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Os cabelos da Coréia do Norte e a falência do jornalismo

Receita prática e rápida de jornalismo barato: pegue uma notícia esdrúxula numa agência de notícias qualquer, adicione uma dose generosa de pimenta sensacionalista, bata tudo no liquidificador e sirva, sem filtrar, para que os desavisados saiam por aí papagaiando para ajudar a mídia a vender mais notícia barata. A última foi o que a mídia nacional noticiou, ou, ecoou: “homens são obrigados a usar o mesmo corte de cabelo na Coréia do Norte”. Quando vi tal notícia no telejornal mais visto do Brasil, eu, escaldado pela gloriosa velha mídia, comentei com quem assistia comigo: quer apostar que essa notícia é falsa? Fui à internet e não deu outra: não há confirmação alguma sobre a veracidade da notícia, que partiu da BBC.

O curioso é que a senha para o desmonte do factoide está na própria notícia disponível no site da BBC, na base da malandragem da “uma fonte ouvida”; ou: “há relatos conflitantes”. Bom, essa coisa de “fonte”, a vaca sagrada do jornalismo (para o bem ou para o mal), é tão confiável como aquela fofoca que você ouviu a respeito do seu chefe a partir do relato do seu colega, que ouviu do vizinho, que ouviu do amigo de um primo que é muito amigo do irmão do chefe. Tudo fonte fidedigna, claro, não importa que você não tenha entendido bulhufas sobre a engenharia da rede de informação do colega. 

Voltemos aos cabelos da Coréia do Norte. Pesquisando um pouco mais, você descobre que alguns poucos - porém criteriosos -  informativos desconfiam da tal notícia. O jornal israelense Haaretz, por exemplo, lembra que as extravagâncias do líder norte-coreano Kim Jong-un e mais as dificuldades de se verificar a veracidade da notícia num regime fechado como a Coréia do Norte, dá margem a toda sorte de “criatividade jornalística”.  O que existiria de fato – segundo relatos, frise-se – seria uma campanha na Coréia do Norte para que os homens não usem cabelos compridos. E só. Tal informação teria surgido em 2008 quando o jornal japonês (epa!) Mainichi Shimbun, sem citar fontes críveis, teria noticiado que Kim Jong-il (pai de Kim Jong-un), que adorava basquete, teria torcido o nariz ao ver jogadores de um time norte-coreano de cabelos compridos. “Isso é time de homens ou de mulheres?” - teria comentado o ex-líder norte-coreano, falecido em 2011. Logo após aquele jogo de basquete, o governo teria espalhado avisos (ninguém sabe informar se é proibição ou orientação) em locais de trabalho para que homens evitassem usar cabelos compridos. Em seguida, um viral na internet passou a espalhar a “notícia” que a Coréia do Norte havia liberado apenas 28 tipos de cortes de cabelos – 14 para homens e 14 para mulheres; a “Radio Free Ásia”, que é bancada pelos EUA (epa! epa!), fala em 10 cortes para homens e 18 para mulheres. Uma pequena divergência ante um contexto tão idôneo, criterioso e relevante com que o jornalismo ocidental presenteia a humanidade, não?! 

Moral da história: com dez minutos de pesquisa na internet, foi fácil para um usuário de computador verificar o contraditório que afronta o factoide. Se a velha mídia – com toda sua estrutura (financeira, humana, estrutural e técnica) – é incapaz, ou melhor, não faz questão alguma de verificar isto, é sinal que, para a indústria da informação, a verdade factual se tornou, há um bom tempo, subproduto descartável ante a facilidade de se inventar, manipular e vender uma notícia turbinada para ficar atraente. E se o jornalismo irresponsável tem tal facilidade é porque sabe que, na outra ponta, a maioria das pessoas acatará como verdade – esmagando a minoria com senso crítico que ainda teima em prezar o bom jornalismo e gritar por ele.

Fontes:

Matéria na BBC:

http://www.bbc.com/news/blogs-news-from-elsewhere-26747649

Matéria ecoada pelo Jornal Nacional, da Globo:

http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2014/03/homens-sao-obri...

 

Haaretz questiona a notícia: 

http://www.haaretz.com/news/features/1.582231

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Respostas a este tópico

Reflexão oportuna. Parabéns! Independente se o regime norte-coreano é uma ditadura, a propaganda da "Sociedade do Espetáculo" só faz mal aos que pensam. A nova notícia veio após a informação de que o regime joga crianças para serem devoradas por cães, como castigo. Ao mesmo tempo, a ONU afirma que o jovem Un é o novo Hitler. Não seria melhor Stalin?

Caro Michel

Não é de hoje que temos assistidos ao que podemos chamar de fabrica de "desserviços" ao Brasil, isso vem de há muito tempo, desde a aquisição das Organizações Walter Costa pelo conglomerado Marinho, na ocasião filhinha recém-nascida da Life.

Quer montagem mais prejudicial para nosso desenvolvimento que esse indicado abaixo, perceba que realizado com os artistas mais conhecidos do grande publico, pergunto, será possível que todos aqueles artistas concordam com aquelas afirmações, já respondendo, concordam, pois se assim não fizerem estão fora da folha de pagamento da rede, veja casos de artistas que evaporaram do vídeo, Lucélia Santos, Rolando Boldrin,  entre tantos outros.

http://www.youtube.com/watch?v=6sciCFtjX80

Ótimo final de semana

Abraços

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