Muito embora, já decorridos setenta e três anos desde que o economista polonês Michal Kalecki, inicialmente, e o economista inglês John Maynard Keynes, pouco depois, expuseram de forma clara e inquestionável o papel do investimento produtivo na determinação do nível da produção, da renda e do emprego, o processo que conduz ao crescimento econômico ainda continua cheio de mistérios e de interpretações equivocadas.
Não sem razão, pois, vemos na imprensa quase diariamente os pronunciamentos mais estapafúrdios sobre o tema. Quem ainda não ouviu a afirmação de que o país não investe mais e, por conseguinte, cresce mais, por falta de poupança? Daí, a chegar à conclusão de que é preciso reduzir os salários dos trabalhadores e cortar os gastos sociais do governo, para aumentar a poupança e o investimento, é somente um passo.
Pois bem, o erro básico está em não entender que a dinâmica do crescimento começa precisamente com o investimento. Os gastos em investimento é que acionam o sistema econômico, determinam o nível da produção e da renda que lhe corresponde, dividida entre salários e lucros, cuja parcela não despendida constitui a poupança.
Portanto, as coisas se passam na realidade de modo inverso ao que comumente se pensa. Cortar o consumo em nada contribui para aumentar a poupança, pois leva à queda do lucro nos setores que produzem bens de consumo, diminuindo a produção e a renda correspondente (salários mais lucros). Isto só seria verdadeiro se fosse necessário expandir a exportação de bens de consumo e não houvesse capacidade ociosa no setor.
Por paradoxal que pareça, consumir menos não aumenta a poupança, diferentemente da visão que se tem quando se trata da economia individual em que é preciso reduzir o consumo para aumentar a poupança. Isto é assim, porque no sistema em conjunto o consumo de uns é a poupança de outros.
Essa maneira equivocada de raciocinar em termos macroeconômicos tem a única vantagem, para a direita, de permitir atribuir aos trabalhadores a responsabilidade pelo baixo crescimento da economia, pois seu consumo reduziria a poupança. A responsabilidade pelo baixo crescimento econômico depende de fato unicamente dos capitalistas e do governo, por investirem pouco. Kalecki já dizia: “Os trabalhadores gastam o que ganham, os capitalistas ganham o que gastam”.
Têm sido muito freqüentes as comparações entre as altas taxas de crescimento da economia chinesa ao longo das três últimas décadas, e as reduzidas taxas que o Brasil tem conseguido alcançar, em média, um terço daquelas. A explicação mais direta é que o Brasil investe menos de 20% de seu PIB, enquanto a China consegue investir 40%.
É importante deixar claro para os que não são do ramo, que o conceito de investimento diz respeito ao aumento da capacidade produtiva do país, representada por novas instalações produtivas, novos equipamentos, novos meios de transporte, novas construções, etc. Formalmente, pois a solução do problema consistiria em o Brasil dobrar a parcela de sua produção destinada ao investimento. Mas, como fazê-lo? Nisto é onde reside o busilis (núcleo) da questão.
A primeira coisa requerida é os investidores privados e públicos se decidirem a ampliar seus investimentos, ou seja, criar mais capacidade de produção do que vinham criando anteriormente. Se existe capacidade ociosa nos setores que produzem os bens de investimento ela poderia ser aproveitada. Mas, é possível também recorrer a outra fonte de bens de investimento, a importação. Esta, porém precisa ser mobilizada mediante o acesso a recursos financeiros em moeda estrangeira, que pode surgir de duas fontes: aumento na entrada líquida de capital estrangeiro; e aumento nas exportações.
Mesmo que não seja necessário num primeiro momento, para manter a taxa de crescimento em patamar mais alto vai ser preciso mais adiante aumentar a capacidade de produção interna dos bens de investimento. A capacidade ociosa existente tende a ser ocupada, a entrada líquida de capital estrangeiro nunca é suficientemente alta para um aumento expressivo das importações e o aumento das exportações também vai requerer novos investimentos na produção.
Sendo assim, a composição da capacidade de produção na economia precisa ser alterada, com a parte referente aos bens de investimento aumentando sua participação percentual em detrimento da de bens de consumo. Ou seja, o investimento no setor de bens de capital precisar aumentar mais rápido do que o investimento total.
A criação adicional de capacidade de produção no conjunto da economia (maior em relação a que vinha sendo criada anteriormente), para sua materialização, requer da disponibilidade de recursos financeiros (dinheiro e crédito) adicionais para sua materialização, o que na língua inglesa chama-se funding. Portanto, será necessário um volume de crédito e dinheiro maior do que o do período inicial.
Esse volume adicional de poder de compra, que os investidores vão utilizar, precisa ser criado inteiramente no período, não havendo qualquer mobilização de recursos financeiros do período inicial, pois a chamada poupança do período inicial estará comprometida com a manutenção do nível de investimento do período inicial. Portanto, não há poupança prévia do ponto de vista global.
Desde a ótica das empresas o que pode acontecer é que as que ficaram devedoras no período anterior paguem suas dívidas às empresas credoras, ou aos bancos, permitindo a elas investirem mais do que no período inicial. Mas, as primeiras deixarão de investir o valor dos créditos amortizados.
As decisões de investir na ampliação da capacidade de produção respondem a critérios diferentes nos casos do governo e dos empresários privados. O governo decide em função de interesses mais gerais, portanto, não leva em conta estritamente a rentabilidade esperada de cada investimento. O fundamental é que os retornos, em termos de receita tributária provenientes da economia como um todo ocorram. Se os investimentos são pouco produtivos o governo poderá acumular déficits, e aumentar e aumentar a dívida pública, ou então a cortar os gastos.
No caso dos investimentos privados a situação é mais complicada porque os empresários têm a expectativa de verem retornar os recursos aplicados em cada empresa, pois precisam pagar as dívidas em que incorreram para realizá-los. A rentabilidade esperada tem que ser suficiente elevada para que permita cobrir os juros da dívida ao longo de seu período de amortização e deixar uma margem de lucro considerada aceitável.
Outra diferença é que as empresas privadas estão atentas para o nível de capacidade ociosa existente no setor em que se proporiam a investir. Se este é elevado ela nãos investem, pois não haveria demanda para a capacidade adicional de produção que seria criada.
Em que, portanto, residem as dificuldades para expandir a taxa de investimento?
Em primeiro lugar, é preciso ter em conta que, quando a taxa de investimento aumenta, dificilmente o consumo se retrai em termos absolutos. Isto só poderia acontecer se fosse necessário expandir muito as exportações de bens de consumo para adquirir as divisas destinadas a importar bens de investimento, ou para pagar dívida externa.
Uma das dificuldades reside em mobilizar os recursos reais adicionais que vão são se transformar no investimento adicional, representados por mão de obra e equipamentos, assim como os bens e serviços que os trabalhadores que vão gerar o investimento adicional vão consumir. Isto, sem prejudicar o grau de utilização da capacidade de produção inicialmente existente na economia.
Uma segunda dificuldade a ser enfrentada é a de convencer os investidores privados a correr o risco de ampliar sua capacidade de produção, diante de um futuro relativamente incerto em termos de utilização da nova capacidade.
Uma terceira é a de encontrar da parte dos bancos o desejo de correr os riscos de emprestar e de fazê-lo a taxas de juros suficientemente baixas para permitir um retorno adequado aos investimentos realizados pelas empresas privadas.
O investimento é um processo que somente marginalmente pode ser alterado em favor da elevação de seu nível, pois a composição da capacidade de produção na economia já está dada e, precisa ser utilizada, para não prejudicar o nível de atividade. O aumento da capacidade de produção de bens de investimento requer que as novas decisões de investimento se orientem para ela, em vez de para setores que produzem bens de menor essencialidade, por exemplo, a produção de automóveis em vez de trens.
Não se trata, porém, de uma tarefa fácil, pois os produtores de automóveis vão mobilizar todos os meios disponíveis para continuar aumentando a capacidade de produção desses bens, inclusive disputando o crédito disponível com o setor que produz trens e com os demais setores que produzem bens de maior essencialidade.
A expansão das exportações, assim como a entrada líquida de capital externo, ajuda a resolver a situação. Mas, no primeiro caso, requer a reorientação dos investimentos para os setores exportadores que mais contribuam para o balanço de pagamentos. No segundo, coloca-se a necessidade de lidar com uma variável de difícil previsibilidade e mais dependente do que determinante do nível total do investimento.
Se o capital estrangeiro tratar-se de empréstimos será indispensável contar, no futuro, com aumento suficiente das exportações para evitar grande expansão da dívida externa. Isto vai depender do aumento da capacidade de exportação, de modo a gerar divisas suficientes para impedir o aumento do endividamento externo. Se for investimento estrangeiro direto, também é preciso ter o mesmo tipo de preocupação, pois a remessa futura de lucros precisa ser financiada com exportações.
Em resumo, para aumentar a taxa de investimento será necessário:
a) alterar as prioridades na realização dos investimentos, de modo a aumentar a capacidade de produção dos bens de consumo de maior essencialidade, dos bens de investimento e dos bens exportáveis;
b) Criar as condições para que os bancos gerem a quantidade de crédito necessária ao aumento do nível de investimento, em condições adequadas de taxas de juros e de prazos de amortização.
c) Criar um clima de confiança capaz de despertar o chamado animal spirit dos empresários, de modo a que se decidam a aumentar o investimento produtivo;
d) Eventualmente, recorrer ao aumento da dívida pública junto aos bancos para financiar o aumento dos gastos de investimento público.
Por último, qual seria a política econômica indicada para o Brasil aumentar sua taxa de investimento?
Alterar a política tributária de modo a:
a) aumentar a incidência de impostos sobre os bens de menor essencialidade, com vistas a impedir que sua demanda aumente substancialmente e dificulte o aumento dos investimentos nos setores produtores de bens de consumo de maior essencialidade e de bens de investimento. Isto não é uma tarefa fácil, pois os consumidores de bens menos essenciais são pouco sensíveis aos aumentos de preço;
b) reduzir a carga tributária sobre os investimentos nos setores de bens de consumo mais essenciais, de bens de investimento e de bens exportáveis;
c) tornar progressiva a tributação, aumentando a incidência sobre a as classes de renda mais alta para desestimular seu consumo e gerar receita adicional para aumentar os investimentos na infraestrutura econômica
Reestruturar a política de financiamento dos investimentos privados, de modo a:
a) aumentar, comparativamente, os custos financeiros e restringir a disponibilidade de financiamento para os investimentos na produção de bens de menor essencialidade. O BNDES, por exemplo, não deveria financiar investimentos na indústria automobilística e assemelhadas; e
b) melhorar, comparativamente, as condições de financiamento para os investimentos nos setores de: bens de investimento; bens de consumo de maior essencialidade e bens com alto potencial exportador; e
c) aumentar a capacidade de endividamento e financiamento do BNDES; e
Reduzir a taxa de juros da dívida pública, de modo a desestimular os investimentos financeiros e mobilizar os recursos, assim economizados, para investimento público na infraestrutura econômica e social.

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