O crime no criminoso. Ou como o vulgo aprendeu a julgar. Ou ainda, como Mersault foi clarividente.

Das piores experiências que há é esperar horas em consultório médico. Se o consultório for de ginecologista ou obstetra e tiver a sala de espera pequena, é pior. Não é apenas que haja muitas mulheres reunidas em pouco espaço e entregues à monomania da gestação, há mais.

Circunstancialmente, nestas plagas, as pessoas, todas elas quase, são dadas a falarem muito alto, o que me incomoda profundamente, mesmo sendo parcialmente surdo. Ao telefone, berram como se falassem a quilômetros de distância; a qualquer pretexto, falam como a convidarem os presentes, avidamente, para entabular conversa. Para quem está geralmente bem consigo em silêncio, é desafiador.

Mas, o pior constrói-se em camadas – como a personalidade do criminoso – e temos então a televisão, presente em todas as salas de espera, assim como as revistas de fotografias de atores de novelas e membros de realezas supranacionais. A televisão, esta sim é pior que a monomania que une os presentes numa sala de espera.

Há poucos dias, vi-me numa tal situação. Havia duas senhoras que gritavam no seu tom normal de comunicar-se e havia televisão, claro. Era já pelo meio-dia e começava o jornal televisivo das bobagens diárias, que se resumem a crimes, os mais aberrantes possíveis.

A TV noticiava com o escândalo de praxe mais um crime. Uma mulher namorava com seu amante, enquanto o esposo estava fora de casa. Eis que o filho de oito ou dez anos chega em casa e surpreende a traição da mãe. O erro do menino foi ter idade para compreender o fato e isso fechou sua sorte. Para evitar que o menino contasse ao pai, a melhor idéia que a mãe teve foi pedir ao amante que matasse o filho e assim o fulano fez.

Matou o menino e escondeu o corpo, não me lembro mais se enterrou ou pôs num saco, mas isso não importa. Eis o previsível escândalo, pois estava presente o pesar desproporcional de valores e objetivos que leva à comoção. Realmente, no elenco de crimes aptos a comoverem, o infanticídio encontra-se em posição privilegiada, quanto mais se por motivos fúteis.

A mãe e o amante, autores intelectual e material do crime, foram presos, expostos à habitual degradação pública, colocados em pé, lado a lado, enquanto um delegado com pendores artísticos dava entrevista com tudo que não importa ao deslinde de um crime, a expor tudo quanto juridicamente não é relevante. Mas, sabemos que os julgamentos são muito pouco jurídicos…

Nesse ponto, a senhora que falava aos gritos exaltou-se e, aos gritos, claro, começou a verbalizar o que o vulgo foi ensinado a pensar. Dizia, repetindo-se sempre, que o pior de tudo era a frieza da mulher, a secura dela, que não tinha vertido uma mísera lágrima enquanto confessava o crime. E repetia, e repetia, insistindo nisso de frieza e da ausência de lágrimas.

Primeiro, algo deve ser reposto ao seu lugar. Não me interesso por essas coisas como dramas, que são muito comuns. Sob este prisma, não me interessam, por falta de originalidade, por falta de apelo estético. Acontece que me detive a ver a TV e a fazer esforço para compreender o que a TV dizia. Primeiro, a mãe não confessava o crime, absolutamente, antes o negava. Segundo, ela sim chorava.

Isso pouco importa, sabemos, mas foi só um parêntesis. Também pouco importa, felizmente, o que se confessa na polícia, no Brasil, porque depois de uma surra o sujeito diz até ter roubado peças da Apollo 13.

O caso é que a senhora dos berros era todos em forma potenciada. Todos – ou quase todos, para sermos precisos, não indulgentes – criam o criminoso a partir de camadas de comportamentos, o que faz dele o crime. Paradoxalmente, a figura do criminoso, composta a partir de lugares-comuns moralizantes que em rigor nada significam, torna-se autônoma e ao mesmo tempo superposta e identificada ao crime em si.

Havendo uma figura criminosa não poderia ter deixado de haver crime, portanto. Eis a petição de príncipio que funda tudo nos julgamentos a partir de comoção moralizante do vulgo.

Quem olhe a coisa com mais calma sabe que o criminoso falar de um crime com frieza e sem lágrimas muda nada no resultado do crime. Na verdade, do ponto de vista estritamente jurídico, muda nada, tanto no crime, quanto na forma de apreciá-lo para o punir. O que o vulgo começa a colecionar em desimportâncias que o emocionam não constitui agravante nem atenuante do crime e não define absolutamente o tipo e a pena.

Aqui convém dizer que o vulgo a que me refiro não exclui os especialistas que tratarão do crime, aí incluídos polícias, promotores, juízes e advogados. Todos cabem muito confortavelmente no amplo e nunca bem entendido conceito de massa. Ela está sempre em busca de criminosos e quase sempre muito à vontade para deixar o crime em posição secundária.

A construção do criminoso, do sujeito anormal, é algo que lembra Foucault e é dele mesmo que me lembro agora e digo que não se trata de Vigiar e Punir, mas de outra obra, cujo nome não me vem à cabeça agora. O criminoso, nestes casos mais escandalosos a envolverem principalmente parentesco e motivos fúteis, é construído à parte do crime em si, por sucessivas deposições de aspectos de comportamento que isoladamente e até então nada significavam.

Depois de reunidos eles continuam a dizer nada, mas a obra que é a reunião desses comportamentos ganha vida própria, é a forma a tornar-se matéria. Um libelo clássico – seja ele dito em tribunal, na imprensa ou em conversas comuns – compõe-se da memória de que o criminosos maltratava animais na meninice; na juventude era retraído e calado e faltava às missas; nas primícias da idade adulta apresentava sexualidade desviante do número maior; já adulto comia só à mesa e gastava dinheiro demais. Assim, a coleção pode seguir com inúmeras circunstâncias desprovidas de significação para o que se quer dizer.

Essa construção sedimentar pode apontar para a psicopatia, realmente, mas não conduzirá a ela como se se fizesse ciência. Levará à montagem do criminoso, a figura que antecede necessariamente o crime. Com o criminoso pronto e acabado, é certo que há crime, tanto quanto é certo que do crime não se cuida, na verdade.

O crime, previsto em lei a partir de moldes bem estritos, é uma sofisticação descompassada com a sociedade. Ela não quer crimes e punições, ela quer criminosos e linchamentos e entrevistas e comoções e gritos e indignações fugazes à espera das próximas.

A mulher que não chorou ao confessar o assassinato do filho e que o fez friamente, mesmo que assim não tenha sido, é a mesma espectadora que gritou a frieza e ausência de prantos húmidos. Só se constrói o que se sabe, o que se é capaz de fazer a partir dos modelos detidos; assim, o criminoso é ao mesmo tempo um desenho do proscrito anormal e um espelho dos desenhadores.

Ainda pensei em dizer à gritadora: minha senhora, a falta de lágrimas e a frieza na confissão nada mudam no crime, já vi criminosos terríveis chorarem a quase se desidratarem. Mas, seria inútil como mandar soltar um leão enjaulado para enfrentá-lo, e sem a poesia de Cervantes.

No fim das contas, lembro-me de Mersault, que percebeu estar a ser julgado não por ter matado um árabe, mas por não ter chorado no enterro da mãe.

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Desse modo, um criminoso submetido ao tribunal do júri será apresentado para ser julgado, não pelo crime que cometeu, mas pelo desenho que a sociedade fixa para não haver identificação, ou melhor, para  modificar a inclusão do indivíduo no corpo social, um estranho. 

No caso de Mersault, os argumentos para julgá-lo pelo assassinato do árabe , paradoxalmente, ou de modo absurdo, justificaria o que o próprio personagem não pode explicar como motivo de ter atirado: a luz do sol que o cegou, produzindo uma espécie de miragem, isto é, inconsciência (ele atira uma, e depois mais vezes). Mersault e o árabe são duplamente estrangeiros na terra colonizada pelos franceses.

Isso faz pensar nas palavras de um filósofo, quem julga um monstro corre o risco de se tornar um igual.  

Exato.

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