A maioria dos brasileiros passou o dia pós-domingo purgando a sapatada sofrida pelo time do Santos vinda dos homenzinhos verdes da Catalunha. Claro, antes de qualquer coisa, uma espécie de sentimento pátrio foi ferido. Qualquer torcedor, mesmo aquele mais vira-latas, pensava que o Santos iria pôr Messi, Xavi, Iniesta e Puyol na roda e mostrar, mais uma vez ao mundo, quem reinventou o futebol. Seriam apenas dois toques, uma enfiada de Ganso para Neymar e a fatura estaria liquidada, com direito à dancinha tipo João-Sorrisão e tudo. "Ora, onde já se viu, uns catalões sergipanos querendo tirar o selinho dos verdadeiros craques do futebol", pensavam os fanfarrões do “pra frente, Brasil il il il” atiçados pelos jornalistas do eixo Rio-São Paulo. Pois tiraram o selinho. E lamberam.

Raras vezes um time de futebol brasileiro tinha sido tão humilhado como foi este do Neymar e seus seguidores por um time estrangeiro. Tentou-se de todo o jeito minimizar a vergonha, mas ela aconteceu. Nem o Maracanaço de 1950 foi tão feio, pois aquela seleção nacional até que jogou. O Yokohamaço flechou de morte o pouco de auto-estima que ainda mantínhamos na defesa desse esporte que convencionamos chamar de nosso. O time que fez história no passado e que mantém viva a lenda de Pelé, um estandarte ambulante dos tempos de glórias rolando a gorduchinha por aí, perdeu lugares consideráveis no Panteão dos deuses do esporte das multidões. Fomos colocados em nosso devido lugar, o da decadência no futebol.

Foi tão séria essa coisa ao ouvirmos radialistas, jornalistas especializados, comentadores em mesas redondas e torcedores dos mais diversos naipes nessa segunda-feira, que já tem gente pensando com uma raiva expressa em olhos esbugalhados mandar o Ricardão da CBF catar butiás pra merenda em outra freguesia. Se não era unanimidade, também não se cogitava uma defenestração tão arrivista como agora. Mas, eis que o brado foi dado. Eu, é claro, aqui no meu cantinho, estou me divertindo com isso.

As velhas promessas de vamos rever tudo, vamos repaginar, vamos modificar e reaparelhar o futebol jogado em nosso país estão pipocando em tudo quanto é jornal, rádio, TV e botequim do país. Já há técnicos retranqueiros com os dias contados, zagueiros pesadões sendo olhados de lado e volantes-brucutus já pensando em fazer um Supletivo que é para poder arrumar um empreguinho por aí.

O nosso orgulho foi posto na roda por uns caras que pousaram de um disco-voador lá no Japão. Mas, a pergunta não cala: será que agora, daqui pra frente, vamos voltar a jogar futebol, ou vamos continuar fazendo propaganda, firulas e penteados, além das dancinhas tolas e joãos-sorrisões irritantes? Se a venda de camisas, souvenires e bugingangas relacionadas ao futebol cair e se os penteados voltarem ao normal, é porque a lição foi aprendida.

Caso contrário, Barcelona, pode escolher a próxima vítima, se é que vai haver um time brasileiro de novo nesse negócio.

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Eu não passei o pós-domingo purgando coisa nenhuma. Quem acha o time do Santos a mesma coisa que o time do Santos da ápoca de Pelé e de outros monstros sagrados do futebol brasileiro é tu.

Os bons jogadores brasileiros vão para o exterior e quando voltam e jogam com o Barcelona e outros times europeus ficam dando tapinhas na bundinha dos coleguinhas, coisa de modernismos pós globalização, te garanto que o Pelé nunca fez afagos nos jogadores europeus, o sarrafo baixava no Nobre Esporte Bretão.

E mais, a Pátria Gaúcha não sentiu seu orgulho ferido, quando o Inter ou o Grêmio ganham um mundial (um do Grêmio e outro do Inter) esta mesma imprensa do OBA-OBA futebolístico fala que os times europeus não ligam para o Mundial.

O Santos fez o mesmo que o Inter em 2010, entrou campeão e saiu com o rabo no meio das pernas.

Calma, estou usando de ironia. Eu não torci para o Santos e nem para o Barcelona. Eu torci para o futebol e felizmente ele venceu.
Eu moro no sul assim como você e sabemos o quanto a mídia do eixo Rio-São Paulo endeusa seus clubes, muitas vezes umas nabas de dar dó, mas que detém o tal "mercado da bola" nas mãos e com patrocinio da Globo. O Curintia foi campeão jogando um futebolzinho medíocre. Até o meu Avaí, que caiu pelas tabelas, deu um nó neles. O Framengo é outro que só joga no nome. O Vasco foi eficiente, mas quando pegou um time melhor do que os brasilerios pela frente sentiu as pernas. E pra acabar de vez com a nossa alegria pelo futebol, o melhor jogador deles era um zagueiro.
Ou seja, o futebol no Brasil está uma porcaria, e o Santos foi um retrato disso.

Alexandre

O futebol é um belo reflexo dos últimos trinta anos de neo-liberalismo, um bom jogador é uma mercadoria a ser comprada, vendida, emprestada, usada e posta fora. Talvez os timas mais fora do grande circo da mídia ficam mais livres para desenvolver algo que ainda é importante, um bom jogo de futebol. Por que o Avaí conseguiu dar um nó no atual campeão brasileiro, simplesmente porque os jogadores da Avaí tenham tempo para treinar e jogar futebol, os jogadores dos grandes centros são mais garotas propagandas e astros da TV do que jogadores.

Como diria Silvio Santos, certa resposta.

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