VIVIANE FORRESTER é romancista e ensaísta, autora de um livro sobre Van Gogh e
outro sobre Virgínia Woolf. É crítica literária do jornal “Le Monde” e uma das autoras que melhor expressa a angústia da exclusão pela ótica dos
desempregados. Em 1997, durante movimento da classe operária nas ruas de Paris
reivindicatória de uma tomada de posição do Governo face a situação vivida,
vários eram os manifestantes que tinham nas mãos exemplares de seu livro.
O livro é de 1997 e o texto a seguir é extraido da edição portuguesa. vale a pena ler.
Viviane é da mesma estirpe de Naomi Klein- que escreveu Sem Logo e recentemente
The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism.
São duas jornalistas que nos orgulham.
[...] Contei algures e resumo aqui que, em 1978, durante um colóquio na Áustria, em Graz, toda a sala rompeu a rir quando um dos oradores perguntou ao público (muito internacional) se conhecia Mallarmé, “um poeta francês”. Não conhecer Mallarmé!... Mais tarde, um italiano tomou a palavra e indignou-se com esses risos. Mencionou, por sua vez, vários nomes próprios. “Conhecem-nos?” Não conhecíamos nenhum. Eram nomes de marcas de metralhadoras. Ele vinha de um país que considerava exemplar, um país em guerra civil, onde “90% dos habitantes” conhecia esses nomes; mas 0% o de Mallarmé. Éramos portanto elitistas, maneiristas, snobs, “intelectuais”, numa palavra. Não tínhamos a noção dos verdadeiros valores, os nossos eram fúteis, narcisistas, complicados e inúteis. No entanto, havia lutas para travar. Com urgência. Contemplava-nos, repugnado, os olhos coruscantes de cólera. Humilde e penalizada – tanto mais que o tema do colóquio era nada mais, nada menos, para cúmulo da vergonha, Literatura e Princípio do Prazer! –, a sala ovacionou-o.
Algo me incomodava; pedi a palavra e dei por mim a dizer que talvez não fosse conveniente achar natural que uma imensa e gigantesca maioria não tivesse outra hipótese que não fosse ignorar Mallarmé. Maioria que não escolhera não o ler, mas para quem essa questão, ou a de saber o nome do poeta, nem se punha. Ao passo que o nosso contraditor, para estar à altura de lamentar a nossa erudição, era obrigado a ter-se familiarizado com o tema.
Ora, no seio dessa imensa maioria de grupos sociais afastados do nome de Mallarmé existiam, na mesma proporção que no nosso – tão desastrosamente minoritário –, homens e mulheres aptos a ler Mallarmé, a saber se gostavam ou não dele. Não tinham tido direito, como nós, à série de formações e informações que levam a conhecer a sua existência e à liberdade de optar por lê-lo ou não. E, tendo-o lido, de o apreciar ou não.
[...]
Os sistemas que, de forma mais ou menos lenta, ostensiva, trágica, conduzem a impasses, estariam bem mais ameaçados, e o seu poderio controlado, se Mallarmé tivesse mais leitores, potenciais que fossem. E os poderes não se enganam a esse respeito. Sabem onde está o perigo. Quando um regime totalitário se impõe, por instinto são os Mallarmé quem primeiro procura, exila ou suprime, mesmo que tenham pouca audiência.
O trabalho de um Mallarmé não é elitista. Tende a quebrar a ganga que nos envolve. A decifrar a linguagem, os seus sinais, os seus discursos e a tornar-nos assim menos surdos, menos cegos perante o que os poderes se esforçam por nos ocultar. Tende a dilatar o nosso espaço. A exercer, apurar, flexibilizar o pensamento, o único que permite a crítica e a lucidez, essas armas essenciais.
[...]
Ler Mallarmé pressupõe que foram adquiridas certas faculdades que poderiam conduzir a um certo conhecimento e, assim, à abordagem de certos direitos. Faculdade de não corresponder ao sistema nos termos redutores por ele oferecidos, que anulam todas as contradições. Faculdade de denunciar a versão demente do mundo na qual nos imobilizam, e que os poderes se queixam de ter a seu cargo, quando na realidade a instauraram deliberadamente.
Mas, para melhor arregimentar, sujeitar, e isso sejam quais forem os poderes, desvia-se o organismo humano do exercício árduo, visceral, perigoso do pensamento, evita-se a exactidão tão rara, a sua busca, para melhor manipular as massas. O exercício do pensamento, reservado a alguns, preservará o seu domínio.
[...]
Entre esses “jovens”, esses moradores jovens dos bairros chamados “difíceis” (mas que são aqueles em que pessoas em grandes dificuldades tentam viver), aquilo que substitui o nome de Mallarmé não são nomes de metralhadoras – é o vazio. O vazio e a ausência de projectos, de futuro, de felicidade pelo menos ambicionada, da mínima esperança, mas que um certo saber poderia compensar, suscitando até algum prazer a percorrer essas vias que conduzem ao nome de Mallarmé.
Deixemo-nos de sonhos!
No entanto, não é o tal tempo livre o único luxo desses rapazes e raparigas, que lhes poderia permitir, entre outras coisas, incursões a regiões efervescentes? Mas que não permite nada, porque estão manietados no interior de um sistema rígido, vetusto, que lhes impõe exactamente o que lhes recusa: uma vida ligada ao salariato e dele dependente. Aquilo a que se chama uma vida “útil”. A única aceite oficialmente e que não terão, porque, sendo cada vez menos viável para os outros, é-o sobretudo para eles. Não obstante, o seu fantasma fecha-os numa existência comandada pelo vácuo provocado por uma tal ausência.
Isso pesa muito, mas mesmo muito, na esqualidez glauca das periferias.
No outro pólo existe esse mundo activo, efervescente, agradável, mas depreciado, talvez mesmo também em vias de desaparecimento (é verdade que sempre esteve nessa situação, essa uma das suas características), não o mundo do jet-set, mas um mundo de pesquisa, de pensamento, de divertimento, de fervor. O mundo... do intelecto, termo rejeitado com um desprezo intencional, concertado, encorajado pela sociedade – vejam-se os piscares de olho cúmplices de todos os imbecis que, pronunciando a palavra como um insulto, auguram conivências apressadas e o desencadear imediato de escárnios. Isso nada tem de inocente.
Mundo do intelecto para o qual muitos desses jovens desocupados estariam inclinados, tanto como outros, se a ele tivessem acesso. A bem dizer, estão mais disponíveis que outros, porque dispõem de mais tempo, desse tempo que poderia ser livre mas que se torna tempo vazio, de uma vacuidade de morrer, tempo de vergonha e de perda, venenoso, quando se trata do mais precioso dos materiais. Quando, a partir dele, aquelas vidas podiam ser vividas intensamente.
Mas supor tal coisa, imaginá-la possível seria tido, a justo título, como o cúmulo do absurdo. Tanto mais que a escolaridade mais elementar já é das mais mal vividas por esses “jovens” tão marginais (ou tão marginalizados) que poucos se arriscam a entrar nos seus territórios, cujos códigos ignoram, assim como não penetram na maior parte dos nossos.
Essas zonas e os seus habitantes são implícita mas severamente mantidos à margem, e aí ficam. Invisível, intangível, nem por isso o muro é menos eficaz.
Vêm, porventura, os moradores de outros bairros passear nessas urbes, contudo tão próximas, tangentes às cidades das quais estão separadas? Não, porque as consideram, às vezes com razão, perigosas. Mas faz alguém ideia de que os seus ocupantes já mergulharam, já foram obrigados a mergulhar no interior do perigo que todos tememos: a exclusão social permanente, absoluta, a ponto de se banalizar?
É, porventura, frequente vermos esses habitantes da periferia deambular fora dos seus locais, ou em zonas análogas às suas? Que partilham eles com os outros, connosco, além da televisão, do metro às vezes, do bar e da segurança social? Alguma vez os vemos, a não ser pela televisão no seu jardim zoológico, em emissões de contornos etnológicos ou folclóricos, ou no nosso, no nosso jardim zoológico, por ocasião das poucas e movimentadas incursões que fazem nele, mas precisamente como guerreiros que ultrapassaram as fronteiras?
Essas fronteiras, quem as instaurou? Preferem mesmo, esses “jovens”, as suas escolas técnicas aos liceus dos bairros elegantes? Os seus espaços desérticos às regiões favorecidas? São compostos por alguma substância que os impeça de os frequentar? Ou é muito simplesmente por serem pobres?
O único grupo social que os liga a uma sociedade não evidentemente a sua, é a polícia. Mas trata-se de uma relação muito estreita, em que o jogo por vezes trágico de cada um dos dois campos corresponde de tal forma ao do outro, previsível, inscreve-se de tal forma na mesma rotina, nas mesmas brutalidades, na mesma armadilha, que esses rituais parecem quase de ordem incestuosa!
O único cenário institucional organizado quase exclusivamente em seu benefício segundo concepções estreitamente associadas ao seu futuro, adequadas ao seu destino, é a prisão.
Existe outra área, no entanto, onde esses “jovens” encontram o lado contrário em terreno delimitado: a escola. Aí são confrontados directamente, com frequência e pela primeira vez, possivelmente a última, com os que os excluem. Frente a frente, num mesmo território, numa relação íntima, quotidiana, oficialmente obrigatória. E é precisamente nesse ponto que, de forma muito manifesta, na maior parte do tempo eles não se juntarão.
Isso, por uma razão principal: quaisquer que sejam as suas situações financeiras, as suas condições sociais, as suas motivações, os professores vêm do lado privilegiado do muro e deixá-los-ão do outro lado.
Quaisquer que sejam o seu valor e a sua necessidade, os professores e a instituição escolar estão ligados aos que excluem e humilham, aos que relegaram os pais (e portanto os filhos) para becos sem saída, para aí os deixarem esquecidos, presos fora da vida, para toda a vida. São os delegados de uma nação que por norma trata como párias, como intocáveis, esses alunos e as respectivas famílias – sejam cidadãos nacionais ou não. [...]
Inculcar a garotos os rudimentos de uma vida que mais adiante lhes será vedada, que lhes está antecipadamente confiscada (e que, aliás, já não é viável), não será que isso pode considerado uma brincadeira de mau gosto, uma afronta a juntar às outras? [...]
Viviane Forrester
[in O Horror Económico: Lisboa, trad. Ana Barradas, Terramar, 1997]