.

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Respostas a este tópico

Acho que para haver mais clareza, seria necessário colocar minha resposta ao Maestri. Isto é, ao que que o Maestri está replicando?

Abs.

Caro Antonio.

Felizmente escrevo em Português, logo não preciso de intérpretes, logo vou repetir o que procureis destacar no conjunto de intervenções que fiz.

Primeiro: Que devemos antes de tudo trabalhar a auto-estima das crianças que sofrem discriminação.

Segundo: Que uma das formas de aumentar a auto-estima dessas crianças e jovens em geral é mostrar a verdadeira história da África.

Terceiro: Que basear a história da África somente dando ênfase a escravidão (que existiu e existe ainda em outros continentes que não a África), é simplesmente transformar os africanos não como senhores da sua história (coisa que os Europeus principalmente gostam de fazer), mas sim coadjuvante dos povos do norte, ora como vítimas da sua crueldade (como no tempo da escravidão) e ora como objetos da sua caridade e compreensão (como no atual tempo do colonialismo moderno)

E além disto acrescentaria mais:

Uma visão de uma África que produz cultura e TECNOLOGIA nas suas mais diversas formas, é mostrar a potencialidade de um continente que é diferente dos outros não por motivos raciais ou étnicos, mas sim pela sistemática e recente intervenção daqueles que se dizem os civilizados.

Estava inclusive preparando um texto sobre a metalurgia na África, que baseado em trabalhos sérios e técnicos, mostram que o desenvolvimento da metalurgia do Ferro e do Aço foi autóclone e o mais interessante, o primeiro continente a produzir Aço foi exatamente a África!

É este tipo de história que devia ser agregada à história dos maus momentos que viveram e vivem algumas partes do continente africano.

Vitimizar um continente e dar a impressão que o mesmo sempre foi simplesmente um depósito de povos a disposição de se tornar escravos, talvez sirva para diversos propósitos, mas nesta lista de propósitos não está uma perceptiva liberaria do povo africano e de seus descendentes.

Talvez devamos dar ênfase na história da escravidão no Brasil, não no escravo que era um mero trabalhador braçal, mas sim nos milhões de artífices que simplesmente eram a grande maioria dos "operários especializados da época", enquanto os portugueses eram mais burocratas que em grande parte não produziam nada de real para o progresso do país. Nesta linha entendemos o porque no fim do Império surgem os engenheiros Rebouças, que os cariocas conhecem o túnel, mas talvez não conheçam as suas biografias.

Todos falam da revolta da chibata, em que o grande "almirante negro", Antônio Cândido brilhou como poucos heróis podem brilhar, porém poucos se dão conta do porque que os "marinheiros negros" eram maioria na marinha brasileira. Ninguém se dá conta que enquanto na Marinha Norte Americana enquanto os "negros" só podiam ser cozinheiros, na marinha brasileira eles conseguiam manobrar e operar vasos de guerra modernos para a época sem a presença da oficialidade.

Este fato é interessante, sempre se começa a história da revolta da chibata pela metade dela, ou seja, o Brasil havia comprado navios modernos e para operá-los utilizavam segundo a historiografia da época "negros e mulatos". Bem o que significa isto, é que em 1910 na Marinha Brasileira haviam artilheiros, operadores de telégrafo, mecânicos e todas as categorias necessárias para operar máquinas de guerras novas e modernas "negros e mulatos".

Temos uma tradição de glorificar o malandro, o capoeira e outras atividades menos técnicas do que chamar a atenção dos que realmente operavam a produção no Brasil.

Falas tanto na ideologia do branqueamento do povo brasileiro através da imigração como uma ideologia racista com objetivos lá não muito claros, mas na realidade esta ideologia foi mais uma clara necessidade de diminuir a dependência dos "brancos oligarcas" da época do trabalho ESPECIALIZADO daqueles que muitos acham que não possuíam cultura.

Caro Antônio, se saíres dos esteriótipos que montaste na tua cabeça, e começares a pensar no porque de vários acontecimentos talvez comece vislumbrar que a luta contra uma historiografia Eurocêntrica, tanto para interpretar a história africana como a brasileira, terá surpresas agradáveis.

Bom dia Maestri!

Não sou africano. Nesse sentido, conhecer a história da África, essencial para todos, é tão relevante quanto saber da história geral da Europa ou Oriente Médio. Isto é, minha formação é ocidental/judaico cristão. Do mesmo modo, a comunidade oriental do Brasil não deve dar um peso exagerado para a história do Japão ou China. 

Minha identidade ou negritude é transcontinental. E, sobretudo, se [negritude] congrega e coaduna com a negritude de todos os negros do planeta. Sendo assim, a África, seria  o berço mãe de todas as negritudes. O negro, fora da África, com efeito, se descontrói e se reinventa em sua negritude e, sem pudores, apodera-se de todas as negritudes do mundo. Por conta disso, o Jazz, o Samba, o Blues, o Reggae, grosso modo, a música de Cuba/Caribe são produtos da negritude/negro transcontinental/global. Enfim, é tudo minha música ou a múisica de todos os negros de todos os lugares e países.

Minha negritude é prolixa – se difunde e, não raro, se origina de todas as negritudes. Minha negritude não é brasileira ou africana ou americana, na realidade, minha negritude é apátrida. Ela existe e subsiste, na pele escura e, sobretudo, na cultura negra [re]inventada por todos os negros desse mundão de meu Deus.

 

Abs.

Caro Antônio.

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Talvez não consigas entender o que escrevo porque não queiras. Sempre escrevo sobre a importância do conhecimento da História Africana da mesma forma que deveríamos conhecer a história Latino-Americana, Asiática e até por mais incrível que pareça a História da América do Norte. Não falo da história atual, mas sim da história do desenvolvimento de todos estes povos desde a sua pré-história até os dias atuais.

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Colocas com muita ênfase a formação judaico-cristã, desta forma estás excluindo de nossas origens toda a influência árabe que ajudou a construir Portugal e também legou através de 10 séculos muitas características.

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Esqueces também da influência dos negros muçulmanos no Brasil, que foram grandes protagonistas de grandes revoltas escravas contra o domínio português e posterior domínio da repressão da época do império.

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Também podemos excluir destas tradições judaicos-cristãs toda a tradição animinista das religiões afros, estas sim que foram perseguidas oficialmente durante todo o período da escravidão, no fim do império e nos primeiros anos da república, E hoje em dia continuam sendo perseguidas de uma forma cruel pela ignorância dos das seitas pentecostais que associam as divindades afros a demônios e outras mentiras.

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A cada vez que leio o que escreves a minha impressão é que contrariamente o que falas estás cada vez mais negando o que chamas a "tua negritude". Esta tua ânsia de não dar importância da África na cultura universal, e cada vez mais citar os "afros-descendentes" norte americanos, estes sim praticamente desenraizados e colonizados culturalmente na sua maioria pelas tradições judaico-cristãs lhe restando somente alguns caracteres culturais, como a música que cita acima.

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Caro Antônio, tu não precisa negar parte de uma cultura enraizada no povo brasileiro para firmar tuas convicções políticas-religiosas, talvez a tua formação tenha te afastado dessas raízes, restando somente o aspecto "cor de pele" para diferenciar-te dos demais brasileiros, mas isto não é um problema, cada um tem a sua formação, as suas influências e a sua história, mas a história de um país é única.

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Vou dizer mais, esta ênfase que se dá a influência africana na música, na música, na música e na música, é uma forma até de reduzir a influência do povo africano na construção da nossa civilização. Dizer inclusive que uma nova cultura está sendo reinventada através de uma manifestação cultural que hoje em dia não é privilégio de cores ou matizes é forçar muito. Posso até dizer que esta redução da influência dos africanos, que foi ampla em todas as artes e ofícios, é um produto isto sim de uma maneira que as oligarquias do fim do império e início da república, procuraram impingir a nossa historiografia. Tirando da memória do povo brasileiro o fato de quem construiu este país desde o trabalho braçal mais primário ao artesanato mais sofisticado foram os escravos ou os libertos, neste ponto não temos distinção entre os "pretos ou mulatos", que conforme os humores oligárquicos eram definidos de uma ou de outra forma.

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Também vou fazer uma observação que talvez fira a sensibilidade de nossos descendentes da colonização italiana (como eu), alemã,  japonesa e outras. Grandes partes desses emigrantes foram trazidas para ser a nova "escravidão" das oligarquias brasileiras, uma escravidão assalariada mas escravidão. Se leres relatos da reação na Europa logo após a vinda dos primeiros imigrantes alemães e italianos, verás que diferentemente da imigração que houve nos Estados Unidos, foram trazidos para cá em sua maioria camponeses na sua maioria analfabetos (principalmente os italianos) para substituir a mão de obra escrava não só nos campos como também em atividades fabris.

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Meu caro Antônio, não podemos reduzir a história a palavras de ordem, este reducionismo leva a estereótipos que não constroem nada.

Antônio (continuação)

Muitas pessoas recriminam Machado de Assis pelo mesmo teoricamente não teria adotado uma literatura ligada as suas origens, mas todos esquecem de um pequeno detalhe que passa despercebido, quantos personagens "brancos" produzem alguma coisa de útil em suas histórias!

Notaste este pequeno detalhe?

Antonio Orlando,

O Maestri não está propondo que sejamos africanistas, nem adepto de nenhum sentimento de negritude, nem eurocêntricos, mas sejamos todos, humanos também conhecedores da história da humanidade que também inclui a história da África pré-escravidão e pré-ocupação.

O que compreendo na tese do MAESTRI ele não se refere a nós afro-descendentes, mas se refere a todos os humanos do ocidente~. "Acho que o ensino da história da África é importante não para os afro-descendentes (neste caso o termo afro-descendente cai como uma luva), mas sim para todos os brasileiros sem distinção de origem."

A justificativa ou objetivo é mitigar o eurocentrismo que por sua exclusividade de conhecimento, aliada à história de conquistas, escravatura e ocupação conjuntamente com a construção da ideologia de ´raças´, inexsitente até o século 16, acabou reforçando a idéia de uma superioridade que vem a ser o próprio racismo opressor. Essa história viola a dignidade humana das crianças e jovens pretos e pardos o que resulta em baixa-estima.

A questão é que o eurocentrismo reforça a idéia da hierarquia racial. E, para o combate ao racismo - o mal maior -, se nos impõe, onde haja a diáspora africana, o ensino dessa África que desconhecemos.

Evidente que é um empreendimento de longa maturação que somente produzirá efeitos em duas, três gerações: a história da humanidade é igualmente africana, como é européia, americana e asiática.

Hoje, a grosso modo o que aprendemos é a pré-história, a antiguidade, o império romano, a idade média e a modernidade, sempre com base na civilização européia a partir da Grécia.

abraço,

Militão.

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Acho que o Antônio resiste ao conhecimento da história que escape do Eurocentrismo, vejo até uma determinada resistência do mesmo em aceitar influências culturais mais amplas no Brasil do que escape da influência Européia.

Saber da capacidade tecnológica da antiguidade que escape do eixo Europa-Estados Unidos lhe deixa meio irritado. Acima falei da metalurgia na África, mas talvez se falasse de aspectos de evolução cultural no continente asiático, talvez também o deixe irritado.

Posso supor que isto seja uma forma de traçar como único exemplo a ser seguido por todos seja de uma cultura judaico-cristã, baseada inclusive em princípios religiosos.

Falar e historiografia não eurocentrista, dará ênfase a cultura asiática e africana, com suas religiões e tradições, e talvez isto incomode muitos.

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