Brasília, 07 de Setembro de 2013                                Flavio Lyra (*)

Na data em que se comemora 191 anos de nossa Independência, ou seja, em que a nação brasileira se constituiu como estado soberano, nada mais oportuno do que reexaminar as ideias que presidem atualmente a realidade econômica do país.

Para não ser indelicado, uso aqui o adjetivo de surpreendente para qualificar o comportamento dos profissionais da ciência econômica neoliberal que militam no mercado financeiro, nos escritórios de assessoria empresarial e nas escolas de economia, quando se trata de usarem seus pretensos conhecimentos científicos para defender irrestritamente a empresa privada e a liberdade de mercado, frente à intervenção do Estado na economia, especialmente em nome do avanço do processo de globalização.

Considere-se, por exemplo, a cantilena ardorosa que tem guiado os pronunciamentos desses atores, desde que o atual governo, em seu início, resolveu baixar a taxa de juros da dívida pública, para evitar maior desvalorização do real, protegendo a produção industrial frente à competição externa, assim como reduzindo os gastos fiscais com juros, liberando recursos para outros usos mais nobres do que o enriquecimento dos bancos e outros investidores financeiros.

Esses pronunciamentos giram em torno da ideia central do neoliberalismo econômico de que é conveniente reduzir o papel do estado na economia, pois é o excesso de intervenção estatal que vem prejudicando os investimentos privados e o descontrole do gasto público (reduzindo o superávit fiscal para pagar juros) que tem acelerado a inflação.  Neste caso, nunca mencionam que a redução do gasto público tenderia a afetar principalmente  a qualidade da ação estatal e os gastos sociais.  Os pronunciamentos mais ousados chegam a insinuar a incompetência do atual governo para administrar a política econômica.

Certamente, baseiam-se em ideias contidas em manuais de economia neoclássica fabricados sob medida em universidades dos Estados Unidos que, reconhecidamente, não se prestam para entender o que se passa no mundo real, conforme foi evidenciado na total incapacidade das grandes potências de evitar e administrar a crise recente, da qual ainda não saímos inteiramente, depois de cinco anos de grande sofrimento da população mundial.  

Três fatos recentes chamam a atenção para a inconveniência da falta de controle estatal sobre áreas estratégicas da economia.  Primeiro, a reação favorável que as exportações do Brasil começam apresentar frente à desvalorização do real, conforme pode ser ilustrado com o aumento de 20% das exportações da indústria automotiva, até o mês passado em relação ao ano de 2012. Com maior controle dos fluxos de capital pelo governo atenuando a desvalorização do real, esse resultado poderia ter sido antecipado, evitando os prejuízos acumulados com a redução da competitividade da produção industrial e o lento crescimento econômico dos últimos dois anos.  

Segundo, a falta de investimentos na infraestrutura econômica, que têm penalizado parcialmente a competividade da indústria, tem muito a ver com a privatização no passado de empresas estatais importantes com atuação nesses setores. As empresas privatizadas requereram aumentos expressivos das tarifas dos serviços públicos e não se mostraram capazes de manter a dinâmica de investimentos que caracterizava as empresas estatais às quais sucederam. Sem o papel pioneiro e coordenador do Estado na condução dos investimentos na infraestrutura econômica os investidores privados não foram capazes de assegurar a expansão da oferta desses serviços básicos na medida necessária para induzir um ciclo de investimentos em outros setores.

Terceiro, os lamentáveis episódios de espionagem dos assuntos internos do país pelas agências de segurança dos Estados Unidos, incluindo os que vieram à tona recentemente relacionados com as comunicações da presidente da república, mostram claramente que setores estratégicos como as comunicações e a indústria de material bélico não devem ficar em mãos de empresas privadas, especialmente estrangeiras. Veja-se o caso emblemático do único satélite de comunicações do país, de propriedade da empresa estatal EMBRATEL que, no surto privatizante dos anos 90, foi vendida a um grupo privado mexicano.

Que poder temos agora para impedir que agências de segurança estrangeiras e empresas privadas internacionais, com as quais mantêm estreitos vínculos, tenham acesso aos assuntos sigilosos de segurança nacional, de negócios privados e de nossos cidadãos, como os sigilos fiscal e bancário.  Num mundo competitivo como o atual, certamente estamos acumulando prejuízos econômicos e financeiros à conta de não termos controle sobre o que acontece em nosso território. Por seu turno, nossos cidadãos estão à mercê de interesses escusos no que toca a sua vida privada.  

Dá para entender que para os neoliberais, que detestam os estados nacionais e querem vê-los reduzidos ao mínimo em nome da eficiência dos mercados, tais temas sejam de menor importância.  Pensaria igualmente, assim, o Secretario de Estado norteamericano John Kerry quando, “inocentemente”, afirma que “nos espiona para nos proteger”. Ora, que bobagem protestarmos contra essa situação se, como pensam nossos neoliberais, não somos mais do que uma simples extensão do grande mercado mundial que as empresas das grandes potências controlam, protegem e, naturalmente exploram em favor do enriquecimento de suas elites.

(*) Economista. Cursou doutorado de economia na UNICAMP. Ex-técnico do IPEA

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Respostas a este tópico

"O NEOLIBERALISMO SERVE" assaz "À PATRIA" como já se mencionou, dos que seguem a receita de - "incitar o ódio contra as pessoas a quem se quer aniquilar"

Ulysses,

Você tá falando de neoliberalismo, como esse trem não existe, acho que se enganou. Sei que o que incita o ódio, a inveja, a luta entre classes é o marxismo.

Falou..

O neo liberalismo só protege o bolso.

Todo neo liberal é de viés fascista e não conhece qualquer sentimento de solidariedade.

O Joaquim Barbosa depois da compra do imóvel milionário em terras Yankes, já se transformou em um neo liberal de extrema insensibilidade, tanto é que criou a Assaz JB Ltda, sediada em imóvel funcional(cedido pelo governo) em Brasília.

Caro Valcir: É isso mesmo Valcir. O sistema faz o homem. 

Abração.

Quis, excetuando a pressa, ante o atraso às tuas ponderações,  sr. Cristovam Nunes jamais negar a existência do NEOLIBERALISMO,   apenas citar SUA PATRIA, A MESMA DOS QUE  HENRY FORD e GUSTAVO BARROSO mencionam na pg 13 de http://defenderlapatria.com/a%20sinagoga%20paulista.pdf -  a mesma 'PATRIA' responsável por  http://documentos.morula.com.mx/wp-content/uploads/2014/02/La-Guerr...   que também mobilizou o mundo para ANIQUILAR um país democrático, sem desigualdade social, que despontava como a VANGUARDA tecnológica e MORAL da humanidade, para defender um regime déspota e sanguinário que não respeitava a liberdade religiosa, a propriedade privada e a liberdade de imprensa – pode aproveitar o que ainda resta de liberdade para promover o que não aparece na mídia: COERÊNCIA = FUNDAMENTO DA VERDADE – PILAR DA ÉTICA, BERÇO DA JUSTIÇA – PAZ – E ORDEM SOCIAL  . vide capítulo  3 do livro DERROTA MUNDIAL, 54 anos desde a primeira edição , jamais editado no Brasil   http://vho.org/aaargh/fran/livres9/BORREGOdermund.pdf 

 

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