Leia o arquivo anexado de autoria do Roberto Mangabeira Unger (2009). Para instigar a leitura, cito o seguinte trecho: “(...) não há solução para o Brasil sem solução para o Nordeste. Quase um terço da nação vive no Nordeste. É nessa região que se concentram muitas das áreas mais pobres e das populações mais carentes do país. A renda per capita e a remuneração média do trabalho continuam substancialmente abaixo das médias brasileiras, ainda que algumas partes do Nordeste (como o cerrado do oeste da Bahia e do sul do Piauí) figurem hoje entre as áreas que mais crescem" (Grifo nosso, p. 6-7).
Não se faz necessário concordar com todas as linhas do texto, porém dificilmente se pode dizer que os problemas do Nordeste não têm nenhuma relação com o peso econômico do Centro-Sul. Enfim, Celso Furtado está vivo...
A proposta como um todo já um novo sinal de que as coisas podem ser diferentes.
Senti falta da cultura como elemento vital de quaisquer formas de superação daquilo que foi imposto, muitas vezes com o beneplácito das classe dominantes locais, à região.
No que se refere à educação toda a cautela será pouca: falo do risco que sempre se incorre em estabelece,r para os mais pobres, o caminho do ensino profissionalizante. Ainda, é verdade, que o texto seja bastante cuidadoso sobre o assunto. E, de qualquer modo, aqui, a articulação com a atividade industrial me parece fundamental.
À primeira vista, parece tao bom que o santo desconfia. Concordo com Luzete sobre a falta de um foco em Cultura, uma das coisas em que o Nordeste é particularmente rico, e tem até para "exportar" para o Sudeste e o Sul, ajudando inclusive a fortalecer a identidade nacional e uma criação de cultura de massas nao "alienígena".
Na parte relativa a mudanças no ensino médio, a nível de discurso está excelente; mas, algumas ponderações do Rogério Maestri (ver tópico Enen ou Vestibular qual o mais democrático) me fazem ficar um pouco com o pé atrás sobre o modo como essas mudanças seriam implementadas na prática.
Agora, há um trecho referente à desigualdade dos critérios da avaliação da Capes no incentivo à graduação, Pós, extensao e pesquisa, e à necessidade de mudar isso, que me deu vontade de beijar o autor, de tao entusiasmada que fiquei. Nenhuma ênfase em preparação para o ensino e em extensão será possível se os professores só sao recompensados por sua "excelência em pesquisa" baseada em critérios completamente indiferentes ao ensino de graduação e à extensao.
Fiz minha primeira leitura sobre o texto. Brevíssima, ressalto.
Primeiro ponto que destaco. Sei que o ministro Unger esteve viajando o Nordeste durante alguns meses. Entrentanto, não visualizei de que modo ele considerou o processo de participação social na sua proposta. Não há qualquer avaliação do que ele observou e nenhuma reflexão sobre o que colheu em suas visitas e viagens pela região. Com quem dialogou? O que lhe disseram? Que propostas lhe apresentaram? Quais eram insuficientes? Quais descaidas? Quais mereceram aproveitamento e de que modo?
Segundo, derivado desta primeira observação: que tipo de instância participativa o ministro vislumbra para viabilizar a interlocução da sociedade no plano que ele propõe? Uma agência? As agências tem se revelado estruturas pouco porosas para a interlocução e a concertação dos múltiplos interesses sociais. Algumas pretendem-se "regulatórias" e outras "operacionais". Talvez a ABDI esteja mais próxima de acolher interlocução social, mas em geral do grande empresariado.
Terceiro, se rejeita o "pobrismo" e o "sãopaulismo" (fordismo tardio), e nome de rejeitar a consideração do Nordeste como reserva de mão-de-obra de baixa remuneração, no que concordo plenamente, não vi o Ministro avançar para a discussão sobre os modelos de apropriação da riqueza gerada. A propriedade seguiria intacta, regida pelas regras que acentuam e sustentam a vulnerabilidade do trabalhador na relação com o empresariado. As redes de que ele fala não implicam em ruptura com este modelo. Quando se olha para o desenvolvimento partindo do anseio de expansão da economia solidária, dois ingredientes fazem-se necessários considerar: a mudança no perfil de apropriação das riquezas e a mudança no perfil de poder. Faz-se necessário lidar com a democracia social e política no interior dos empreendimentos, não importando suas dimensões: podem ser empreendimentos de pequeno porte ou grande porte, envolvendo cinco trabalhadores ou milhares deles.
Estas são apenas algumas considerações com que inicio minha participação nesta discussão que considero muito relevante.
Prezado Nassif,
esse debate lançado pelo Mangabeira é muito oportuno. E de fato Mangabeira mostra sua grande inteligência e criatividade neste documento. Tem alguns pontos primoriosos, especialmente no que tange à questão da educação.
Mas infelizmente temo que esse magnífico documento acabe na vala comum do engavetamento por estar descolado de certas bases necessárias para ser possível colocar em prática. Em minha visão limitada, vejo um um certo ar de utopia na proposta.
Por exempleo, o documento é enfático em rejeitar oo que ele chama de Sãopaulismo.
Não ficou muito claro o que é a rejeição ao Sãopaulismo. Ele se diz rejeitar o fordismo implantado em São Paulo. Mas de um ponto de vista estrito, para os engenheiros de produção, praticamente não há mais fordismo no mundo, todas as empresas de montagem estão migrando há mais de uma década para sistemas de produção flexível e buscando o toyotismo. Você conhece isso mais do que ninguém, a indústria brasileira é uma das líderes mundiais em programas de qualidade total, desde meados dos anos 90.
Além disso, temos que partir de um ponto. São Paulo é antes de tudo um estado muito bem-sucedido na América Latina. São Paulo é a região mais desenvolvida industrial e tecnologicamente da América Latina e talvez até socialmente (talvez só superada pelo Chile, que tem a sorte de estar situada em um dos locais de melhor provimento de recursos naturais do mundo, como por exemplo as maiores minas de cobre).
O interior de São Paulo é uma maravilha em termos de desenvolvimento econômico, tecnológico, social, cultural e político. Não é nenhum demérito ter São Paulo como modelo. Muito pelo contrário, é um excelente modelo para o Nordeste, pois se alguém pode dizer que é muito difícil ao Brasil copiar a cultura japonesa, podemos ter certeza que é muito mais fácil copiar São Paulo.
E mais, São Paulo não fez nada de tão especial, o crescimento do estado se baseia basicamente no crescimento das indústrias de bens duráveis e outras indústrias metal-mecânicas como bens de capital. E nisso o modelo paulista é uma cópia do modelo americano da costa leste e dos grandes lagos, do modelo europeu, do modelo japonês, do modelo coreano e do modelo chinês.
A base do desenvolvimento de grandes nações desde a 2ª Revolução Industrial sempre foi a indústria metal-mecânica. O único exemplo parcialmente diferente foi a Califórnia depois dos anos 80. Mas a situação da Califórnia é muito especial e não pode ser reproduzida na mesma escala atualmente no Nordeste por questões óbvias de falta de recursos técnicos e econômicos.
Não vejo como o Nordeste poderá fazer diferente de todos os outros processo de industrialização no mundo:
1º crescer inicialmente com a indústria tradicional (têxtil e calçados, móveis e alimentos)
2º crescer definitivamente a partir da indústria metal-mecânica e suas indústrias associadas: eletroeletrônica e química
Esse foi o modelo do São Paulo, do mundo e do Sul do Brasil,
deve ser também o modelo do Nordeste, mesmo porque não existe outro modelo bem-sucedido para populações tão grandes como a do Nordeste, de 52 milhões de habitantes (equivalente a França, Inglaterra, Itália e antiga Alemanha Ocidental).
Nos links abaixo coloco um documento que busca mostrar uma proposta alternativa para o Nordeste e para o Brasil, onde concordo com o Mangabeira: a solução do Brasil é o Nordeste.
Na comunidade Desenvolvimento Br: http://desenvolvimentobr.ning.com/profiles/blogs/eletronica-e-indus...
No slide share: http://www.slideshare.net/gustavoag.santos/eletronica-e-desenvolvim...
em PDF: http://desempregozero.org/wp-content/uploads/2009/05/eletronica-e-d...
Gustavo, nao tenho competência específica para responder a tudo o que você diz, mas, pela leitura do texto do Mangabeira, que fiz, acho que você nao entendeu bem o que ele quis dizer com "sao paulismo". Ele realmente falou de fordismo, e por aí você ter carradas de razao, mas nao me pareceu que isso fosse o principal, e sim a negação de grandes indústrias, que dao emprego etc., mas desligadas do resto do tecido econômico-social: ele falou principalmente disso, de grandes indústrias como "enclaves".
Prezada Anarquista,
as idéias do Mangabeira são muito boas. Eu acho que entendi o que ele quis dizer, de fato não foi apenas uma crítica ao fordismo, mas também foi uma crítica à grande empresa, ou ela no Nordeste desligada do resto da estrutura econômica.
Entretanto, o que eu quero dizer é que não há como fugir da necessidade de industrialização.
Caso contrário, não seria possível fugir da miséria.
e a industrialização demanda investir primeiro em indústrias tradicionais (textil e alimentos) e depois em indústrias de bens duráveis. São Paulo fez isso, assim como todos os outros modelos de desenvolvimento.
Sempre que você coloca uma indústria em um local em que não há indústrias ela será um enclave, mas aos poucos vc tem que continuar atraindo indústrias e densificando a estrutura econômica. No começo da industrialização, as grandes indústrias serão enclaves, mas aos poucos, com incentivos públicos, outras indústrias surgirão no local integrando a economia.
As grandes indústrias são absolutamente necessárias, não existem produtos que pelo menos em parte sejam processados por grandes indústrias, porque quase tudo na física é processado mais barato em grande escala. A grande indústria é absolutamente necessária e imprescindível, ao menos desde o final do século XIX.
No capitalismo, no socialismo ou mesmo no anarquismo.
a não ser se quisermos voltarmos a ser índios, mas ninguém quer.
Na leitura do texto não vi nenhum tipo de argumentação contra São Paulo. Pelo contrário, reconhece-se que São Paulo construiu um modelo de desenvolvimento que, nos tempos atuais, dadas as mudanças nos padrões tecnológicos dos processos de produção, não pode mais ser replicado. A expansão industrial no Nordeste, se feita em moldes similares aos utilizados no período compreendido entre os anos 40-70, impactará em desindustrializar São Paulo e terá efeitos nocivos na economia brasileira.
Por que razão?
Porque as taxas de produtividade alcançadas com as modernas tecnologias é muito superior àquelas utilizadas nas décadas passadas, de tal sorte que não há mercado e demanda para uma expansão de produção baseada neste modelo. Além disso, o padrão de rendimento no Nordeste é elevado para concorrer com a mão-de-obra chinesa, de um lado, e baixo demais para que os trabalhadores paulistas a enfrentem. Deste modo, um processo industrial similar ao paulista será feito com substituição das plantas produtivas instaladas no Sudeste pelo Nordeste, aproveitando-se do custo menor da mão-de-obra, implicando em empregar sim mão-de-obra nordestina, mas submetendo-a a regimes produtivos baseados na manutenção dos baixos ganhos.
Neste ponto, concordo plenamente com a leitura de Unger.
Há outro ponto que destaco do trabalho que me parece muito interessante no texto dele. Ele alude à temática das tecnologias, inventividade e criatividade dos pobres. Em 2005, durante seminário de que participei no Peru, com organizações latino-americanas de microcrédito, chamei a atenção para o fato de que preocupava-me o fato de que estas organizações não construíssem linhas de financiamento específicas para induzir o incremento tecnológico dos empreendimentos populares. Eu argumentava que não podíamos pensar no enfrentamento da exclusão social e da pobreza mantendo os pobres condenados a atividades econômicas cujo valor agregado fosse sempre pequeno, e que não podíamos considerar que fosse possível disseminar acesso às tecnologias sofisticadas que o mercado oferecia, porque não havia capacidade financeira para estes empreendimentos adquirí-las. Assim, entendia eu, que era imprescindível reconhecer a capacidade inovadora dos pobres e estimular sua criatividade: financiar seus pequenos inventos, mobilizar recursos para arriscar iniciativas que pudessem não confirmarem-se viáveis, etc... Meu argumento acabou aceito e incluído numa Carta de Cusco, aprovada pelos participantes, que guardo em minha biblioteca virtual. Já referi-me no blog do Nassif a este respeito, citando a reflexão sobre o "desperdício da experiência" de Boaventura de Souza Santos.
Por tais razões, considero que o modelo de desenvolvimento para o Nordeste tem que ser pensado nos termos propostos por Coraggio:
"para afirmar el desarrollo económico local como paradigma de la acción colectiva superadora de la exclusión y la violencia hay que ser menos localista y menos económico en el planteo (aunque aquí hemos oído afirmaciones contundentes del localismo como convicción). Para ser viable, el desarrollo local –propuesta para localidades que compiten entre sí- debe dejar paso al desarrollo-desde-lo-local, afirmando desde la especificidad de cada lugar que se aspira a otro desarrollo de la sociedad como un todo, y se actúa para ello desde las bases territoriales de localidades y regiones, desde la cotidianeidad, desde las relaciones sociales intersubjetivas, desde la comunicación significativa con la naturaleza (como los campesinos que viven con el bosque y no del bosque). Se trata de construir otro poder desde las bases, antes que de “acercar el (mismo) poder a lo local”, como se dijo. Y la economía de mercado debe dar
lugar a la economía social, como “…concepto para la transición desde la periferia, que
implica contribuir concientemente a desarticular las estructuras de reproducción del
capital y a construir un sector orgánico que provea a las necesidades de todos, con otros
valores…”
Na minha participação anterior, à tarde, havia me referido à economia solidária, evidentemente que com muito menos brilhantismo que Coraggio, cujo portal acabo de encontrar e indico a quem desejar conhecer mais sobre sua contribuição brilhante:
"Esto significa que no alcanza con incluir como variable instrumental para el desarrollo
económico la “calidad institucional local”, sino que hay que incluir en el programa por
otro desarrollo la transformación de las formas de institucionalización de lo económico:
las formas de apropiación y propiedad de los recursos, la definición misma de los
recursos y las reglas de su uso (¿lotes de tierra, territorio o ecosistemas?), el dinero
(¿mercancía producida para el negocio privado o moneda social, local, como bien
público?), el trabajo (¿mercancía que se puede contratar o expulsar libremente o condición de la vida en sociedad y por tanto derecho inalienable?), la justicia, la ley y
las formas de resolver los conflictos no antagónicos (¿es posible admitir que más de la
mitad de la economía popular está en la ilegalidad sin reconocer que lo que está mal es
la ley, o que la demora en resolver situaciones jurídicas de fábricas o tierras recuperadas
atenta contra los derechos humanos?), los valores morales (¿es posible admitir que las
empresas de capital sigan expoliando recursos y capacidades humanas y legitimarlas
con certificados de “responsabilidad empresaria” por actividades colaterales de
filantropía?), las reglas del intercambio (¿podemos avanzar en redes intersticiales de
comercio justo mientras nuestros gobiernos negocian en la Organización Mundial de
Comercio reglas del juego que perpetúan el saqueo colonialista?), y así siguiendo…
Estas cuestiones pueden dar lugar a diversas posiciones, a la negociación incluso, pero
no pueden ser ignoradas: cuando hablamos del desarrollo económico como condición
para la inclusión tenemos que tomar posición sobre la institucionalización y reinstitucionalización de la economía".
Transcrições Extraídas de "Instituciones, cultura y etica en el desarrollo local".
agora concordo totalmente na crítica do Mangabeira ao pobrismo.
Pobrismo não leva a nada.
tem que produzir IPOD, sapatos, tecidos, carros, computadores, celulares, papel, etc
mesmo que no início seja só a manufatura, como fazem os chineses e paulistas.
se os paulistas, chineses podem até ter pouca tecnologia, mas estão há anos luz do jegue e da cacimba. eles são o modelo. os japoneses e coreanos há 30 ou 40 anos atrás faziam só camisas, sapatos e radinhos, hoje fazem o que fazem.
os nordestinos precisam também começar pelas camisas, sapatos e radinhos,
caso contrário, vão continuar ganhando só esmola. não dá para pular direto do jegue para o desenvolvimento de semi-condudores. e não adianta também viver de artesanato e pele de cabra.
tem que produzir o que as pessoas querem comprar. se as pessoas compram bobagens aí é um problema do sistema mundial, pois todos querem comprar as mesmas coisas: carros, casas, computadores, roupas bonitas e radinhos com MP3.
não é o Nordestino que tem que salvar a humanidade do consumismo comendo calango.
Caro Edmar,
há sim muito mercado para essas indústrias.
Primeiramente, nosso déficit comercial na indústria mecânica, eletrônica e elétrica e química é de 60 bilhões de dólares. Mas hoje somos deficitários também na indústria têxtil e vestuário.
Se 20% nosso déficit for suprida pelas novas indústrias no nordeste já seria possível dobrar o PIB da região por causa dos efeito renda e externalidades. Seria algo como dezenas e dezenas de bolsa família canalizados para a região.
Além do déficit comercial, a região poderia exportar e também poderia suprir o crescimento da demanda nacional (do Brasil e do próprio Nordeste).
um trabalhador industrial básico ganha normalmente entre 700 e 1500 reais. Qualquer patamar nesse valor é uma maravilha para quem está super feliz em ter que dividir 120 reais do bolsa família para 5 pessoas. E isso significa muito mais mercado, para essas próprias indústrias.
Há muito mercado, alíás, falta de mercado não é problema porque há uma imensa demanda reprimida,
o que pode ser problema é falta de competitividade.
Mas aí é um problema nacional e não do Nordeste.
isso é um problema do câmbio, o dólar deveria estar em 3,5 e o juros em 2% ao ano. com isso estaríamos crescendo a 10% ao ano e poderíamos competir com os chineses (cujos operarários já ganham tanto ou mais do que no Nordeste).
A competitividade da China contra os EUA decorre de mão de obra mais barata, mas sobre o Brasil decorre basicamente dos chineses terem mais escala, mais tecnologia, mais educação, energia barata, menos impostos, e juros muito menores.
Não há alternativa para o Brasil que não seja competir diretamente com a China na manufatura (não em todos mas em muitos mercados)
óbvio que há uma enorme demanda reprimida enorme de bens e serviços.
Entretanto, repito, o problema não é de produção. É de apropriação.
Aumentar a produção não é dificil... evidentemente, requer investimentos, infra-estrutura, logística, tecnologia e capital humano. Mas, o incremento da produção deriva de um esforço de médio prazo, em alguns segmentos e longo prazo em outros.
Difícil é inserir a nova produção na competição global. A demanda interna é crescente, mas um "choque" de volume, a depender de sua dimensão, pode aumentar a ociosidade do parque industrial.
Um breve estancamento do relativamente curto ciclo de expansão da produção brasileira já representou perda de 5% dos empregos industriais, conforme notícias divulgadas nestes dias.
Isso já é suficiente para atestar que o modelo de desenvolvimento não pode concentrar-se mais neste padrão e que faz-se necessário repensar o debate da apropriação das riquezas.
A discussão sobre como o Brasil distribui o crédito, por exemplo, ainda está por ser feita. Os pequenos e microempreendimentos seguem, em sua grande maioria, sem canais regulares e vocacionados para seu atendimento.
Vamos discutir desenvolvimento regional considerando que temos apenas 2% do sistema financeiro nacional no cooperativismo de crédito?
Como pensar o "regional" sem poupança regional? Sem que a riqueza fique na região, mas concentre-se em conglomerados sediados no eixo Rio-São Paulo ou em transnacionais?
Quem será o sujeito "regional"? A "região" é apenas uma realidade geográfica para a expansão das plantas industriais?
Um novo plano de desenvolvimento nacional deveria ter como pressuposto estratégico que ambicionássemos promover e prover a instalação de dezenas, centenas de novas cooperativas de consumo, de crédito, de ensino, etc, num intervalo curto de tempo. Outras dezenas e centenas de novas organizações de microcrédito. Outras dezenas de sociedades garantidoras de crédito, mutualistas, focadas no atendimento da microempresa.
Fonte de recursos? Aportes iniciais de capital do BNDES, dos Fundos Constitucionais. Quanto? Um número... R$ 10 bilhões de reais. Capitalizar um total de 3.300 novas organizações destas que estou dizendo.
Baixamos as exigências para que a Caixa, por exemplo, constituísse uma nova empresa: Caixa Participações. Ou para que o BB pudesse comprar bancos menores, a Nossa Caixa. Por que não reduzir exigências e povoar o país com milhares de novas organizações focadas na atenção permanente à microempresa e aos empreendedores informais?
Cooperativas de Consumo poderiam ser estimuladas com capitalização inicial de R$ 2 milhões para montar pequenas redes locais de comercialização de produtos preferencialmente produzidos local/regionalmente, atraindo associados que pudessem migrar suas compras das grandes redes de hipermercados e supermercados, de modo a incentivar a geração de poupança local. Poupança não financeira. Poupança enquanto capital, enquanto produção, enquanto canal próprio de comercialização. Criar 2.000 cooperativas de consumo com essa característica implicaria no investimento de apenas R$ 4 bilhões de reais.
Impulsionar a criação de 500 cooperativas de crédito de interação solidária, patrocinando uma capitalização inicial de R$ 2.5 milhões para cada cooperativa, autorizando-as à realização dos diversos serviços financeiros disponíveis no mercado. Implicaria em aplicar mais R$ 1,25 bilhão de reais.
Repetir o número de 500 novas OSCIPs de microcrédito, com aplicação inicial de R$ 2,5 milhão de reais, e facultar a elas instrumentos de capitalização e poupança de empreendedores e população de baixa renda. Pequenas mudanças legais e uma aplicação de mais R$ 1,25 bilhão de reais.
Instalação de 300 Sociedades Garantidoras de Crédito no modelo da AGC de Caxias do Sul e como as que o SEBRAE está estimulando, com uma capitalização inicial de 10 milhões de reais para cada uma, totalizando mais R$ 3 bilhões de reais.
Investimento de capitalização no Projeto: R$ 9,5 bilhões de reais. Custos operacionais iniciais: R$ 500 milhões, para contratar assessores, consultores, educadores, contadores, advogados, técnicos, etc... para em um ano, um ano e meio, injetar energia nas comunidades e viabilizar a instalação dessas organizações.
Exigência: desburocratizar os processos, romper os paradigmas relativos à aplicação de recursos na sociedade civil.
Total a investir: R$ 10 bilhões. Pouco dinheiro demais! 0,8% do crédito no país! Ninharia. Seria quase como a aplicação de uma Tobin Tax na realidade brasileira. Apenas um orçamento do Bolsa Família, mas com perenização dos resultados!
Talvez devêssemos ser mais ousados, e multiplicar por três ou cinco esses números, mesclando um aumento na quantidade de organizações com um aumento na capitalização inicial necessária. Mas, como sei que para os pobres, pensa-se sempre em valores irrisórios, vamos nos ater aos R$ 10 bilhões.
A maioria desses recursos poderia ser reembolsável em prazo de 5, 8, 10 anos. Sequer precisaria ser doação!
Isto sim teria impacto de um movimento virtuoso capaz de irrigar as comunidades não apenas com dinheiro, mas com AUTONOMIA. Seriam organizações independentes do Estado. Cooperativas e OSCIPs: Sociedade Civil.
Isto sim abriria um novo capítulo no desenvolvimento brasileiro.
Beleza! Clap, clap, clap! (isso pretende ser aplausos...). Gerar renda e produções locais, mas, mais ainda: criar algo na direção do que o Hobsbawn diz ser necessário, um sistema econômico misto, Estado/mercado, mas com um mercado menor, mais controlado, mais diretamente ligado às necessidades das populações envolvidas.