Assistindo ao filme brazuca "A concepção" na boa direção de José Eduardo Belmonte - mesmo diretor de "Amarelo Manga" - numa das cenas cancionava a bela e grave voz, aquele "baixolão" negão dos bons, que embalava num swing sambalanço dos melhores possíveis dizendo "Eu
visitei 365 igreja, visitei terreros e benzi meu patuá" (música Saudosa Bahia)...recordava daquela voz...lembrei! ráaaa...famoso Noriel Vilela da gravação de "16 toneladas"! Já tinha escutado o disco dele, quando um amigo meu me apresentou há uns anos atrás...mas fiquei com vontade de apreciar realmente aquela música e saber mais quem era aquele afro brazuca com tanto swing, simplicidade e originalidade.

Bom...Noriel Vilela, conhecido como o tenor do samba, foi um dos grandes sambalanços da década de 50. Era o figura principal do grupo Cantores de Ébano, que misturava o swing latino, com samba e o que tivesse swing. Em 1968 lançou seu cd solo "Eis o Ôme" com seu recado da umbanda - "Eu acredito sim! Não falem mal, da umbanda perto de mim!"- , da linguagem do cotidiano e de quem não arreava o pé de sua espiritualidade, do negão que chegava com seu caboclo e impressionava quem estivesse perto, como diz na música Meu Caboclo "Não adianta fazer teu feitiço, porque meu caboclo não deixa pegar (...) com esse caboclo não fico sozinho!". Infelizmente, sua voz calou-se repentinamente após o lançamento de seu cd (aliás, não encontrei em nenhum lugar a causa de sua morte, se alguém souber, comente aqui, por favor).

Ah...só pra terminar e fazer a relação do filme com Noriel.


O filme que assisti trata de jovens vivendo em Brasília - cidade que falta a pitada do caos urbano, sem esquina e que corre corrupção até nas esquinas que não existem (sim! os políticos são capazes de tudo!) - que em meio a vida da esbórnia, do tédio e muito dinheiro, decidem viver criar um certo "movimento", na verdade um falso movimento, que eles denominam de concepcionistas. O que é ser concepcionista? É rasgar as identidades (no sentido material e abstrato), experimentar o mundo encarnando diversas identidades (material e abstrato também!), matando os egos que nos afligem e o caminho para isso era o excesso por meio das drogas e do álcool... o que um nome que nos é dado e um número de RG significa? Para aqueles jovens, não significava nada. A liberdade estava no não ser. Em poder ser tudo e, ao mesmo tempo, nada.


Mas mesmo sendo ou tentando ser uno identitário, conseguimos uma concepção humanizada de nós mesmo no dia de hoje? Segundo Bauman transformamo-nos ou nos relacionamos como mercadorias. E nossos valores, nossos sentimentos, nossos pensamentos?
Noriel em meio ao mundo   fonográfico tão determinista, à indústria cultural, conseguiu dar sua identidade musical em apenas um disco! Não gosta de umbanda? Acha coisa do capeta? Ele gostava e ainda cantava "!Agradeço a umbanda, a umbanda me salvou! Eu acredito sim, não falem mal da umbanda perto de mim!" Retratava seu cotidiano na música e sua autenticidade transgrediu o tempo musical. Está sendo revivido
hoje por diversos pesquisadores musicais, reconhecendo-o como um grande representante do afrosamba (essa mistura tão swingada e deliciosa como arroz com feijão) no Brasil. Então: "Saravá pra quem é de Saravá" como dizia Vinicius de Moraes! Por isso,  que sejamos autênticos da identidade à corporeidade! Precisamos
transgredir a homogeneidade da mercadoria. Ou a falsa heterogeneidade...


Quem quiser ouvir um pouco de Noriel, visite meu blog: http://descompassando.blogspot.com

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