Leia o arquivo anexado de autoria do Roberto Mangabeira Unger (2009). Para instigar a leitura, cito o seguinte trecho: “(...) não há solução para o Brasil sem solução para o Nordeste. Quase um terço da nação vive no Nordeste. É nessa região que se concentram muitas das áreas mais pobres e das populações mais carentes do país. A renda per capita e a remuneração média do trabalho continuam substancialmente abaixo das médias brasileiras, ainda que algumas partes do Nordeste (como o cerrado do oeste da Bahia e do sul do Piauí) figurem hoje entre as áreas que mais crescem" (Grifo nosso, p. 6-7).
Não se faz necessário concordar com todas as linhas do texto, porém dificilmente se pode dizer que os problemas do Nordeste não têm nenhuma relação com o peso econômico do Centro-Sul. Enfim, Celso Furtado está vivo...
Você deu sorte, já tinha ido deitar, me lembrei que esqueci uma coisa, e encontrei seu comentário. E você nao estará me devendo nada, eu vivo pedindo ajuda (sobretudo do pobre do Tadeu), e gosto tb de prestar (nao é preciosismo de linguagem, só para evitar malentendidos -- rs rs rs).
Meu caro Edgar Arruda,não sei porque naqueles anos 60,o governo brasileiro aceitou aquele "presente greco-americano"de ajuda ao Nordeste,em troca,ainda não sabemos exatamente do que,pois os yanques jamais fizeram nada,se não tivessem interesses escusos,por trás das suas "boas intenções"
O Brasil nunca precisou de nenhuma "Aliança para o progresso"o quesempre recisamos,foide vontade política da equipe governante,e não de "sobras"nem de alimentos vencidos,quanto às suas datas de consumo seguro,pelas normas norte-americanas.
O que o governo yanque temia,era a evolução da revolução iniciada no continente,elo "barbudo"CHE"e daria qualquer coisa,para evitar que o sucesso dos revolucionários cubanos,alastrasse-se pela América Latina,e o Brasil,era a nação mais interessante,para as aspirações revolucionárias iniciadas por Che uevara,e tambem o aior temor de Kenedy,de que sediada no Brasil,a revolução já vitoriosa em Cuba,virasse uma nova realidade.
Pena que os medrosos militares e covardes bolivianos,não deixaram a revolução guevariana prosperar,e demoramos ainda alguns anos,para reescrever a história.
Um site onde você pode ler de tudo um pouco e fazer seus comentários também. Notícias, assuntos do cotidiano, política etc. Gostaria de criar debates sobre como melhorar o lugar onde vivemos.
Sexta-feira, Setembro 15, 2006
O plano de Kennedy para desenvolver o Nordeste
O plano de Kennedy para desenvolver o Nordeste
por Vandeck Santiago
A surpreendente história de como, quando e por que a nação mais poderosa do planeta interveio na região mais pobre do hemisfério.
Enquanto Mr. Gordon não vem
A tarefa cumprida neste caderno especial parecia, a princípio, irrealizável como trabalho jornalístico, tamanho o gigantismo de que se revestia. Era preciso localizar e consultar documentos que se encontravam em arquivos dos Estados Unidos. Era preciso localizar e entrevistar personagens que estavam aqui e nos Estados Unidos. Era preciso dar sentido a dezenas de informações dispersas e checar a veracidade delas. Uma lista interminável de "era preciso...". Houve momentos em que se insinuou a opção tentadora de parar tudo, restringir o alcance da reportagem e publicá-la tal como estava. Mas a generosidade de cada um dos entrevistados, abrindo caminhos, e as condições dadas pelo Diario, propiciando o tempo e os recursos necessários, culminaram na conclusão do trabalho - ao fim de uma extenuante jornada de cinco meses de investigação jornalística. Localizamos todas as pessoas que planejávamos entrevistar, aqui e no exterior. A única entrevista não obtida foi a do embaixador dos EUA no Brasil naquela época, Lincoln Gordon. Em gentil contato com a reportagem ele alegou dois motivos para não falar, no momento: primeiro julga que teve uma atuação "apenas periférica" em relação ao Nordeste (há controvérsias, como veremos nas páginas seguintes); segundo, está escrevendo suas memórias e o método que utiliza consiste em ir enfocando cada período histórico sucessivamente. No momento Gordon - que tem 93 anos - está no capítulo 6 (anos 50) Só "chegará" ao Brasil no capítulo 8, e prevê que isso aconteça no início de 2007.
Ok, quando 2007 chegar, tornaremos a entrar em contato com o embaixador. Mas, enquanto isso, vamos contando nossa história.
Quando os americanos estavam chegando
Em outubro de 1961 o economista e diplomata norte-americano Merwin Bohan desembarcou no Recife com uma missão do presidente dos Estados Unidos, John Kennedy. Deveria elaborar um plano de desenvolvimento para o Nordeste. Comandando uma equipe de três dezenas de especialistas em áreas diversas, Bohan concluiu o trabalho em cerca de quatro meses. Em fevereiro de 1962 o relatório - intitulado Northeast Brazil Survey Team Report, "Missão de Estudos sobre o Nordeste do Brasil" - chegou às mãos de Kennedy. Pela primeira vez o governo dos EUA preparava um plano específico de desenvolvimento para uma região sub-nacional. A partir de então o Nordeste tornou-se área prioritária no mais ambicioso programa dos EUA para a América Latina, em toda a história: a Aliança para o Progresso, que pretendia num prazo de 10 anos e com um investimento de US$ 20 bilhões elevar o padrão de vida nos países latino-americanos a índices comparáveis aos do mundo desenvolvido. O programa faz neste mês de agosto exatos 45 anos, mas sem nenhuma celebração, porque fracassou.
O "Relatório Bohan” , como o plano ficou conhecido, não foi divulgado para o grande público. O DIARIO obteve uma cópia dele na Truman Library (Biblioteca Truman), onde estão os arquivos do presidente Harry Truman, na cidade de Independence, Missouri, nos Estados Unidos. A apuração jornalística poderia cessar aí, no documento e na sua descoberta, dado que a relevância de um e outro já justificavam uma reportagem especial. Em vez disso utilizamos o "Relatório" como ponto de partida para seguir adiante. Consultamos cerca de 300 páginas dos arquivos norte-americanos, incluindo 1) relatórios da CIA a respeito do Nordeste, que, embora já liberados, até então nunca haviam sido usados para estudos específicos sobre a região, e 2) pronunciamentos do presidente Kennedy e relatos de encontros oficiais em que ele se referiu ao Nordeste.
Novamente a reportagem poderia ter parado aí. Mais uma vez, fomos adiante. Localizamos personagens que participaram da história daquele período. Como, entre outros, o padre pernambucano que atuou junto com um agente da CIA (sem saber, diz o padre na entrevista que nos concedeu) e o especialista em direito constitucional (pernambucano formado na Faculdade de Direito) que tinha como livro de cabeceira a obra clássica de um norte-americano (Breviário de um homem de bem, de Benjamin Franklin), mas que presidiu e relatou o inquérito no qual os convênios assinados entre os EUA e estados do Nordeste foram considerados uma afronta à nossa soberania. Tivemos acesso à íntegra do inquérito - outra peça histórica, de repercussão nacional, mas hoje completamente desconhecida.
Entrevistamos brasilianistas norte-americanos, autores de obra reconhecida na área (como Joseph Page, Martha Huggins, Stefan Robock e Anthony Pereira), e brasileiros igualmente conceituados, como Francisco de Oliveira, Moniz Bandeira e Wanderley Guilherme dos Santos. A reportagem consistiu ainda na consulta a 410 edições do DIARIO entre 1961 e 1965, na busca de matérias e artigos sobre o Nordeste nos arquivos do The New York Times e na leitura de trabalhos acadêmicos do Brasil e uma bibliografia composta em boa parte de obras esgotadas ou nunca traduzidas para o português.
A conclusão do levantamento mostra que nenhuma outra área do Brasil, no período Kennedy (1961-1963), teve uma presença americana tão ampla quanto o Nordeste - o que inclui ajuda financeira (com um acordo específico para a região, assinado em 13 de abril de 1962, entre Kennedy e o presidente do Brasil, João Goulart), interferência na política interna, infiltração nos movimentos sociais e ação de agentes de CIA.
O trabalho durou cinco meses, com dedicação exclusiva do repórter. O prazo - talvez o mais longo já utilizado por um veículo do Nordeste na produção de uma reportagem -, as condições (para viagens, entrevistas e aquisição de material), os cuidados com a exatidão (a ponto de procurar checar cada fato não documentado em pelo menos duas fontes, explicitando no texto os casos em que a fonte era apenas uma) e o acesso a material inédito fazem deste caderno especial também um documento. Que reúne fatos dispersos, dando-lhes um sentido impossível de ser percebido quando analisados apenas isoladamente. Que conta histórias até então não contadas e resgata outras da injustiça do esquecimento. Que é uma contribuição jornalística à história não só do Nordeste, mas da própria América Latina e das relações com os Estados Unidos. E que, esperamos, tenha uma consistência à altura da importância dos acontecimentos que relata.
As aldeias na história
As relações dos Estados Unidos com o Brasil são escassamente abordadas em livros de autores brasileiros. Se em vez de "Brasil" a gente escrever "Nordeste do Brasil" e limitar o período aos anos 60, a soma será igual a zero.. Faça-se a lista das obras recentes sobre o golpe militar de 1964, de escritores nacionais - e mesmo aí praticamente não se fala na interferência norte-americana na região, apesar de toda a magnitude que ela teve. Trata-se de uma conspiração contra o Nordeste? Ou é puro preconceito? Nem uma coisa nem outra. Trata-se de um fenômeno que o historiador pernambucano Potiguar Matos já definia em 1974, com perfeição. "Os episódios históricos ocorridos nos Estados economicamente mais poderosos têm maior repercussão histórica, são apresentados com mais significação, e aqueles episódios ocorridos nos Estados economicamente mais fracos como que se diluem e desaparecem nas páginas da nossa História", dizia ele, em palestra sobre o sesquicentenário da Confederação do Equador. Em 1974 estávamos longe do atual estágio do desenvolvimento capitalista, a globalização - fase em que a defesa da história regional torna-se um imperativo para os que desejam preservar a memória e a identidade de suas aldeias. "Em resposta ao avanço do atual processo de globalização, que tende a estandardizar e a massificar os padrões de procedimentos e os costumes de cima para baixo, cresce o interesse das comunidades regionais e periféricas pela sua memória, pela sua história", dizem os organizadores do livro Intérpretes do Brasil - Cultura e identidade, lançado em 2004 em um estado também cultor da própria história, o Rio Grande do Sul. O caderno especial que ora lançamos segue nessa trilha. Sem provincianismo, que é a doença infantil da questão regional, mas convencido de que há uma singularidade nordestina nas relações Kennedy-Brasil. E com a convicção de que ser universal é pertencer a todos os lugares, mas sem deixar de pertencer ao lugar em que nasceu - seja o Rio Grande do Sul, o Nordeste, Chiuahaua ou qualquer outra comunidade do Brasil ou do mundo.
Oliveira Lima e Nabuco, pioneiros
O primeiro estudo produzido por um brasileiro sobre os Estados Unidos, estabelecendo comparações entre os dois países, é de autoria de um historiador e diplomata pernambucano, Oliveira Lima (1867-1928). Publicado em 1899, com o título Nos Estados Unidos - Impressões políticas e sociais, é resultado de uma vivência de três anos nos EUA e nele Oliveira Lima compara o atraso do Brasil com a modernização e crescimento pelo qual os EUA estavam passando. Em 1912, novo livro, The evolution of Brazil compared with that of Spain and Anglo-Saxon America, fruto de 12 palestras que dera em universidades americanas. Em virtude desses trabalhos ele "pode legitimamente ser considerado como um dos primeiros, senão o founding father [Pai fundador] dos brasilianistas norte-americanos", diz Paulo Roberto Almeida em O Brasil dos Brasilianistas (2001).
Outro pernambucano, o abolicionista e escritor Joaquim Nabuco (1849-1910), também deixou marca na origem das relações entre os dois países. Nabuco foi o primeiro embaixador do Brasil nos EUA, em 1906, aí ficando até a morte, quatro anos depois. Nesse período foi o embaixador mais influente da América Latina em Washington. Era amigo de Elihu Root, secretário de Estado, que ganharia o Prêmio Nobel da Paz em 1912, e um entusiasta da Doutrina Monroe ("A América para o os americanos"), convicto de que sem uma aliança com os EUA o Brasil estaria indefeso diante do expansionismo europeu.
Kennedy descobre o Nordeste. A história vai começar
Os grandes temas internacionais em 1961 eram Cuba, Berlim e o Vietnam. Mas naquele 14 de julho de 1961 o presidente John Kennedy fez um discurso em que colocava uma nova região no mapa da agenda internacional - o Nordeste brasileiro. "Nenhuma área tem maior e mais urgente necessidade de atenção do que o vasto Nordeste do Brasil", disse ele logo na abertura do seu discurso.
O pronunciamento faz parte do acervo da Biblioteca Kennedy, em Boston, Massachussets (EUA). Alguns trechos da fala do presidente - como o que fala do "vasto Nordeste do Brasil" - foram notícias do dia seguinte em grandes jornais do mundo inteiro, inclusive no mais influente de todos, The New York Times. Neste, com foto de Kennedy ao lado de Celso Furtado, superintendente da Sudene (Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste).
No Brasil, impacto e surpresa. A região só merecia atenção em períodos de seca e todos os seus problemas pareciam ser de ordem climática. "O Nordeste é uma causa perdida", era opinião dita mesmo por autoridades brasileiras. conforme conta o professor Stefan Robock, autor de uma das primeiras obras econômicas sobre a região (O Desenvolvimento Econômico do Nordeste, 1963). Mas agora era o homem mais poderoso do planeta que dizia ser aquela região "uma prioridade". Deflagrava-se ali um processo que, no dizer de Robock, hoje professor emérito da Universidade de Columbia, em Nova York, iria "projetar o Nordeste como um foguete no cenário internacional"
O acordo - Menos de um ano depois daquela frase, em 13 de abril de 1962, Kennedy e o presidente do Brasil, João Goulart, assinaram em Washington o Northeast Agreement ("Acordo do Nordeste"). O único acordo assinado pelos EUA, na época, destinado a uma região de um País. Previa um investimento de US$ 131 milhões na região, num prazo de dois anos (feita a atualização para os dias de hoje, seria o equivalente a US$ 650 milhões). Era muito dinheiro, quase o dobro do total do comércio então existente entre Brasil e União Soviética.
O "Acordo do Nordeste" hoje só é lembrado, vagamente, em obras específicas. Para Kennedy era algo tão importante que, por exigência dele, a embaixada no Brasil lhe enviava relatórios diários sobre os andamentos dos trabalhos na região. Foi o primeiro teste da Aliança para o Progresso - cujas metas, oficializadas em 17 de agosto de 1961, na conferência de Punta del Este (Uruguai), ambicionavam levar o desenvolvimento à América Latina em 10 anos, com um investimento (dinheiro público e privado) de US$ 10 bilhões. O mundo vivia sob a Guerra Fria, período em que EUA e URSS disputavam nacos do mundo (sem guerrear entre si; daí a expressão "Guerra Fria", em contraponto à guerra tradicional, "quente"). "A Guerra Fria não será ganha na América Latina. Mas pode ser perdida lá", dizia Kennedy. Com 6 milhões de habitantes, Cuba já era para ele uma gigantesca dor de cabeça - imaginem se o Brasil, com uma população 10 vezes maior, pendesse para a esquerda...
E é aí que o Nordeste entra na história. Ainda como candidato a presidente, em 4 de novembro de 1960, Kennedy fez discurso dizendo que se nada fosse feito a situação de miséria na América Latina iria provocar o aparecimento de "vários Fidel Castro". E citava um dado apavorante: "No Nordeste do Brasil o padrão de vida é tão miserável que em duas cidades de lá, este ano, nenhuma criança sobreviveu a mais de um ano de idade". Ele tomou posse em 20 de janeiro de 1961. No mês seguinte despachou para cá uma missão de auxiliares, como Arthur Schlesinger Jr., atualmente um dos mais respeitados intelectuais dos EUA, e George McGovern, do programa Food for Peace (Alimentos para a Paz). O relatório de Schlesinger Jr., que esteve na Zona da Mata vendo a vida como ela é, deixou Kennedy ainda mais preocupado. Precisava fazer alguma coisa.
Kennedy era um ávido leitor de jornais. Descobrira o Nordeste em duas reportagens publicadas no The New York Times, que tiveram grande repercussão nos EUA. A primeira, em 31 de outubro de 1960, tascava o título: "Pobreza do Nordeste gera ameaça de revolta". A segunda, no dia seguinte, mantinha o fogo alto: "Marxistas estão organizando camponeses no Brasil". Ambas eram de autoria de Tad Szulc, um dos mais conceituados correspondentes internacionais do NYT [veja matéria na página 7].
Tornada foco da atenção internacional, o Nordeste teve também o seu passado vasculhado - e o que se encontrou lá não oferecia tranqüilidade. Havia, primeiro, uma série de rebeliões em Pernambuco; depois, Canudos. No passado mais recente, um acontecimento ainda mais preocupante: em 1935 (ou seja, cerca de 30 anos antes do momento em que se fazia a análise) o Nordeste tivera um levante liderado pelos comunistas, a chamada Intentona Comunista. Nada mais nada menos do que a primeira rebelião comandada por um partido comunista nas Américas. Depois, nas eleições parlamentares de 19..., os comunistas haviam obtido uma grande vitória em Pernambuco: elegeram ...
No passado e no presente, todos os caminhos indicavam que, para os interesses do governo norte-americano, o Nordeste do Brasil era uma região perigosa.O presidente Kennedy não estava divagando ao dizer, naquele 15 de julho de 1961, que esta "vasta região" era sua preocupação mais imediata.
A história ia começar.
Todos os homens do presidente
Durante o governo Kennedy o Nordeste virou rota para os principais auxiliares dele. O primeiro grupo esteve aqui já em fevereiro de 1961, pouco mais de um mês depois de sua posse como presidente. Era comandado por dois peso-pesados: o professor Arthur Schlesinger Jr., atualmente um dos mais respeitados intelectuais dos EUA, e George McGovern, diretor do programa Food for Peace (Alimentos para a Paz) e que anos depois seria candidato - derrotado - a presidente.
Eles estavam em visita a América Latina. Estiveram ainda na Argentina, Peru, Bolívia, Panamá e Venezuela. Em Pernambuco, foram à Zona da Mata, ver a miséria cara-a-cara. Como fica um sofisticado cidadão de primeiro mundo ao deparar-se com a miséria a poucos passos de distância? Estarrecido, foi assim que ficaram Schlesinger Jr. e McGovern. Em 10 de março Schlesinger encaminhou memorando ao presidente Kennedy contando quão urgente era a necessidade de reformas na região.
Em julho de 1961 um irmão de Kennedy, em giro pela América Latina, também esteve aqui. Em Caruaru ganhou um artesanato em barro de Vitalino (um boi). No engenho Galiléia (Vitória de Santo Antão), onde havia surgido as Ligas Camponesas em 1955, encontrou-se com camponeses. De volta aos EUA, enviou para eles um gerador de energia, que ainda está lá (sem uso).
O poderoso Secretário de Defesa, Robert McNamara, que ficou no cargo de 1961 a 1968, foi outro auxiliar direto de Kennedy a visitar o Nordeste. A lista inclui ainda Sargent Shriver, diretor do Peace Corps (Voluntários da Paz), casado com uma irmã do presidente (o "Sargent" é nome próprio, não é patente militar). E Richard Goodwin, que escrevia os discursos de Kennedy e foi o autor do nome Aliança para o Progresso (originalmente concebido em espanhol, Alianza para el progreso).
Ascensão e queda do "Acordo do NE"
Embora hoje desaparecido da historiografia brasileira, o "Acordo do Nordeste" tem características que lhe dão importância internacional. É um caso exemplar para o estudo da ajuda externa e um marco para a reconstituição da interferência norte-americana no Brasil nos anos 60. Virou tese do brasilianista Riordan Roett, depois transformada no livro The Politics of Foreign Aid in the Brazilian Northeast ["A política de ajuda externa no Nordeste do Brasil"], lançado em 1972 nos EUA.
Ele ficou praticamente acertado já durante encontro de Kennedy com Celso Furtado (foto), em 1961. A oficialização veio em 13 de abril de 1962. Estabelecia um investimento de US$ 131 milhões, em dois anos, para obras de curto prazo, e posteriormente obras de longo prazo, em cinco anos, para as quais seriam liberados novos recursos. Não eram doações, mas empréstimos a juros e prazos bem mais favoráveis do que as taxas normais.
A base do programa era o Plano Bohan, mas o próprio Merwin Bohan discordou da forma como Washington tratou do assunto. Ele defendia que as ações deveriam estar subordinadas à Sudene e a participação de especialistas americanos ficaria limitada a uma pequena equipe. Mas os EUA montaram "um império" no Recife. s ficou responsável pela execução do "Acordo". O desentendimento entre USAID (organismo do Departamento de Estado, responsável pela execução do "Acordo")e a Sudene não tardou. A Sudene entendia que cabia a ela a direção dos trabalhos, e os americanos dariam apenas suporte e financiamento. A USAID pensava diferente - a realização dos trabalhos não envolvia subordinação à Sudene.
A visão dos problemas do Nordeste também eram conflitantes. Para a Sudene o problema era de desenvolvimento; para a USAID, embora isso verdade, a principal questão era de segurança - de impedir que a região viesse (pelas armas ou pelo voto) a ser tomada pelos comunistas nacionalistas ou esquerdistas, um trio que na visão dos EUA era uma coisa só.
Os americanos começaram então a fazer convênios direto com os estados, passando por cima da autoridade da Sudene e do próprio governo federal - tornou-se um caso de discussão sobre a soberania nacional. O impasse só foi resolvido com o golpe militar, quando Furtado e sua equipe foram exonerados. Do "Acordo do Nordeste" só obras de curto prazo (que tinham o objetivo imediato de enfrentar a influência esquerdista na região) foram executadas. As de longo prazo nunca saíram do papel. Em 1970, no governo de Richard Nixon, a Aliança para o Progresso foi extinta.
O Nordeste, segundo a CIA
O Nordeste era uma região "potencialmente explosiva", os comunistas e seus simpatizantes estavam a ponto de ganhar as eleições e "assumir o controle político" no Recife e em Pernambuco e o "aumento de 30% nos gêneros de primeira necessidade" favoreciam a agitação na região. Para completar, havia líderes "pró-comunistas" como Francisco Julião e Miguel Arraes, em ascensão eleitoral: havia técnicos como Celso Furtado, um profissional "respeitável" mas que tivera ligações com "o movimento comunista" no passado e mantinha no presente relações com a "extrema esquerda e nacionalistas” , como se não bastasse, havia ainda a seca, que levava os nordestinos a saquear armazéns. Tudo isso numa área que, em pobreza, era "comparável ao Haiti".
Este era o Nordeste descrito em relatórios produzidos pela CIA em 1961, 1962 e 1963 - todos eles lidos pela reportagem do DIARIO. Estão liberados para consulta pública, mas até agora nunca haviam sido pesquisados para um trabalho específico sobre o Nordeste. Com relação a questões nacionais, o tom dispensado a João Goulart é sempre hostil. O presidente brasileiro, que acabou derrubado pelo golpe militar de março de 1964, não passava de "um oportunista", conforme os relatórios.
Os integrantes da CIA usavam os consulados como base. No Recife havia um agente em 1961; dois em 1963 e quatro em 1965.
Arquivos abertos - Nos EUA existem desde 1966 a Lei de Liberdade de Informação, pela qual após determinado prazo são liberados alguns documentos confidenciais. A consulta dos relatórios da CIA pode ser feita no próprio site da Agência (www.cia.gov). Nos documentos liberados às vezes há trechos cobertos por tarjas; significa que sua revelação ainda pode prejudicar "a defesa do Estado". Ocorrem casos em que o mesmo documento é liberado em anos diferentes e, nesses casos, a liberação posterior traz o texto já sem as tarjas. Um exemplo: o relatório sobre a capacidade de "influência subversiva" de Fidel Castro na América Latina, produzido em 9 de novembro de 1962. Na primeira liberação um trecho estava coberto; só na segunda liberação (em 14 de março de 2000) desaparece a tarja e podemos ler que se trata de uma referência ao Nordeste - região brasileira que, segundo o relatório, "possibilitava a Castro muitas oportunidades".
Alguns trechos dos relatórios:
Ligas Camponesas (I): "Julião visitou Cuba e a China Comunista, e as Ligas são fortemente infiltradas por comunistas. Muitos dos seus membros são simpatizantes da nova Cuba" (The outlook for Brazil / "Perspectiva para o Brasil", em 8 de agosto de 1961)
Ligas Camponesas (II): "As Ligas Camponesas, fundadas em meados dos anos 50, por líderes comunistas e socialistas para agitar a região por reformas rurais, existem em muitas partes do empobrecido Nordeste do Brasil. (...) Francisco Julião, o principal líder das Ligas, iniciou cooperação com o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), dissidente do PCB, e que é pró-Pequim e favorável à violência revolucionária". (Peasant leagues in northeastern Brazil - "Ligas Camponesas no Nordeste do Brasil" / 1º de junho de 1962)
Previsão para o Nordeste em 1962: "O PCB e os aliados pró-Castro provavelmente manterão o pobre e rural Nordeste em agitação. Lá, os 25 mil membros das Ligas Camponesas, lideradas pelo pró-comunista e pró-Castro Francisco Julião tornou-se uma poderosa força de agitação entre os trabalhadores rurais" (The outlook for Brazil - "Perspectivas para o Brasil", 8 de agosto de 1961)
Ganhos da esquerda em 1961: "Os comunistas e seus aliados no Brasil obtiveram grandes ganhos nas últimas semanas, particularmente no Nordeste do país (...)" (Leftists gains in Brazil / "Ganhos da esquerda no Brasil", 15 de dezembro de 1961)
Conflitos pela reforma agrária: "O problema da reforma agrária está-se tornando uma aguda questão política. Já resultou em conflitos e pode provocar outros ainda mais sérios, em vista dos informes sobre a distribuição de armas para grupos de camponeses no Nordeste e no Rio Grande do Sul". (Brazil's six months under Goulart - "Seis meses do governo Goulart" / 23 de março de 1962)
Eleições em Pernambuco: "As três disputas governamentais mais significativas serão ao que tudo indica as de Pernambuco, o mais importante estado do empobrecido Nordeste brasileiro; de São Paulo, o coração industrial do Brasil, e do Rio Grande Sul, que é o estado do esquerdista presidente Goulart e do seu cunhado, Leonel Brizola, anti-Estados Unidos"
(The brazilian elections - "As eleições brasileiras" / 5 de outubro de 1962)
Celso Furtado: "É um respeitado economista e planejador, com uma eclética, mas predominante atitude estatizante. Foi anteriormente ativo no movimento comunista e ainda mantém estreita aproximação com a esquerda radical e com elementos nacionalistas “. (The character of the Goulart regime in Brazil - "Característica do governo Goulart" / 27 de fevereiro de 1963)
Comunistas em Pernambuco: "Os comunistas e seus aliados podem estar ganhando o controle da cidade do Recife e do Estado de Pernambuco, onde exercem uma forte influência" (Situation and prospect in Brazil / "Situação e perspectiva do Brasil",10 de julho de 1963)
A invasão que não houve
O governo brasileiro "sabia" que o Pentágono formulara um plano de emergência para invadir o Nordeste, afirma o escritor e historiador Moniz Bandeira. O plano, diz ele, surgira em virtude do temor dos Estados Unidos de que na região nordestina explodisse uma revolução ou conflito de grandes proporções sob inspiração de Cuba. Moniz Bandeira é o maior estudioso brasileiro do governo João Goulart e das relações Estados Unidos-América Latina, assuntos que há 40 anos estão no centro de suas obras. É autor de O governo João Goulart (lançado em 1978 e hoje na 7a. edição) e de Formação do Império Americano (2005). Em 6 de agosto último recebeu o prêmio de Intelectual do Ano (troféu Juca Pato, concedido pela União Brasileira de Escritores).
Em relação aos estudos sobre o período Goulart, as principais fontes de Bandeira são entrevistas com personagens daquele período (como o próprio Goulart), os arquivos desses personagens e documentação de arquivos tanto nacionais quanto dos EUA. Dessa documentação consultada por ele faz parte um informe encaminhado a João Goulart pelo SCIFI (o serviço de informações do governo) sobre "um campo de pouso clandestino em Teresina (PI)", que faria parte, segundo Bandeira, de uma "operação especial" organizada pela CIA para a eventualidade de uma invasão. O Itamaraty já atentara também para o alto número de vistos solicitados pelo embaixador Lincoln Gordon para norte-americanos que vinham ao Brasil. Só em 1962 chegaram aqui 4.968 americanos, marca superior a todos os anos anteriores, inclusive os da II Guerra Mundial, quando os EUA montaram bases militares no país. "A maioria deles tinha como destino o Nordeste", afirma Bandeira. Cientista político, professor titular (aposentado) de história da política exterior do Brasil, na UnB (Universidade de Brasília), Bandeira mora hoje na Alemanha. Esteve no Brasil no início de agosto, para receber o Juca Pato, quando falou com o Diario.
O golpe - A "ocupação do Nordeste" esteve no centro de uma dramática conversa entre o ministro San Tiago Dantas e o presidente João Goulart, em 31 de março de 1964, no Rio de Janeiro. A conversa foi relatada a Moniz Bandeira pelo próprio Goulart, em entrevista. As tropas golpistas do general Mourão já haviam saído de Minas Gerais. O governo contorcia-se, diante da queda iminente. San Tiago obtivera informações de que os EUA apoiavam o golpe. E, com certeza, disse ao presidente, iriam ocupar o Nordeste, onde já estariam vivendo como civis cerca de 5 mil militares.
Para Moniz Bandeira, ainda há muitas histórias a ser contadas da relação dessa época entre os Estados Unidos e o Brasil - particularmente no Nordeste. Ele reclama da pouca presença de pesquisadores brasileiros nesta área.
Armas e infiltração
Duas histórias da época em que a CIA estava com os olhos - e os pés - postos no Nordeste.
1) À meia-noite de 16 de julho de 1963 um misterioso submarino chegou à costa pernambucana. Era norte-americano, prefixo WZI-0983, seu comandante provavelmente chamava-se Roy, sobrinho de um general norte-americano chamado Mac Clark. Desembarcou em Pernambuco 750 brazucas, revólveres, espingardas e granadas, que foram transportadas para estados do Nordeste. Generais brasileiros, reformados, estiveram no desembarque. Tudo isso consta de um informe do SCIFI (Serviço Federal de Informações e Contra-Informações, órgão do governo federal), encaminhado ao presidente João Goulart e que hoje faz parte do acervo do governo dele, guardado no CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil), no Rio de Janeiro. A chegada de armas já era, em si, um fato grave. Mais ainda porque parte delas era fabricada na Tcheco-Eslováquia, na época um país comunista. O que diabos armas tchecas estavam fazendo numsubmarino americano? A suposição: era uma tentativa de provocação. Para que - quando necessário - fossem "apreendidas" e mostradas como prova de que os comunistas estavam armando "revolucionários nordestinos".
2) Havia no Recife um grupo de militantes dedicado única e exclusivamente à agitação. Mas não uma agitação como as outras. Eles recebiam dinheiro da CIA para imprimir publicações marxistas e distribui-las na cidade. O objetivo de sempre: confirmar a "penetração comunista" no Nordeste. Os recursos eram utilizados também para imprimir panfletos anunciando comícios e reuniões das Ligas Camponesas e assegurando que o líder do movimento, Francisco Julião, estaria presente. O problema é que nem Julião iria fazer-se presente nem havia os comícios e reuniões. Quando o povo chegava lá alguns elementos infiltrados (ligados àquele "grupo") provocavam brigas e desordens, tentando associar as Ligas e Julião à baderna. Quem conta esta história é o missionário norte-americano Fred Morris. Seu depoimento está no livro da pesquisadora Jan Knippers Black, United States penetration of Brazil (A penetração dos Estados Unidos no Brasil), publicado em 1977 nos EUA. Obra citada por estudiosos estrangeiros e brasileiros, é um minucioso levantamento da interferência americana no Brasil naquele período.
O padre, o agente secreto e um mistério
O sindicalismo e o cooperativismo rural pernambucano tiveram, nas suas origens, a participação da CIA, com dinheiro para pagamento de salários, realização de cursos e o envio para cá de um agente secreto, que veio trabalhar como "especialista em cooperativismo". A participação deu-se por meio de convênios com a CLUSA (Liga Cooperativa dos Estados Unidos), uma entidade privada norte-americana que era destinatária de recursos da CIA.
Após o golpe militar outra organização privada dos EUA, o Iadesil (Instituto Americano para o Desenvolvimento do Trabalho Livre), que tinha ligações com o governo norte-americano, também passou a atuar no movimento rural pernambucano. Convênios com esta última resultaram na construção de três centros sociais para a Fetape, em Carpina, Garanhuns e Ribeirão. Todos ainda em funcionamento.
O contato da CLUSA e do Iadesil em Pernambuco foi o padre Crespo, criador do Sorpe (Serviço de Orientação Rural de Pernambuco), entidade apoiada pela Igreja. No embate que se travava no campo pernambucano, no início dos anos 60, o padre Crespo e o Sorpe eram a ponta de lança da Igreja Católica para a fundação de sindicatos rurais. Tinham a oposição das Ligas Camponesas e do PCB - contrários à ação considerada moderada do Sorpe, que evitava conflitos e não queria saber de invasão de terras nem muito menos de "reforma agrária na lei ou na marra" (palavra de ordem das Ligas Camponesas).
Um exemplo da ligação deste movimento rural com os Estados Unidos verificou-se em novembro de 1962, com um fato inimaginável para os dias de hoje: no encerramento de um encontro de sindicalistas rurais de cinco estados do Nordeste, um dos participantes do ato foi o cônsul dos EUA no Recife, Lowell Killday.
Fetape - Ativo, conhecedor da área (nasceu em Bom Conselho) e com sólida formação teórica (formou-se em Paris), padre Crespo vivia cruzando canaviais a bordo de um fusquinha cujo ano não lembra mais, e vestindo uma batina cinza - esta com a qual aparece na foto ao lado. O trabalho logo rendeu frutos. A hoje poderosa Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Pernambuco (Fetape) é resultado da ação dele. Criada em 6 de junho de 1962, obteve o reconhecimento do Ministério do Trabalho em 17 de outubro daquele ano - a primeira federação de trabalhadores rurais do Brasil surgiu em Pernambuco e sob inspiração da Igreja Católica. Na época, eram necessários cinco sindicatos legalizados para formar uma federação. O Sorpe tinha o controle dos sindicatos de Caruaru, Lajedo, Limoeiro, Timbaúba e Vitória de Santo Antão. Depois veio a criação das cooperativas mistas de trabalhadores, novamente a partir da ação do Sorpe do padre Crespo.
As ligações da CLUSA com a CIA foram reveladas em maio de 1967, em reportagem do The New York Times. Depois disso o Sorpe rescindiu o contrato com ela e "devolveu" (a expressão é do padre Crespo) o agente secreto. O brasilianista Joseph Page cita o caso deste agente, no livro A Revolução que nunca houve, sem mencionar o nome. O padre Crespo dá o nome: Thimoteo Rogen. Mas enfatiza: não sabia queele tivesse qualquer ligação com a CIA. Nunca teve qualquer indicação neste sentido, assegura. Quem também lembra do Thimoteo é o hoje sociólogo Francisco de Oliveira, que naquela época ocupava a superintendência-adjunta da Sudene. Conta que já havia então desconfianças sobre a verdadeira identidade dele, e que nunca aceitou aproximação com ele. "Ele queria era me cooptar", afirma. Em 1966 o arcebispo de Olinda e Recife, D. Hélder Câmara, também fazia a sua advertência sobre a relação com as entidades americanas: "Ficai alerta a ajudas que forem propostas em nome de sindicatos livres, pois elas são criadoras de peleguismo".
"Nem comunista nem capitalista" - Padre Crespo vive numa casa ampla mas modesta, cheia de galinhas no quintal, no Janga, subúrbio do município de Paulista (Região Metropolitana do Recife). Aos 74 anos, é pai de nove filhos. Cursou o mestrado em comunicação rural na UFRPE e fez de sua trajetória no campo o tema da dissertação Comunicação e Libertação - Relato analítico da trajetória de ummilitante junto a camponeses em Pernambuco, 1955-1990, apresentada em 2003. Licenciou-se da Igreja em 1972, para casar. D. Hélder Câmara foi quem celebrou o casamento. Como padre licenciado, continuou atuando na Igreja. Depois do golpe de 64 chegou a ser investigado pelos militares. Havia mandado um telegrama a João Goulart, apoiando as medidas a favor da reforma agrária. Mas nunca foi preso. Diz-se um homem sem ideologia, nem comunista nem capitalista, que defendeu os camponeses sempre seguindo a doutrina da Igreja. Com firmeza, conta ele, mas evitando conflitos e sem em nenhum momento aceitar a opção pela violência. Tem uma profunda admiração pelos Kennedy, em particular por Robert Kennedy, ao lado de quem andou pelos canaviais de Carpina (PE), quando o irmão do presidente americano esteve aqui em novembro de 1965.
A seguir, trechos da entrevista que, com a voz pausada e cercado de lembranças, concedeu ao Diario:
Entrevista [ Padre Crespo ]
Diario de Pernambuco: Como foi o seu contato com as entidades ligadas à CIA?
Padre Crespo: Havia no Nordeste na época uns 400 funcionários da USAID, era o trabalho de cooperação com o Nordeste, mas nenhum deles trazia na testa a sigla CIA.
Diario: O técnico em cooperativismo que veio trabalhar com o Sorpe na organização das cooperativas era um agente da CIA. O senhor tinha alguma informação sobre isso? Quanto tempo ele ficou aqui?
Padre Crespo: Ele era técnico em cooperativismo. Chegou aqui como técnico em cooperativismo. Conhecia muito o assunto, nos ajudou muito. Em 1968 começaram os rumores de que ele era da CIA e aí nós rescindimos o convênio e o devolvemos para a Liga das Cooperativas Americanas [CLUSA]. Foi uma perda grande para o movimento cooperativista, criamos 18 cooperativas com a ajuda dele. Então, o trabalho dele foi de grande importância para a gente, mas consideramos que era mais prudente agir assim, encerrando os convênios.
Diario: O senhor lembra-se do nome dele?
Padre Crespo: Claro, trabalhamos juntos durante anos, como é que eu ia esquecer? Era Thimoteo Rogen [ele soletra o nome, a pedido do repórter].
Diario: O senhor voltou a ter algum contato com ele depois disso?
Padre Crespo: Não, nunca mais.
Diario: Ele falava português?
Padre Crespo: Falava, muito bem.
Diario: O que ele disse quando vocês rescindiram o contrato?
Padre Crespo: Ele disse que não era da CIA.
Diario: Como foi o início dos contatos com a Liga das Cooperativas Americanas e com o Iadesil?
Padre Crespo: A Fetape já estava criada [em 1962] e era preciso que começássemos a criar as cooperativas. Era um momento em que precisávamos de uma melhor estrutura. Fui a uma reunião em São Paulo e lá encontrei um representante da organização sindical americana. Mais tarde a Liga das Cooperativas Americanas mandou um técnico em cooperativismo para nos ajudar a organizar as cooperativas.
Diario: Como foram os convênios?
Padre Crespo: Transparentes, todos transparentes, nada encoberto. Foi um convênio em que também participaram a Fetape, o Ministério do Trabalho, o Sorpe, a Liga das Cooperativas Americanas. A gente recebia recursos financeiros para montar a infra-estrutura das cooperativas, recebia recursos técnicos para a capacitação de lideranças, e recebemos um técnico em cooperativismo para nos ajudar, o Thimoteo.
Diario: E os os três centros sociais que a Fetape tem hoje?
Padre Crespo: Todos tiveram escritura pública passada para a Fetape, e com programas coordenados pela Fetape. Cada um deles, em Carpina, Garanhuns e Ribeirão, foi construído num terreno de 1 hectare. Diziam que a gente estava entregando o movimento aos americanos... Mas tudo era coordenado pela Fetape. E nós exigimos desde o início a escritura da doação do terreno e da doação do prédio. Nunca houve ingerência dos americanos, e esses centros ainda hoje servem à Fetape, como um espaço para debate, formação de lideranças.
"Sem levar o camponês ao extremo da revolta"
"O jovem agente da CIA que trabalhava como técnico da Liga Cooperativa (CLUSA) tinha se movimentado de modo rápido e silencioso para desenvolver contatos estreitos com o Sorpe e com o padre Crespo. Dentro de pouco tempo ele estava canalizando recursos da CIA para dentro do movimento a fim de ajudar no pagamento de salários e despesas do Sorpe e atrair pessoas que, de outro modo, poderiam não ter contribuído com seus esforços para o sindicalismo rural. Ele também trabalhou de maneira efetiva com as pessoas do Sorpe para estimular os novos sindicatos rurais e fundar cooperativas que poderiam fornecer uma ampla variedade de serviços agrícolas. Estas cooperativas futuramente produziram benefícios materiais para os seus membros. Mas de maior importância para os interesses da segurança dos Estados Unidos foi o fato de que sua organização e sua administração desviaram os líderes camponeses das lutas políticas no interior pernambucano, onde eles poderiam ter sido envolvidos nos esforços para obter modificações radicais no status quo. Embora tenha sido utilizado o descontentamento para convencer os camponeses a formar as cooperativas, o movimento cooperativista nunca negou sua aceitação das estruturas políticas e econômicas existentes. Certa vez, o próprio homem da CIA-CLUSA observou: "Ao convencer o camponês de que a miséria de sua condição é desnecessária, deve-se tomar o cuidado de não empurrá-lo até o extremo da revolta contra as autoridades e os interesses constituídos que o têm mantido no seu estado atual". Ao todo, a estratégia da CIA
La Alianza para el Progreso lanzada en 1960 por el presidente John F. Kennedy fue quizás la experiencia más importante de la región para acelerar el desarrollo. Kennedy escogió a noreste brasileño (entonces la región más pobre del planeta) para su lanzamiento. Varios presidentes estuvieron ese momento inaugurando un período que se creía diferente y de cooperación en las relaciones hemisféricas. Entonces Kennedy comprometió nada menos que 100.000 millones de dólares para el desarrollo de la región. El proyecto quedó truncado con el asesinato de Kennedy y Johnson lo desactivó y, la de Alianza para el Progreso quedó en Bolivia algunos letreros y nada más.
Gente ! Mesmo fora do contêxto do tempo e do momento político,esta matéria não é um tanto "apimentada"?
Aposto ue vai gerar uma "revolução"pelo menos na Comunidde,querem apostar ?
Meu caro Raí, como se sabe, quem conta a história sao os vencedores, e quem domina o passado condiciona o futuro... Nao entendo ese anti-americanismo presente na cultura brasileira quando muitas vezes os encontros culturais entre estes dois povos resultaram em grandes conquistas estéteticas. Parece-nos ainda que temos esperança nas ideologias totalitárias de esquerda ou de direita... vale a pena, numa abordagem histórica ver estes documentários:
E nao esquecer que a Cuba revolucionária assassinou mais pessoas quetodas as ditaduras da América Latina, além de reprimir manifestaçoes culturais como Compai Segundo, Buena Vista Social Club, durante décadas... Vale a pena uma abordagem histórica "ipsi factum" de toda essa herança. Ver para crer. Cordias saudaçoes