Inspirada, e até comovida, por dois vídeos de e sobre Clara Nunes, postados pelo Fernando Luiz na minha página e por um post de Adriano Ribeiro, colocado em destaque pelo Nassif, acho que a gente bem que poderia montar um retrato com elementos da história do samba, das suas origens e dos registros mais significativos que ainda se mantém preservados (como o jongo, o samba de roda), além daqueles registros e intérpretes que denunciam a grande beleza deste ritmo que tão bem interpreta a alma nacional.

 

 

 

 



E aqui a prova de que ele é eterno:

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Respostas a este tópico

o samba é misturado, sem ponto de origem. mas se houvesse um seria esse, o lundu, dançado pelos escravos, nesse registro de Rugendas:



nas Cartas Chlilenas, o poeta já dizia:

A ligeira mulata, em trajes de homens,
Dança o quente lundu e o vil batuque,
E, aos cantos do passeio, inda se fazem
Ações mais feias, que a modéstia oculta.
Meu caro Doroteu, meu doce amigo.


há um lundu gravado em 1902, de Xisto Bahia, regravado também por Nara Leão:

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um registro do lundu, cantado recentemente, que Cartola ouvia da sua vovó:

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eita, simone que sabe das coisas!
e pelo jeito começamos pelo começo!
mas vou procurar um vídeo (que um dia vi por aqui mesmo) que mostra outros começos...
(mas quem quiser pode começar pelo fim, pelo meio...)
Oi Simone.

O professor Muniz Sodré, no seu livro "Samba, o dono do corpo" (Mauad, 1998), comenta sobre duas manifestações distintas do lundu - uma mais branda, mais urbana, teria sido o primeiro ritmo negro a ser aceito pelos brancos. Ele chama esse processo de "crioulização":

"Na verdade, é a primeira (dança de origem negra) a crioulizar-se, a se tornar mulata. E foi precisamente um mulato, Domingos Caldas Barbosa, que no final do século XVIII dera início à voga do lundu-canção, forma que possibilitaria a aceitação desse ritmo pela sociedade branca".

A outra manifestação do lundu, mais "selvagem" e rural, seria o lundu-chorado:

"No lundu-chorado, acentuavam-se o maneio dos quadris, o jogo do corpo, o movimento sensual das mãos. Do lundu, assim fala Oliveira Martins: '(...) era uma feiticeira melodia sibarita, em lânguidos compassos entrecortados, como quando falta o fôlego, numa embriaguez de sensualidade voluptuosa' ".
Então...
o começo se começa com o registro da simone.

aqui outros detalhes desta história:

O samba, como conhecemos atualmente, tem origem afro-baiana, temperado com misturas cariocas. Nasceu da influência de ritmos africanos, adaptados para a realidade dos escravos brasileiros e, ao longo do tempo, sofreu inúmeras transformações de caráter social, econômico e musical até atingir as características conhecidas hoje.

O gênero, descendente do lundu (canto e dança populares no Brasil do século XVIII), começou como dança de roda originada em Angola e trazida pelos escravos, principalmente para a região da Bahia. Também conhecido por umbigada ou batuque, consistia em um dançarino no centro de uma roda, que dançava ao som de palmas, coro e objetos de percussão e dava uma ''umbigada'' em outro companheiro da roda, convidando-o a entrar no meio do círculo.

Com a transferência, no meio do século XIX, da mão-de-obra escrava da Bahia para o Vale do Paraíba e, logo após, o declínio da produção de café e a abolição da escravatura, os negros deslocaram-se em direção a capital do país, Rio de Janeiro.

Instalados nos bairros cariocas de Gamboa e Saúde, eles dariam início à divulgação dos ritmos africanos na Corte. Eram nas casas das tias baianas, como Amélia, Ciata e Prisciliana, que aconteciam as festas de terreiro, as umbigadas e as marcações de capoeira ao som de batuques e pandeiros. Essas manifestações culturais propiciariam, conseqüentemente, a incorporação de características de outros gêneros cultivados na cidade, como a polca, o maxixe e o xote. O samba carioca urbano ganha a cara e os ritmos conhecidos.

Em 1917 foi gravado em disco o primeiro samba chamado ''Pelo Telefone''. A música, de autoria reivindicada por Donga (Ernesto dos Santos), geraria polêmica uma vez que, naquele tempo, a composição era feita em conjunto. Essa canção, por exemplo, foi criada numa roda de partido alto (pessoas que partilhavam dos antigos conhecimentos do samba e designava música de alta qualidade), do qual também participaram Mauro de Almeida e Sinhô (José Barbosa da Silva), que se auto-intitulou ''o rei do samba''.

aqui está a fonte do dito acima:
http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT865240-1655-1,00.html
e o primeiro samba, Pelo Telefone:
Luzete, super iniciativa, é sempre bom falar de samba. Mas sobretudo é sempre maravilhoso ouvir, cantar, tocar e dançar samba.

Entre os diversos estilos do samba, um dos que mais me encanta é o partido alto - pela beleza concisa dos refrões e improvisos - simples, precisos e saborosos, quase sempre com muito humor. Transcrevo aqui pequeno trecho do artigo "Partido Alto: a receita do samba integral", do grande pesquisador e sambista Nei Lopes - ele mesmo um exímio partideiro (1):

“Dentre os inúmeros estilos e formatos existentes no amplo universo do samba, o partido-alto é aquela variedade em que, depois de entoado o coro e o refrão, estribilho e primeira parte, dois ou mais cantores, alternadamente, improvisam ou interpretam de memória solos constantes de versos preferencialmente alusivos ao tema inicial, depois do quê o coro retoma sua parte. E assim sucessivamente.

Talvez uma das últimas manifestações do folclore musical tipicamente carioca, essa qualidade de samba nasceu da interação de outros estilos e gêneros musicais, de várias regiões do país, para se constituir num modelo de cantoria, assim entendida a arte ou ação de cantar e ‘tirar versos’, quase sempre em caráter de disputa ou desafio, praticada pelos cantadores populares do Brasil.

De remota origem africana, caracterizada pelo padrão ‘interpretação e resposta’ expresso na interação entre solista e coro, o partido-alto, tal como hoje o conhecemos, tem presença assinalada das rodas do samba carioca provavelmente a partir da década de 1910, quando ainda trazia forte influência, principalmente, dos sambas e chulas campestres ou litorâneos do Recôncavo Baiano e da região do Médio São Francisco. Chegadas ao Rio provavelmente a partir da década de 1870 – quando diversas correntes históricas fizeram da cidade o pólo de atração, por excelência, das camadas mais pobres da população nacional, com destaque para os trabalhadores afro-brasileiros de todo gênero – essas formas, ainda bastante próximas de seu substrato banto, foram aqui se amalgamando com outras de igual extração, vindas do interior fluminense, da Zona da Mata mineira, do Vale do Paraíba, etc”

Aqui um exemplo de partido-alto, "Barracão é seu", com Clementina de Jesus e João da Gente:



Esse outro exemplo é do tipo "partido cortado", em que, segundo Nei Lopes, "a parte solada é uma quadra e o refrão é intercalado ou raiado entre cada linha ou verso dela (...)" - o partido é o "Tute de madame", com Tantinho (que aparece anda bem novo no vídeo aí embaixo, dançando miudinho e tocando com o CAndeia, Osmar do Cavaco e o Wilson Moreira) e Marquinho China:


Aliás, tive a sorte de estar presente numa roda de partido no Candangueiro (Niterói), num sábado à tarde há mais de dez anos, em que brilharam no partido cortado os saudosos Nilton Campolino e Xangô da Mangueira, além do próprio Nei Lopes. No partido "Quem mandou duvidar" eles versaram e improvisaram por "horas", beleza em estado puro.

Por fim, o belo documentário do Leon Hirszman (que eu vi pela primeira vez depois de um toque de Luzete no "Fora de Pauta") sobre o grande Candeia:





(*) O artigo está no livro "Na ponta do verso - Poesia de improviso no Brasil" - publicado pela Associação Cultural Caburé, Rio de Janeiro, 2008, organizado por Alexandre Pimentel e Joana Correia. Para quem tiver interesse, posso mandar cópia da íntegra - é muito interessante.
fernando,
que bom que você apareceu com estas coisas lindas.
e vc volta, né?

e veja este depoimento do Donga. só o link, porque foi tirada a incorporação (bobos, viu!)
http://www.youtube.com/watch?v=0LzvbqybEa8&feature=PlayList&...
Poxa Luzete, se eu pudesse escreveria alguma coisa aqui todos os dias - por mim esse tópico vai ficar "no ar" pra sempre, sempre tem coisa pra comentar.

Muito legal o depoimento do Donga - quando vi o vídeo de Pelo Telefone aí em cima deu vontade de escrever sobre a casa de Tia Ciata, onde esse samba surgiu. Na verdade, a música foi registrada na Biblioteca Nacional por Donga e, mais tarde, pelo jornalista Mauro de Almeida (Peru dos Pés Frios) em meio a muita polêmica (ver aqui). Donga e Peru frequentavam a casa da mulata baiana, assim como Heitor dos Prazeres, João da Baiana, Sinhô, Pixinguinha, Caninha - que, segundo Muniz Sodré ("Samba, o dono do corpo", Mauad, 1998), participaram da "primeira" gravação.

Mas falar sobre a casa de Tia Ciata e a "Pequena África" (na velha praça Onze) demanda tempo, cuidado, respeito e o livro do Roberto Moura ("No Princípio era a Roda"), que um romance fugidio levou...
Luz, só li seu comentário anterior sobre os "primórdios" depois de ter escrito esse...tentei alterar pra fazer referência, bater uma bola, mas fui "gongado" pelos tais quinze minutos pra se editar um comentário. Então desculpe pela indelicadeza, ainda que não intencional.
bjs
FErnando
pois então, fernando,
um dia eu vi um video, lindo, onde tinha algum registro da casa da tal tia ceata.
já procurei, procurei, mas ainda não achei.

e vai depender de nós manter este garimpo aberto. sempre que tivermos tempo, novidade e vontade de compartilhar coisas, né?
e sem preocupação. e nada de pensar em indelicadezas... estamos construindo um mosaico que é assim mesmo... se acrescenta, cada um com o que acha. sem ordem, mas com sabor e arte, né?

veja(m) isto, com esta dama singular da nossa música:

Fernando, eu tenho interesse.
dagobertoguacira@yahoo.com.br

obrigado!!
Raízes e Ivone Lara se confundem. Êita tópico hein Luz.

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