O QUE TOM JOBIN E VINICIUS DE MORAIS TÊM A VER COM BRASÍLIA?

Jornal da Globo
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Edição do dia 19/04/2010
O que Tom Jobim e Vinícius de Moraes têm a ver com Brasília?
Quando foi inaugurada, há 50 anos, Brasília teve um profundo impacto na vida do país. Hoje, meio século depois, a gente enxerga o que os contemporâneos da inauguração da capital ainda não podiam ver.
Fábio William
Brasília, DF

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Brasília mudou até uma das nossas principais raízes culturais: a música. A história das duas, da música brasileira e de Brasília, tornou-se inseparável e é o tema central de nossa série de reportagens especiais sobre Brasília e o ritmo nacional.

"Brasília tinha uma coisa no começo: todo mundo vinha triste porque tinha deixado seu lugar", diz a cantora, Zélia Duncan. "A música era o antídoto, era que elas tinham para matar a saudade era a música", relembra o jornalista, Irlan Rocha.

Década de 1950: Rio de Janeiro, capital. O quadro político é incerto. O suicídio de Getúlio, afastamento por doença do vice, Café Filho, e em meio a tudo isso uma mudança de rítmo.
Juscelino Kubischek é eleito presidente e seu principal projeto era construir Brasília e mudar a capital.

O Rio de Janeiro reage. Juscelino é criticado em verso e prosa. A música "Presidente Bossa Nova", de Juca Chaves, é censurada, mas o próprio Juscelino acaba com a proibição e convida o cantor para conhecer as obras da nova capital.

"Eu fui até Brasília, tirei o sapato, ele tirou também. Ele foi muito simpático, estava de meia, que por coincidência não estava furada. Afinal é o presidente e eu cantei com ele as minhas modinhas", relembra o compositor, Juca Chaves.

Surdo às críticas, Juscelino tocava Brasília como um maestro rege a orquestra, conta o primo e ex-assessor Carlos Murilo.

"Ele virava para os operários e 'olha lá hein, nós garantimos, eu estou garantindo que vai porque eu estou confiando em vocês hein, nós vamos inaugurar no 21 de abril, não vamos?' 'Vamos doutor'. Era assim o negócio".

Entre aplausos e críticas, Juscelino relaxava com as serestas que promovia no Catetinho, o palácio provisório de madeira e qual era a música preferida?

'Granada' era a música número um na preferência do presidente, garante o seresteiro Fernando Lopes. Em segundo vinha 'Peixe-Vivo'. 50 anos depois, em uma roda de amigos, ele relembra o dia em que foi apresentado a JK.

"Eu aquele neguinho lá do interior, oiá na cara do homem, Presidente da República, ô meu Deus do céu, o crioulo arrepiava mais, parecia pai de santo em terreiro de macumba", relembra Fernando.

Os santos também tiveram seu papel na construção da capital, que o diga Israel Pinheiro, o grande gerente das obras. Quase todos os dias ele visitava a ermida que mandou construir para Dom Bosco: o santo de devoção.

"Um dia, em 1959, o motorista ficou apreensivo. De repente ouviu umas vozes fortes. 'Ô, não-sei-o-quê', ele começou a se assustar nisso. 'Será que tem algum animal, alguma coisa ali com o doutor Israel?' Assim ele tomou a liberdade de descer e encontrar o doutor Israel Pinheiro olhando para o santo e dizendo: 'mas não combinamos que a obra estava pronta em tal dia? Os tratores que não vieram? Os transformadores que não vieram?'. Estava dando a maior bronca no santo", conta o historiador, Adilson Vasconcelos.

O ritmo era alucinante. Os prédios projetados por Oscar Niemeyer brotavam como notas musicais na grande partitura, o desenho da cidade, criado por Lúcio Costa.
"Tem um texto em que ele diz assim: 'arquitetura e música são irmãs'", relembra a filha de JK, Maria Elisa Costa.

Mas em janeiro de 1959 a melodia desafinou. Bernardo Sayão, o desbravador da capital, que havia recebido de Juscelino a missão de também construir a rodovia Belém-Brasília através da floresta amazônica, é atingido por uma árvore que cai sobre a barraca dele.

"Quando Bernardo Sayão morreu, parou Brasília. Foi a única vez que parou Brasília um dia foi a morte de Bernardo Sayão", comenta Carlos Murilo.

Mas a obra não podia parar, lembra Kléber Farias Pinto, um dos engenheiros que vieram para construir a nova capital. Entre as muitas histórias que tem para contar, uma ele considera especial.

Juscelino convidou Tom Jobim e Vinícius de Moraes para passar uma temporada no catetinho e compor uma sinfonia para tocar no dia da inauguração. Certa noite, depois do jantar, os dois caminhavam em volta do Palácio de Madeira.

"Quando ouviram o barulho da água daqui, que é atrás do Catetinho, perguntaram para o vigia, 'mas que barulho de água é esse aqui?' Você não sabe não? É aqui que tem água de beber, camará."

Assim conheceram a fonte, de água e de inspiração para a primeira música composta em Brasília. Kleber foi um dos primeiros a ouvir a música, cantada por Tom e Vinícius no único hotel da cidade horas depois de compô-la. Para mostrar que a história é verdadeira, guarda até hoje uma declaração escrita do próprio Tom Jobim.

O que muita gente duvidava aconteceu. Alguns achavam que Brasília não passaria de um palácio de tábuas. Depois de três anos e meio, contrariando previsões, críticas e desconfianças, chega o grande dia: 21 de abril de 1969. Quem participou da festa, gostou do que viu.

"Cantava na rua, passavam os carros cantando, sabe como é a orquestra cantando tocando. A música era: 'Brasília capital da esperança, despera o povo brasileiro'. Eu fiquei maravilhada e falei: 'aqui é que eu vou ficar, morar, viver e morrer'", relembra a pioneira de Brasília, Albertina Rodrigues.

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Respostas a este tópico

Marcos: Como é o processo de criação de certos mitos! Muitas vezes, nada têm a ver com a realidade. Um abraço.
Caros
Sei que posso ser trucidado principalmente pela quantidade de mineiros que frequentam esse espaço, porem não poderia deixar de dar meus "pitacos" nesse tema.
Criaram um mito, JK, não vou aqui desqualifica-lo, muito pelo contrario, teve seu valor, porem a construção de Brasilia como foi, da maneira que foi construida, velocidade de obra, gastança desmedida, quase sem controle, deu no que deu.
O pais se endividou sobremaneira, e se tornou dependente economicamente das potencias ocidentais, logo em seguida ao governo JK, assume um governo com vies esquerdista, economicamente dependente dos Yankes, deu nisso que já sabemos.
Governo com a economia totalmente desbalanceada, com dividas até o ultimo fio de cabelo sem autonomia.
Aos defensores e adoradores de JK, me perdoem mas sua passagem pelo governo nos deixou Brasilia, sim otimo, porem, tambem nos deixou uma conta do tamanho de Brasilia que ninguem se lembra.
Abraços
Sebastião: A construção de Brasilia pode ser vista desde dois ângulos. Por um lado representou um custo financeiro muito alto para o país, desequilibrando suas finanças, transferindo renda de uns segmentos da sociedade para outros, gerando muita corrução. Desde outro ângulo, entretanto, representou o aproveitamento de capacidade ociosa e mão-de-obra desempregada, ou seja, um custo social relativamente baixo, para construir uma grande cidade que alterou a dinâmica da concentração geográfica da população no litoral, possibilitando um melhor aproveitamento de terras e outros recursos naturais no interior do país. Uma avaliação equilibrada requereria considerar estes dois aspectos. A meu modo de ver, o segundo aspecto mais que compensa as desvantagens do primeiro aspecto. O saldo é, portanto, positivo. Um abraço.
Marcos: Você adiciona vários aspectos importantes em termos de vantagens da criação de Brasilia, complementando a resposta que dei, mais acima, ao comentário negativista de Sebastião de Oliveira. Um abraço.

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