A construção da nação não pode ser confundida com o atendimento dos interesses de grupos que hoje dominam a economia. Estes agem como meros ocupantes de um espaço que lhes foi aberto e que interessa à sua busca de maiores lucros. Consiste na construção de uma  sociedade em que todos caibam, sem discriminações.”  Miguel Arraes, in “O JOGO DO PODER NO  BRASIL,  p. 109. Fundação  João Mangabeira.

Os analistas econômicos de plantão vinculados aos interesses do capitalismo internacional e de seus tentáculos na economia brasileira usam seu acesso privilegiado aos meios de comunicação para difundir a falsa impressão de que os grandes desafios do governo que agora se inicia são o aumento do superávit fiscal, a correção da apreciação da moeda e a redução da taxa de juros.

Nessa concepção estreita, tudo se passa como se fosse simplesmente um problema de boa gestão de um mecanismo cujas características já estão dadas e cujo bom funcionamento depende apenas da capacidade técnica de quem vai manejá-lo. Que é bastante seguir o manual e apertar os botões certos que o resultado esperado acontecerá.

Esquecem, convenientemente, esses representantes dos interesses das grandes corporações privadas internacionais e de seus associados no plano interno, para os quais o mecanismo existente sempre produziu bons resultados, que o que está em jogo é algo muito mais complexo. Trata-se da redefinição desse mecanismo desde a ótica da consolidação um projeto de desenvolvimento para o país capaz de integrar o Estado, a Nação e o Povo brasileiro. Esse projeto, ainda, de contornos indefinidos começou a tomar forma no governo Lula, mas à custa de muitas concessões aos interesses do capital privado estrangeiro e nacional.

Sem a perspectiva de que o objetivo maior da sociedade brasileira, em seu atual estágio de desenvolvimento, o de construir a nação brasileira mediante a incorporação da maioria da população aos centros de decisão nas áreas política e, especialmente, econômica, através de um projeto de desenvolvimento, cujo objetivo maior e melhorar as condições de vida de nossa população, não ocorrerão as transformações necessárias.

Submeter-se às pressões da elite, cuja visão estreita e de curto prazo, está focada exclusivamente na rentabilidade privada, pode muito bem sufocar as aspirações de mudança dos segmentos populares e esvaziar o ânimo político dos que dão sustentação ao governo. É indispensável atuar no curto prazo, mas sem perder a perspectiva do objetivo maior. O mecanismo atual é falho e desgastado e foi construído dentro de uma ótica diferente da que o país requer para consolidar seu projeto de desenvolvimento de base nacional e popular.

É fundamental nessa ótica, por conseguinte, fazer uma reforma política que diminua o peso do poder econômico nas eleições.  Realizar uma reforma tributária que reduza a carga tributária dos segmentos mais pobres da população.  Aumentar os recursos para educação pública e para a saúde e melhorar a eficiência com que esses recursos são aplicados. Aumentar os investimentos em Ciência e Tecnologia e estabelecer prioridades claras para sua aplicação, evitando a dispersão de esforços que têm caracterizado essa área. Manter uma política externa de não-alinhamento automático com as grandes potências e, cada vez mais, cooperativa com os países em desenvolvimento, especialmente de nosso continente.  Proteger os salários e os interesses dos trabalhadores em suas relações com as empresas. Fortalecer as empresas estatais que atuam em áreas básicas como petróleo, gás, energia etc. Aprofundar as ações em favor do meio ambiente.

 Não cabe esperar que não surjam grandes conflitos de interesse. A mudança é muito profunda para que os beneficiários do atual modelo não se mostrem incomodados e usem dos fartos meios de que dispõem para incompatibilizar os governantes com seus seguidores. Se não houver resistências e todos baterem palmas para as realizações do governo será um mau sinal: o de que os passos na direção correta não estão sendo dados.

 Os conciliadores de sempre, de dentro e de fora do governo, estarão sempre presentes trabalhando para que os governantes sentem à mesa da elite, não para defender interesses da maioria, mas para desfrutar do banquete dos privilegiados.

O verdadeiro desafio do governo que agora assume é não perder o bonde da história que, no atual momento, abre a possibilidade de tornar realidade a construção de uma sociedade justa e fraterna no país. Pelo pouco que conheço de Dilma Rousseff, ela tem a fortaleza de caráter necessária para se sair bem dessa difícil e incomensurável tarefa. 

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Caro Flavio

Um otimo 2011 para voce e toda familia, como sempre digo, ler e trocar ideias contigo é um privilegio que espero poder manter nesse ano que se inicia.

No meu entender, uma das razões que me levaram a votar em Dilma, é exatamente a capacidade gerencial que esta demonstra, pois, mais do que nunca, discordando um pouco de seu parecer, o governo nesse momento necessita organizar e gerir essa monumental maquina com praticamente 36% do PIB de arrecadação necessitando como disse de urgente gerenciamento.

Porque o governo Lula se mostrou diferente do seu antecessor?

Com apenas uma unica ação, ele Lula, conseguiu com que o Brasil saisse da total dependencia que tinha com os fundos internacionais e as amarras economicas impostas pelos hegemonicos ocidentais, foi exatamente a aproximação com a China, nos possibilitando manter distancia das crises economicas por que o mundo tem passado, crises essas criadas e manipuladas pelas mesmas potencias já conhecidas.

Essa aproximação fez exatamente com que tivessemos o chamado superavit fiscal, da balança comercial, aumento no numero de empregos, moral da historia, uma roda virtuosa da economia.

Hoje precisamos de gerenciamento dessa imensa maquina, e que esses movimentos economicos ou interesses economicos sejam utilizados em beneficio do povo, sem cultuar essa ideia de que "as eleites" devam ser isoladas do sistema, pelo contrario devemos pensar em incluir todas as elites economica, politicas, intelectuais, artisticas, culturais, etc., etc, etc...

Como então transformar esse inicio de prosperidade em uma solida e forte nação?

Parafraseando o ilustre senador Buarque: Educação, educação e educação.

Temos que aproveitar esse fiapo de luz de prosperidade e investir fortemente em educação, somente assim conseguiremos alavancar essa nação. E temos tudo para isso, riquezas naturais, energia, solo fertil, povo maravilhoso, faltando apenas preparo e conhecimento, para que possamos desfrutar de tudo isso com mais igualdade.

Como ve, sou positivista e extremamente esperançoso para que desta vez dê certo.

Para todos brasileiros

FELIZ 2011

Caro Sebatião: Certamente vamos seguir trocando idéias no ano que se inícia. É importante que não proponho qualquer exclusão das elites, nem nacionais, nem estrangeiras. Minha intensão é aproveitar seu potencial, porém de forma subordinada aos interesses da maioria da população. Ou seja, a economia precisa ser subordinada à politica. Veja que lamentável é a situação de OBABA nos EUA, falta-lhe poder político para realizar as reformas que beneficiariam seu povo, que se defronta com um índice de desemprego de 10% da força de trabalho.

Um afetuoso abraço.

flávio,
acho que se trata disto mesmo e que você resume nestas palavras: trata-se da novidade da redefinição, porque ele não está dado, do "mecanismo desde a ótica da consolidação um projeto de desenvolvimento para o país capaz de integrar o Estado, a Nação e o Povo brasileiro."

de fato, o Brasil precisa continuar e consolidar este treino que marcou o governo Lula e que Dilma dará prosseguimento:fazer um governo voltado para o Brasil, sem nacionalismos pueris, mas este Brasil que queremos generoso, não apenas para os que aqui moram, mas, sobretudo, generoso para aqueles que precisam de ações políticas que saibam repartir, estejam onde estiverem os homens.

Luzete: Você tem toda razão. Não faz sentido qualquer noção de xenofobia. A nação precisa ser vista como o locus para a realização dos interesses da maioria da população e não como argumento para mesquinhas e estúpidas perseguições e discriminações. O fundamental será subordinar os interesses menores das grandes corporações às prioridades do desenvolvimento do país, numa concepção em que a maioria do povo seja o agente e o beneficiáriio desse processo.

Um abraço.

Se os oito anos do governo Lula conseguiram criar as condicões financeiras para o Brasil entrar no mapa, o governo Dilma tem uma tarefa muitíssimo mais difícil. Temos que transformar o Brasil de um consumidor de tecnologia em um produtor de tecnologia. Isto passa por educacão, mas também passa por uma mudanca de visão. Temos que deixar de sonhar com um emprego público, para nos tornarmos empreendedores.

Cara Marcia: É um pequena parte da solução.

Um abraço.

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